WirelessBRASIL - Bloco RESISTÊNCIA

Março 2012             


07/02/12

• Revolução de 1964 - Os 31 dias de Março (7) - Seleção de notícias do dia 07 Mar 1964 + Leituras complementares

Matérias transcritas nesta página:

Fonte: Acervo da Folha de S. Paulo
[07/03/64]   Política na opinião alheia

Fonte: Acervo da Folha de S. Paulo
[07/03/64]   A luta pelas reformas é legenda do povo - diz JG

Fonte: Acervo da Folha de S. Paulo
[07/03/64]   Lacerda diz que não acredita em desordem no dia 13

Fonte: Acervo da Folha de S. Paulo
[07/03/64]   Comício

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (pag 05)
[07/03/64]   Arcebispo de Brasília dá apoio ao manifesto da Ação Católica de Minas

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (pag 04) - Coluna do Castello
[07/03/64]   Goulart otimista: testado dispositivo

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (pag 07)
[07/03/64]   Mais um teste - Editorial

Leituras complementares:

Fonte: FGV - CPDOC
Jair Dantas Ribeiro

Fonte: Orvil - 2ª PARTE - A SEGUNDA TENTATIVA DE TOMADA DO DO PODER - CAPÍTULO II - A AÇÃO COMUNISTA
7. Crescem as pressões para mudanças


Transcrições:

Fonte: Acervo da Folha de S. Paulo
[07/03/64]   Política na opinião alheia

SÍTIO E INTERVENÇÃO

Do "Estado de são Paulo": "Dizíamos que o que cabia fazer, como medida preliminar, era a decretação do estado de sítio. Ora, entende-se perfeitamente que, ao preconizarmos essa medida extrema, entendíamos que ela se restringisse ao estado convulsionado (Pernambuco), e que a ela se seguisse simultaneamente, como um corolário implícito, a intervenção no mesmo Estado. essa a interpretação rigorosa do nosso pensamento."

COMÍCIO

ADa "Tribuna da Imprensa": "Três mil homens garantirão a palavra do sr. João Goulart no comício do dia 13. Muito esperto, s. exa. já providenciou uma audiência certa para sua arenga."

LACERDA

Do "correio da Manhã": "Basta de mistificação e de palavras vazias. Os principais adversários do sr. Carlos Lacerda não são os comunistas. E sim os que zelam pelo regime, os que defendem a liberdade."

Do "Jornal do Brasil": "Depois de agitar um decreto que não seria assinado finalmente pelo presidente, por ignorar distinções comezinhas sobre a criação do boi e do milho, a SUPRA entrou em perplexidade, esfarinhando-se rapidamente a política das chamadas reformas de base por decreto."

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Fonte: Acervo da Folha de S. Paulo
[07/03/64]   A luta pelas reformas é legenda do povo - diz JG

BRASÍLIA, 6 (FOLHA) - "A luta pelas reformas não é propriedade de ninguém, nem de legendas partidárias, pois que é legenda do povo, há de realizar-se apenas com o pavilhão auriverde, - disse hoje o presidente da República, ao receber em seu gabinete cerca de 300 prefeitos de novos municípios brasileiros. Os prefeitos receberam cheques  no montante de 790 milhões de cruzeiros, correspondentes às cotas de imposto de renda e apresentaram um memorial em que declaram solidariedade com a luta gloriosa pela quebra dos grilhões que amarram o progresso nacional e escravizam a maior parte dos brasileiros. O chefe do governo prometeu-lhes providências para o recebimento direto de tratores que serão importados da área socialista e pronunciou longo discurso em defesa das reformas.

OUTROS CAMINHOS

O sr. João Goulart, em oração, estranhou que as reformas que outros países fizeram há anos não possam ser promovidas também dentro do Brasil e advertiu que a não concretização desse anseio popular, dentro de um clima de paz e compreensão, poderá conduzir o país a caminhos imprevisíveis.

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Fonte: Acervo da Folha de S. Paulo
[07/03/64]   Lacerda diz que não acredita em desordem no dia 13

O governador Carlos Lacerda não acredita em qualquer perturbação da ordem ou provocação no comício que o presidente da República fará no dia 13 próximo na Guanabara. Acha que se essa concentração for usada para provocar incidente que possa servir de pretexto para intervenção, "será uma astúcia boba".

De sua parte, declara: "Não há ninguém menos interessado em afastar o presidente do poder do que eu. Por que afastá-lo se serei o seu sucessor?
Considera porém, que a realização de um "comício comunista" é inconstitucional e o loca onde a concentração será realizada é ilegal. Não crê, porém, que o presidente procure insultá-lo:
"Insultada será, mais uma vez, a constituição e, como de costume nos discursos do presidente, a gramática".

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Fonte: Acervo da Folha de S. Paulo
[07/03/64]   Comício

Revelará o presidente da República alta dose de bom-senso se contribuir para "esvaziar" o discutido comício programado par o próximo dia 13 na Guanabara. O ideal seria que o sr. João Goulart compreendesse todos os inconvenientes da concentração e usasse de usa ascendência sobre os promotores para cancelá-la, pura e simplesmente. Se já se avançou demais, entretanto, e é impossível agora deixar de realizar-se a reunião, pode o presidente diligenciar para retirar-lhe o tom altamente explosivo de que se reveste, apesar de se isso muito difícil, a esta altura.

Tudo, nesse caso, se vem desenvolvendo de maneira que justifica apreensões. começou com a escolha do local, que não consta daqueles em que é autorizada a realização de assembléias políticas, pelas leis da Guanabara. Negam-se as autoridades locais, em consequência, não só de conceder autorização para que o comício se efetue como a garantir-lhe o transcurso em ordem. E criam-se problemas para o Exército.

Às Forças Armadas de terra caberá, em face das circunstâncias, policiar a reunião, e alguns de seus mais eminentes chefes, a principiar pelo ministro da Guerra, deverão estar presentes a ela. é possível que ouçam coisas desagradáveis.
Entre os organizadores estão notoriamente algumas das entidades mais comprometidas com o extremismo de esquerda - CGT, UNE, etc, - e é quase certo que seus representantes usem a linguagem desabrida de sempre para atacar, por exemplo, o Congresso, o Poder desarmado cuja defesa é uma das atribuições das Forças Armadas. Essa incontinência verbal, vexatória para as Forças Armadas, habituadas antes de tudo à disciplina, pode também ir além. Lembramo-nos de comício semelhante, realizado há alguns meses, quando, lado a lado com o gen. Amauri Kruel, então ministro da Guerra, o orador que representava a UNE se permitiu as maiores impertinências contra essa autoridade.

Ao lado disso tudo, o próprio clima criado em torno do comício desaconselha a sua realização. todos lastimam a radicalização dos antagonistas políticos no país; por que efetuar uma concentração que, fatalmente, servirá apenas para a acirrar ânimos? é com muita apreensão que se lêem notícias relativas às precauções excepcionais que deverão ser tomadas para resguardar a pessoa do presidente da República; com a mesma apreensão fica-se sabendo que alguns elementos exaltadamente antigovernistas estariam dispostos a promover tumultos na reunião; o mesmo sentimento nos aflige diante das notícias das represálias que poderão ser tomadas contra eles. Por alguns instantes, chega-se a pensar na possibilidade de atos de terrorismo, prática que felizmente até aqui esteve fora das nossas tradições de lutas políticas. Haverá alguma vantagem em correr o risco de vermos introduzida entre nós a abominável inovação?

O sr. João Goulart não deve ignorar todas essas coisas. Se tem providências de larga repercussão a  anunciar, ou decretos de conteúdo polêmico a assinar, não é necessário que o faça em praça pública, no ambiente intranquilizador  que está cercando, significativamente, este comício de sexta-feira, 13.

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Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (pag 05)
[07/03/64]   Arcebispo de Brasília dá apoio ao manifesto da Ação Católica de Minas

Belo Horizonte (Sucursal) — O Arcebispo de Brasília, Dom José Newton de Almeida, "apóia totalmente a atitude do Arcebispo de Belo Horizonte, Dom João de Resende Costa, ao subscrever o manifesto da Ação Católica de Minas sobre a posição dos católicos ante os problemas nacionais. Dom José Newton de Almeida, que está dirigindo nesta Capital o Congresso dos Capelães Militares de todo o Pais, frisou que o manifesto "expressa o pensamento e a orientação da Igreja", e alertou para o perigo de uma revolução comunista "se a situação não ar resolvida cristamente, aplicando a doutrina social da Igreja".

RADICALIZAÇÕES
Referindo-se aos últimos acontecimentos verificados em Minas e em Belo Horizonte, Dom José Newton de Almeida disse: Como mineiro de coração, acompanho apreensivo e lamento esses acontecimentos provocados por aqueles que procuram manter seus privilégios, numa ordem social e econômica injusta, esquecendo-se de que precisam encarar e enfrentar com coragem e generosidade os problemas sociais.

DESEQUILÍBRIO
Após frisar que "são estes os que mais favorecem o comunismo, recusando-se a lutar, não por suprimir a diferenciação de classes, mas pela implantação de uma ordem social justa e cristã", concluiu o Arcebispo de Brasília:
— Infelizmente se não quiserem resolver cristamente situação, aplicando a doutrina social da Igreja, terão de agüentar as consequências de de uma revolução comunista, pois o desequilíbrio demográfico, econômico e até religioso no Brasil é dos mais evidentes, sendo, aliás, o reflexo da instabilidade geral das instituições em todo o mundo com a falência do liberalismo econômico. O desafio está patente numa pesquisa sociológica realizada recentemente, revelando que enquanto 80% da população brasileira vivem em condições de vida infra-humanas, os outros 20%, vivem no luxo, construindo três, quatro residências' em São Paulo, no Rio ou em Brasília.

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Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (pag 04) - Coluna do Castello
[07/03/64]   Goulart otimista: testado dispositivo

Brasília - Porta-vozes do Governo, reafirmando a decisão do Presidente João Goulart de comparecer ao comício do dia 13, admitem a veracidade das informações amplamente registradas de que se cogitou em Palácio, seja do adiamento do meeting, seja do não comparecimento do Chefe do Governo. O Presidente foi muito aconselhado num sentido e no outro e, só quando venceu as hesitações, é que seus assessores se animaram a inspirar desmentidos a respeito.

O Presidente João Goulart convidou ontem pela manhã o líder do PTB, Sr. Doutel de Andrade, a acompanhá-lo ao palanque da Praça da República, mas os deputados dificilmente poderão afastar-se de Brasília naquela data, em vista das eleições para a Mesa da Câmara que estarão em processo. Chegando a Brasília, o Chefe do Governo revelou-se satisfeito com as comunicações que recebeu, no Rio e aqui, de que todo o dispositivo de segurança civil e militar está testado, podendo ele, assim, correr os riscos que julgar convenientes na mobilização psicológica das massas para a pressão em favor da votação das reformas de base. Corria ontem nos bastidores do Movimento Nacionalista Parlamentar cópia do relatório do Deputado-sargento Garcia referente às atividades de grupos mineiros de direita, que obedeceriam ao comando do Almirante Heck, os quais pretenderiam deslocar elementos de Corinto e outras cidades de Minas para ações provocativas durante o comício.

Esse relatório, no entanto, preocupava menos as esquerdas do que os indícios de que o comício coincidirá com o lançamento de uma campanha pela "candidatura" do Sr. João Goulart às eleições de 65. Deputados com posição de liderança no movimento esquerdista asseguravam que a comprovação desses indícios determinaria a ausência dos líderes da FMP do comício. Registrava-se igualmente, nesses setores, desencanto ante a confirmação da notícia de que o Presidente João Goulart não anunciará no seu discurso a encampação das refinarias particulares. Apenas o Sr. Max da Costa Santos
Mostrava-se satisfeito com o fato, pois com isso ganhou cem mil cruzeiros, resultado de apostas com correligionários em torno do assunto.

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Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (pag 07)
[07/03/64]   Mais um teste - Editorial

O relatório apresentado pelo Deputado Teódulo de Albuquerque na Comissão Parlamentar de inquérito sobre irregularidades na Petrobrás, conclui acertadamente propondo as duas medidas que o País espera sejam acatadas pelo Governo federal: a reestruturação da empresa. que sofre de gigantismo politicamente perigoso e administrativamente antieconômico, e a punição dos dois diretores, administrativa e criminalmente.

Foi o que pedimos em nome do Pais ao estourar o escândalo da Petrobrás. O Presidente da República não poderá ignorar as conclusões da Comissão de inquérito pois elas dizem respeito a um problema crucial - o da inflação - em grande parte originada, no Brasil, na má administração, na administração tremendamente deficitária das autarquias.

A simples soma dos déficits dessas autarquias comporia a parcela maior do déficit da República, raiz real e principal de nossa situação desgraçadamente inflacionária, a refletir-se na brutal elevação do custo de vida, de ineditismo histórico, pois ocorre sob governo trabalhista que deveria ser lucidamente atento ao sofrimento da carestia.

A vinculação do déficit das autarquias com a carestia é muito mais imediata e direta do que aquela vinculação que o Presidente da República erigiu em teoria oficial da inflação. Segundo essa teoria existe a vinculação da inflação e da carestia com as reformas de base. Ora, a inflação estrutural só é teoricamente admitida até quinze por cento ao ano. A inflação brasileira, superior a setenta por cento, é clássica a tem de ser atacada pelos meios científicos e universais. Portanto, a insistência de divulgar em meios militares a tese de uma inflação "estrutural" de

setenta por cento só pode ter o objetivo de atirar os militares contra o Congresso, na presunção de que estes acreditariam, de boa-fé, na origem estrutural da inflação brasileira.

De um lado temos, pois, a realidade viva e imediata dos déficits das autarquias, a dos marítimos, ferroviários, portuários e demais setores da economia pública. De outro, a medida de tentar tabelar lucros. É preciso, portanto, afastar a hipótese da ignorância para examinar a hipótese da má-fé.

A inflação estimula reivindicações salariais, altas do preço, na espiral já conhecida. Não se comprimem salários, mas se tenta tabelar lucros. E nada se faz contra os déficits das autarquias porque para isso seria necessário contrariar os sindicatos do setor público, numa demonstração de virilidade política e de real vontade antiinflacionária, tal como se achava redigida no Plano Trienal.

A hipótese da inflação estimulada não pode por isso ser ignorada, ainda que seja suficientemente repugnante. Ela coloca, no desespero que provoca, todos os grupos sociais à mercê do

Governo, pois cada grupo teme receber o maior impacto negativo das medidas governamentais em sua política econômica expropriadora. Cada grupo espera, em suma, salvar-se do incêndio inflacionário com socorro e alivio do próprio incendiário. Em lugar de se unirem contra ele, todos se dividem na solução suicida: empresários e sindicatos.

A atitude do Governo em face do relatório da CPI será nova prova para suas intenções anti-inflacionárias. Ignorar ou negar o relatório será ignorar ou negar o caminho - o único sério - do saneamento imediato e eficiente dos focos autárquicos da inflação.


Leituras complementares

Fonte: FGV - CPDOC
Jair Dantas Ribeiro

Jair Dantas Ribeiro nasceu no dia 11 de dezembro de 1900, em São José de Mipibu (RN), filho de Miguel Ribeiro e de Júlia Ribeiro.

Cursou a Escola Militar do Realengo, no Rio de Janeiro, entre 1918 e 1921. Participou da Revolta de 5 de Julho de 1924, em São Paulo, mas não se aliou à ala radical voltando às fileiras do Exército. Nos anos seguintes fez, entre outros cursos, o da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (1927) e o da Escola de Estado-Maior (1932). Em 1936 atuou como adjunto do gabinete da Secretaria do Conselho de Segurança Nacional (CSN).

Entusiasta da educação disciplinar da juventude, foi incumbido de dirigir, em 1939, a Parada da Mocidade, comemoração organizada pelos órgãos oficiais durante o Estado Novo (1937-1945). Em 1942, foi nomeado secretário-geral da Juventude Brasileira, entidade inspirada no fascismo italiano para concorrer com a União Nacional dos Estudantes, mas que não chegou a funcionar. Em 1943 e 1944, durante a Segunda Guerra Mundial, comandou o 30º Batalhão de Caçadores, em Fernando de Noronha. Chefe do gabinete de instrução do Centro de Aperfeiçoamento e Especialização de Realengo, entre 1946 e 1947, ocupou, em seguida, o comando do Colégio Militar do Rio de Janeiro. Entre 1953 e 1955 foi comandante da Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende (RJ). De 1957 a 1958 foi chefe do estado-maior do I Exército, no Rio de Janeiro. Sob o governo parlamentarista de João Goulart, iniciado em setembro de 1961, Dantas Ribeiro ocupou, a partir de outubro, o comando da 1ª Região Militar, sediada no Rio de Janeiro, aí permanecendo até julho de 1962, quando tornou-se comandante do III Exército, com sede em Porto Alegre.

Desde os primeiros meses do parlamentarismo, Goulart pressionava pelo retorno ao presidencialismo. Sua intenção era antecipar a realização do plebiscito sobre a continuidade do parlamentarismo, previsto para o início de 1965. Finalmente, em 15 de setembro de 1962, pressionado pelo Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), que deflagrara greve geral, o Congresso antecipou o plebiscito para 6 de janeiro de 1963. Realizada na data marcada, a consulta teve como resultado a volta ao regime presidencialista.

Em junho de 1963, em maio a mais uma mudança ministerial, Dantas Ribeiro foi designado ministro da Guerra. Nesse momento, a crise econômica agravava-se, e os índices inflacionários disparavam; por sua vez, a oposição contra o governo tornava-se cada vez mais clara, principalmente por parte da alta oficialidade do Exército. Comprometido com a defesa do governo, Dantas Ribeiro esteve ao lado de Goulart no comício de 13 de março de 1964, realizado no Rio, no qual ficou evidente o apoio do presidente às reformas reivindicadas pelo movimento sindical e pela esquerda. Diante do "perigo comunista", a conspiração militar tomou vulto. No dia 28, a eclosão de uma revolta de marinheiros concentrados no Sindicato dos Metalúrgicos, no Rio de Janeiro, não suscitou da parte de Goulart as punições previstas pela disciplina militar, tornando a sua situação insustentável.

Dantas Ribeiro encontrava-se hospitalizado quando Goulart foi deposto. No dia 1º de abril, ao tomar conhecimento pelo rádio da mobilização sindical e estudantil contra o golpe militar, comunicou-se com Goulart e disse estar pronto para apoia-lo desde que o CGT fosse extinto. Como o presidente repeliu a proposta, Dantas Ribeiro comunicou-lhe que não mais se considerava seu ministro da Guerra. Com o triunfo dos golpistas, foi afastado da pasta e, em junho de 1964, teve seus direitos políticos cassados pelo Ato Institucional nº 1. Nessa mesma data, foi transferido para a reserva e, mais tarde, reformado no posto de general-de-exército.

Faleceu no dia 12 de janeiro de 1969, no Rio de Janeiro.
Era casado com Zulmira Lima Barreto.
[Fonte: Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro pós 1930. 2ª ed. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2001]

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7. Crescem as pressões para mudanças

O PCB havia terminado o ano de 1962 com uma Resolução Política (5). Nela, incentivava o trabalho de infiltração no movimento camponês e alertava sobre o surgimento no país de "agrupamentos políticos de esquerda que representavam setores da pequena burguesia e adotavam posições sectárias, interpretando erroneamente o caráter da revolução brasileira e propondo incorretas formas de luta para a situação atual" (uma critica à atuação do PC do B, POLOP, AP e PORT). Além disso, exortando o início da construção do comunismo na União Soviética e o exemplo revolucionário de Cuba, exigia o estabelecimento de relações diplomáticas com todos os países socialistas. Decidia, também, "intensificar, em todo o Brasil, o movimento de solidariedade à Revolução Cubana".

As esquerdas estavam eufóricas com o sucesso obtido nas greves gerais de 5 de julho e de 14 de setembro de 1962. Em 15 de janeiro de 1963, o ilegal CGT homenageou o General Osvino Ferreira Alves, Comandante do I Exército. Em fevereiro, seis mil soldados, cabos e sargentos realizaram; em São Paulo, uma passeata pela posse das praças eleitas. Mais tarde, em abril, o Sargento Garcia, eleito deputado, declarou que o General Amaury Kruel, então Ministro da Guerra, era um "golpista". A situação encaminhava-se para nova crise.

Prestes e o CGT posicionam-se contra o Ministério e o Plano Trienal. O PCB, de acordo com a Resolução Política de dezembro de 1962, organizou, em abril, em Niterói, o Congresso Continental de Solidariedade a Cuba. Prestes declarou que o Brasil estava disputando, com outros países, o privilégio de ser o segundo pais latino-americano onde o socialismo seria instalado. Bravateiro, vangloriou-se de que o PCB já era legal "de fato", só faltando obter a legalidade "de direito". Superando o PCB, o CGT declarava-se legal "de "fato e de direito".

O PCB emitiu mais uma Resolução Política, caracterizando os objetivos táticos das reformas e conclamando pelo esforço da frente única das esquerdas para derrotar os "gorilas". Ao mesmo tempo, incentivava o início de uma pressão popular sobre o Congresso para abrir o caminho da reforma agrária.

A revista "Novos Rumos" exige à demissão do Ministro da Guerra e incentiva o povo a lutar contra os outros ministros, tachando-os de "agentes do imperialismo e do latifúndio". A pressão pelas reformas deixa de ser iniciativa das bases e atinge a cúpula governamental. O Presidente da República, o Governador de Pernambuco e o Ministro do Trabalho fazem sucessivos pronunciamentos em seu favor.

Em junho de 1963, encampando as palavras de ordem do PCB, o CGT emite um documento, do qual extraímos, em seus trechos finais (6):
"Declaramos, ainda, ser imperiosa a recomposição do Ministério, incluindo-se no governo cidadãos verdadeiramente Identificados com a plataforma de lutas das forças nacionalistas e democráticas, sinceramente convencidos da necessidade de aprovação e plena execução das Reformas de Base".

Além disso, o Comando Sindical ameaça deflagrar uma greve geral caso não seja aprovada a reforma agrária. A greve geral permaneceria, ao longo dos meses seguintes, como uma constante espada ameaçando a Nação.

Na área militar, o General Osvino Ferreira Alves pronuncia-se contra a Aliança para o Progresso, tachando-a de suporte do anticomunismo.

Na área estudantil, a União Nacional de Estudantes (UNE) e a União Brasileira de Estudantes Secundaristas (UBES), além de entidades estaduais e municipais, levavam as concepções comunistas aos jovens. O próprio MEC, através do Movimento de Cultura Popular, do Movimento de Educação de Base e da Campanha de Alfabetização, editava cartilhas de doutrinação ideológica, incitando os pobres às lutas de classe. O MEC, ainda, fornecia elevados recursos a essas entidades estudantis, utilizadas para financiar a ida de estudantes comunistas a países socialistas.

A UNE, na época, relacionava-se com a União Internacional de Estudantes (UIE) que, fundada em 1946, em Praga, era a "Seção Estudantil do Cominform" (7). Um dos vice-presidentes da UNE era o brasileiro Nelson Vanuzzi. Datada de 21 de janeiro de 1963, Nelson Vanuzzi enviou, de Praga, uma carta a Zuleika Dalambert, então membro do CC/PCB, da qual extraímos o item 6:
"Sobre a Campanha de Alfabetização e nossa ajuda, tenho algumas coisas mais detalhadas a tratar. Na carta anterior, eu havia me referido à falta absoluta de dinheiro por aqui. Dei também as razões. Porém, dada a tremenda discussão que houve no Secretariado, o companheiro soviético foi a Moscou tratar do assunto. Resultado: trouxe com ele a quantia de 5 mil dólares exclusivamente para a UNE, enquanto que as outras planejadas quase nada foi conseguido. Parece ter sido uma consideração especial. Além do maias, a UIE enviará as demais partes materiais. Porém resta um problema que eu estou sentindo ou melhor estou cheirando à distância.
Olhando-se o balancete da UNE de agosto a janeiro, o último, vê-se claramente que cinco mil dólares não representam muito para a UNE. Porém, para a UIE, tratando-se de divisas pesadas, significa muito. Por isso, o que se passa é que a UIE espera de tal soma de dinheiro os consequentes resultados políticos. Ou seja, espera que a campanha seja um sucesso e que seja feita como o estrondo político maior"

Esse trecho da carta, um dos muitos exemplos que poderiam ser citados, além de mostrar que 5.000 dólares representavam pouco para a UNE, comprova que essa entidade brasileira recebia dinheiro da URSS através da UIE. E comprova, também, que a Campanha de Alfabetização, além das verbas do MEC, recebia outras do exterior, e era, na verdade, um programa que visava a interesses político-ideológicos.

Muitos jovens brasileiros, tangidos pelo idealismo, eram manobrados pelo dinheiro soviético. E muitos, inclusive, eram diretamente impregnados ideologicamente, através dos cursos que realizavam na Universidade de Amizade dos Povos Patrice Lumumba (UAPPL), em Moscou, selecionados pelo PCB.

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(5) Novos Rumos nº 179, de 13 a 20 dedezembro de 1962, pág. 4.
(6) Novos Rumos nº 244, de 7 a 13 de junho de 19632, pág. 3.
(7) "Cominform" (Informações Comunistas) era o novo nome da III Internacional e do Comintern (Internacional Comunista), órgão de difusão ideológica do Partido Comunista da União Soviética (PCUS).
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Fonte: Orvil - 2ª PARTE - A SEGUNDA TENTATIVA DE TOMADA DO DO PODER - CAPÍTULO II - A AÇÃO COMUNISTA
7. Crescem as pressões para mudanças

[Leia o "Orvil" na íntegra  - cópia xerox em pdf ou em "formato web" neste link, onde o trabalho da nova formatação está em andamento]

O PCB havia terminado o ano de 1962 com uma Resolução Política (5). Nela, incentivava o trabalho de infiltração no movimento camponês e alertava sobre o surgimento no país de "agrupamentos políticos de esquerda que representavam setores da pequena burguesia e adotavam posições sectárias, interpretando erroneamente o caráter da revolução brasileira e propondo incorretas formas de luta para a situação atual" (uma critica à atuação do PC do B, POLOP, AP e PORT). Além disso, exortando o início da construção do comunismo na União Soviética e o exemplo revolucionário de Cuba, exigia o estabelecimento de relações diplomáticas com todos os países socialistas. Decidia, também, "intensificar, em todo o Brasil, o movimento de solidariedade à Revolução Cubana".

As esquerdas estavam eufóricas com o sucesso obtido nas greves gerais de 5 de julho e de 14 de setembro de 1962. Em 15 de janeiro de 1963, o ilegal CGT homenageou o General Osvino Ferreira Alves, Comandante do I Exército. Em fevereiro, seis mil soldados, cabos e sargentos realizaram; em São Paulo, uma passeata pela posse das praças eleitas. Mais tarde, em abril, o Sargento Garcia, eleito deputado, declarou que o General Amaury Kruel, então Ministro da Guerra, era um "golpista". A situação encaminhava-se para nova crise.

Prestes e o CGT posicionam-se contra o Ministério e o Plano Trienal. O PCB, de acordo com a Resolução Política de dezembro de 1962, organizou, em abril, em Niterói, o Congresso Continental de Solidariedade a Cuba. Prestes declarou que o Brasil estava disputando, com outros países, o privilégio de ser o segundo pais latino-americano onde o socialismo seria instalado. Bravateiro, vangloriou-se de que o PCB já era legal "de fato", só faltando obter a legalidade "de direito". Superando o PCB, o CGT declarava-se legal "de "fato e de direito".

O PCB emitiu mais uma Resolução Política, caracterizando os objetivos táticos das reformas e conclamando pelo esforço da frente única das esquerdas para derrotar os "gorilas". Ao mesmo tempo, incentivava o início de uma pressão popular sobre o Congresso para abrir o caminho da reforma agrária.

A revista "Novos Rumos" exige à demissão do Ministro da Guerra e incentiva o povo a lutar contra os outros ministros, tachando-os de "agentes do imperialismo e do latifúndio". A pressão pelas reformas deixa de ser iniciativa das bases e atinge a cúpula governamental. O Presidente da República, o Governador de Pernambuco e o Ministro do Trabalho fazem sucessivos pronunciamentos em seu favor.

Em junho de 1963, encampando as palavras de ordem do PCB, o CGT emite um documento, do qual extraímos, em seus trechos finais (6):
"Declaramos, ainda, ser imperiosa a recomposição do Ministério, incluindo-se no governo cidadãos verdadeiramente Identificados com a plataforma de lutas das forças nacionalistas e democráticas, sinceramente convencidos da necessidade de aprovação e plena execução das Reformas de Base".

Além disso, o Comando Sindical ameaça deflagrar uma greve geral caso não seja aprovada a reforma agrária. A greve geral permaneceria, ao longo dos meses seguintes, como uma constante espada ameaçando a Nação.

Na área militar, o General Osvino Ferreira Alves pronuncia-se contra a Aliança para o Progresso, tachando-a de suporte do anticomunismo.

Na área estudantil, a União Nacional de Estudantes (UNE) e a União Brasileira de Estudantes Secundaristas (UBES), além de entidades estaduais e municipais, levavam as concepções comunistas aos jovens. O próprio MEC, através do Movimento de Cultura Popular, do Movimento de Educação de Base e da Campanha de Alfabetização, editava cartilhas de doutrinação ideológica, incitando os pobres às lutas de classe. O MEC, ainda, fornecia elevados recursos a essas entidades estudantis, utilizadas para financiar a ida de estudantes comunistas a países socialistas.

A UNE, na época, relacionava-se com a União Internacional de Estudantes (UIE) que, fundada em 1946, em Praga, era a "Seção Estudantil do Cominform" (7). Um dos vice-presidentes da UNE era o brasileiro Nelson Vanuzzi. Datada de 21 de janeiro de 1963, Nelson Vanuzzi enviou, de Praga, uma carta a Zuleika Dalambert, então membro do CC/PCB, da qual extraímos o item 6:
"Sobre a Campanha de Alfabetização e nossa ajuda, tenho algumas coisas mais detalhadas a tratar. Na carta anterior, eu havia me referido à falta absoluta de dinheiro por aqui. Dei também as razões. Porém, dada a tremenda discussão que houve no Secretariado, o companheiro soviético foi a Moscou tratar do assunto. Resultado: trouxe com ele a quantia de 5 mil dólares exclusivamente para a UNE, enquanto que as outras planejadas quase nada foi conseguido. Parece ter sido uma consideração especial. Além do maias, a UIE enviará as demais partes materiais. Porém resta um problema que eu estou sentindo ou melhor estou cheirando à distância.
Olhando-se o balancete da UNE de agosto a janeiro, o último, vê-se claramente que cinco mil dólares não representam muito para a UNE. Porém, para a UIE, tratando-se de divisas pesadas, significa muito. Por isso, o que se passa é que a UIE espera de tal soma de dinheiro os consequentes resultados políticos. Ou seja, espera que a campanha seja um sucesso e que seja feita como o estrondo político maior"

Esse trecho da carta, um dos muitos exemplos que poderiam ser citados, além de mostrar que 5.000 dólares representavam pouco para a UNE, comprova que essa entidade brasileira recebia dinheiro da URSS através da UIE. E comprova, também, que a Campanha de Alfabetização, além das verbas do MEC, recebia outras do exterior, e era, na verdade, um programa que visava a interesses político-ideológicos.

Muitos jovens brasileiros, tangidos pelo idealismo, eram manobrados pelo dinheiro soviético. E muitos, inclusive, eram diretamente impregnados ideologicamente, através dos cursos que realizavam na Universidade de Amizade dos Povos Patrice Lumumba (UAPPL), em Moscou, selecionados pelo PCB.

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(5) Novos Rumos nº 179, de 13 a 20 dedezembro de 1962, pág. 4.
(6) Novos Rumos nº 244, de 7 a 13 de junho de 19632, pág. 3.
(7) "Cominform" (Informações Comunistas) era o novo nome da III Internacional e do Comintern (Internacional Comunista), órgão de difusão ideológica do Partido Comunista da União Soviética (PCUS).
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8. O Movimento Camponês

Continua no próximo "post" desta Série
[Leia o "Orvil" na íntegra  - cópia xerox em pdf ou em "formato web" neste link, onde o trabalho da nova formatação está em andamento]


Nota:
Este "post", de 2012, atualiza este outro, publicado em 2011:
07/02/11
Revolução de 1964 - Os 31 dias de Março (7) - Seleção de notícias do dia 07 Mar 1964 + Leituras complementares