WirelessBRASIL - Bloco RESISTÊNCIA

Março 2012             


19/03/12

• Revolução de 1964 - Os 31 dias de Março (19) - Seleção de notícias do dia 19 Mar 1964 + Leituras complementares

Matérias transcritas nesta página:

Fonte: Acervo da Folha de S. Paulo
[19/03/64]  "Marcha da Família"

Fonte: Acervo da Folha de S. Paulo
[19/03/64]  "Impeachment", não

Fonte: Acervo da Folha de S. Paulo
[19/03/64]  Hoje a marcha em defesa da constituição

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (pág 01)
[19/03/64]   Marechal Dutra rompe silêncio para pedir respeito à Constituição e união imediata

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (pág 06)
[19/03/64]   A voz do soldado - Editorial  (sobre o pronunciamento do Marechal Dutra)

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (pág 04)
[19/03/64]   Lacerda convoca todos os governadores para a defesa das liberdades

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (pág 03)
[19/03/64]   Jair e o manifesto (dos militares)

Leituras complementares:

Fonte: FGV - CPDOC
A Marcha da Família com Deus pela Liberdade - por Sérgio Lamarão
 


Transcrições:

Fonte: Acervo da Folha de S. Paulo
[19/03/64]  "Marcha da Família"

Acertam, sem dúvidas, as organizações femininas que prepararam para hoje a chamada "Marcha da Família", que deverá significar, não um desafio ou uma provocação ao governo constituído, mas a demonstração de que a grande massa da população brasileira não vê sem protesto a manifestações de desrespeito à instituições nacionais, empreendidas por agentes do próprio governo e até mesmo pelo presidente da República.

É evidente que uma grande, uma enorme parte do nosso povo, a  sua esmagadora maioria acompanha com viva apreensão o clima que se vai procurando criar no país. Essa maioria ordeira e trabalhadora, considerando os descaminhos políticos do governo federal, pergunta com justa inquietação: Para onde querem levar-nos? Cristã e profundamente impregnada de espírito religioso, sente como afronta aos mais altos valores morais que ela cultiva, a irreverência com que os responsáveis pelo governo tratam um dos símbolos de sua fé em seus desvairados comícios solidamente organizados à custa do dinheiro da comunidade e garantidos por um aparato militar que chega a ser ridículo em face da moderação de nossa gente.

Não é de hoje que se denuncia a atuação, na cúpula federal, de tendências comunistas, as quais explicam muitas das agitações entretidas em todo o país, com imensos prejuízos para a economia nacional . A própria Historia do Brasil, segundo aqui já demonstramos, é reescrita pelo Ministério da Educação em termos tipicamente marxistas.

E raro não é o dia em que os representantes do governo, tanta vez sem outra credencial que sua capacidade de agitar e confundir, forçam sua palavra através do rádio e da televisão, numa pregação mais do que suspeita.

Enquanto isso, a inflação vai consumindo todas as economias do povo e aviltando-lhe o trabalho. Há uma pregação de reformas, tantas delas necessárias - e este jornal já tentou defini-las mediante o esforço de grandes especialistas num congresso memorável - feitas em termos que deixam claro que o que menos importa são as reformas em si mesmas, mas determinados frutos políticos que favoreçam, talvez, o continuísmo e um mesmo político no poder e a implantação, no país de uma estrutura antidemocrática.

Contra as demonstrações de força ou as tentativas de proselitismo que assim faz o governo, não adianta lutar pela agressão ou pelas manifestações de intolerâncias que redundam sempre em agitação e propiciam aos tumultuadores aquilo que eles desejam, isto é, a possibilidade de alegar violências contra o poder constituído.

Valem, porém, e muito, as concentrações públicas dos que, divergindo dos rumos que o governo vai imprimindo ao país, proporcionam a esse governo, em sua totalidade, uma visão real do que o povo pensa -  o povo em sua verdadeira expressão, no pleno uso de suas faculdades de julgamento, e não a multidão recrutada para efeito de claque em comícios.

Se todos os que estão em desacordo com aqueles rumos saírem às ruas em ordem, em todo o território nacional, logo verá o sr. João Goulart que o povo não é apenas aquela multidão que os pelegos comandam. E perceberá a extensão dos seus erros e, queira Deus, percebendo-a, passe a empenhar-se em melhor governar.

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Fonte: Acervo da Folha de S. Paulo
[19/03/64]  "Impeachment", não

Não são bravatas como a do sr. Valdir Pires, consultor-geral da República, segundo o qual se o Congresso decretar o 'impeachment" o chefe do governo "o povo o revogará", não são leviandades como essa que aconselham o Parlamento a deixar de lado qualquer ideia  de promover a medida extrema. Muito menos provocações como a do sr. Abelardo Jurema, ministro da Justiça, que afirmou em São Paulo que "o processo de "impeachment" requer coragem de quem o apresenta, e isso a oposição não tem". Não. O impedimento não deve ser cogitado, por numerosas outras razões, muito mais sérias, e entre elas a de que ele, no momento, apenas serviria aos interesses dos que querem tumultuar o país e criar clima para a subversão.

Os crimes de responsabilidade do presidente da República, para os quais a Constituição prevê o remédio do "impeachment", são de difícil caracterização. No atual panorama político do país, que o Parlamento reflete com muita fidelidade, é quase impossível julgar desapaixonadamente os fatos; a cegueira política, os compromissos ideológicos, os interesses de facção fazem com que uns neguem com veemência notórios excessos que o sr. João Goulart vem praticando, e outros considerem sistematicamente criminosos os mais rotineiro atos do presidente. Num eventual processo de "impeachment" a que o Congresso se dedicasse, é quase que o assunto seria tratado sem a objetividade que exige, e sim sob o ardor de paixões desencadeadas mias ou menos irracionalmente.

O que se deve ter em vista é que o Parlamento Nacional, por seus erros, suas omissões e suas acomodações, tem de certo modo contribuído para os atos do sr. João Goulart que agora seriam caracterizados como crime de responsabilidade, capazes de justificar o impedimento. Mesmo em relação às tão faladas reformas, o que se tem observado no Congresso não é o exame sincero, minucioso, técnico, das teses sustentadas pelo Executivo, mas um despistamento que praticamente subtrai o problema, sem todavia o negar. Mais de uma vez o Congrsso tem determinado vigílias cívicas, mas na realidade muito pouco tem feito no sentido de rigorosa vigilância dos atos do outro Poder. As pequenas lutas político-partidárias têm impedido a grandeza das verdadeiras batalhas parlamentares.

A reação que se reclama desse Parlamento ante possíveis desmandos do Executivo, é de outra natureza. Consiste em impedir que atribuições suas sejam usurpadas e em reagir contra todas as tentativas de desmoralização que contra ele se esbocem. Consiste ainda em exercer na plenitude o seu papel de Executivo, para contê-lo nos momentos necessários.

Fala-se muito, ultimamente, em "desafio" lançado ao Congresso pelo Executivo. Se tal existe, ele deve ser aceito, à boa maneira democrática: mostrando, o Congresso, que não é um poder inerte e insensível, mas empenhado em manter-se à altura das necessidades brasileiras do momento; promovendo soberanamente, na área que a Constituição
lhe reserva, as alterações e adaptações da estrutura social, política e econômica da nação, sem traumatismos para esta; e iniciando, com o Executivo, uma espécie de sadia emulação em que o único objetivo seja o progresso e desenvolvimento do país, sem prejuízo da lei e da ordem.

"Impeachment", não. Já há fogueiras acesas em demasia, para que se lance mais combustível a elas.

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Fonte: Acervo da Folha de S. Paulo
[19/03/64]  Hoje a marcha em defesa da constituição

(...) Mensagens de Ademar de Barros

Por outro lado, o governador Ademar de Barros dirigiu mensagens aos bispos, prefeitos e presidentes de Câmaras de todos o país, pedindo-lhes que realizem um movimento nacional de unidade cristã para preservação das instituições democráticas e combate ao comunismo.

É a seguinte a mensagem do chefe do Executivo paulista aos bispos brasileiros: "Nesta hora grave que atravessa o Brasil, quero respeitosamente testemunhar a v. exa., em louvor da fé de nosso povo, que só a piedade cristã poderá galvanizar a unidade nacional, de forma a se preservarem as liberdades públicas dentro do regime democrático em que vivemos. Estou certo de que em sua nobre diocese a superior inspiração de v.exa. será no sentido de que os milagrosos rosários da fé cristã serão levantados pela tranquilidade do povo, sobretudo contra a perspectiva do comunismo agnóstico e avassalador."

Aos prefeitos e presidentes de Câmaras Municipais a mensagem do governador Ademar de Barros é a seguinte:
"A preservação das instituições democráticas e o intransigente combate às infiltrações comunistas no país, estão a exigir sobretudo neste Estado, um grande movimento no sentido da unidade da fé cristã, cujos milagrosos rosários hão de se levantar em preces pela tranquilidade da família brasileira. Sendo propósito do meu governo a ampla pacificação dos espíritos, peço que, em meu nome, visite o reverendíssimo pároco local com o maior número de nossos amigos para testemunhar-lhe quão valioso será seu concurso através da sua superior inspiração e das piedosas orações dos seus fiéis."

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Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (pág 01)
[19/03/64]   Marechal Dutra rompe silêncio para pedir respeito à Constituição e união imediata

O ex-Presidente da República, Marechal Eurico Gaspar Dutra, preocupado com a extrema gravidade do momento nacional, rompe um "deliberado silêncio" de 13 anos e, em declarações exclusivas ao JORNAL DO BRASIL, pede aos democratas que se unam "enquanto é tempo", pois "o respeito à Constituição é a palavra de ordem dos patriotas".

O Marechal Dutra, que nestes últimos anos vem-se esquivando sempre a pronunciamentos capazes de agravar dissensões, adverte que "não se constrói na desordem. nem se prospera no sobressalto. Nada de bom se resolve no clima de desentendimento e é impossível sobreviver democràticamente na subversão".

É o seguinte, na integra,o pronunciamento do Marechal Dutra:

"Afastado da vida pública desde 1951 - quando findou o meu mandato presidencial - tenho-me conservado numa atitude de deliberado silêncio. recusando-me, sempre, a formular qualquer pronunciamento capaz de provocar polêmicas ou agravar dissensões.
Em face, porém, do reiterado e insistente pedido do JORNAL DO BRASIL e considerando a gravidade das circunstancias que caracterizam a atual situação brasileira, não me posso furtar a fazer um apelo à lucidez e ao tradicional bom senso dos meus compatriotas, no sentido de que se unam os democratas, enquanto é tempo, com o pensamento só voltado para o bem do País, a fim de evitar o advento condições que lancem o Brasil no desastre da irremediável secessão interna.
O respeito à Constituição é a palavra de ordem dos patriotas.
A fidelidade à Lei é o compromisso sagrado dos democratas perante a Nação.
Não se constrói na desordem, nem se prospera no sobressalto. Nada de bom se resolve, no clima do desentendimento, e é impossível sobreviver democraticamente na subversão.

O regime tem remédio natural e certo para todos os nossos problemas, inclusive os da autêntica justiçaa social.

A fé na liberdade, a perseverança no esforço construtivo, a superior e imparcial inspiração do interesse público, o exato cumprimento do dever de cada um, a independência e a harmonia dos três Poderes constitucionais da República são a garantia essencial de um Brasil firme na perenidade do seu destino cristão, livre do comunismo e tranqüilo quanto ao futuro."

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Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (pág 06)
[19/03/64]   A voz do soldado - Editorial  (sobre o pronunciamento do Marechal Dutra)

O velho soldado falou. Rompeu o silêncio porque em suas próprias palavras,

"...considerando a gravidade das circunstâncias que caracterizam a atual situação brasileira, não me posso furtar a fazer um apelo à lucidez e ao tradicional bom senso dos meus compatriotas..."

E quem neste País, qual o democrata brasileiro, que a essa altura da crise, entre o ataque presidencial à Constituição e o apelo do velho soldado, não se une numa resistência invencível e imbatível? Apelo...

"... no sentido de que se unam os democratas..."

A união é a resposta à união dos inimigos da Constituição, ostensivos ou velados, que contra ela tramam ao amparo

de reivindicações sociais, justas e inadiáveis, mas só atendíveis dentro do regime de liberdades, que preserva a dignidade humana, ...

"... enquanto é tempo..."

Porque o tempo é curto e os inimigos da Constituição, encastelados no poder, já ousam assumir riscos que podem nos precipitar na desgraça, que todos os patriotas têm o dever de evitar. Riscos que correspondem certamente a uma sobrestimação de popularidade liberticida e a uma subestimação da capacidade democrática de:

"...com pensamento só voltado para o bem do Pais..."

E o grito do velho soldado aos patriotas...

"... a fim de evitar o advento de condições que lancem o Brasil no desastre da irremediável secessão interna".

No coração e na voz do velho soldado a advertência contra "a irremediável secessão interna" soa como clarinada, palavra final e definitiva contra aqueles que, porventura, se julguem fortes já para tentar implantar uma "ditadura consentida", com apoio em massas totalitárias.

Não haverá tal sem resistência, sem a resistência viril que nos levaria à secessão, mas nunca a uma ditadura ignóbil e desonrosa.

"...O respeito a Constituição é a palavra de ordem dos patriotas..."

Nada deve temer o Congresso. O seu poder constituinte inerente e inalienável não será diminuído pelas pressões espúrias visando a nos empurrar na farsa de outros plebiscitos.

"A fidelidade à Lei é o compromisso sagrado dos democratas perante a Nação ..."

Sem fidelidade à Lei, tão humilhada nos últimos dias por quem deveria não só respeitála como cumpri-la sem considerações ilegítimas, não há sociedade organizada e muito menos sociedade livre e digna. A Nação seria rebaixada à condição de cubata, de monarquia despótica, na qual o tirano imporia sua vontade pessoal, mascarando-a como um Bonaparte latino-americano, em diálogo de praça pública, onde só a emoção histérica e comandada tem cidadania. A razão dos homens civilizados estará sempre, nesses diálogos, banida e proscrita.

"... Não se constrói na desordem, nem se prospera no sobressalto..."

Verdade tão simples no encontra guarida no império da desordem instalado e ampliado de cima para baixo. Verdade simples que prova diretamente a afirmativa de que só se constroem na desordem a revolução e a subversão. Nunca as reformas democráticas. Estas pressupõem um mínimo de casa amimada, de desejo de compromisso, de fidelidade à democracia e à lei. Sem ordem, repetimos, não caminhamos para reformas justas e inadiáveis. Marchamos céleres para a revolução e para a "irremediável secessão interna", como afirma o velho soldado.

"... Nada de bom se resolve, no clima do desentendimento, e é impossível sobreviver democraticamente na subversão..."

Quando em plena praça pública, sob a proteção de soldados, já se pode pregar a subversão exacerbando ao máximo o clima tio desentendimento no Pais, a palavra do velho soldado tem o significado de um basta. A democracia não é um regime indefeso contra a subversão. Mesmo contra aquela que se orienta e se alimenta do alto para baixo. Pois...

"...O regime tem remédio natural e certo para todos os nossos problemas..."

E os remédios são muitos. A decisão de resistir com esperança à investida do caudilhismo totalitário. Aí estão conscientes da hora partidos e candidatos, prontos a encaminhar a discussão política para os métodos normais do processo eleitoral. E a Convenção do PSD. E o lançamento de nova candidatura, paulista, que ajudará a fechar a brecha democrática no flanco esquerdo, que não se poderia desonrar na adesão inteira oportunista ao poder liberticida.

"...inclusive os da autêntica Justiça social..."

Sim, os da autêntica Justiça social. Porque não poderá haver Justiça social sem a liberdade de protesto que, agora, está sendo usada pelos liberticidas para assassinar a democracia e a possibilidade de crescente justiça social cristã.

"...A fé na liberdade..."

Eis a esperança na voz do velho soldado. A liberdade não morrerá.

"...a perseverança no esforço construtivo, a superior e a imparcial inspiração do interesse público..."


Eis reproduzida a vontade de todos nós, de trabalhar e de criar riqueza, para poder distribuí-la sob o comando de inspiração superior e imparcial.

"... o exato cumprimento do dever de cada um, a independência e a harmonia dos três Poderes constitucionais da República são a garantia essencial de um Brasil firme na perenidade do seu destino A advertência final aos poderes constituídos. Que cada um cumpra com seu dever dentro da Constituição e da Lei, e o Pais estará

"... livre do comunismo e tranqüilo quanto ao futuro".

Livre do comunismo que ai está oficializado. Tranqüilo quanto ao futuro para chegarmos a ele, na prática do regime democrático, dos pleitos sucessivos, única saída que nos resta para inibir a secessão.

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Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (pág 04)
[19/03/64]   Lacerda convoca todos os governadores para a defesa das liberdades

Em carta enviada ontem a todos os governadores de Estado, o Sr. Carlos Lacerda afirma que "a guerra revolucionária foi deflagrada no País por meio de pressão a pretexto de reformas" e convoca-os para uma tomada de posição conjunta "naquilo que podemos ter em comum: o sentimento da liberdade". - Se julgar que não sou digno de formular este apelo, ignore a origem e atenda ao que ele contém: um chamado à consciência de cada democrata, um supremo esfôrço para que defendamos a Pátria traída e a liberdade ameaçada - diz o Governador da Guanabara em sua carta.

CARTA
Eis, na íntegra a carta do Sr. Carlos Lacerda:

"A guerra revolucionária foi deflagrada no País por meio de urna pressão a pretexto de reformas. Tais reformas, por meio de decretos demagógicos, visam substancialmente:

1. A "reforma" da Constituição, Isto é, virtualmente a sua substituição por outra, que dará outro regime ao Brasil. 2. A marginalização e eventual dissolução do Congresso.
3. Um "plebiscito" totalitário com perguntas capciosas. entre as quais nunca se encontrará uma, que é a principal: o povo prefere a liberdade ou o comunismo? Perguntar-se-á se o povo quer reformas — que todo mundo deseja — e com base nessa resposta vaga se procurará a "prova" de que o povo é contra o Congresso e este contra o povo. Hitler fez assim. Fidel Castro faz assim de vez em quando. E Perón fez até que o puseram para fora. 4 - A associação crescente entre o comunismo e o negocismo; a desmoralização das Forças Amadas, reduzidas à função de garantir manifestações ilegais.
5 - A transformação do Presidente da Republica em caudilho. A pretexto de evitar a minha eleição, ele quer evitar toda eleição democrática.
6 - A entrega progressiva de postos-chaves aos comunistas e seus cúmplices, na economia, na educação, nos transportes e comunicações, no controle dos combustíveis, etc.
7 - A destruição da iniciativa livre e sua substituição por um dirigismo incompetente e desvairado, logo substituído pelo controle totalitário de todas as atividades nacionais, inclusive o controle das consciências.

Em face de tão grave crise, e tendo em vista a participação de elementos das forças da segurança nacional no movimento ditatorial que se apóia nos comunistas, apelei aos demais candidatos à Presidência da República para formarmos, juntos, um movimento de salvação nacional. Sem prevenções, sem outro objetivo que não o de impedir a traição ao Brasil e à democracia, propus-lhes uma tomada de posição conjunta naquilo que podemos ter em comum: o sentimento da liberdade.

Não apenas candidato, mas Governador no exercido de um mandato que interessa a todos os demais ver defendido e respeitado, dirijo-me no prezado colega para pedir que juntos formemos essa união dos democratas contra a usurpação e a demagogia. Não discuto, agora, diferenças de orientação e divergências quanto a soluções, no quadro da democracia, O que me importa é a união de todos os

Interessados na defesa da liberdade. Inclusive da liberdade de divergir. Se julgar que não sou digno de formular este apelo, ignore a origem e atenda ao que ele contém: um chamado à consciência de cada democrata, um supremo esforço para que defendamos a Pátria traída e a liberdade ameaçaria.

Honro-me de receber a sua resposta. Mas, se por qualquer motivo não me for dada essa honra. seja ao menos endereçado diretamente ao povo uma palavra de conforto moral, de coragem cívica, neste momento decisivo.

Deus o inspire e lhe dê forças para ajudar a salvação do povo, entregue aos seus piores inimigos, os que usam a liberdade para esmagá-la, os que falam de democracia para renegá-la nos atos, os que assaltam o Brasil e lhe tomam tudo, até o futuro."

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Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (pág 03)
[19/03/64]   Jair e o manifesto (dos militares)

Em círculos do Gabinete do Ministro Jair Dantas Ribeiro informou-se, ontem, que o Chefe do Exercito não está participando de qualquer preparativo para o lançamento, nus próximos dias, de um manifesto conjunto dos Ministros militares, em apoio às teses reformistas sustentadas pelo Presidente João Goulart. O Ministro da Guerra, segundo declarou ao JORNAL DO BRASIL uma alta fonte do seu Gabinete, já da seu apoio natural às teses sustentadas em público pelo Governo, pela sua condição de integrante deste,

Em outros setores Influentes do Ministério da Guerra indicou-se, porém, que que o Presidente da República está articulando, efetivamente, através de assessores especialmente designados para a missão, uma serie de contatos com os Chefes das Forças Armadas, visando a obter dos mesmos um pronunciamento vigoroso em apoio às pregações sobre as reformas, com vistas a um maior fortalecimento do programa governista.

EXPECTATIVA
As noticias sobre o manifesto dos Ministros militares, que estão sendo alimentadas por fontes da Presideência da República - pois se antecipou que o Sr. Valdir Pires já tem prontas, inclusive, várias minutas do texto planejado, para serem levadas aos Chefes do Exército, Marinha e Aeronáutica - não mereceram do Ministro da Guerra, em particular, qualquer pronunciamento, mas fontes do seu Gabinete se recusaram, ontem, a dar qualquer cunho de veracidade às mesmas.

Há grande expectativa nos círculos militares mais influentes, porém, em torno da confirmação ou não do lançamento do anunciado manifesto. E uma das razões principais é o fato de o Ministro Jair Dantas Ribeiro ter caracterizado sua ação à frente do Exercito, até agora, por uma posição contraria à pronunciamentos, com vistas à manutenção da disciplina a todo risco
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Leituras complementares:

Fonte: FGV - CPDOC
A Marcha da Família com Deus pela Liberdade - por Sérgio Lamarão

Marcha da Família com Deus pela Liberdade, no Rio de Janeiro, em comemoração pela vitória do Golpe, no dia 02 de abril de 1964. Movimento surgido em março de 1964 e que consistiu numa série de manifestações, ou "marchas", organizadas principalmente por setores do clero e por entidades femininas em resposta ao comício realizado no Rio de Janeiro em 13 de março de 1964, durante o qual o presidente João Goulart anunciou seu programa de reformas de base. Congregou segmentos da classe média, temerosos do "perigo comunista" e favoráveis à deposição do presidente da República.

A primeira dessas manifestações ocorreu em São Paulo, a 19 de março, no dia de São José, padroeiro da família. O principal articulador da marcha foi o deputado Antônio Sílvio da Cunha Bueno, apoiado pelo governador Ademar de Barros, que se fez representar no trabalho de convocação por sua mulher, Leonor de Barros.

Marcha da Família com Deus pela Liberdade, no Rio de Janeiro, em comemoração pela vitória do Golpe, no dia 02 de abril de 1964. Preparada com o auxílio da Campanha da Mulher pela Democracia (Camde), da União Cívica Feminina, da Fraterna Amizade Urbana e Rural, entre outras entidades, a marcha paulista recebeu também o apoio da Federação e do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo. A marcha contou com a participação de cerca de trezentas mil pessoas, entre as quais Auro de Moura Andrade, presidente do Senado, e Carlos Lacerda, governador do estado da Guanabara. Durante o trajeto, que saiu da praça da República e terminou na praça da Sé com a celebração da missa "pela salvação da democracia". Na ocasião, foi distribuído o Manifesto ao povo do Brasil, convocando a população a reagir contra Goulart.

A iniciativa da Marcha da Família repetiu-se em outras capitais, mas já após a derrubada de Goulart pelos militares em 31 de março, o que as tornou conhecidas como "marchas da vitória". A marcha do Rio de Janeiro, articulada pela Camde, levou às ruas cerca de um milhão de pessoas no dia 2 de abril de 1964.



Leia na Fonte: Jornal do Brasil
[19/03/11]   Marcha da Familia com Deus pela Liberdade completa 47 anos. Veja vídeo

Na capital paulista, 500 mil pessoas participaram da Marcha da Família com Deus pela Liberdade em defesa da Constituição e das instituições democráticas brasileiras e de repúdio ao comunismo.

A Marcha saiu da Praça da República ao som dos clarinetes dos Dragões da Força Pública, e chegou à Praça da Sé com os sinos de todas as igrejas repicando simultaneamente, enquanto a banda da Guarda Civil executava Paris Belfort, o hino da Revolução constitucionalista de 1932.

Veja vídeo do CPDoc JB sobre os 47 anos da marcha da Família com Deus pela Liberdade

Falaram durante a concentração em frente à Igreja da Sé o Senador Auro de Moura Andrade, o deputado Herbert Levi, o Senador Padre Calazans, a Deputada Conceição da Costa Neves e outros oradores. O governador Carlos Lacerda, que assistiu a parte da concentração, disse que "São Paulo começou a salvar o Brasil".

O movimento era uma clara resposta às recentes decisões anunciadas pelo presidente João Goulart. São Paulo mostrava mais uma vez possuir um voto conservador.

Milhares de faixas conduzidas pelos manifestantes faziam alusão à integridade da Constituição, à democracia e às reformas, e combatiam o comunismo.Nos cartazes portados pelos manifestantes, críticas diretas ao governo federal e até mesmo pedidos de impeachment a João Goular.As principais faixas diziam: "Deputados patriotas, o povo está com vocês"; "Brizola: playboy de Copacabana"; "Reformas só dentro da Constituição"; "Basta de palhaçada, queremos Governo honesto"; "A melhor reforma é o respeito à lei"; "Senhora Aparecida iluminai os reacionários".
Essa demonstração de massa foi, a olhos militares, o aval definitivo para o golpe de 1964.

O aval que os militares precisavam

A Marcha foi uma resposta ágil e direta ao comício feito por João Goulart e os seus partidários na estação Central do Brasil, no centro do Rio de Janeiro.Ele havia acabado de assinar o primeiro passo para a reforma agrária e o projeto que previa a encampação das refinarias particulares de petróleo. No palanque de 13 de março de 64, Miguel Arraes e Leonel Brizola também discursaram. Brizola foi o mais aplaudido.Após deixar o governo, Jango exilou-se no Uruguai, e morreu na Argentina em 1976. Com o golpe de estado, os militares tomaram o poder e só o deixaram 21 anos depois.


Nota:
Este "post", de 2012, atualiza este outro, publicado em 2011:
19/03/11
Revolução de 1964 - Os 31 dias de Março (19) - Seleção de notícias do dia 19 Mar 1964 + Leituras complementares