WirelessBRASIL - Bloco RESISTÊNCIA

Março 2012             


09/03/12

• Revolução de 1964 - Os 31 dias de Março (9) - Seleção de notícias do dia 09 Mar 1964 + Leituras complementares

Matérias transcritas nesta página:

Fonte: Acervo da Folha de S. Paulo
[09/03/64]   Semana Política

Fonte: Acervo da Folha de S. Paulo
[09/03/64]   Lacerda e Nei examinam a questão da sucessão de JG
Fonte: Acervo da Folha de S. Paulo

[09/03/64]   Extensão da lei do inquilinato e da usura ao campo

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (pág 03)
[09/03/64]   Reeleição de Auro Moura Andrade é quase certa

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (pág 05)
[09/03/64]  Pinheiro levará decreto da SUPRA

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (pág 18)
[09/03/64]  Decreto da SUPRA recebe repúdio dos ruralistas do Rio Grande do Sul

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (pág 19)
[09/03/64] 
Ruralista fluminense descrê que Goulart assine decreto da Supra

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (pág 09)
[09/03/64]  Mulheres pernambucanas,, iniciam movimento para a defesa da democracia

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (pág 52)
[09/03/64]  Lições da crise de Pernambuco para duas tendências da esquerda

Leituras complementares:

Fonte: FGV - CPDOC
A questão agrária no governo Jango

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Nei Braga

Fonte: ORVIL - 2ª PARTE - A SEGUNDA TENTATIVA DE TOMADA DO DO PODER - CAPÍTULO II - A AÇÃO COMUNISTA
9. Cedendo às pressões


Transcrições:

Fonte: Acervo da Folha de S. Paulo
[09/03/64]   Semana Política

O comício que o presidente da República fará na Guanabara sexta-feira próxima foi o tema político dominante dos últimos sete dias e, em consequência das implicações, especulações e interpretações a que deu origem transformou-se no "prato forte" do noticiário político de todo o país.

Depois de anunciar-se que o "meeting", no qual o presidente assinará o decreto da SUPRA sobre desapropriações e defenderá a linha de seu governo, iria ser transferido, o ato foi confirmado, para a data escolhida em princípio, sexta-feira, 13.

O ministro da Guerra, gen. Jair Dantas Ribeiro anunciou ao presidente que o dispositivo militar está pronto par garantir a concentração, e, apesar de certas interpretações segundo as quais alguns incidentes serviriam de base e pretexto para uma intervenção na Guanabara, não se acredita em perturbação da ordem. O próprio governador Carlos Lacerda, que insiste na inconstitucionalidade da manifestação, por julgá-la de inspiração comunista, declarou em São Paulo que não crê em qualquer agitação e, num gesto de político habilidoso,decretou ponto facultativo nas repartições publicas da Guanabara, no dia 13.

"RUSH" DE ARRAIS

O governador pernambucano Miguel Arrais, que enfrentou recentemente séria crise em seu Estado, fez em São Paulo autêntico "rush" político, mantendo contatos, visitando personalidades e concedendo entrevistas. Serenada a situação em Pernambuco, onde conseguiu pacificar trabalhadores e classes produtoras, evitando ameaças de greve e locaute, o governador chegou a São Paulo, reiterando, em diversos pronunciamentos, a linha política que tem seguido.

Disse que não está estremecido com o governo federal, embora fizesse certas restrições à instrução 263 da SUMOC, notadamente pelos prejuízos que, em seu modo de ver, acarretará à indústria açucareira. Quanto À apregoadas divergências ideológicas com o sr. Leonel Brizola, o sr. Miguel Arraes não deu muita importância ao fato e fez ver que se trata apenas de encaminhamentos, pois ambos estão na mesma trincheira. Duas visitas importantes do governador pernambucano foram as que fez ao cardeal-arcebispo de São Paulo, d. Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota, e ao prof. Carvalho Pinto. No mais, a mesma linha, favorável às reformas de estrutura, num processo revolucionário pacífico.

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Fonte: Acervo da Folha de S. Paulo
[09/03/64]   Lacerda e Nei examinam a questão da sucessão de JG

CURITIBA, 8 (FOLHA) - Os governadores Nei Braga e Carlos Lacerda conferenciaram longamente ontem e hoje, no Palácio Iguaçu, examinando o problema da sucessão presidencial. Da reunião, extremamente sigilosa, transpirou que o governador do Paraná levará ao Diretório Nacional do PDC, do qual é presidente, o resultado das conversações que teve com o seu colega da Guanabara.
O sr. Nei Braga, que seguirá a linha que a convenção democrata-cristã indicar em maio próximo, considera como pontos básicos para uma eventual coligação entre PDC e UDN, a a sucessão governamental do Paraná e a eleição para a prefeitura de São Paulo, em outubro próximo, para o qual o partido já lançou seu candidato na pessoa do deputado federal Franco Montoro.

UNIDADE

Considerando que a perdurar o atual panorama político nacional o PDC tem áreas favoráveis aos sr. Carlos Lacerda e outras simpáticas ao sr. Juscelino Kubitschek, o esforço do sr. Nei Braga, como presidente nacional do partido, será no sentido de encontrar fórmula que garanta a unidade dos democratas-cristãos. Admite, por outro lado, o crescimento da candidatura Lacerda e o desgaste progressivo do governo federal.

LACERDA OPINA

Sobre as conversações com o governador Nei Braga, o sr. Carlos Lacerda declarou que elas deverão produzir resultados mas tarde.
"A nossa conversa foi excelente. Sei perfeitamente que o governador Nei Braga não pode assumir compromissos individuais. Saio do Paraná tranquilo quanto aos resultados  de nossas  conversações, sem que isso importe em qualquer compromisso do governador Nei Braga."

O governador da Guanabara que chegou a Curitiba para paraninfar uma turma de jornalistas da PUC, manteve diversos contactos políticos com dirigentes de diversos partidos e falou por uma emissora de televisão local.  Durante um passeio a pé, pelas ruas centrais de Curitiba, o sr. Carlos Lacerda foi aplaudido.

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Fonte: Acervo da Folha de S. Paulo
[09/03/64]  Extensão da lei do inquilinato e da usura ao campo

RIO, 8 (FOLHA) - A SUPRA encaminhará ao presidente da República, depois do comício do dia 13 deste mês outras minutas de decretos fixando novos dispositivos da extensão das leis do inquilinato e da usura ao campo e também estendendo as desapropriações às zonas saneadas pelo governo federal. Essa informação foi passada pelo sr. João Pinheiro Neto, superintendente da SUPRA.
O sr. João Pinheiro Neto revelou ainda que espera receber até o mês de abril as cópias das certidões referentes às terras  localizadas às margens da rodovia Belém-Brasília de propriedade do deputado Último de Carvalho e também de outro parlamentar paulista. (...)
(...) O decreto da SUPRA exclui da possibilidade de desapropriação as propriedades com menos de 100 hectares, mesmo que estejam situadas ao longo dos eixos rodoviários e ferroviários.  (...)

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Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (pág 03)
[09/03/64]   Reeleição de Auro Moura Andrade é quase certa

Brasília (Sucursal) — Está prevista para terça-feira, a reeleição do Senador Moura Andrade para a Presidência do Senado, sem os votos do PTB, numa decisão que se entende repercutirá como ostensiva derrota do Sr. João Goulart, que se empenhou junto ao Senador Benedito Valadares no sentido de obter a substituição do senador paulista no posto que vem ocupando há dois anos.

A responsabilidade desse desfecho é atribuída por todos à inabilidade com que os Srs. João Goulart e Artur Virgílio interferiram num problema interno do Senado, criando uma situação em que a substituição do Sr. Moura Andrade, por muitos desejada, se tornou quase impraticável, pela repercussão desfavorável àquela Casa que o fato alcançaria.

PRELIMINAR
Já na segunda-feira se poderá prever o acerto ou não das previsões que dão o Sr. Moura Andrade como reeleito "em qual quer hipótese", conforme proclama, entre outros, o líder udenista, Sr. Daniel Krieger. É que, nesse dia, a bancada pessedista se reunirá para tomar  três deliberações: 1) exame da adoção do critério de rodízio, proposto pelo Sr. Jefferson Aguiar, único candidato que disputa a presidência ao Sr. Moura Andrade até o momento; 2) escolha do líder da bancada através de votação secreta; 3) indicação do nome do novo Presidente.

A previsão é de que, nesse primeiro encontro, só se decidirá quanto à adoção ou não do rodízio que, se prevalecer, significará a disposição de sacrificar o Sr. Moura Andrade.

SITUAÇÃO
A despeito da previsão de vitória fácil do Sr. Moura Andrade, não está afastada urna hipótese de surpresa,. Primeiro, porque numeroso é o grupo que gostaria de alijar o Senador paulista da Presidência, acusando-o de personalismo, causa de muitos atritos seus com diversos senadores. Segundo, porque é visível na bancada pessedista o desejo de não agravar sua situação com o Presidente da República, a cuja vontade gostariam de atender, sem que isso significasse a escolha de um Presidente indicado pela Sr. Goulart. Surpresas, também, poderão resultar do comportamento que venha a ter a bancada do PTB, cujo líder, Sr. Artur Virgílio, continua afirmando que não aceitará a indicação do Sr. Moura Andrade. Ficando isso num protesto branco, apenas para que o PTB "salve as aparências", tudo o mais transcorrerá normalmente.

Mas, se o PTB extremr até o rompimento sua posição, tudo poderá acontecer, até a composição PSD-UDN para eleição da Mesa sem a participação petebista. Isso é facilitado pela circunstância de a escolha do Presidente se dar no dia 10 e dos demais membros da Mesa, inclusive o Vice, que toca ao PTB, somente no dia seguinte, o que dará ao PSD 24 horas para deliberar e decidir sobre o rumo a seguir. (...)


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Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (pág 05)
[09/03/64] 
Pinheiro levará decreto da SUPRA

O Sr. João Pinheiro Neto confirmou ontem ao JORNAL DO BRASIL que entregará ao Presidente João Goulart, durante o comício do dia 13, a minuta do decreto da Supra, contendo os novos dispositivos da extensão das leis do inquilinato e da usura ao campo, das desapropriações em zonas saneadas pelo Governo Federal e outros apresentados pelo Conselho Nacional de Economia, As organizações promotoras da concentração resolveram limitar o número de oradores aos representantes da CPOS, UNE, Frente Parlamentar Nacionalista, Vice-Governador da Guanabara, CGT e o Presidente da República. O comício começará às 17h 30min e terminará às 19h 30min.

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Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (pág 18)
[09/03/64]  Decreto da SUPRA recebe repúdio dos ruralistas do Rio Grande do Sul

A Federação das Associações Rurais do Rio Grande do Sul, em telegramas dirigidos a os Presidentes da Republica, do Senado e da Câmara, manifestou sua repulsa ao anunciado decreto da Supra desapropriando terras às margens das estradas, ferrovias o açudes. Esta medida "teria quase todo o território do Rio Grande do Sul praticamente atingido, trazendo profundas perturbações à vida rural, já freqüentemente agitada por elementos irresponsáveis que estão promovendo invasões às propriedades privadas", adiantando-se que o anunciado decreto "estimula-ria, sem dúvida esses atentados".

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Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (pág 19)
[09/03/64]  Ruralista fluminense descrê que Goulart assine decreto da Supra

Os ruralistas fluminenses, segundo as palavras do Secretário-Geral da Federação das Associações Rurais e Agropastoris do Estado, Sr. Adernar Moreira de Azevedo, não acreditam que o Presidente da República assine o decreto da Supra, segundo está redigido. E porque não acreditam, não pretendem preparar qualquer manifestação, ou tomar qualquer posição de defesa contra os efeitos das anunciadas desapropriações em suas propriedades.

Os proprietários do Estado do Rio preferem acreditar que o Sr. João Goulart acatará a indicação por eles apresentada na Confederação Rural Brasileira, no sentido de que o decreto que está para ser assinado no próximo dia 13, determine o levantamento das áreas a serem expropriadas, para só depois o Governo Federal desapropriá-las.

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Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (pág 09)
[09/03/64]  Mulheres pernambucanas,, iniciam movimento para a defesa da democracia

Recife (Correspondente) — Cerca do 800 mulheres pernambucanas iniciaram às 16 horas de ontem um "movimento de defesa da democracia" com uma concentração, na qual foi homenageado o Comandante do IV Exército, General Justino Alves Bastos. O movimento das mulheres está sendo liderado pelo comerciante José Correia Siqueira, o mesmo que fez a proposta de lockout na reunião das classes produtoras, e pelo Professor Paulo Maciel, Secretário da Fazenda no Governo Cid Sampaio.

PELO REGIME
Durante a visita que as mulheres participantes do movimento fizeram ao General Jus-tino Alves Bastos, a Sra Maria do Carmo Miranda, disse que a iniciativa não prega distinções de classes sociais e abraça pessoas do quaisquer credos religiosos, pois só tem como meta a, luta contra outro regime que não seja o democrático. O movimento iniciou-se com urma concentração em frente ao Colégio São José, seguindo-se urna passeata até o Quartel General do IV Exército.

INCENTIVO
O General Justino Alves Bastos, agradecendo a  homenagem, disse que "as mulheres podem influir muito no espírito dos homens e desejo que esta cruzada, que nasceu praticamente na frente do meu quartel viva os melhores dias".

Afirmou o General Justino Alves Bastos, que as, mulheres devem estar dispostas até para o sacrifício da própria vida, em defesa da democracia.

Depois de saírem do Gabinete do General Justino Alves Bastos, as mulheres divulgaram um manifesto à Nação.

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Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (pág 52)
[09/03/64]  Lições da crise de Pernambuco para duas tendências da esquerda

A interpretação política dos fatos que se passaram esta semana em Pernambuco foi mais ou menos constante: conservadores, esquerdistas e até direitistas acharam, cada qual a seu modo, que houve o primeiro choque entre a linha Goulart e a cautela de Arrais. Despidos os fatos das aparências sociais em que se apresentam e da grandeza ideológica, abaixo da linha de reivindicação do classe, está latente a disputa política da influência e controle das massas populares.

De certo modo, o Sr. Leonel Brizola começa a ter razão pelo menos no capítulo da conciliação, colocado em primeiro lugar na ordem de seu programa — uma espécie de prefácio de condenação a toda e qualquer solução que se não se processe por via revolucionária. Esta é a divergência fundamental de Brizola com o Presidente Goulart e ponto de fricção com os grupos esquerdistas defensores da linha de resguardo do caminho político, franca e moderadamente liderada, pelo Sr. Miguel Arrais.

Nos acontecimentos que empurraram Pernambuco , para o centro das preocupações brasileiras ficou implícita alguma omissão federal no encaminhamento de soluções rápidas: o problema do aumento do preço do açúcar teria aliviado a tensão que atingiu os trabalhadores da indústria açucareira e os plantadores de cana. Foi em cima dessa greve que estourou a nomeação de um delegado do IAPI, por reivindicação exclusiva do PTB de Pernambuco. A mudança precipitou a greve de vastos setores urbanos em Recife,, envolvendo industriários e comerciários no protesto que paralisou o centro nervoso do Nordeste. E, sobre este quadro, o lockout decretado pela classe empresarial.

Para as esquerdas, houve cálculo político na demora federal em resolver o problema do preço do açúcar e na nomeação do indicado pelo PTB para a Delegacia do IAPI. Geralmente as esquerdas desconfiam das coincidências. Esta, particularmente, calhou na suspeita permanente de que Goulart dorme de olho aberto. Pernambuco está construindo a imagem de uma transformação pacífica, pelo menos, sem muita agitação. Toda a vigilância dos conservadores está concentrada no Sr. João Goulart, que atrai e centraliza as atenções e os debates. Arrais, ao contrário, se conduz pela imagem de moderação que conseguiu apresentar ao fim de seu primeiro ano de Governo.

A possibilidade de que a crise em Pernambuco tenha sido deliberada levou alguns setores da esquerda a emparelhar a situação com os fatos que aconteceram em Minas, onde está quebrada a autoridade do Governador Magalhães Pinto, depois de duas manifestações de massa conduzidas por inspiração nitidamente direitista. O sentido não extremado da autoridade política pretendido pelo Sr. Magalhães Pinto ficou arranhado e em mais de uma fonte do Governo federal jorrou a informação de que poderá se fazer necessário confiar ao Exército a garantia dos direitos democráticos em Minas.

O grande temor esquerdista em relação à Pernambuco é que uma situação crítica prolongada possa favorecer a atuação ostensiva do Exército, comprometendo a maior parte dos efeitos alcançados pela conduta moderada do Sr. Miguel Arrais. Daí por diante Arrais estaria de crista quebrada e a sombra federal, em forma militar, se projetaria preventivamente no Nordeste, a qualquer oportunidade.

A opinião pública conservadora excitou-se a seu feitio com a greve que irrompeu debaixo do Governo Arrais, de vez que tanto os radicais como os moderados de esquerda inspiram o mesmo juízo severo que o pensamento político imobilizado reserva para os fatos políticos, Foi com certa ponta de satisfação que os conservadores viram Miguel Arrais ser apertado em dificuldades. Perceberam também que houve em Pernambuco o dedo federal.

Desde que se afastou para uma posição discreta na cena política nacional, o Sr., Leonel Brizola se mantém próximo aos acontecimentos, embora recuse os termos de atuação convencional, como a vida parlamentar e os entendimentos de cúpula. Entrincheirou-se numa Intransigência radical e numa coerência facilitada pela redução de seu campo de ação: Brizola não negocia. Recusa as soluções de compromisso e as conciliações táticas. A única transigência que Brizola se permite é em relação à outra parte da esquerda, fixada em linha moderada e encabeçada pelo Sr. Miguel Arrais.

Já vai distante a caracterização da divergência fundamental entre os radicais e os moderados da esquerda. As tentativas de unificação esbarraram sempre em condições políticas insuperáveis de momento, por trás das duas figuras que polarizam tendências opostas: enquanto Brizola não encontra viabilidade eleitoral na sucessão de 65, impedido por dispositivo constitucional, Arrais é naturalmente o beneficiário das possibilidades que podem bafejar uma candidatura nacionalista e de esquerda. As condições políticas particulares de cada um inspiram o comportamento diferente que mantêm.

A impossibilidade de superar a divergência tática reflete dos dois lados um jogo caprichoso de paciência; se a crise brasileira se encaminhar normalmente para as eleições e, como tudo indica, as esquerdas apresentarem candidato próprio, Miguel Arrais tem a maior soma de possibilidades. Não restará ao Sr. Leonel Brizola outra alternativa que não seja sair às ruas na propaganda de um programa eleitoral de esquerda. Ao contrário, se o equacionamento da crise brasileira não se fizer em termos eleitorais, a posição de liderança popular caberá sem discussão ao líder radical.

Até agora, o processo eleitoral não está perdido e daqui a pouco estará assegurado, pelo encaminhamento dos compromissos que já se esboçam com timidez e cautela, mas tendem a se caracterizar de público depois do meio do ano. Pela ordem natural dos fatos, os partidos não se sentem em condições de protelar por muito tempo mais suas convenções nacionais para escolha dos candidatos. Entre abril e junho, o Presidente João Goulart terá ainda campo livre para seu jogo espetacular. Depois do meio do ano, os candidatos que esperam para breve a confirmação partidária estarão com um pé no caminho, que se antecipa longo e difícil.

Aparentemente, o problema eleitoral estará configurado. Mas, o encaminhamento definitivo fica na dependência do setor mais ativo e inquieto da opinião pública, as áreas populares e sindicais onde os grupos de esquerda se movimentam com crescente desembaraço. Os comandos esquerdistas não têm pressa em aceitar compromissos podendo se pouparem ao máximo para valorizar a decisão mais alta do candidato próprio ou a rendição a Kubitschek, por inviabilidade de autonomia eleitoral.

Apenas uma ameaça direta ao processo eleitoral poderá determinar nas esquerdas, a decisão de fortalecer a sucessão, entrando nela para valer. Ou então a invasão de seu eleitorado pela propaganda de um ou dois candidatos, Carlos Lacerda e Juscelino Kubitschek, pois não há dúvida que um e outro se preparam para desfalcar as esquerdas por baixo. Há indícios de que o Sr. Juscelino Kubitschek trabalha ativamente as bases do PTB, aliciando-se num protocolo prévio e secreto, para garantir-se tanto quanto seja possível e forçar a decisão a que subordina o destino de sua candidatura: o apoio do Sr. João Goulart e dos trabalhistas. Ninguém se surpreenderá também com uma temática radical na campanha do Sr. Carlos Lacerda, numa abertura eleitoral que pode coincidir em muitos pontos com as teses de inspiração nacionalista e de esquerda.

A receptividade que os candidatos da UDN e do PSD possam encontrar nas massas populares poderá apressar as esquerdas a se situarem em termos eleitorais. Esse fator já se torna previsível, porque uma das últimas razões que levam os partidos à antecipação da campanha é a certeza de que, deflagrado o processo eleitoral, o debate tomará outro rumo e apaixonará a opinião pública. A crise brasileira ganhará contorno definido: a revolução será sublimada em eleição.

Mas, se a ordem natural das coisas sofrer alteração, quem está colocado em último lugar na lista de possibilidades poderá ganhar a frente da ação e beneficiar-se da perspectiva inesperada: o Sr. Leonel Brizola preparou pacientemente uma liderança de inconformismo com os processos convencionais e é o candidato natural ao comando de um processo incontrolável.

Desde que se retirou da Câmara, caracterizou a perda de confiança na solução normal da crise braileira. Isolou-se à frente do grupo radical que despreza as possibilidades de conciliação política e espera tranqüilamente a sua hora, certo de que se ela não chegar ele ficará distanciado de tudo e de todos. Brizola joga seu futuro e seu passado na solução revolucionária.

A certeza que tem no agravamento da situação brasileira, pela altura do melo do ano, contém os radicais na preparação de um movimento que ainda não confirmou seu grau de possibilidades, mas que será, automàticamente engrossado se a direção do processo político se inverter inesperadamente, por força do agravamento da situação econômica do País ou pela configuração de emergências políticas. Por isso Brizola aguarda paciente e obstinadamente o meio do ano.

No que diz respeito ao Sr. João Goulart, Brizola não alimenta esperanças, exceto a de que se poderá ver obrigado a pedir socorro aos radicais, diante de uma emergência. Brizola tem como certo, que há torças que tentarão depor o Presidente Goulart, quando a situação se tornar mais difícil e as manifestações populares de protesto se processarem em cadeia nas cidades. Fora dessa hipótese, não acredita nas reformas, pelo menos através dos processos utilizados por Jango, na sua programação política desvinculada dos grupos de esquerda.

Por conta própria — acredita; Brizola, Goulart não alcançará as reformas que persegue. Os radicais de Brizola ainda não escrevem, mas falam abertamente no desejo de continuidade do Presidente.

Os acontecimentos desta semana em Pernambuco levaram alento ao Sr. Leonel Brizola, entrincheirado na posição dura e radical: para ele, o que aconteceu ao Sr. Miguel Arrais foi certamente apreciado como fruto de uma política errada, porque a linha moderada, neste momento, é também uma forma de conciliação. Enquanto o Sr. Miguel Arrais, a quem o Presidente Goulart não dá respaldo político nem ajuda administrativa, situar-se em posição de aliado político do Governo federal, está atrasando o desfecho da crise brasileira e dando fôlego às manobras presidenciais. Este é o ângulo em que os radicais se colocam naturalmente para apreciar na sua perspectiva os fatos de Pernambuco.

Como resultado, Brizola se sente mais forte, mais certo e mais próximo da hora para a qual está-se preparando com paciência e obstinação quase mística. Convenceu-se de que as soluções normais não mais serão capazes de conter a crise brasileira em termos de legalidade e que todos apenas procuram ganhar tempo, adiando definições e compromissos. Está subjetivamente preparado e começa a se dispor objetivamente para a situação que proclama inevitável — o rompimento inesperado do equilíbrio legal, quando pretende oferecer a base de uma ação revolucionária a quem não quiser ser esmagado pela reação. Brizola está certo de que a reação não esperará muito e que a paciência conservadora se esgota, conforme constatou pessoalmente em Minas.

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Leituras complementares:

Fonte: FGV - CPDOC
A questão agrária no governo Jango

Presidente Goulart sendo abraçado no encerramento do I Congresso de Lavradores e Trabalhadores Agrícolas, realizado em Belo Horizonte. Em novembro de 1961. A questão agrária foi um dos principais pontos que polarizaram o debate político durante os anos em que João Goulart ocupou a presidência. Ela esteve no centro das preocupações dos atores políticos em geral, do governo, dos partidos, dos movimentos sociais, da Igreja Católica, da opinião pública. Foi, em grande parte, naquele momento que se consolidou a noção de que o Brasil necessitava de uma reforma agrária capaz de eliminar a grande propriedade, o latifúndio, visto como obstáculo fundamental ao desenvolvimento.

Os conflitos na área rural brasileira vinham de longa data, tendo alguns deles assumido grandes proporções, como foi o caso de Canudos, nos primeiros anos da República. Porém, foi principalmente a partir de meados dos anos 1940, e durante a década de 1950, que esses conflitos não apenas se intensificaram, mas também passaram a assumir uma feição nova. Tornou-se corrente, a partir dali, a idéia de que a questão agrária configurava um dos nossos problemas sociais mais sérios, resultado de um padrão concentrador da propriedade da terra instituído ainda no período colonial. Em uma ponta da hierarquia social, esse padrão acarretava riqueza, poder e privilégio. Na outra, produzia pobreza, analfabetismo, fome, doença, subordinação, isolamento.

Tal distribuição, longe de se circunscrever apenas ao campo, produzia efeitos negativos para a nação como um todo. A pobreza gerada excluía do acesso ao mercado de bens industrializados a maior parcela da população do país, uma vez que cerca de 70% dos brasileiros habitavam a área rural até os anos 1950. Portanto, além de resolver o problema rural, restabelecendo a paz em áreas marcadas por uma crescente mobilização social, uma reforma agrária, na visão que se afirmou, seria capaz de colocar o país nos trilhos da industrialização e do desenvolvimento econômico. Com esses argumentos, algumas medidas foram propostas tendo por foco o problema rural brasileiro. Todas elas experimentaram fortes resistências em um Congresso onde os interesses agrários tinham uma expressiva representação.

Uma das diferenças entre o governo Jango e os precedentes foi o envolvimento que o Poder Executivo passou a ter com a questão agrária. Esse envolvimento ficou claro em novembro de 1961, quando o presidente compareceu ao I Congresso Nacional de Lavradores e Trabalhadores Agrícolas, organizado pela União dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas do Brasil (ULTAB) em Belo Horizonte. Sua ação incidiu, por um lado, no terreno da legislação sindical e trabalhista rural, e, por outro, na realização de uma reforma agrária. Foi no governo Jango que os trabalhadores rurais, que até então se organizavam, em função de uma série de complicadores legais, em entidades de caráter civil, como Ligas Camponesas e associações de lavradores, passaram a criar sindicatos e federações, desembocando, posteriormente, na criação da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag). Foi no governo Jango que direitos trabalhistas básicos, pelo menos há duas décadas existentes nas cidades, foram estendidos ao campo por meio do Estatuto do Trabalhador Rural, aprovado em 1963. Foi também no governo Jango que foi criada a Superintendência de Política Agrária (Supra), que tinha por incumbência implementar medidas de reforma agrária no país. Foi ainda o governo Jango que mais efetivamente investiu na aprovação de uma reforma agrária pelo Congresso.

Um dos empecilhos à realização de uma ampla reforma agrária no país era o dispositivo constitucional determinando que desapropriações de terras deveriam se dar mediante prévia indenização em dinheiro. Alegando inexistência de recursos suficientes, o governo, por intermédio do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), passou a propor uma reforma constitucional que permitisse o pagamento das indenizações em títulos da dívida agrária. A solução da questão agrária articulava-se a uma série de outras mudanças constitucionais propostas pelo governo, as chamadas reformas de base, anunciadas como fundamentais para o desenvolvimento nacional. Sua aprovação, contudo, tratando-se de reformas constitucionais, demandava um apoio de 3/5 do Congresso, o que nunca chegou a ser conseguido.

Diante das resistências, o governo passou a pressionar o Congresso de modo firme, juntamente com os movimentos sociais, que demandavam reforma agrária "na lei ou na marra". Foi nesse jogo de pressões que João Goulart anunciou, em 13 de março de 1964, no Comício das Reformas, realizado no Rio de Janeiro, a desapropriação de terras localizadas às margens de rodovias, ferrovias e obras públicas. Ao invés de resultarem na aprovação da reforma, contudo, os atos do governo aprofundaram a ruptura com grupos de centro que lhe davam suporte, como o Partido Social Democrático (PSD), abrindo caminho para o golpe de1964.

Mario Grynszpan

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Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Nei Braga

Ney Aminthas de Barros Braga (Lapa, 25 de julho de 191716 de outubro de 2000) foi um militar e político brasileiro. Foi prefeito de Curitiba, deputado federal, senador e governador do estado do Paraná. Foi também ministro da Agricultura, ministro da Educação e Presidente da Itaipu Binacional.

Infância

Entre 1922-1923 iniciou o curso primário no Colégio São José, aos cinco anos. Aos seis anos, ainda no município de Lapa vai para o Grupo Escolar Dr. Manuel Pedro. Entre 1928 e 1934 fez o curso secundário. Fez uma passagem rápida pelo Colégio Novo Ateneu, da cidade de Curitiba. Depois de ganhar bolsa de estudos dos padres lazaristas iniciou estudos no internato do Ginásio Paranaense (atual Colégio Estadual do Paraná), onde foi colega de Jânio Quadros, que mais tarde veio a ser presidente do Brasil.

Formação militar

Entre 1935 e 1937, ingressou na Escola Militar do Realengo, no Rio de Janeiro, com dezoito anos. Em seu primeiro ano do curso eclodiu a Intentona Comunista. A Escola Militar recebeu ordens para lutar contra rebeldes e bloquear a saída para São Paulo pela estrada do Realengo. Graduou-se em Artilharia. Enquanto isso, em 1935, inicia-se a construção da Estrada do Cerne no Paraná. O pai de Ney Braga, Sr. Antônio Braga, ex-empregado de uma padaria na Lapa, cria uma empreiteira construtora de obras, a Aranha S.A, com outros sócios, visando participar de construção e obras. O convite foi do então governador Manuel Ribas. Em 1938 volta a Curitiba como aspirante a oficial e, aos 22 anos, casa-se com Maria José Munhoz da Rocha, filha do ex-governador Caetano Munhoz da Rocha (1920-1928) e irmã de Bento Munhoz da Rocha Neto (futuro governador do estado do Paraná entre 1951 a 1955). Maria José faleceu precocemente em 1944.

Em fins de 1940 foi promovido a primeiro-tenente. Foi instrutor de Educação Física e de Topografia e técnica de tiro de Artilharia no terceiro regimento de artilharia montada de Curitiba (sediado na praça Osvaldo Cruz, bairro Batel). Também foi instrutor do Centro de Preparação de Oficiais de Reserva (CPOR) nessa primeira metade dos anos 40. Em 1944 foi promovido a capitão. Entre 1945 e 1948, seguindo a recomendação do major Henrique Geisel (irmão do futuro presidente do Brasil Ernesto Geisel (1974-1978)), voltou para o Rio de Janeiro para estudar na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Realengo) para fazer o curso de aperfeiçoamento de oficiais. O diretor de ensino era o então Coronel Humberto de Alencar Castelo Branco (futuro Presidente do Brasil em 1964-1967). Nos anos 40 e 50 a Empreiteira Aranha S.A de seu pai, Sr. Antônio Braga, vai prosperar a ponto de participar da construção da estrada que liga Joinville (estado de Santa Catarina) a Curitiba. Em 1949 retorna a Curitiba e casa, pela segunda vez, com Nice Camargo Riesemberg com quem viverá até seus últimos dias. Em 1950 no terceiro Regimento de Artilharia Montada de Curitiba (agora com sede no B. Boqueirão) foi promovido a major.

Vida pública

Em 1951 seu ex-cunhado, com 46 anos, o Sr. Bento Munhoz da Rocha Neto, do então Partido Republicano (PR) elege-se o novo Governador do Paraná (1951-1955). Ney Braga é nomeado, por ato do novo Governador, membro integrante do Conselho Regional de Desportos do Paraná. Em 1952, no mês de março Ney Braga apóia formalmente a criação da “Cruzada Democrática”, movimento formado por oficiais militares que venceu as eleições do Clube Militar naquele ano. A “Cruzada” era um grupo que criticava os militares “nacionalistas” aos quais Getúlio Vargas estava aliado. O momento era de discussão sobre o ingresso, ou não, do capital internacional no setor petrolífero brasileiro. Esse também é o ano da Comissão Mista Brasil-EUA e da criação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico. Ney Braga foi designado o representante da Cruzada Democrática no Estado do Paraná. No Rio Grande do Sul, Estado vizinho, o representante era o Cel. Emílio Garrastazu Médici, futuro Presidente do Brasil (1970-1974). Faziam parte da Cruzada Democrática também Humberto de Alencar Castelo Branco, Ernesto Geisel, Golbery do Couto e Silva, Jurandir Mamede, todos personagens de primeira grandeza do futuro regime militar instalado no Brasil. Em agosto de 1952 o major Ney Braga recebe, da presidência da República, o grau de “Cavaleiro” da ordem do mérito militar.

É nesse ano de 1952 que Ney Braga aceita o convite do cunhado e ao mesmo tempo governador Bento Munhoz da Rocha Neto (Partido Republicano), para substituir o tenente-coronel do Exército Albino Silva (futuro Chefe do Gabinete Militar do presidente João Goulart e futuro presidente da Petrobrás, 1963-1964) e assumir a antiga chefatura de polícia do estado do Paraná (equivalente secretaria de estado da Segurança Pública). Tem 35 anos. Nesse cargo conhece e tem de enfrentar de perto o grave problema de posse de terras no sudoeste e oeste do Paraná. Um problema sério, causador de muitas atrocidades, que há mais de 30 anos não encontrava solução. Este cargo lhe abriu contato direto com autoridades políticas importantes e também para o tornar conhecido em todo o Estado do Paraná. A partir de então, Ney Braga deixará de ser apenas um militar e começa a construir sua longa trajetória de liderança na política.

Primeiro prefeito eleito pelo voto direto

Em 1953 recebe o convite de três vereadores de Curitiba (Mylto Anselmo da Silva, Edward de Menezes Caldas e João Stival) para ser candidato a prefeito da capital do estado do Paraná. A indicação foi do então prefeito Ernani Santiago de Oliveira e obteve o importante apoio do governador Bento Munhoz da Rocha Neto. Ney Braga não era filiado a qualquer partido político. Afasta-se da chefatura de Polícia do Estado e aceita ser candidato a prefeito, mesmo sem filiação partidária. O partido que o lançou foi o PSP (Partido Social Progressista), do então governador de São Paulo, Ademar de Barros (interventor durante o Estado Novo e eleito governador do poderoso estado de São Paulo em 1947). Ademar de Barros também foi responsável pela indicação de João Café Filho para ser o vice-presidente de Getúlio Vargas (Partido Trabalhista Brasileiro) nas eleições de 1950.

Getúlio Vargas, então presidente do Brasil, vem a Curitiba em 19 de dezembro de 1953 e anuncia a criação da Eletrobrás. Na questão da Petrobrás, Ney Braga pertence ao grupo de militares que apóia o monopólio nacional do Petróleo. Em 3 de outubro Getúlio Vargas cria a Petrobrás. Nesse mesmo ano o colega de ginásio de Ney Braga, Jânio Quadros, se elege Prefeito do município de São Paulo pelo PDC (Partido Democrata Cristão). Em 1954, 24 de agosto, suicida-se o presidente Getúlio Vargas (PTB). Enfraquece-se com isto a União Democrática Nacional (UDN) por ter sido o Partido que mais duramente se opunha ao presidente. O suicídio do Presidente revela-se, entre outras coisas, um golpe na força crescente da oposição ao regime varguista. Abrem-se os caminhos para a vitória eleitoral de Juscelino Kubitschek de Oliveira (Partido Social Democrata) à presidência.

Mesmo sem estar filiado a qualquer partido, Ney Braga vence as primeiras eleições diretas para prefeito de Curitiba em 1954. O município tinha aproximadamente 200 mil habitantes. Obteve 18.327 votos (28,7% do total). Antes dele os prefeitos eram nomeados pelo Governador. O segundo colocado foi Wallace Tadeu de Melo e Silva (PST). Ney Braga assume a prefeitura de Curitiba em 15 de novembro.

Com a morte de Getúlio, a presidência do Brasil passa para João Café Filho (PSP), que convidará, no ano seguinte, o então Governador do Paraná, o Sr. Bento Munhoz da Rocha Neto (PR) para assumir o Ministério da Agricultura, onde ficará por um ano. Em 1955, depois de resolvidas as discussões públicas sobre sua eventual candidatura à vice-presidência da República, Bento Munhoz da Rocha Neto renuncia ao Governo do Paraná (3 de abril) e em 7 de maio assume o Ministério da Agricultura do Presidente João Café Filho. Jânio Quadros, agora sem partido, mas apoiado pelo PTN e PSB vence o grande líder paulista Ademar de Barros (PSP) nas eleições estaduais e assume o governo do estado de São Paulo. No mesmo ano o já deputado federal Leonel de Moura Brizola (PTB) elege-se prefeito de Porto Alegre. O ministro da Guerra, Henrique Lott, dá um golpe preventivo para garantir a posse do Presidente eleito Juscelino Kubitschek de Oliveira. A situação é de crise institucional.

Moysés Lupion (PSD-UDN) vence as eleições de 1955 e assume a governadoria do estado do Paraná. Lupion era oposição a Bento Munhoz da Rocha e este será seu segundo mandato como governador do Paraná. Juscelino Kubitschek, também do (PSD) assume a Presidência da República em 1956. Este é o segundo ano de mandato do prefeito Ney Braga. A partir de então Ney Braga terá partidos opositores tanto no estado quanto no Governo Federal e, além disso, seu principal apoio político (Bento Munhoz da Rocha) ocupa-se com o Ministério da Agricultura.

Em 1956, a prefeitura de São Paulo assinará termo de contrato com a SAGMACS (Sociedade de Análises Gráficas e Mecanográficas Aplicadas aos Complexos Sociais), fundada em 1947 e coordenada pelo padre Lebret (1897-1966) para realizar a primeira análise da aglomeração paulistana e dar início a um projeto de planejamento do desenvolvimento urbano de São Paulo. A pesquisa da SAGMACS foi um dos estudos mais profundos e complexos realizados sobre a metrópole paulista. A SAGMACS era formada por uma equipe multidisciplinar, interessada em aplicar ao urbanismo brasileiro as idéias do movimento Economia e Humanismo, do Padre Lebret, dominicano francês que teve grande influência sobre o pensamento social católico brasileiro até meados daquela década. Esta mesma empresa terá um papel decisivo na criação do Plano de Desenvolvimento Econômico do Paraná, no primeiro mandato de Ney Braga como Governador pelo Partido Democrata Cristão.

Ações, prêmios e projeção nacional

Em 1957 o Instituto Brasileiro de Administração Municipal (IBAM), homenageia Curitiba com o primeiro lugar no prêmio “Os dez municípios brasileiros de maior progresso”. Ney Braga foi a Brasília, capital federal, receber das mãos do Presidente Juscelino Kubitschek a homenagem. É o primeiro grande destaque de sua carreira política. Em 1958 encerra-se o mandato do Prefeito de Curitiba. Dentre suas ações na prefeitura de Curitiba, destacam-se: reorganização do cadastro fiscal e a identificação de 35 mil propriedades que nunca haviam sido tributadas. Divisão da cidade em cinco zonas fiscais concêntricas. Criação do Mapa de Valores Tributários. Criação do Departamento de Planejamento e Urbanismo, depois transformado em IPPUC pelo Prefeito Ivo Arzua Pereira (62-67). (Estava nesse departamento o Sr. Saul Raiz [prefeito de Curitiba – 75-79]. Ney Braga assinou a lei que cria o Mercado Municipal de Curitiba (14 de outubro de 1955). O projeto é de Saul Raiz e a obra foi inaugurada em 1958, quando Ney Braga estará afastado da Prefeitura para participar das eleições a deputado federal. Eletrificação nos bairros. Regulamentação do transporte urbano com a criação de linhas e horários fixos e a pavimentação dessas linhas que ligavam o centro aos bairros, em especial a ligação do centro com o bairro de Santa Felicidade. Construção da Estação Rodoviária. Criação de escolas municipais nos bairros. Instalou telefones automáticos, abolindo a central de chamadas. Seu mandato na prefeitura foi de 15 de novembro de 1954 a 15 de novembro de 1958.

Ascensão de um novo líder político

Em 1958 elegeu-se deputado federal pelo Partido Democrata Cristão (PDC). É o segundo deputado mais votado, só perdendo para Jânio Quadros, que se elege Deputado Federal pelo PTB do Paraná. Nesse mesmo ano rompe relacionamento com o ex-governador e cunhado Bento Munhoz da Rocha Neto. Daí em diante Ney Braga começará a construir sua liderança incontrastável. Formará um novo grupo político em torno de ideais democráticos e cristãos e com vistas à modernização econômica do Estado do Paraná. Seu primo, João Antonio Braga Côrtes, morando em Apucarana, foi fundador de dezenas de sédes regionais do PDC - Partido Democrata Cristão no Norte do Paraná, Vale do Ivaí, o qual estruturou sua candidatura naquela Região a qual na época era a de maior densidade populacional do Estado. Em 1961 elege-se governador do Estado do Paraná e governará entre 1961 a 1965, agora já como uma das maiores lideranças políticas nacionais, do Partido Democrata Cristão. Em 1963 atinge o posto de general do Exército.

Construtor do Paraná moderno

De 1961 a 1964 Ney Braga transforma o Estado do Paraná numa economia moderna. O estado viverá seu momento de maior prosperidade e de criação da infra-estrutura econômica que o caracterizará nos trinta anos seguintes. Ney Braga foi o responsável pela criação do Plano de Desenvolvimento Econômico do Paraná, projeto ousado de industrialização baseando em financiamento com recursos próprios do Estado.

Criou as seguintes empresas como instrumentos de apoio ao gigantesco projeto de modernização: Companhia de Desenvolvimento do Paraná (Codepar), depois de 1968 convertida em Banco de Desenvolvimento do Paraná (Badep); Companhia Agropecuária de Fomento Econômico do Paraná (Café do Paraná); Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar); Companhia de Informática do Paraná (Celepar); e Fundação Educacional do Paraná (Fundepar) para implementar o plano paranaense de educação.

Ney também fortaleceu a Companhia Paranaense de Energia Elétrica (Copel); reestruturou o Banco do Estado do Paraná (Banestado); e asfaltou a Rodovia do Café, concretizando o primeiro importante esforço de ligação rodoviária do norte cafeeiro ao litoral do Estado, o que permitiu a efetiva ativação do Porto de Paranaguá e a integração física de “dois Paranás”: o norte cafeeiro e o litoral e planalto curitibano.[1][2]

Regime militar e afirmação política

Em 1964 cai o regime democrático no Brasil. As forças armadas assumem os destinos políticos do Brasil. Ney Braga, como poucos, pode conciliar sua formação militar ao seu carisma e talento político. Desde o início do regime militar ocupará postos chaves na nova estrutura de poder do Estado brasileiro trazendo amplos benefícios ao Estado. Será o escolhido para assumir o Ministério da Agricultura do presidente e marechal Humberto de Alencar Castelo Branco e lá ficará de 19 de novembro de 1965 a 12 de agosto de 1966. Essa projeção política nacional dará forças especiais ao político, permitindo consolidar sua liderança no Estado e fazer todos os sucessores a governador até a sua volta ao comando do estado em 1979, com a exceção de Haroldo León Perez.

No ano seguinte (1967) foi eleito senador do Paraná pela ARENA (Aliança Renovadora Nacional). Esse é um período crítico na vida política brasileira. Em 1968, Ney faz parte de um grupo de senadores da ARENA que se manifesta publicamente contra o Ato Institucional n. 5 (AI-5).[3] Mesmo sendo militar, Ney era convicto democrata, e, por sua oposição ao AI-5, foi inclusive ameaçado de cassação, permanecendo no ostracismo político durante o governo de Emílio Médici.[4][5][6] Será senador até 1974, quando assumirá o Ministério da Educação do Governo Ernesto Geisel, de 15 de março de 1974 a 30 de maio de 1978 tendo criado o Crédito Educativo, o Fundo de Assistência ao Atleta Profissional, o Conselho Nacional de Direitos Autorais e diversos incentivos às artes e cultura brasileiras, com total reconhecimento do meio artístico nacional. Ney Braga volta a ser governador do Estado do Paraná, por eleições indiretas, de 1979 a 1982.[1]

Segundo Governo

Ney voltou ao governo do Paraná em 1979 para um novo período de operosa administração voltada para o aumento da renda per capita do paranaense e para o desenvolvimento social do Estado. Sua segunda gestão dedicou particular atenção à interiorização do apoio à produção, a melhorias do setor de transportes, a reativação do porto de Antonina, a definição do traçado da Ferrovia da Soja, a legalização de 46 mil propriedades rurais e a construção de 26 mil casas populares. Em seu segundo governo, também tiveram início o Programa de Ação Municipal (Pram), no qual a sociedade organizada e os poderes municipais decidiam quais investimentos de infra-estrutura urbana seriam financiados pelo programa, e o Projeto Integrado de Apoio ao Pequeno Produtor Rural(Pró-rural).[1]

A criação da Secretaria da Cultura e do Esporte assim como do Programa do Voluntariado Paranaense (Provopar) foram outros dois dos pontos altos de seu segundo governo.[7] Nesse período, o Paraná também se destacou pela seu programa de vacinação contra a poliomielite e pelos seus programas de saúde materno-infantil (mais especialmente o planejamento familiar, a prevenção do câncer ginecológico, a saúde escolar e o aleitamento materno) coordenados pela Dra. Zilda Arns a convite do então Secretário da Saúde Oscar Alves, que também organizara o programa estadual contra o cigarro.[8][9]

Durante a segunda gestão Ney Braga, o governo do estado do Paraná lançou a campanha “Zequinha - O ICM das Crianças” com a intenção de aumentar a arrecadação de impostos[10][11]. Postos autorizados distribuíam álbuns e figurinhas ao público em troca da primeira via de notas fiscais ao consumidor. Aqueles que completavam o álbum recebiam um cupom numerado para concorrer a vários prêmios.

Ainda no segundo governo Ney Braga, a Copel idealizou um programa de eletrificação rural com custos razoavelmente baixos para os proprietários rurais. Batizado de Clic Rural, o programa foi financiado pelo Banco Mundial e implantado pelos governos que o sucederam.[12][13]

Candidatura ao Senado e presidência da Itaipu

Em 1982, Ney Braga tenta mais uma vez eleger-se senador. Seu vínculo com as forças armadas é a principal causa de não ter sido eleito. Esse é o momento da luta pelas Diretas Já. Ao se desincompatibilizar para concorrer ao senado, Ney passa o cargo de governador a seu vice-governador, José Hosken de Novaes. Ao contrário do que ocorre muito frequentemente na política, Hosken de Novaes apoiou os candidatos da situação sem favorecê-los com recursos públicos e entregou as contas do governo do estado perfeitamente em ordem, fato esse que é reconhecido publicamente por seus adversários políticos.[14]

Em 1985, Tancredo Neves convida Ney Braga para assumir a presidência da Itaipu Binacional, maior usina hidrelétrica do mundo, aonde ele encerra sua carreira política em 1990.[1] Quando o ex-governador assumiu, Itaipu supria menos de 5,0% da energia que era consumida nas regiões Sul e Sudeste do Brasil. Quando saiu, a usina supria sozinha 28% de todo o consumo daquelas regiões. Além da criação do Ecomuseu, a gestão Ney Braga preocupou-se com a reprodução em cativeiro de aves e animais a fim de repovoar as matas com essas espécies. A margem brasileira do lago foi reflorestada para proteger suas águas e seus peixes da ação dos agrotóxicos das lavouras vizinhas assim como para proteger as lavouras da ação dos ventos e neblina do lago.[15]

Seu nome nunca esteve ligado a nenhum escândalo. Apesar de todo seu contato com o poder, encerrou sua carreira política residindo na mesma casa onde sempre morou em Curitiba, modestamente e sem fortuna.[16][17]

Ney Braga não deixou sucessores políticos mas é considerado o principal formador de lideranças políticas no estado, dentre governadores, prefeitos, deputados, senadores e ministros da República.[18] É comum ouvir a expressão "braguismo" para se referir a um grupo político e intelectual ligado ao modelo desenvolvimentista e cristão que se desenvolveu em torno de sua autêntica liderança. Seu maior legado foi a ética na política e a disposição para modernizar o estado do Paraná, tendo liderado um movimento de defesa dos interesses do estado do Paraná, conhecido como paranismo. Não há dúvidas que há um Paraná de antes e um Paraná após Ney Braga.

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Fonte: Orvil - 2ª PARTE - A SEGUNDA TENTATIVA DE TOMADA DO DO PODER - CAPÍTULO II - A AÇÃO COMUNISTA
9. Cedendo às pressões

[Leia o "Orvil" na íntegra  - cópia xerox em pdf ou em "formato web" neste link, onde o trabalho da nova formatação está em andamento]

Com o fracasso do Plano Trienal, Jango perdera a oportunidade de seguir uma linha moderada e voltava-se para o papel de populista, que melhor se ajustava ao seu passado. Isso era o que desejavam as esquerdas. O PCB fez publicar uma Resolução Política (8), na qual, além de mostrar insatisfação com o Ministério e sua política conciliatória, testava o crescimento e a radicalização do movimento de massas e vislumbrava a possibilidade de novas vitórias:

"Cresce, por outro lado, a combatividade das forças patrióticas e progressistas, avança e se radicaliza o movimento de massas, abrindo-se, diante de nosso povo, perspectivas de lutas vigorosas e maiores vitórias".

O Partido exige novos passos adiante no movimento sindical e preconiza a utilização de novas formas de luta para deflagrar uma greve geral:
"A elevação do movimento de massas também está vinculada à justa utilização de diferentes formas de luta. Comícios, manifestações, suspensão de trabalho, greves de solidariedade, etc., são formas de luta que podem contribuir para melhor preparação da greve geral política".

No campo, atesta o PCB:
"Os camponeses multiplicam o número de suas organizações, desencadeiam lutas a fim de que ao latifundiários sejam compelidos a respeitar direitos já conquistados, defendem-se, muitas vezes de armas na mão, dos assaltos dos grileiros, iniciam ações de ocupação de terras".

Com espírito otimista, o Partido encerra a Resolução:
"Através da lutas, nosso povo consolidará as vitórias já alcançadas e marchará para novas e decisivas vitórias".

Enquanto tudo isso acontecia, a classe média tinha a esperança de que a Nação aguenta-se e sobrevivesse ao "acidente" João Goulart. Mas, a esquerda e a direita consideravam-no incapaz de governar.

A mudança do Ministério generalizou a crença de que Jango não mais acreditava nos processos institucionais: "Brizola temia que a reforma ministerial pudesse ser o prelúdio de uma tentativa de Jango para permanecer no poder" (9).

Essa mudança fez recrudescer as agitações em todo o País. Os comunistas, prosseguindo na mesma tática, sempre colocavam as metas um pouco mais além, mobilizando as massas como um constante elemento de pressão.

Em 23 de agosto de 1963, um dia antes do aniversário da morte de Getúlio Vargas, o CGT realizou uma grande concentração em torno de seu busto, na Cinelândia, com a garantia de tropas do Exército e com a presença do Presidente da República. Sobre o discurso do Presidente, assim se refere a revista "Novos Rumos":

"Fazendo, afinal, uso da palavra o presidente João Goulart pronunciou, na verdade, dois discursos.

O primeiro caracterizou-se pelo tom vago e vacilante com que se referia, repetindo frases já várias vezes pronunciadas, à necessidade de reformas de base e às difícieis condições de vida do povo.

Foi quando se verificou a manifestação de desagrado da massa popular, exigindo de Jango a definição.

O presidente mudou, então, visivelmente, o plano do discurso, emprestando-lhe um tom mais vigoroso, embora fugindo, ainda aqui, a afirmações de repúdio à política de conciliação. Nessa parte, fez questão de mencionar o discurso do CGT - a 'entidade máxima dos trabalhadores brasileiros' como afirmou -, comprometendo-se fazer com que em 1964, nas comemorações de 24 de agosto, já fossem festejadas as reformas de base convertidas em realidade. Afirmou que a consecução dessas reformas depende, fundamentalmente, da mobilização dos trabalhadores e do povo, dizendo que nenhuma reforma social foi feita, até agora, senão sob a pressão das massas"
(10).

Se dúvidas havia, agora não mais existiam. O próprio Presidente da República pedia a pressão das massas. Contra quem?
O Congresso, obviamente. O PCB, eufórico, conclamava o povo à luta por "decisivas vitórias" e o CGT entrava em estado de alerta.

As greves dos portuários de Santos, dos metalúrgicos e dos bancários, e os discursos de Arraes e de Brizola, cada vez audaciosos, mantinham a população excitada e angustiada. As invasões de terras prosseguiam. Tudo parecia conduzir, em setembro de 1963, para uma revolução de esquerda.

As Forças Armadas, entretanto, vilipendiadas, observavam a constante degeneração dos valores e da ordem. A revolta dos sargentos de Brasília, em 12 de setembro de 1963, iniciou um novo processo.

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(8) Novos Rumos n9 229, de 12 a 18 de julho de 1963, pág. 3.
(9) Skidmore, T: "Brasil: de Getúlio a Castelo", Ed. Saga, R:J., pág,. 311.
(10) Novos Rumos n9 236, de 30 de agosto a 5 de setembro de 1963, pág. 8.
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FIM DO CAPÍTULO II

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2ª PARTE - A SEGUNDA TENTATIVA DE TOMADA DO DO PODER - CAPÍTULO III - O ASSALTO AO PODER
1. A rebelião dos sargentos de Brasília

Continua no próximo "post" desta Série
[Leia o "Orvil" na íntegra  - cópia xerox em pdf ou em "formato web" neste link, onde o trabalho da nova formatação está em andamento]


Nota:
Este "post", de 2012, atualiza este outro, publicado em 2011:

09/03/11
Revolução de 1964 - Os 31 dias de Março (9) - Seleção de notícias do dia 09 Mar 1964 + Leituras complementares