BLOCO CIDADANIA

RESISTÊNCIA

Novembro 2010               Índice Geral do BLOCO CIDADANIA


30/11/10

• O papel das oposições (5): Rodrigo Constantino: "O papel da oposição" + Sérgio Fausto: Recado eleitoral

"Posts" anteriores:
28/11/10
O papel das oposições (4): "Votos tucanos" - por Marcos Coimbra  + Artigo sobre a representatividade e atuação dos partidos: "Zumbis da representação política" - por Marco Aurélio Nogueira
25/11/10
O papel das oposições (3): "O Brasil precisa de um movimento apartidário de oposição"
14/11/10
O papel das oposições (2): Tulipa Beetle: "Será que a oposição continuará a ser exercida por jornais e revistas?" + "Artigo: "Recôndita (des)harmonia?" + Entrevista: '45% dos brasileiros disseram não'
09/11/10
O papel das oposições (1) - Dois artigos do Estadão: "Qual oposição?" - por José Álvaro Moisés e "Uma nova cara para o PSDB" - por Luis Aureliano Gama de Andrade

---------------------------------------------

Nota de Helio Rosa:
No Brasil, hoje, não há um movimento real de oposição realizada por partidos políticos que perderam (todos eles) o respeito e a credibilidade.
A oposição real, não aos governos, mas aos desmandos dos governos, tem sido feita por jornais e revistas.
O artigo citado no título do "post" anterior prega a necessidade de um movimento apartidário de oposição.
Enquanto os partidos não se decidem e um movimento apartidário não decola, a "oposição aos desmandos" pode e deve ser feita pelo cidadão isolado, "pessoa física", que precisa utilizar todas as facilidades eletrônicas de comunicações para se manifestar, criticar, sugerir, espernear e canalizar sua indignação. Estamos fazendo nossa parte neste blog Resistência.  HR

---------------------------

Fonte: Blog Rodrigo Constantino
[30/11/10]  O papel da oposição - por Rodrigo Constantino

Democracia não é a ditadura da maioria. O regime democrático requer condições básicas para funcionar, tais como liberdade de imprensa, limite constitucional ao governo, independência dos poderes e uma sólida oposição. Todos estes importantes pilares estão enfraquecidos no Brasil. O último deles será o foco deste artigo.

Mais de 40 milhões de brasileiros mostraram nas urnas que não estão satisfeitos com os rumos do país. Trata-se de um brado retumbante que garante legitimidade aos opositores do governo. Resta saber se a oposição vai cumprir com responsabilidade, união e coragem esta função delegada por tantos brasileiros. É o que se espera dela, e cabe às suas lideranças o papel de coordenar seus partidos nesta direção comum. Eximir-se desta tarefa significa trair milhões de eleitores.

O papel da oposição é fundamental para fortalecer a democracia. Hibernar por quatro anos para reaparecer nas eleições é suicídio político. Compreende-se o receio de enfrentar um governo popular como o do presidente Lula, mas ter deixado de fazê-lo foi como dar um tiro no próprio pé. Com Dilma na presidência, sem o mesmo carisma, esta negligência passa a ser indefensável.

Ao que tudo indica, a oposição terá uma excelente oportunidade para mostrar a que veio, lutando em defesa dos milhões de brasileiros que não suportam mais tantos impostos. Mal acabara a contagem das urnas, e a coligação eleita já falava em recriar a CPMF, com nome diferente para ludibriar o povo. Trata-se de um verdadeiro “estelionato eleitoral”, uma vez que a própria Dilma chegou a afirmar que não aumentaria os impostos, já em patamares indecentes no Brasil.

Segundo Alberto Carlos Almeida, em “O dedo na ferida”, o povo brasileiro sabe que paga muitos impostos, e gostaria que eles fossem reduzidos. Almeida acredita que há o script pronto, mas falta o ator. Eis a chance da oposição. O povo brasileiro está mais atento, e dificilmente cairá na retórica do governo, de que é preciso mais recursos para a saúde. O povo entendeu que dinheiro não tem carimbo, e que seus impostos acabam desviados para destinos menos nobres, como corrupção e inchaço da máquina pública.

A questão da recriação da CPMF será um teste crucial para verificar se ainda há oposição de fato neste país. Em vez de o governo criar mais imposto, ele deveria focar na redução dos gastos públicos, que estão em trajetória explosiva. A pressão inflacionária já começa a incomodar, e usar somente a política de juros para combatê-la significa usar uma bazuca para matar uma formiga: o estrago é geral.

O presidente Lula, no afã de eleger sua candidata, mandou às favas a responsabilidade fiscal durante o final de seu governo. Não só a gastança pública saiu de controle, como o crédito estatal também foi estimulado de forma irresponsável. O resultado foi um forte crescimento econômico, fator extremamente relevante para decidir a eleição. Mas a fatura ainda terá que ser paga. Se o governo Dilma não reverter o quadro, demonstrando maior austeridade fiscal, o crescimento será insustentável, tornando-se mais um vôo de galinha. Os “desenvolvimentistas”, estes alquimistas da ciência econômica, terão que aceitar a realidade como ela é.

Além da CPMF, existem várias outras batalhas que a oposição deve lutar. Os escândalos do Enem, para começo de conversa, ou então o trem-bala, cujo orçamento está claramente subestimado, e mesmo assim já representa enorme desperdício de recursos públicos frente a tantas alternativas mais urgentes. Ou ainda o estranho episódio envolvendo a Caixa Econômica e o Banco PanAmericano. Há muito que explicar nestes casos. A oposição não pode deixar tudo por conta da imprensa.

Há também a postura neutra lamentável do governo, quando a ONU resolveu condenar a teocracia iraniana por desrespeito aos direitos humanos. Para o governo, “negócios são negócios”. Cabe à oposição sustentar que esta não pode ser a postura de um país que ainda leva em consideração a questão ética.
Milhões de brasileiros esperam esta reação da oposição.

Existem muitos outros pontos em que o papel da oposição se faz necessário para a construção de uma democracia mais sólida.
O povo merece o contraditório, até para poder julgar melhor os atos do governo. Quando a oposição está fragilizada, desorganizada e passiva, a democracia corre perigo. A experiência mexicana mostrou como isso pode ser fatal.
A oposição precisa resolver seus problemas internos e assumir seu papel legítimo em prol da democracia brasileira.
Milhões de brasileiros contam com isso.

---------------------------------

Fonte: Estadão
[28/11/10]   Recado eleitoral - por Sérgio Fausto

O mapa eleitoral resultante das eleições de outubro mostra um País politicamente plural, onde as oposições encontram apoio não apenas para exercer o seu papel agora, mas também para aspirar a ser governo, no nível federal, amanhã. Nada que indique a "mexicanização" da cena política brasileira, alusão ao domínio de um só partido, como aconteceu no México por sete décadas, sob o comando do PRI.

Se as "condições objetivas" estão dadas, é preciso, por assim dizer, criar as "condições subjetivas". E para tanto importa repensar (e mudar) a maneira como as oposições fizeram política nos últimos oito anos.

Com oito governadores eleitos, dois deles nos principais Estados da Federação, o PSDB reafirmou-se como o polo de poder alternativo no País, apesar da redução de sua bancada no Congresso, ainda assim expressiva.

Na geografia política brasileira, quando analisada, município a município, conforme a votação de Serra e Dilma, identifica-se um "território tucano" contínuo desde o leste do Rio Grande ao sul do Pará, numa "mancha azul" que coincide, no geral, com as áreas de maior dinamismo econômico. Há também "ilhas azuis" em Roraima e no Acre, por razões políticas locais. A rigor, somente o Nordeste se mostrou terreno inexpugnável, com exceção de algumas poucas capitais.

Um rápido exame do perfil sociológico desse território e desse eleitorado provavelmente revelará uma população heterogênea, mas no geral conectada às atividades mais ligadas ao setor privado e menos dependentes do Estado. No plano das mentalidades, indicará uma preocupação maior que a média com a impessoalidade no trato da coisa pública e com a separação entre o Estado e as organizações partidárias e corporativas. A propósito, foi antes o "affair Erenice" do que a vexatória controvérsia em torno do aborto o fator que quase fez a "mancha azul" se espalhar ainda mais, pondo em risco a vitória da candidata oficial.

Além de políticas públicas - e isso caberá a seus governadores -, o PSDB precisa construir uma narrativa que, voltada principalmente para esse eleitorado, possa servir de inspiração ao conjunto do País, mesmo aos que hoje, por insuficiência de renda, são dependentes de programas assistenciais. A mobilidade social ascendente observada nos últimos anos criou novas expectativas num amplo contingente da população. Trata-se de um eleitorado exigente, que não tem dono e cobrará políticas públicas inovadoras que possam ajudá-lo a realizar as próprias expectativas. Narrativa e políticas precisam andar de mãos dadas.

Nas três últimas disputas pela Presidência, os candidatos do PSDB renegaram o passado do partido e dispensaram-se de construir uma narrativa que configurasse um "eu coletivo". Preferiram campanhas calcadas em seus atributos pessoais e na noção de "eficiência", refletindo e ao mesmo tempo aprofundado a crise de identidade do partido.

Nada contra a eficiência, ela é indispensável, mas politicamente de pouco vale se não for articulada com valores e com uma visão que, referindo-se à organização da sociedade e do governo, diga respeito à vida das pessoas, e se distinga dos demais valores e visões em disputa.

Nem de longe defendo a ideia de que a configuração desse "eu coletivo" se dê conforme a lógica do "nós" contra "eles", da confrontação "amigo-inimigo", como o presidente Lula tantas vezes insistiu em fazer. Não há, porém, como fazer política sem afirmar uma identidade e marcar a diferença. E o PSDB não soube fazê-lo nos últimos oito anos.

Desnecessário insistir na importância de retomar os fios da história, que tem nos governos de FHC a sua referência maior, mas não exclusiva. Importa fazê-lo pensando no futuro. Cabe defender as privatizações - no setor de telecomunicações, por exemplo -, para mostrar que sem elas o Brasil continuaria a ser "o país dos orelhões" e a grande maioria da população permaneceria sem acesso a serviços de telefonia e internet, que hoje são condição para educar-se, empregar-se, empreender e desenvolver-se individual e coletivamente.

Nosso maior desafio como país é aproveitar a janela de oportunidade demográfica dos próximos 20 anos - quando maior será a população em idade ativa em relação a crianças e idosos - para consolidarmos as bases de uma sociedade mais justa e mais próspera. Para isso não basta continuar a fazer o que fizemos nos últimos 16 anos. É preciso fazer mais e melhor. Até porque, no mundo, enfrentaremos competição crescente, sobretudo em manufaturas, e não só da China. E normas cada vez mais rígidas - ambientais, sanitárias, etc. - na produção de commodities.

Em 2030 teremos de empregar 150 milhões de pessoas. Conseguiremos criar, em quantidade e qualidade, os empregos necessários para absorver essa força de trabalho e gerar maior renda para melhor distribuí-la, com o arranjo de políticas cristalizado no governo Lula, respaldado por um protagonismo cada vez maior do Estado? Ou mudanças serão indispensáveis, para conter a tendência expansionista do gasto público e da intervenção discricionária do governo na economia, em favor de poucos grandes grupos e, por vezes, de um crescimento a qualquer custo, sem maior preocupação com a sustentabilidade socioambiental?

Não sou um "idiota da objetividade", como disse Nelson Rodrigues a respeito de quem acredita que a descrição correta da realidade exige o banimento da subjetividade e das emoções. Sei que a forma importa tanto quanto o conteúdo. E reconheço que, numa sociedade em que a comunicação passa fundamentalmente pela mídia eletrônica, a política requer quem conheça especificamente essa linguagem. Mas a forma sem conteúdo é vazia. Um partido sem identidade própria e visão diferenciada para o futuro do País é apenas uma legenda, abrigo de ambições pessoais.

O eleitor deu um recado claro, que as lideranças precisam escutar: quer que o PSDB seja mais, bem mais, do que tem sido.

DIRETOR EXECUTIVO DO iFHC, É MEMBRO DO GACINT-USP. E-MAIL: SFAUSTO40@HOTMAIL.COM


Comentários com nome completo do remetente devem ser enviados para Helio Rosa, coordenador deste BLOCO. Não há compromisso de publicação.


 [Procure "posts" antigos e novos sobre este tema no Índice Geral do BLOCO CIDADANIA            ComUnidade WirelessBrasil