BLOCO CIDADANIA

RESISTÊNCIA

Novembro 2010               Índice Geral do BLOCO CIDADANIA


28/11/10

• O papel das oposições (4): "Votos tucanos" - por Marcos Coimbra  + Artigo sobre a representatividade e atuação dos partidos: "Zumbis da representação política" - por Marco Aurélio Nogueira
Nota de Helio Rosa:
No Brasil, hoje, não há um movimento real de oposição realizada por partidos políticos que perderam (todos eles) o respeito e a credibilidade.
A oposição real, não aos governos, mas aos desmandos dos governos, tem sido feita por jornais e revistas.
O artigo citado no título deste "post" prega a necessidade de um movimento apartidário de oposição.
Enquanto os partidos não se decidem e um movimento apartidário não decola, a "oposição aos desmandos" pode e deve ser feita pelo cidadão isolado, "pessoa física", que precisa utilizar todas as facilidades eletrônicas de comunicações para se manifestar, criticar, sugerir, espernear e canalizar sua indignação. Estamos fazendo nossa parte neste blog Resistência.  HR

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Fonte: Estadão
[26/11/10]  Zumbis da representação política - por Marco Aurélio Nogueira

Depois do triste espetáculo de mediocridade que exibiram durante a campanha eleitoral, os partidos políticos brasileiros estão obrigados a prestar contas e esclarecer dúvidas que estão a martelar a cabeça dos cidadãos. Para que servem, o que pretendem fazer, o que podem acrescentar à vida política do País?

Não se esperem cenas de imolação em público. Partidos não são seres dispostos ao sacrifício ou à autocrítica. Funcionam como motores focados num objetivo que subordina tudo a si: o poder, sua conquista e seu uso. Quando perdem, dizem que não foi bem assim; quando vencem, que tudo foi mérito seu e resultado do descortino dos dirigentes.

Partidos são mais como o PMDB, que, nem bem terminadas a campanha e as comemorações, já arrumou novos amigos e constituiu um bloco parlamentar para interferir na montagem do próximo governo, largando pela estrada o PT e a presidente Dilma, até então tidos como seus parceiros incondicionais.

Os partidos ficaram assim: criam problemas para os aliados do coração, traem em nome da amizade, pelas costas, como se tudo fosse normal e natural. Questionados a esse respeito, esclarecem que só agiram com o intuito de colaborar.

Partidos são como boa parte dos políticos: cuidam de seus interesses. Fazem como o prefeito Kassab, que de juras de amor incondicional ao candidato presidencial do PSDB passou à posição "realista" de cortejar o PMDB, em busca de uma vaga mais qualificada nas próximas eleições.

Mas, mesmo que sejam personagens melífluas obcecadas por poder e influência, partidos são estruturas vivas que querem se reproduzir. Sabem quando estão em risco. Percebem quando os cidadãos os convertem em elemento da paisagem e motivo de escárnio ou piada. Sentem que precisam fazer algo para não naufragarem e não perderem espaço político, prestígio ou poder de veto.

Podem então tomar duas atitudes: ou maximizam os recursos de poder de que dispõem para manter alguma força e ensaiar uma "repaginação", ou vão de cabeça erguida para a berlinda, reconhecem os erros e se esforçam para ressurgir. Se a primeira atitude costuma ter sucesso no curto prazo, é trágica no tempo largo, pois cristaliza o que existe de pior nos partidos e os condena à condição de mortos-vivos. É na segunda atitude, portanto, que estão as melhores esperanças e perspectivas.

A época atual não tem sido generosa com os partidos. Não os favorece como estruturas abrangentes, dedicadas à conquista do poder e à organização da sociedade, à agregação de consensos e interesses, à formulação de projetos e ideias. Em vez disso, a época os desconstrói, fazendo que se convertam em zumbis da representação política, que só respiram quando agarrados ao Estado.

A época está tomada pela recriação acelerada e incessante, que os partidos não conseguem acompanhar nem decifrar. Rouba-lhes substância, porque os obriga a se concentrarem no processamento de informações de baixa qualidade e porque quebra os vínculos com classes e movimentos que deram força e sentido aos partidos de massas até os anos 80, mais ou menos. Os partidos de hoje estão afastados da população e dos cidadãos ativos. Não têm militantes, só funcionários. Fazem coisas, mas ninguém sabe bem quais são.

Brigam entre si, mas não deixam claro o que os diferencia. Gastam enorme energia para executarem o básico. Consomem montanhas de recursos e consomem-se nisso, ficando sem tempo e foco para cuidar da própria identidade, da relação com a sociedade, do diálogo com a cultura e a ciência.

A campanha eleitoral de 2010 foi uma vitrine de tudo isso. Nossos partidos estão em sintonia com a grande turbulência que atingiu os partidos e os sistemas partidários no mundo todo. Têm suas singularidades, que correspondem à nossa modernidade capitalista. Ainda praticam, por exemplo, formas arcaicas de clientelismo e mandonismo, fortes em nossos grotões, e não se perturbam em seguir cardápios assistencialistas e paternalistas quando chegam ao governo. Mas são muito piores do que jamais foram.

O que farão agora?

Não dá, evidentemente, para equiparar os desafios do PT e do PMDB, que endossam os louros da vitória, com os do PSDB e do DEM, que mal digeriram a derrota sofrida. Mesmo entre estes dois últimos há boas diferenças, pois não perderam do mesmo jeito nem com a mesma intensidade. Não é à toa que os peessedebistas falam em "revitalização" e os liberais não conseguem disfarçar profunda crise de identidade.

Todos, no entanto, incluídos os menores, terão de esclarecer se têm algo a oferecer. Se quiserem trabalhar para fortalecer a democracia e introduzir padrões dignos de distribuição de renda no País, não poderão mais ficar em silêncio programático, desprezando a inteligência dos cidadãos e evitando os temas fundamentais da vida, da política e da sociedade. Não poderão mais fingir que tudo vai bem quando estão no governo e que problemas só existem porque as oposições são más e incompetentes. Terão de levar a sério a complexidade da época, a gravidade dos problemas nacionais e as dificuldades do Estado democrático atual.

Sem reduzir ou ocultar suas diferenças, estão chamados a celebrar um pacto de novo tipo. Não para dar condições de governabilidade a quem quer que seja ou preparar as próximas eleições, mas para recuperar a dimensão republicana e democrática do Estado. Não para entregar seus discursos ao marketing e ao mercado eleitoral, mas para recuperar e dignificar o valor da palavra, da argumentação e do convencimento racional. Não para tomar posse de cargos e espaços públicos como se fossem coisas particulares, mas para zelar por sua integridade, lisura e eficácia.

Precisamos de um pacto contra a mediocridade, seja no sentido da falta de mérito, seja no sentido da mesmice ordinária. Se os partidos fizerem algo nessa direção, mostrarão que podem voltar a ter vida plena. Farão com que ganhem todos, e não somente os que captarem mais votos nas próximas eleições.

PROFESSOR TITULAR DE TEORIA POLÍTICA DA UNESP. E-MAIL: .A.NOGUEIRA@GLOBO.COM

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Fonte: ClippingMP - Origem: Correio Braziliense
[28/11/10]   Votos tucanos - por Marcos Coimbra

Marcos Coimbra é sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi

Agora, no momento em que as oposições precisam repensar seu rumo e discutir como serão no futuro, o pior que lhes pode acontecer é não entender a eleição que fizeram

Quando terminou o segundo turno da eleição presidencial, muita gente comemorou os resultados alcançados por Serra. Seus simpatizantes mais ardorosos, na opinião pública e na imprensa, chegaram a dizer que a derrota era quase uma vitória. Estavam tristes, mas se confortavam achando que ele e o PSDB saíam maiores da eleição.

O fundamento dessa avaliação é a comparação entre seu desempenho e o de Alckmin em 2006. Como, na eleição anterior, o candidato tucano alcançou 37 milhões de votos e nesta 43, o diagnóstico seria simples: Serra foi melhor que Alckmin.

Inversamente, o PT teria ido pior, pois Lula teve 58 milhões de votos em 2006 e Dilma “apenas” 55 milhões. Enquanto o PSDB ficou maior, o PT encolheu.

Não deixa de ser engraçado esse modo de avaliar o resultado da eleição. Parece até um jogo inventado pelo Chapeleiro Maluco: quem ganha sai diminuído, quem perde fica contente e se orgulha da “vitória moral”. Enquanto isso, na vida real, o PSDB amarga sua terceira derrota consecutiva e o PT se prepara para permanecer no poder por 12 anos ininterruptos.

A sensação de que Serra saiu vitorioso da eleição não tem, porém, fundamento. Ao contrário de vários pontos de vista seus números não foram nada bons em comparação com os de Alckmin.

A começar pelo resultado do primeiro turno. Por mais que a campanha tucana tenha ficado feliz com a passagem inesperada para o segundo turno, o fato é que Serra recebeu, em 3 de outubro, quase 7 milhões de votos a menos que Alckmin havia obtido há quatro anos. Se lembrarmos que tínhamos, então, 125 milhões de eleitores e agora 135, a perda é ainda mais expressiva.

É verdade que houve frustração na campanha Dilma quando ela não venceu no primeiro turno. Mas o certo é que ela teve 47,6 milhões de votos, mais, em números absolutos, que Lula em 2006. Para uma candidata que começava ali sua experiência eleitoral, um resultado extremamente positivo.

Foi Marina, no entanto, a maior vitoriosa. Quanto a Serra, por mais que festejasse a nova chance que recebia em função do desempenho da candidata do PV, o primeiro turno foi uma decepção face ao que Alckmin tinha conseguido.

A vantagem do governador eleito sobre o ex-candidato é especialmente visível em São Paulo. Em condições parecidas, isto é, ambos tendo deixado o governo do estado para disputar a Presidência, Alckmin teve, lá, quase 12 milhões de votos no primeiro turno, enquanto Serra, este ano, ficou com 9,5 milhões, ou seja, com 2,5 milhões a menos (sempre lembrando que o eleitorado aumentou 8% entre as duas eleições).

Mesmo no segundo turno, as comparações entre Serra e Alckmin não são sempre favoráveis ao candidato de 2010. No conjunto de estados que formam o “núcleo duro” oposicionista — São Paulo, os três da região Sul, os dois Mato Grosso — Alckmin (apesar de ter minguado entre os dois turnos) foi mais votado que Serra, se levarmos em conta o aumento do eleitorado de 2006 para cá: na soma dos seis, Alckmin teve 21 milhões de votos, proporcionalmente mais que Serra, que teve 22,1.

O que se percebe a partir desses números é que, diferentemente do que pensam alguns, Serra só foi melhor que Alckmin no cômputo final pelos votos que recebeu em Minas Gerais, no Rio de Janeiro e no Norte/Nordeste. Em Minas, por exemplo, Serra teve, no segundo turno, quase 600 mil votos a mais que Alckmin.

Mas o mais preocupante no desempenho das oposições este ano, quando se leva em conta a eleição anterior, é que Alckmin era tido como mais fraco que Serra e que ninguém duvida que Lula é mais forte que Dilma, em termos eleitorais. Ou seja: quando o candidato mais fraco enfrentou o mais forte, o desempenho do PSDB foi melhor, em muitos aspectos, que na hora em que o aparentemente forte enfrentou a marinheira de primeira viagem.

Agora, no momento em que as oposições precisam repensar seu rumo e discutir como serão no futuro, o pior que lhes pode acontecer é não entender a eleição que fizeram. Se acharem que “as coisas não foram tão mal”, que “saíram bem da eleição”, vão ficar com a impressão de que não precisam fazer mudanças profundas nas suas lideranças e no discurso. É o melhor caminho para que permaneçam presas aos erros que cometeram.


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