BLOCO CIDADANIA

RESISTÊNCIA

Novembro 2010               Índice Geral do BLOCO CIDADANIA


14/11/10

• O papel das oposições (2): Tulipa Beetle: "Será que a oposição continuará a ser exercida por jornais e revistas?" + "Artigo: "Recôndita (des)harmonia?" + Entrevista: '45% dos brasileiros disseram não'

Comentário de Tulipa Beetle (*):
Que bom seria se os partidos de oposição deixassem de eximir-se de exercê-la como têm feito dentre outras coisas por intimidação pelos índices de popularidade do presidente e passassem a considerar os quarenta e três milhões de votos obtidos por Serra, como um estímulo a uma nova postura. Ou será que a oposição continuará a ser exercida por jornais e revistas?
(*) Tulipa Beetle (pseudônimo) é advogada e estudiosa dos problemas brasileiro


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Fonte: Estadão
[14/11/10]  Recôndita (des)harmonia? - por Pedro S. Malan

"Pode-se argumentar, como muitos fazem, que nossa democracia não precisa de República, que aos trancos e barrancos vamos construindo a inclusão política e social, e que preocupação com honestidade política, bom governo, valores cívicos e instituições respeitadas é moralismo pequeno-burguês." Mas, como o autor da citação (José Murilo de Carvalho), espero que haja um número crescente de brasileiros que discorde dessa posição. Os eleitores dirão.

As linhas acima concluíram meu artigo de janeiro de 2010 neste espaço. Bem, dos 135,8 milhões de potenciais eleitores brasileiros, 55,7 milhões disseram Dilma, 43,7 milhões disseram Serra e 36,4 milhões ou se abstiveram de votar, ou anularam seu voto, ou votaram em branco. Maioria é maioria e teremos, pelos próximos quatro anos, uma presidente de todos, e não apenas dos 41% (do total de potenciais eleitores) que a sufragaram explicitamente nas urnas.

O processo eleitoral e seu resultado mostraram que existe sim uma "opinião pública" no Brasil. Que esta não é "esquálida", como Hugo Chávez denomina a oposição que se lhe faz. "Eu não sou um indivíduo, eu sou o povo", diz ele. Por aqui tivemos nosso presidente afirmando, pouco antes do primeiro turno: "A opinião pública somos nós."

Porém, dois domingos atrás, nas suas primeiras declarações - lidas - já como presidente eleita, Dilma Rousseff deu a entender que estaria preparada para deixar de lado os discursos de palanque, e a excessiva dependência, tanto de Lula quanto do sistema de "marquetagem" política, para efetivamente se dedicar a governar o País em nome de todos - em princípio, até 2014.

Afinal, como disse o presidente do PT em entrevista ao jornal O Globo no domingo passado: "(No PT) não existe esse negócio de definir projeto de poder por número de anos. (...) Normalmente, são vertentes autoritárias que trabalham com projetos de poder de longo prazo. O nazismo é que trabalhava com um projeto de décadas."

Mas o presidente do PT sabe que seu partido usa o discurso da "comparação de dois projetos para o País". Um seria o projeto de um "novo modelo", que reúne desejos que ou não haviam ocorrido antes a nenhum outro partido político ou que ninguém, nunca antes, havia sido capaz de implementar com tanta sabedoria, engenho e arte.

Existe um problema no debate, a meu ver, simplório e equivocado, desse discurso maniqueísta dos dois projetos: o bom e o mau. Problema que é, em boa parte, das oposições, como muito bem situado no contexto atual por José Alvaro Moisés em seu artigo de domingo passado no caderno Aliás deste jornal (Qual Oposição?).

Mas existe também um problema não resolvido, interno ao lulo-petismo e bem expresso, desde o início, pelo ex-ministro José Dirceu, o ex-capitão do time, o grande operador político do governo (enquanto lá esteve) e dos bastidores do PT até o presente. Vale lembrar que a resposta do PT - em nota oficial de março de 2004 - ao escândalo Waldomiro Diniz (hoje prescrito e arquivado) foi a de propor... mudanças na política econômica do governo Lula!

Mais de 20 meses depois, em entrevista concedida no dia 27 de novembro de 2005, Dirceu, além de dizer que Lula é "personagem difícil", e "estar indo devagar na implantação de um governo de esquerda", reconheceu que "deveria ter saído do governo quando Lula optou, perto do final de 2004, por seguir o caminho defendido por Palocci". Não o fez porque ainda esperava mudanças. Afinal, como notou (em 23 de novembro de 2004) Teresa Cruvinel, sempre muito bem informada sobre esses assuntos, "o PT tem dois objetivos agora: reconquistar a coordenação política do governo para o ministro José Dirceu e mudar os rumos da política econômica".

Há muita gente no PT que acha que esses rumos vêm mudando desde que Antônio Palocci e Paulo Bernardo tiveram sua proposta - de contenção da velocidade de crescimento das despesas primárias do governo - derrotada ao final de 2005. É público e notório quem disparou o tiro de misericórdia na proposta. Como notou Merval Pereira, "nem nos tempos do todo-poderoso José Dirceu a Casa Civil tinha a audácia de ir tão longe no enfrentamento da política econômica". O silêncio de Lula à época foi revelador do que viria.

A presidente eleita sabe que tem uma tarefa hercúlea pela frente a partir de agora. A presidente eleita sabe que as lideranças políticas de um governo, por meio de suas posturas, suas ações e seus critérios na escolha de suas equipes, emitem poderosos sinais sobre os limites do que constituem comportamentos e inaceitáveis no trato da coisa pública. A presidente eleita sabe, espero eu, ainda que - como o presidente atual - tenha dificuldade política em reconhecê-lo de público, que o Brasil de hoje não começou a ser construído em 2003.

A presidente eleita sabe que a escolha do núcleo duro de seu governo e de seus 37 ministros será um momento definidor das expectativas quanto aos próximos quatro anos. Aguarda-se, com especial interesse, o anúncio da composição completa da equipe econômica da presidente eleita - a quem desejo boa sorte.

O grande risco que corremos é o do excesso de complacência e voluntarismo. O Brasil - e seu futuro governo - tem desafios incríveis à frente. Nas questões de infraestrutura (física e institucional). No nível (excessivo), na composição (distorcida) e na eficiência (precária) tanto do gasto público quanto da arrecadação tributária. Na deficiente qualidade de nossos níveis educacionais, quando comparados aos níveis - muitíssimo melhores - de países que conosco competem. Na necessidade de lidar com questões de longo prazo nas áreas previdenciária, trabalhista e tributária - e pensando no longo prazo.

Em suma, tarefas que exigem mais ação consistente e menos discursos de palanque - que, esperemos, sejam muito menos frequentes a partir de agora.

ECONOMISTA, FOI MINISTRO DA FAZENDA NO GOVERNO FHC E-MAIL: MALAN@ESTADAO.COM.BR

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Fonte: O Globo
[13/11/10]   '45% dos brasileiros disseram não', afirma Sergio Guerra - por Adriana Vasconcelos, O Globo

RIO - Duas semanas após a terceira tentativa frustrada dos tucanos de voltarem ao poder central do Brasil, o presidente nacional do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), admite que seu partido precisará passar por ampla reestruturação.

O PSDB, diz, passa a impressão de que é um partido de um pequeno grupo. Nesta entrevista ( ouça trechos ) ao GLOBO, concedida na manhã de quinta-feira em seu gabinete no Senado, Guerra fala de sua preocupação com os rumos do futuro governo Dilma Rousseff, a começar pela ação articulada pelo ministro da Secretaria de Comunicação Social, Franklin Martins, de deixar pronto um projeto de regulação da mídia.

Ele minimiza a nova disputa entre mineiros e paulistas pelo comando do PSDB - seu mandato termina em maio -, mas reconhece que, se o partido tiver mais de um candidato à Presidência da República em 2014, não terá como fugir das prévias.

Qual a estratégia da oposição daqui para a frente?

SÉRGIO GUERRA: Não pode ser outra a não ser se recompor e se reestruturar. Ao longo especialmente do segundo turno, os partidos de oposição trabalharam em conjunto. A avaliação nossa é que a eleição trouxe bons resultados.

Apesar da derrota para a Presidência?

GUERRA: Primeiro, 45% dos brasileiros disseram não. Não foi apenas preferência à candidatura de José Serra, mas também negação ao nome de Dilma Rousseff e ao 'status quo', o que inclui o presidente Lula. Segunda conquista, indiscutivelmente importante, foi a eleição de dez governadores: oito pelo nosso partido e dois pelo DEM, em governos relevantes como Minas, São Paulo, Paraná, Goiás, Pará, Rio Grande do Norte e Santa Catarina. Sensato é ponderar, refletir e montar um projeto para o futuro.

Que tipo de oposição pretendem fazer? Pontual, radical?

GUERRA: A oposição radical, não sabemos fazer. Um dia desses, o presidente Lula disse que sofreu oposição radical. É a maior piada do mundo. Muita gente acha que a gente não fez oposição. Discordo. Nós fizemos oposição do tamanho que tinha de ser, nem radical, nem moderada.

O senhor fala em reestruturação do partido, Aécio Neves em refundação, o que seria isto?

GUERRA: Aécio falou em refundação e sugeriu que seja nomeado um pequeno grupo para tratar de definir um novo posicionamento diante dos problemas do país. Esse grupo inclui o próprio Aécio, (o ex-presidente) Fernando Henrique Cardoso, (o senador) Tasso Jereissati e José Serra. Mas é apenas o começo de uma reavaliação mais voltada para programas partidários. A reestruturação a que me refiro é outra, muito mais geral.

Isso significa que o PSDB precisa ser menos paulista?

GUERRA: O PSDB deve ser reconstruído e ganhar um caráter nacional, reestruturando não apenas seu pensamento, mas também a sua linguagem, ganhando organização e conteúdo para que o partido seja mais forte do que as pessoas. É preciso que o partido defina metas e objetivos, antes mesmo das pessoas, por mais relevantes que elas sejam, definirem as suas. A impressão é que o partido é comandado por um pequeno grupo, ainda que de excelente qualidade. Quanto mais abrir para a participação, colaboração, melhor. Há clara falta de sintonia entre o partido e setores sociais emergentes e organizados, que não têm canal com o PSDB.

A quais setores se refere?

GUERRA: O PSDB ganhou as eleições nos centros brasileiros. Foi a regra. Perdeu as eleições nos grotões, nas áreas menos críticas do país. Não falo do Nordeste contra Sul, nem do Sudeste contra o Centro-Oeste. Em todas as regiões, este fato se deu. O eleitorado mais dependente, menos crítico, votou no PT. O mais crítico e menos dependente tende a votar no PSDB.

O que levou a oposição a perder mais uma vez a disputa presidencial?

GUERRA: Vamos ser sinceros, o prestígio e a força de um cidadão brasileiro, pobre, que se constituiu na maior liderança do país: Luiz Inácio Lula da Silva. O resto é conversa.

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Fonte: Blog do Rodrigo Constantino
[01/11/10]   A oposição vive! - por Rodrigo Constantino

As pesquisas mostram que a aprovação ao governo Lula chega a quase 90%, e que somente 4% consideram seu governo ruim ou péssimo. Mas eu prefiro confiar nas urnas. O que se pode ver é que quase a metade dos eleitores não está com Lula! Afinal, foi o próprio presidente quem disse que Dilma era apenas um nome diferente para sua pessoa nas urnas. Pois bem, façamos as contas:

Dilma: 55,7 milhões de votos
Serra: 43,7 milhões de votos
Nulos: 4,7 milhões de votos
Brancos: 2,3 milhões de votos
Abstenção: 29,2 milhões de votos

Ou seja, 55,7 milhões estão com Dilma e Lula, 48,4 milhões estão contra Dilma e Lula, e 31,5 milhões são indiferentes a Dilma e Lula. Quase 50 milhões de brasileiros votaram na oposição ou anularam o voto, demonstrando claramente insatisfação com o governo Lula. Além disso, a oposição fez ainda 10 governos estaduais (Paraná, São Paulo, Minas, Goiás, Tocantins, Alagoas, Pará, Roraima, Santa Catarina e Rio Grande do Norte) . Governará mais da metade da população no nível estadual, e bem mais da metade do PIB.

A oposição não está morta! A despeito da repetição cansativa de que o presidente Lula desfruta de uma popularidade gigantesca, o que se pode tirar dos dados concretos das urnas é uma fotografia um tanto diferente, que mostra um país bastante dividido. Lula não é esta unanimidade que se vende por aí. A oposição vive! Viva a oposição!


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