WirelessBRASIL - Bloco RESISTÊNCIA

Março 2012             


18/03/12
• Revolução de 1964 - Os 31 dias de Março (18) - Seleção de notícias do dia 18 Mar 1964 + Leituras complementares

Matérias transcritas nesta página:

Fonte: Acervo da Folha de S. Paulo
[17/03/64]   FIESP apela: Empregados devem ir à "Marcha da Família"

Fonte: Acervo da Folha de S. Paulo
[17/03/64]   Audácia e Insensatez

Fonte: Acervo da Folha de S. Paulo
[17/03/64]   Dentro da Constituição

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (pág 06)
[18/03/64]   Assalto ao regime - Editorial

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (pág 06)
[18/03/64]   Os elegíveis - Editorial

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (pág 04)
[18/03/64]   Novo Governo para "reformas integradas" - Coluna do Castello

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (pág 04)
[18/03/64]   Manifesto dos Ministros militares (em apoio às reformas de Jango) - Coluna do Castello

Leituras complementares:

Fonte: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Auro de Moura Andrade

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ranieri Mazzilli
 

Fonte: Acervo da Folha de S. Paulo
[17/03/64]  FIESP apela: Empregados devem ir à "Marcha da Família"

A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo fez um apelo aos industriais de São Paulo para que facilitem  a presença de seus empregados na "Marcha da Da Família com Deus pela Liberdade", amanhã, à 16 horas, com início na Praça da República.

O comunicado da FIESP conclama ainda os industriais a comparecerem com suas famílias À passeata, que é uma iniciativa de intidades democráticas femininas do Estado de São Paulo, em defesa das tradições cristã e democráticas do povo brasileiro.

A Associação das Irmãs de Anita Garibaldi, do Rio Grande do sul, enviou mensagem às entidades promotoras da "marcha", nos seguintes termos:
"Estamos convosco, mulheres bandeirantes. Podem ficar certas de que as esposas e mães dos homens que nasceram livres também não admitirão aqui o triunfo dos bárbaros vermelhos, inimigos de nosso Deus e de nossa família. Avante para a praça pública para defender as liberdades por que tombaram os nossos heróis de Monte Castelo e de tantas lutas gloriosas. Estamos promovendo idêntico movimento em várias cidades do valoroso Rio Grande do Sul. Os comunistas e seus sequazes não passarão".

2.500 ÔNIBUS

Segundo informa o comitê central da Marcha da Família, mais de 400 cidades do interior de São Paulo enviarão delegações que chegarão em mais de 2.500 ônibus até 12 horas de amanhã. Da Guanabara virá uma delegação, que já está sendo formada. De Minas eo Rio Grande do Sul também. Uma comissão de senhoras de São Paulo esteve ontem em Brasília, onde convidaram os srs. Auro Moura Andrade e Ranieri Mazzili a comparecerem à marcha, bem como líderes democráticos de varias bancadas na Câmara e no Senado. Hoje pela manhã seguirá uma delegação para a Guanabara a fim de convidar altas personalidades, principalmente patentes das Forças Armadas entre as quais o mal. Dutra, o brig. Eduardo Gomes, o alm. Sílvio Heck e o mal. Odílio Denis.
No fim da noite ontem chegaram vários ofícios de sindicatos democráticos comunicando que deverão participar da marcha, e um comunicado da Fundação Para o Livro do Cego no Brasil, informando que deverá mandar representantes à marcha.

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Fonte: Acervo da Folha de S. Paulo
[17/03/64]  Audácia e Insensatez

Os acontecimentos que, na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, o chamado "território livre", impediram que o superintendente da SUPRA falasse aos estudantes devem ser lamentados, sem dúvida e por muitos motivos, mas não devem também ser exagerados, como parece desejar aquela autoridade federal, com objetivos que não é difícil perceber.
Antes de tudo repita-se aqui o que mais uma vez temos dito: não merece apoio algum a intolerância dos que, pela força pretendem impedir que se manifestem livremente seus antagonistas. Nem pode o governo fechar a boca aos seus adversários, nem podem os adversários do governo barrar o caminho que conduza os representantes deste às tribunas  em que se propõe falar. Essa intolerância é incompatível com o espírito democrático e, se entretida e cultivada, só poderá levar á ditadura, seja ela de direita ou de esquerda.

Forçoso é, porém, separar do episódio do largo de São Francisco as suas componentes para evitar apressadas conclusões. Parece indiscutível que os estudantes da Faculdade, de todas as facções, desejavam garantir ao superintendente da SUPRA o direito de falar-lhes. Deles não deve ter partido, pois, o gesto de intolerância, a não ser que alguma pequena minoria, de ânimo agitador, tenha agido nesse sentido, procurando assim implantar a confusão - o que aliás não tem sido raro em reuniões estudantis  de natureza política, em que uns poucos, mal intencionados, manobram  a "opinião" da maioria da classe que, por desinteresse ou outros motivos, se mantém ausente.

É indiscutível que além dos estudantes da Faculdade havia muita gente de fora, seja do corpo discente de outras escolas, seja daquele tipo que se presta a encher comícios, lotar recintos, fazer ato de presença para nas ocasiões oportunas entrar com suas manifestações dirigidas ou encomendadas. Entre essa gente é possível  perceber alguns conhecidos agentes da esquerda, ou melhor, comunistas, que não haveriam de perder uma oportunidade daquelas para criar um clima de "intranquilidade", que depois se prestasse a manipulações contrárias ao governo do Estado.

Finalmente, ninguém ignora que o sr. Pinheiro Neto, o superintendente da SUPRA, tem agido, mais de uma vez, como elemento de agitação e provocação. É uma espécie de patrulha avançada, que procura meios e modos de desencadear as reações contrárias, das quais depois emerge como espécie de mártir oficial.

Some-se a tudo isso a tradição que existe em São Paulo de respeitar, a polícia, uma boa parte do "território livre", e especialmente o interior da escola mesmo quando dentro dela se desenvolve a agitação. Isto cria enormes dificuldades à ação do poder público na manutenção da ordem e, particularmente, ao oferecimento de garantias a qualquer pessoa, naquele ambiente.

Todas essas ponderações devem ter sido feitas ao sr. Pinheiro Neto que, se empenhado sinceramente em explicar os objetivos das reformas que o governo preconiza, poderia escolher outro local, onde o policiamento feito pelo Estado pudesse desenvolver-se sem as peias já apontadas.

Não é desprovida de senso, infelizmente, a hipótese de que o próprio tumulto tenha sido começado  por pessoal conduzido à praça para esse fim. De tumulto em tumulto, adequadamente preparado, chegar-se ia à conclusão de que reina no país um clima de insegurança, quando na verdade o que se vê é o povo, em sua esmagadora maioria, trabalhando em paz e em ordem.

Se, porém, o tumulto foi desencadeado pelos adversários das reformas, num gesto indesculpável de intolerância, então termos que concluir que a audácia dos provocadores se junta á insensatez dos provocados. E o resultado disso bem pouco servirá ao fortalecimento da democracia.

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Fonte: Acervo da Folha de S. Paulo
[17/03/64]  Dentro da Constituição (Manifestações de Auro de Moura Andrade e Ranieri Mazzili)

Tanto as manifestações do sr. Auro de Moura Andrade, presidente do Senado Federal, quando do sr. Ranieri Mazzili, presidente da Câmara dos Deputados, na abertura dos trabalhos da presente sessão legislativa, encerram aquilo que insistentemente se tem mencionado aqui: reformas sim, mas dentro da Constituição.

Cada um no seu feitio, e de acordo com sua própria orientação política, os presidentes das duas casas foram claros em ressaltar a responsabilidade do Congresso em face da situação geral do país.  Não é lícito ao Poder Legislativo, omitir-se diante da realidade nacional, que reclama efetivamente algumas modificações profundas em sua estrutura. Deve repelir a pecha de imobilismo e de insensibilidade que lhe é atirada às vezes com razão. Mas não pode permitir que, a pretexto de serem inadiáveis e urgentes as tão proclamadas reformas, elas se façam sem a estrita obediência aos cânones legais.

O sr. João Goulart pode achar "morosa e tarda" a ação legislativa, podem alguns elementos vinculados à área do Executivo por em dúvida a autenticidade da representação parlamentar, mas a opinião pública brasileira, a boa parcela da população que ainda não se deixou pela onda da subversão em marcha, continua a confiar no seu Congresso. Reconhece-o como o poder que mais legitimamente a representa , embora deplorando suas fraquezas, acredita na sua capacidade de decisão.

É desse apoio que se deve alimentar o Congresso Nacional, para não abrir mão de suas prerrogativas, para resistir às pressões ilícitas e para fazer o que lhe compete. Sem ter medo de fantasmas, pode reduzir o movimento reformista às suas verdadeiras e legítimas proporções. Não algo que se queira impor à força, por cima das leis e em clima puramente emocional, mas medidas pensadas, correspondentes verdadeiramente ao interesse da nação e adotadas mediante estrito respeito à ordem jurídica vigente.

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Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (pág 06)
[18/03/64]   Assalto ao regime - Editorial

Vivemos a hora dos ultimatos. Ontem, o do Presidente da República; hoje, o do CGT. Outros se anunciam, e virão por aí com o mesmo tom e quase as mesmas palavras.  Na mira de todos eles, o Congresso e a Constituição. Ultimatos em série, homogêneos e ritmados, em for ma de campanha. A campanha é contra as instituições.

A partir do comício da Central do Brasil, o País assiste a um espetáculo de transbordamento de poder. Do palanque da praça, blindado sob a proteção sindical e militar, o Presidente da República decidiu abrir as comportas do poder arbitrário. contra a autoridade orgânica das instituições. Essa orgia de arbítrio inunda agora todos os setores da vida nacional. Alcança no cerne as atividades públicas e a própria casa de cada cidadão. Aqui e ali marca profundamente o seu rastro de apreensões e intranquilidade. Somos hoje uma Nação de perplexos e só a custo nos convencemos de que não caiu sobre nós um manto surrealista. Mas é o próprio Governo quem se encarrega de comprovar, a cada passo, que estamos diante de uma situação real, e que essa realidade não poderia ser mais desalentadora.

O Governo está eufórico. Sua máquina de decretos foi posta a funcionar em máxima potencia. Ela produz desapropriações, encampações, intervenções, invasões, monopólios, tabelamentos. com um ímpeto que toca o paroxismo. Cada brasileiro se pergunta, nesta altura, a que extremos delirantes pretende chegar a mais nova e excitada indústria governamental, o único empreendimento que não espera pelas reformas para entrar em ação. Só existe a certeza generalizada de que os limites da legalidade deixaram de constituir barreira respeitável à corrente transbordante dos arbítrios do Governo.

Essa atmosfera dramática. engendrada artificialmente pelo poder desbordante do Presidente da República, paralisa as atividades vitais do País. Não há economia que possa suportar ao mesmo tempo os tremendos impactos da inflação monetária e o esmagamento das pressões políticas, sobretudo quando dirigidas especificamente contra os que produzem e fazem circular a riqueza nacional. No caso brasileiro. bastaria a crise inflacionária desapoderada para deter e, a seguir, asfixiar o nosso processo de desenvolvimento econômico. Foi preciso, entretanto, que o Governo sobrepusesse aos fatores negativos da conjuntura o requinte do desencorajamento oficial. É quando chega o instante quase desesperado de abrir perspectivas para o crédito externo, que viria em seguida às negociações do reescalonamento das nossas dívidas, o dispositivo de pressões manipulado pelo Presidente da República aperta ainda mais as suas craveiras e exibe aos credores estrangeiros a cena devastada. Em vez de um País que caminha para a normalização e equilíbrio de suas finanças,  País minado pelas dissensões violentas da radicalizarão ideológica. Não a palavra abalizada dos técnicos, mas os gritos de guerra do CGT. Não unia mensagem de trabalho e produtividade, mas as greves políticas, a suspensão dos investimentos, a insegurança e a estagnação em todas as frentes.

Já tratamos do primeiro ultimato ao Congresso. Vejamos então o do CGT. Naquele caso, consideramos a autoridade legítima que se excedia na sua esfera de competência, a ponto de pretender substituir os fundamentos da democracia representativa pela farsa bonapartista da solução plebiscitária. Mas no ultimato da Confederação Geral dos Trabalhadores, órgão ilegal de uma máquina de pressões espúrias, só nos fica para considerar o absurdo da situarão a que chegamos. Aqui o ilegal não bota apenas a cabeça de fora: erige:se em competência da República e vai à suprema ousadia de contestar o poder do Congresso. Nutre-o de substância política e audácia subversiva o próprio Presidente da República, ao transferir para a entidade clandestina todo o papel que estaria reservado legitimamente ao partido que chefia, o PTB.
O Partido Trabalhista Brasileiro poderia ser o condutor democrático natural dos problemas e aspirações das classes trabalhadoras. Todavia, nas aferições de poder do Sr. João Goulart, quem conta é o clube de agitação dos Pacheco, Pelacani, Riani & Cia.

As comportas do arbítrio vão abrir-se ainda mais. Outros comícios e novos ultimatos já estão programados no calendário palaciano. É fim fundamental, nesta hora de apreensões dramáticas, que aos exemplos de resistência viril que as forças democráticas esperam do Congresso - alvo principal dos ultimatos se acrescente o momento de defesa da consciência legalista e livre do País, como um todo. Essas resistências poderão restabelecer o equilíbrio democrático, ferido por tantos atos de violência. Para isso, a palavra de ordem terá que ser não capitular.

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Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (pág 06)
[18/03/64]   Os elegíveis - Editorial

Para que a democracia brasileira não desapareça num inglório pacto de Munique é preciso que os candidatos à Presidência da República compreendam a imensa responsabilidade que têm nos ombros desde o Comício da Central do Brasil e desde o envio da Mensagem Presidencial ao Congresso. O Presidente João Goulart lançou seu desafio à ordem democrática brasileira. Entre cada unia das frases do Comício e em cada entrelinha da Mensagem qualquer entendedor medíocre ouviu e leu que o Presidente acha impossível governar dentro dos limites e do sistema de equilíbrio do regime constitucional que jurou defender. Por isso mesmo é inútil e extremamente perigoso menosprezar esse adversário da democracia brasileira. Aumentou sua periculosidade. Avantajou-se sua estatura. Durante o próprio comício, enquanto discursava o Sr. Leonel Brizola. tinha-se a impressão antiga de que o Presidente hesitante usava o desbocado Sr. Brizola para dizer as coisas que ele apenas pensava mas preferia não dizer. Terminado o discurso presidencial os papéis pareciam trocados. E depois da Mensagem bem se pode afirmar que agora é o Sr. João Goulart quem diz alto e bom som o que o Sr. Brizola dizia até há pouco. De qualquer maneira, os dois inelegíveis  continuam de mãos dadas. Todas as reformas ora propostas da Constituição tendem a desembocar na reforma do capitulo das inelegibilidades. Isto se for necessário, para que se possam eleger um ou outro. Isto se, até lá, imposto ao Pais o novo sistema de governo plebiscitária, não virmos o Sr. João Goulart confirmado, num referendo de cabresto, Presidente Perpétuo do Brasil.

À grande e necessária luta pertence agora aos elegíveis. O povo brasileiro sabe que, ainda que se devesse reformar a Constituição, é imoral reformá-la em qualquer capítulo que beneficie os atuais detentores do poder. Não se mudam regras durante o jogo. Mas não é menos verdade que O povo anseia pelas reformas do base que este Jornal tem defendido sem descanso:  a agrária, a bancária, a tributária, a administrativa.

Nnguém melhor do que os elegíveis, do que os candidatos ao próximo quinquênio, para arrancar às mãos do Presidente João Goulart a bandeira das reformas. Os elegíveis, os que honestamente se vão lançar ao pleito, têm a seu favor essa inestimável vantagem: representam em si mesmos a garantia de que a democracia continuará sendo o regime do Brasil. No seu próprio existir de candidatos repousa a garantia do único continuísmo que interessa ao povo brasileiro: o continuísmo da lei e da ordem, da liberdade e da dignidade humana.

Mas não esqueçam os candidatos que o Presidente inelegível, com sua súbita ofensiva de Comício e Mensagem, preencheu  a área de silêncio dos elegíveis, dos candidatos legítimos, e dos partidos também. O Presidente da República é hoje um homem sem candidato e sem partido. Sem candidato porque o seu candidato - João Goulart - é inelegível, e sem partido porque não fala mais em termos partidários e si, plebiscitários.. Mas falou vigorosamente em reformas de base e

os candidatos elegíveis simplesmente não podem esquecê-las nos seus pronunciamentos. Unam-se, desde já, numa frente institucional, numa linha de defesa da democracia, e declarem, juntos, que estão atentos aos anseios de reforma do povo. Façam sentir a sua presença não como - o que seria legítimo no processo normal de uma democracia - homens de ideologias diferentes em disputa do Governo do País. Procurem, primeiro, o denominador comum da frente institucional. Caracterizado no País o quadro eleitoral, a inevitabilidade das eleições, encontrem seus rumos pessoais dentro desse denominador comum.

Mas não ajam agora como se marchássemos tranqüilamente para o pleito de 1965. No centro do poder há uma clara intenção de não transmitir o poder. É preciso que surja forte e nítida nos elegíveis a disposição de afirmar isto que é uma vergonha precisar afirmar-se:  pela Constituição do Brasil, após cinco anos de Governo o Presidente da República transmite o cargo ao seu sucessor.

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Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (pág 04)
[18/03/64]   Novo Governo para "reformas integradas" - Coluna do Castello

Brasília — No conjunto de "reformas integradas" constitutivas da atual ofensiva do Presidente João Goulart insere-se a reforma do Ministério, a qual deverá ocorrer em função dos interesses da Frente Popular em articulação para apoio das reformas de base. Tratando-se de uma frente que abrangerá, além da fração parlamentar, as entidades populares, tais como o CGT, a UNE, o PUA etc., é possível que o Sr. João Goulart deite as bases do esquema ministerial para além das limitações da vida político-parlamentar, incluindo no Governo representantes das organizações operárias. O Partido Comunista, por esta via, poderia ter ingresso no Ministério, desde que ele é, hoje, a vanguarda do movimento reformista e a base das manobras do Presidente da República com vistas à reestruturação do sistema político constitucional.

A expressão "reformas integradas" passou a ser adotada na assessoria imediata do Presidente, para significar que a campanha

reformista não aspira a atingir somente ao econômico e ao social, mas pretende ingressar fundo nas estruturas políticas. Lembra-se nesses setores, que o Sr. Leonel Brizola sobre cujas reações pessoais paira certo suspense — pregou no comício do dia 13 a constituição de um "verdadeiro Govérno popular" como condição para apoio de todas as esquerdas ao Sr. João Goulart. Nas esferas oficiais, onde o otimismo anda a galope, não existe qualquer expectativa quanto a possibilidade de vir o Congresso a votar as reformas sugeridas concretamente pelo Presidente da República na sua discutida mensagem. O Sr. João Goulart partiu do dado da realidade, que é a resistência da Câmara e do Senado em alterar a Constituição, e, apesar do tom respeitoso em que se dirigiu ao Congresso, jantais alimentou ilusões de modificar uma situação solidamente fundada. Isso é suficiente para se fixar como objetivo seu a obtenção de algo que está fora do alcance da sua influência sobre o Poder Legislativo.

O -Sr. Tancredo Neves, líder do Governo, votou ontem na Câmara pela renovação da urgência na tramitação do projeto Aniz Badra, de reforma agrária. No mérito, o dirigente pessedista ainda não tomou posição, mas há indícios de que o Governo pretende paralisar o movimento do PSD tendente a tornar vitoriosa essa proposição bem como de influir sobre o bloco dos pequenos partidos para impedir que ele se integre entre os partidários do projeto de reforma agrária por lei ordinária. Entende o Sr. João Goulart que a aprovação pelo Congresso de semelhante projeto podera iludir" a opinião pública - risco que é preciso eliminar. Sabendo que não obterá a reforma constitucional, o Presidente procurará impedir uma legislação ordinária que assinale a presença do Congresso no movimento reformista. Nos meios parlamentares não persiste dúvida sobre a perseguição, pelo Governo, de objetivos extraconstitucionais, os quais são abertamente caracterizados pela UDN e timi&mente pelo PSD como os da supressão das regras do jogo democrático. Ao Sr. Goulart não interessaria o fechamento do Congresso, mas sua total marginalização e sua desmoralizacão perante as massas trabalhadoras, as quais iriam buscar satisfação para seus anseios em esferas mais efetivas de poder.

No PTB, admite-se que a ofensiva das associações de classe civis e militares tende a criar situação equivalente à que precedeu à votação da lei do plebiscito. Desta vez, como as resistências são maiores, a ofensiva poderá canalizar-se para uma greve geral, que eclodiria entre 10 e 20 de abril, como argumento final na batalha das "reformas integradas".

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Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (pág 04)
[18/03/64]   Manifesto dos Ministros militares (em apoio às reformas de Jango) - Coluna do Castello

Persistiam os rumores de que os Ministros militares deitarão manifesto de apoio as reformas propostas pela mensagem presidencial. O Sr. Valdir Pires, Consultor-Geral da República, ofereceu ontem ao Ministro da Aeronáutica um esboço de documento para aprovação. O Ministro da Guerra parece ter optado pela prévia audiência do Professor San Tiago Dantas, procurando-o no Rio e em Brasília.


Leituras complementares:

Fonte: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Auro de Moura Andrade

Auro Soares de Moura Andrade (Barretos, 19 de setembro de 1915 São Paulo, 29 de maio de 1982) foi um advogado e político brasileiro.

Revolução de 1932

Aos 17 anos, tomou parte na Revolução de 32, formando-se posteriormente em direito na USP, onde desenvolveu intensa atividade política, sinalizando o seu futuro na vida pública brasileira.

À frente dos jornais A Urna e O Democrata, combateu o governo de Getúlio Vargas, que acabou fechando os periódicos.

Grande orador, característica que o acompanharia em sua vida parlamentar, foi advogado e exerceu diversos cargos no estado, sendo também diretor da Associação Comercial.

Carreira parlamentar

Em 1947, elegeu-se deputado estadual pela UDN e, em 1950, deputado federal. Em 1954, elegeu-se senador pelo PTN. Brilhante parlamentar, filiou-se ao PSD, no qual logo se destacaria. Em 1961, foi eleito presidente do Senado, onde permaneceria por sete anos, sempre reeleito.

Renúncia de Jânio Quadros

Ao receber a carta-renúncia de Jânio Quadros, imediatamente convocou o congresso e em vinte minutos declarou a vacância do cargo presidencial. Teve importante atuação na modificação para o regime parlamentarista, que possibilitou a posse do vice-presidente João Goulart.

Foi convidado para o cargo de primeiro-ministro, desde que deixasse escrita uma carta de renúncia nas mãos do presidente. Recusou-se a aceitar a imposição, dizendo a João Goulart que tal sugestão faria dele, Moura Andrade, não o primeiro-ministro, mas o último.

Em 1958, foi derrotado ao disputar o governo do Estado de São Paulo, ocasião em que Carvalho Pinto se elegeu para o cargo com o apoio de Jânio Quadros.

Em 1962 reelegeu-se senador por São Paulo, com mais de um milhão de votos.

Golpe de 1964

Em março de 1964 Moura Andrade participou, em São Paulo, da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, ato público contra o governo. No dia 30 do mesmo mês, lançou um manifesto à nação declarando o rompimento entre o legislativo e o executivo, conclamando as forças armadas a se posicionarem na defesa das instituições.

No dia seguinte estourava o Golpe de 64 e, ao tomar conhecimento de que Jango havia deixado o país, Moura Andrade, em tumultuada sessão do congresso, por ele presidido, declarava vago o seu cargo, dirigindo-se pessoalmente, a pé, à frente de uma legião de congressistas, ao Palácio do Planalto, para dar posse ao deputado Ranieri Mazzilli, na presidência da República.

Indicado por diversos parlamentares para compor, como vice-presidente, a chapa que elegeria o general Castelo Branco para presidente, foi no entanto derrotado pelo deputado José Maria Alkmin.

Desencantado com a revolução que ajudara a fazer, Moura Andrade, com a ousadia que o caracterizava, declarou publicamente que “Japona não era toga”, ao ser levianamente acusado por um oficial superior encarregado de um inquérito. Por isso, mesmo gozando de grande prestígio, foi derrotado em convenção partidária que escolheu os candidatos da Arena ao Senado por São Paulo em 1970, o que o impossibilitou de candidatar-se a mais um mandato.

Após deixar o Senado, em 1971, foi embaixador do Brasil na Espanha durante um ano, e presidente do Banco de Desenvolvimento do Estado de São Paulo, até 1982.

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Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ranieri Mazzilli
Pascoal Ranieri Mazzilli (Caconde, 27 de abril de 1910 São Paulo 21 de abril de 1975[1]) foi um advogado, jornalista e político brasileiro, tendo sido presidente do Brasil em dois momentos durante o 17° período do Governo Republicano.

O primeiro, após a renúncia do titular Jânio Quadros, e durante a ausência do vice-presidente João Goulart, que estava em visita oficial à República Popular da China. Neste período, Mazzilli governou o país durante catorze dias, de 25 de agosto a 8 de setembro de 1961. Mazzilli governou o Brasil, pela segunda vez, de 2 de abril de 1964 até 15 de abril de 1964.

Biografia

Filho de Domenico Mazzilli e Angela Liuzzi, imigrantes italianos, matriculou-se na Faculdade de Direito de São Paulo em 1930, mas não terminou os estudos jurídicos nessa faculdade[1]. Trabalhou brevemente como coletor de impostos em Taubaté. A partir de 1932 passou a trabalhar como jornalista especializado em temas fiscais. Em 1936 decidiu continuar os estudos de direito, vindo a se formar em 1940 na Faculdade de Direito de Niterói[1].

No Distrito Federal, à época na cidade do Rio de Janeiro, teve vários empregos no setor público. Foi diretor do Tesouro Público Nacional (1942), secretário-geral de Finanças da Prefeitura do Distrito Federal (1946) e diretor da Caixa Econômica Federal do Rio de Janeiro (1948). Foi também chefe de gabinete do ministro da Fazenda Guilherme da Silveira, entre 1949 e 1951.[1]

Na década de 1950 entrou para a política, elegendo-se deputado federal por São Paulo, filiado ao Partido Social Democrático (PSD). Foi reeleito em 1954 e 1958. Em 1959 candidatou-se à presidência da Câmara dos Deputados, cargo no qual permaneceu até 1965, reelegendo-se cinco vezes seguidas[1].

Presidência interina

Primeiro período

Na qualidade de presidente da Câmara dos Deputados, conforme previa a Constituição vigente, assumiu a presidência da República algumas vezes, dentre elas duas especialmente marcantes[1]. Em 25 de agosto de 1961, em virtude da renúncia de Jânio Quadros e da ausência do vice-presidente João Goulart, que se encontrava em missão na China[1]. Nesta ocasião os ministros militares do governo Jânio Quadros — general Odílio Denys, do Exército; brigadeiro Gabriel Grün Moss, da Aeronáutica; e almirante Sílvio Heck, da Marinha — formaram uma junta militar informal que tentou impedir, sem sucesso, a posse de João Goulart, abrindo-se uma grave crise político-militar no país. A solução para o impasse foi a aprovação pelo Congresso, em 2 de setembro, de uma emenda à Carta de 1946, instaurando o sistema parlamentarista de governo. João Goulart assumiu, então, a presidência em 7 de setembro de 1961.[1]

Segundo período

Ranieri Mizzilli

Em 2 de abril de 1964, o presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzilli, assumiu mais uma vez a presidência da República, por ocasião do golpe político-militar que depôs o presidente João Goulart. Em menos de três anos, era a sexta vez que assumia o cargo interinamente.[2] Apesar disso, o poder de fato passou a ser exercido por uma junta, autodenominada Comando Supremo da Revolução, composta pelo general Artur da Costa e Silva, almirante Augusto Rademaker Grünewald e o brigadeiro Francisco de Assis Correia de Melo. O regime instaurado com o golpe de 1964 apresentava-se como uma intervenção militar de caráter provisório, que pretendia reinstaurar a ordem social e retomar o crescimento econômico, contendo o avanço do comunismo e da corrupção. No dia 15 de abril, entregou o cargo ao marechal Humberto de Alencar Castelo Branco.[1] Os dois períodos em que Mazzilli foi presidente se caracterizaram por sua pouca influência nas decisões políticas. Assim, o Ato Institucional, depois conhecido como número 1, foi baixado no seu segundo período, com a assinatura dos ministros militares, que se autodenominavam Comando Supremo da Revolução e detinham o poder de fato, cabendo a Mazzilli um cargo apenas formal[1]. Com saúde frágil, anoréxico, com problemas renais e com sequelas de uma bronquite mal curada, era jocosamente apelidado de modess: descartável, estava sempre na hora e lugar certo para evitar derramamento de sangue.[2]

Apesar de ter facilitado a fundamentação política e constitucional do golpe de 1964, em 1966 o regime militar patrocinou[carece de fontes?] sua derrota na candidatura à presidência da Câmara dos Deputados, em favor de Bilac Pinto (UDN, depois nomeado pela ditadura ministro do Supremo Tribunal Federal), deixando assim um cargo que exercia havia sete anos. Foi também presidente da União Interparlamentar Mundial.
 


Nota:
Este "post", de 2012, atualiza este outro, publicado em 2011:

18/03/11
Revolução de 1964 - Os 31 dias de Março (18) - Seleção de notícias do dia 18 Mar 1964 + Leituras complementares