WirelessBRASIL - Bloco RESISTÊNCIA

Março 2012             


20/03/12

• Revolução de 1964 - Os 31 dias de Março (20) - Seleção de notícias do dia 20 Mar 1964 + Leituras complementares

Matérias transcritas nesta página:

Fonte: Acervo da Folha de S. Paulo
[20/03/64]   Povo, apenas povo (Editorial sobre a "Marcha da Família com Deus e pela Liberdade")

Fonte: Acervo da Folha de S. Paulo
[20/03/64]   Duas vozes autorizadas (Eurico Gaspar Dutra e Carvalho Pinto)

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (pág 08)
[20/03/64]   Ministro da Marinha ameaça prender Aragão após discurso

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (pág 06)
[20/03/64]   Resistência e reforma - Editorial

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (pág 05)
[20/03/64]   Atitude de Jair Dantas

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (pág 03)
[20/03/64]   Bancadas do PRP divulgam manifesto denunciando que comunistas ocupam o País

Leituras complementares:

Fonte: Banco de Dados Folha
[20/03/64]   São Paulo parou ontem para defender o regime

Fonte: História Livre
A imprensa jornalística porto-alegrense e os últimos dias do governo João Goulart - por Marcos Emílio Ekman Faber, Eduardo da Silva Severo e Ismael Wolf Ferreira

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais - IPES (Organização anticomunista)

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Organização anticomunista)


Transcrições:

Fonte: Acervo da Folha de S. Paulo
[20/03/64]   Povo, apenas povo

Poucas vezes ter-se-á visto no Brasil tão grande multidão na rua, para exprimir em ordem um ponto de vista comum, um sentimento que é de todos, como a que encheu o centro de São Paulo, na "Marcha da Família com Deus e pela Liberdade".

Ali estava o povo mesmo, o povo povo, constituído pela reunião de todos os grupos que trabalham pela grandeza da pátria, cioso de suas tradições e de suas crenças e consciente de seus destinos democráticos. Ali não estava nenhum ajuntamento suspeito, recrutado por órgãos especializados na manipulação de massas humanas para o aplauso ruidoso, porém despido de significação, aos líderes que detém o poder, ou a ele aspiram, ou nele desejam de alguma forma continuar.

Aquele mar humano formou-se espontaneamente, pelo natural desembocar de afluentes vários, surgidos dos bairros e do interior, nascidos nas mais diversas fontes. E formou-se de súbito, quase por milagre, ao simples apelo de um grupo de mulheres e organizações femininas que percebiam com extrema argúcia o sentimento íntimo do povo.

Nada de especial, nenhuma longa preparação psicológica, nenhuma doutrinação conduzida pelos especialistas na arte de convencer, se tornou necessário para que a gente de São Paulo saísse à rua e exprimisse, sem a necessidade de porta-vozes, sua profunda crença na democracia e na ordem constituída.

A reunião de ontem foi, sem dúvida, uma dura lição para os que, dispondo de todos os poderes e de todos os recursos financeiros, precisam, para garantir-se um meio de impressionar ou atemorizar pela massa humana que em torno de si congreguem, longos meses de propaganda , enorme movimentação de cúpulas arregimentadoras de claques e tremendos dispositivos de força, não certamente para lhes garantir a integridade física , jamais ameaçada, mas para atribuírem-se o direito de dizer o que em verdade não lhes é lícito dizer contra a Constituição, contra a lei e contra os sentimentos do povo.

Não se interprete mal, no entanto, o significado daquilo a que se assistiu ontem. O povo não estava na rua para desafiar, para tripudiar, para forçar, para ameaçar. Estava pura e simplesmente para afirmar-se e afirmar sua crença. Para definir seus ideais e para mostrar, enfim, que o sentido do vocábulo povo não pode por mais tempo ser desvirtuado, deixando de significar a população como um todo, unida pelos mesmos sentimentos de nacionalismo, pela mesma fé no trabalho, pela mesma capacidade de sofrer pela pátria, para definir apenas as suspeitas multidões arregimentadas para as greves políticas e para os comícios subversivos, essa multidões que os encarregados de defender a Constituição proclamam estarem acima da Constituição.

Nem se venha amanhã dizer que o povo que ali se encontrava era o agrupamento do que defendem as "estruturas arcaicas". Não, era o povo que reconhece a necessidade de muitas reformas e prega a melhor adequação de muitas leis às necessidades do país. Mas que acredita que tudo isso se pode fazer dentro da ordem, sem agravo Às instituições e, muito especialmente, sem necessidade de, por uma serie de atos injurídicos, inverídicos e insinceros, chegar, talvez sem querer, à expropriação da pátria, em benefício dos inimigos da democracia.

-----------------------------------------

Fonte: Acervo da Folha de S. Paulo
[20/03/64]   Duas vozes autorizadas (Eurico Gaspar Dutra e Carvalho Pinto)

Enquanto o presidente da Republica repetia no Estado da Guanabara conceitos que justificam as apreensões gerais, o país ouvia duas manifestações serenas, partidas de homens cuja respeitabilidade está acima de discussões. Na Guanabara, o mal. Eurico Gaspar Dutra, ex-presidente da República, afirmava entre outras coisas, que "o respeito à Constituição é a palavra de ordem dos patriotas. A fidelidade à lei é o compromisso sagrado dos democratas perante a nação".

Em São Paulo, o ex-governador Carvalho Pinto formulava apelo "para que o Brasil encontre, na preservação da democracia e no respeito sincero à ordem constituída, o único meio realmente seguro de alcançar, em paz, seus melhores desígnios".

Essas duas autorizadas vozes não poderiam deixar de referir-se ao tema do momento, o das reformas, objeto de tantas controvérsias e pasto de tanta demagogia. Este jornal registra a perfeita identidade entre o pensamento do ex-governador e do ex-presidente com as teses que insistentemente tem defendido nestas colunas. O sr. Carvalho Pinto é preciso a esse respeito: "Há reformas estruturais, por certo, que bem merecem o apoio de todo brasileiro esclarecido. Virão, inevitavelmente, como índice de progresso social e de justiça cristã. A sua formulação e o seu advento, entretanto, hão de subordinar-se a planejamentos cuidadosos, e de executa-se com destemor tranquilo e eficiente, dentro das normas democráticas e sem quebra do regime em que vivemos". Ouçamos a palavra do mal. Dutra: " O regime tem remédio natural e certo para todos os nossos problemas, inclusive os de autêntica justiça social."

São considerações que se revestem de um caráter de advertência e apelo ao bom-senso, que ao governo competiria considerar com o respeito que merecem. em lugar de investir contra a Constituição e as "instituições arcaicas" que ela sustentaria - com isso fomentando o clima de perigosa instabilidade que a ninguém é mais licito negar - deveria o presidente da República travar sua luta reformista "dentro das normas democráticas" e ciente de que o regime tem remédio natural e certo para todos os nossos problemas".

Estamos longe de afiançar que vivemos no melhor dos mundos, ou que são desnecessárias mudanças profundas de ordem social, política e econômica na estrutura da nação. A divergência que cada vez mais separa o governo dos setores esclarecidos, conscientes e realmente preocupados com o futuro do país, é que para estes a preservação do regime é indispensável, mesmo porque ele permite e até favorece o ideal da justiça social, enquanto a pregação do governo dá a entender exatamente o oposto. Às reformas às caneladas, que o governo prega, respondem homens como os srs. Carvalho Pinto e Eurico Dutra com reformas dentro da lei e da ordem.

No pronunciamento do ex-governador de São Paulo há ainda há destacar a condenação à "violência e intolerância, incompatíveis com a índole da nossa gente e destruidoras da tranqüilidade pública". Merecem-lhe o justo repúdio - e o nosso, reiteradas vezes manifestado nestes comentários - tanto os "cegos e reacionários, que resistem às reivindicações imposta pela justiça social", quanto os "demagogos e aventureiros que, por ambição do mando ou a serviço de inconfessáveis interesses, atiram o Brasil na senda tortuosa da revolução e da ditadura".

Da manifestação do mal. Dutra convém colocar em relevo, igualmente, o "apelo "no sentido de que se unam os democratas, enquanto é tempo, com o pensamento só voltado para o bem do país, a fim de evitar o advento de condições que lancem o Brasil no desastre da irremediável secessão interna".

Há porventura, transcrições demais neste editorial. Elas se explicam todavia, pela satisfação de quem vê, repetidos por homens de inegável respeitabilidade, ideias e princípios pelos quais tem batalhado.

-----------------------------

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (pág 08)
[20/03/64]  Ministro da Marinha ameaça prender Aragão após discurso

O Ministro da Marinha ameaçou de prisão o Almirante Cândido Aragão, se o Comandante dos Fuzileiros Navais pronunciar hoje à tarde o discurso que está programado para a homenagem a ser prestada na Petrobrás aos cabos o soldados da Marinha. O Marechal Osvino Ferreira Alves e o Almirante Aragão foram escalados oradores na comemoração do aniversário da Associação de Cabos e Soldados da Marinha, por iniciativa do Sindicato dos Trabalhadores em Petróleo.

Informado do fato, o Almirante Silvio Mota ligou o telefone para o Almirante Aragão, comunicando-lhe a decisão de prendê-lo, caso não se desengaje do programa. Em seguida, ligou para o Marechal Osvino, convidando-o para almoçar ontem. O Presidente da Petrobrás não compareceu ao almoço. O Ministro da Marinha ligou pela segunda vez, entrando no assunto e acusando. de promover a desagregação nas Forças Armadas, com o rompimento da hierarquia militar e a quebra da disciplina. A solenidade é hoje às 16 horas na Petrobrás.

---------------------------------------

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (pág 06)
[20/03/64]  Resistência e reforma - Editorial

Informação atribui ao Presidente da República a afirmação categórica: "se alguém neste Pais não aceitaria nunca ser ditador, sou eu". E mais ainda: "Enganam-se redondamente os que estão falando em golpismo, em continuísmo, em personalismo. Podem os companheiros ficar tranqüilos que nós vamos permanecer todos juntos e democraticamente."

A declaração se presta a juízo sibilino. Repúdio à ditadura; reiteração do desejo de "permanecer democràticamente". Permanecer democraticamente só tem um significado - a permanência através da reeleição.

O desejo de reeleição explicaria muita coisa, inclusive essa curiosa denominação de pessedistas agressivos, os quais estavam reunidos em almoço com o Presidente, quando foram proferidas as palavras citadas.

Elas, todavia, não constituem mais motivo para grande sobressalto depois que este Jornal pôde estampar ontem um leque de declarações encimadas pelas históricas palavras do Marechal Enrico Gaspar Dutra, compondo o elenco da resistência invencível e imbatível do País contra qualquer tentativa de ferir a Constituição no que ela tem de essencial: a democracia representativa, os direitos e as liberdades dos cidadãos e das organizações. l

Hoje, com a indicação em convenção oficial da candidatura Juscelino Kubitschek, cria-se direito novo a amparar a resistência democrática. O direito do candidato à Presidência da República tão sagrado quanto o do Presidente da República em exercício. É essência desse direito a proteção dos candidatos contra a frustração de sua oportunidade através da mudança das regras do jogo depois de começado. Qualquer emenda constitucional que beneficiasse o Presidente com a reeleição seria a inaceitável mudança da regra, violação insuportável de seu direito.

É impressionante a unanimidade (sempre com a exceção de Brizola, um "fora da lei") das declarações enfeixadas por nós ontem, na defesa da democracia representativa e contra o plebiscito. O Manchai Dutra afirma que a constituição tem nela mesma os remédios para a crise. O Governador de Minas Gerais reafirma sua posição: reformas pelos meios constitucionais. o Governador Nei Braga solidariza-se com o Congresso e exige respeito à Constituição. O Sr. Carvalho Pinto afirma que o poder constitucional deve ser mantido ao permanente abrigo de ameaças ou riscos de qualquer espécie, ao pedir as reformas sem quebra do regime e para protegê-lo contra os demagogos e aventureiros. O Governador da Guanabara pede a união dos Governadores. Finalmente, o Sr. Juscelino Kubitschek afirma com acerto que "o Congresso Nacional deve ser respeitado pelo que tem feito para atender nos anseios da Nação".

Sobre essa linha de resistência, os aventureiros e os demagogos não passarão. De nada adiantará pregar-se a reforma social atingindo a fundo a Constituição, de caso pensado na reeleição.

É preciso, porém, reforçar c consolidar a linha com uma posição positiva. Já sabemos o que não podemos dar ao Presidente da república, aos aventureiros e demagogos das organizações ilegais, com pressão ou sem pressão sobre o Congresso.

Já sabemos o que não podemos dar ao Presidente da República. Mas precisamos declarar o que queremos e vamos dar ao País, ao povo em geral, em resposta ao desafio criado pelo espírito de reforma, realidade visível e irremovível da cena político-social brasileira.

Precisamos exigir do Congresso, lembrando novamente que esta é a sua hora crucial e a do regime, em resposta ao ataque dos liberticidas apoiados no espírito justo das reformas sociais, que nos dê as reformas, por lei ordinária, portanto viáveis e preservativas da Constituição. As reformas democráticas que proporcionarão progresso, desenvolvimento, melhor distribuição da riqueza gerada pelos que produzem, dentro da ordem social e econômica vigente.

Dentro da ordem social vigente, mantida intocável no que ela tem de essencial ao funcionamento da democracia, não será possível ignorar a presença real do espírito das reformas, ao lado do espírito da resistência democrática. Este não será bastante nem suficiente. Será apenas capaz de sustentar uma trégua, abrir uma clareira e um espaço que permitirá ao Congresso, a salvo das pressões ilegítimas contra a Constituição e pela reeleição, demonstrar à Nação a improcedência da acusação que lhe fazem, sem fundamento: o Congresso só vota sob pressão.

Se isso chegasse a ser verdade, a democracia representativa estaria realmente morta no Brasil. A resistência democrática estaria apenas defendendo um fantasma. A resistência logo se converteria num logro. A reunião do colégio dos lideres da Cama-

ra, anteontem, deu ao Deputado Juarez Távora a oportunidade de pedir a seus pares um exame de consciência, s ti bre a operosidade do Congresso.

Esta é a hora do exame de consciência, ponto de partida para a ação revisionista dos métodos de trabalho do Congresso, visando à eficiência legislativa que salvará o Pais ao salvar a democracia representativa. Eficiência que enxotará o perigo apontado pelo Marechal Dutra: o da irremediável secessão.

Esta é a hora da resistência democrática. Também é a hora da reforma democrática. Devolvamos ao País a paz e a tranqüilidade perdidas, retirando a iniciativa dos radicais que cortam tinias as pontes de saída democrática.

-------------------------------------

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (pág 05)
[20/03/64]  Atitude de Jair Dantas

Em conversa com generais, ontem, que procuraram saber inclusive sua opinião sobre o pronunciamento do Marechal Eurico Gaspar Dutra, o Ministro Jair Dantas Ribeiro disse que "a palavra de um ex-Presidente da Republica, com a experiência e a autoridade moral que o Marechal Dutra revela, deve ser ouvida em qualquer oportunidade".

Em círculos do Gabinete do Chefe do Exército informou-se, às últimas horas da tarde, que "não havia comentários a fazer sobre o assunto", mas uma fonte categorizada deixou transparecer que, apesar das críticas ao Governo que o pronunciamento do Marechal Dutra encerra, sua condição de ex-Presidente e os serviços prestados à Nação serão levados em conta, para que seja afastada qualquer possibilidade cio seu enquadramento nos regulamentos disciplinares do Exército.

REPERCUSSÃO
Em setores Influentes do Ministério da Guerra indicou-se, ontem, que a repercussão do pronunciamento do Sr. Eurico Dutra, entre a alta Chefia militar, particularmente, foi acima de qualquer expectativa, pois é flagrante, mesmo entre a oficialidade que partilha com mais agressividade das teses sustentadas pelo Presidente da República, que há um consenso

geral quanto à necessidade de evitar-se que o Pais saia da ordem constitucional, em meio pregação governista.

Não foi admitida, em princípio, a possibilidade de surgirem manifestações de solidariedade ao Marechal Dutra, partidas dos generais mais ligados ao alto comando do Exército. Explicou-se que, no interesse da preservação da política de disciplina rígida que o Ministro da Guerra vem mantendo, possivelmente não surgirão pronunciamentos na área militar mais influente, mas ressaltou-se que suas palavras calaram fundo entre a maioria esmagadora das Forças Armadas, notadamente do Exército.

--------------------------------

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (pág 03)
[20/03/64]  Bancadas do PRP divulgam manifesto denunciando que comunistas ocupam o País

Brasília (Sucursal) — As bancadas do PRP na Câmara e no Senado divulgaram manifesto à Nação, responsabilizando o Presidente da República pelo "estado de semi-ocupação pelo Partido Comunista em que se encontra o País e o agravamento da situação 'política nacional".

Ao registrar "as agressões morais de que foi alvo o Congresso no comício do dia 13, com seu fechamento postulado por agitadores oficiais, oficiosos e oficializados", o documento lamenta que "tal espetáculo se tenha desenrolado na presença das Forças Armadas, utilizadas para escárnio e humilhações extremas, aos pés da estátua de Caxias, em inglória missão, diametralmente oposta à que lhes fixa a Carta Constitucional".

A COMUNIZAÇÃO
Os agentes das potências estrangeiras que comandam o assalto final no Poder - diz o manifesto - dominam setores vitais do Pais, de cujo controle dependem a segurança e a sobrevivência da Nação. O sistema de transportes e comunicações encontra-se sob seu incontrastável império. Os portos nacionais foram por eles garroteados. Concomitantemente, implantaram a violência compulsiva nos setores do trabalho e da produção e os paralisam, amiúde, mediante greves ilegais, de maneira a tornar impossível o progresso econômico do Brasil. Estabeleceram comandos de trabalhadores, pactos e órgãos similares, abertamente ilegais. Os sindicatos urbanos o rurais transformaram-se em meras dependências do Partido Comunista, assim com o as agremiações estudantis. E prosseguindo:

- Os círculos oficiais do ensino estão comunizados. Os cargos-chaves da burocracia governamental, em suas mãos. Comandos importantíssimos das Forças Armadas e das direções civis, dos quais aqueles dependem para sua maior eficiência, são exercidos por comunistas notórios. A disciplina e a hierarquia, suas bases constitucionais e morais, são diariamente solapadas por um trabalho de aliciamento que invadiu os quartéis, quebrando-lhes a unidade. A Nação está sendo imobilizada e estrangulada rapidamente.

A seguir, o documento denuncia o Sr. João Goulart como o principal responsável  pela situação descrita e pelas "consequências trágicas que dela decorrerão.

- É, hoje, o Presidente da República, elemento-chave utilizado pelo Partido Comunista no assalto ao Poder.

FALTA DE AUTORIDADE
Mais adiante afirma o manifesto:
- Deve a Nação saber que nós, como integrantes do Congresso Nacional, temos dado e estamos dispostos a dar ao País as leis de que necessita para o desenvolvimento e bem-estar do povo brasileiro. Apenas, não reconhecemos no atual detentor do Poder Executivo autoridade a qualquer título, para nos impor, como pretende, a sua vontade no que tange à solução de problemas da mais alta complexidade com que se defronta a Nação, nem lhe reconhecemos credenciais próprias ou induzidas.

- Já não há, portanto — continua o documento — uma duvida razoável. Os atos e procedimentos do detentor do Poder Executivo da República não se condicionam mais à Constituição, seja como lei orgânica, seja como instrumento de Governo, seja como limitação de Poder. Nem mesmo os partidos

políticos, a começar pelo Partido Trabalhista Brasileiro, que ele próprio chefia, reconhece como órgãos integrantes do sistema do Governo que o povo escolheu. Prefere escudar-se em organizações subversivas de orientação internacional como o CGT, filiado à CTAL e constante do organograma do Politic-Bureau que funciona em Moscou.

Ao final, afirmando que foi lançado um desafio no Congresso. diz o documento que as bancadas do PRP na Câmara e no Senado estão prontas, como parcelas representativas do povo brasileiro, a assumir as atitudes condizentes com a gravidade das ameaças e dos ultimatos dirigidos aos legisladores. E, ao mesmo tempo, concitam o Congresso a cumprir o seu dever: "Somos a última trincheira a barrar os passos da tirania."


Leituras complementares:

Fonte: Banco de Dados Folha
[20/03/64]   São Paulo parou ontem para defender o regime

Publicado na Folha de S.Paulo, sexta-feira, 20 de março de 1964

A disposição de São Paulo e dos brasileiros de todos os recantos da pátria para defender a Constituição e os princípios democráticos, dentro do mesmo espírito que ditou a Revolução de 32, originou ontem o maior movimento cívico já observado em nosso Estado: a "Marcha da Familia com Deus, pela Liberdade".
Com bandas de musica, bandeiras de todos os Estados, centenas de faixas e cartazes, numa cidade com ar festivo de feriado, a "Marcha" começou na praça da Republica e terminou na praça da Sé, que viveu um dos seus maiores dias. Meio milhão de homens, mulheres e jovens - sem preconceitos de cor, credo religioso ou posição social - foram mobilizados pelo acontecimento. Com "vivas" à democracia e à Constituição, mas vaiando os que consideram "traidores da pátria", concentraram-se defronte da catedral e nas ruas próximas.
Ali, oraram pelos destinos do país. E, através de diversas mensagens, dirigiram palavras de fé no Deus de todas as religiões e de confiança nos homens de boa-vontade. Mas, também de disposição para lutar, em todas as frentes, pelos princípios que já exigiram o sangue dos paulistas para se firmarem.

São Paulo pára em defesa do regime e da Constituição

Ontem, São Paulo parou. E foi à praça publica - porque "a praça é do povo" - numa mobilização que envolveu meio milhão de homens, mulheres e jovens, também de outros Estados: a "Marcha da Família com Deus, pela Liberdade".
Durante hora e meia, com a cidade adquirindo aspectos de feriado, um caudal humano correu, ininterruptamente, da praça da Republica para a praça da Sé, passando pela rua Barão de Itapetininga, praça Ramos de Azevedo, Viaduto do Chá, praça do Patriarca e rua Direita, até se represar ante as escadarias da catedral metropolitana. Foi a maior manifestação popular já vista em nosso Estado.
O repudio a qualquer tentativa de ultraje à Constituição Brasileira e a defesa dos princípios, garantias e prerrogativas democráticas constituíram a Tonica de todos os discursos e mensagens dirigidos das escadarias da catedral aos brasileiros, no final da passeata.

"Fidel, Padroeiro de Brizola"

Nas escadarias da catedral, sucederam-se os oradores. Às 18h50, a massa humana chegara à praça da Sé. E encontrou-a ocupada por multidão que acenava com lenços e bandeirolas. O senador padre Calazans ocupara o microfone antes da chegada dos manifestantes e voltou a discursar, após o primeiro orador - sr. Amaro Cesar - ter discorrido sobre os objetivos da "Marcha". Disse o reverendo: "Hoje é o dia de São José, padroeiro da família, o nosso padroeiro. Fidel Castro é o padroeiro de Brizola. É o padroeiro de Jango. É o padroeiro dos comunistas. Nós somos o povo. Não somos do comício da Guanabara, estipendiado pela corrupção. Aqui estão mais de 500 mil pessoas para dizer ao presidente da Republica que o Brasil quer a democracia, e não o tiranismo vermelho. Vivemos a hora altamente ecumênica da Constituição. E aqui está a resposta ao plebiscito da Guanabara: Não! Não! Não!".
As palavras finais do senador foram acompanhadas em uníssono pelos presentes. Depois, o pe. Calazans lembrou que "aqui estamos sem tanques de guerra, sem metralhadoras. Estamos com nossa alma e com nossa arma, a Constituição".

Marcha, veterano e mensagem

À chegada de d. Leonor Mendes de Barros, às 17h20, que provocou vivas e palmas, a banda da Força Publica tocou o Hino Nacional, que foi cantado por todos os manifestantes enquanto acenavam com lenços brancos. Em seguida, discursou o sr. Geraldo Goulart, veterano de 32, dizendo da semelhança entre a situação atual e aquela que originou a Revolução Constitucionalista. Depois, uma mãe paulista leu a mensagem da mulher bandeirante ao povo brasileiro.

Oração pelo Brasil

Coube à profa. Carolina Ribeiro, ex-secretaria da Educação, orar ao microfone por São Paulo e pelo Brasil. Todos a acompanharam no Pai Nosso e ouviram-na dizer: "Temos que pedir a Deus, neste momento em que nossos corações fervem de indignação, que não caiamos na tentação da revolta, porque só a Deus compete levar-nos pelo caminho certo".
Ao Pai Nosso, seguiu-se a Ave Maria, também rezada conjuntamente, com o padre Calazans ao microfone: "Repudio às ofensas lançadas ao Rosário no comício da Guanabara". Era a hora do "Ângelus". Todos deram um viva à "Rainha do Brasil".

"Liberdade é como saúde"

"Esta manifestação popular é uma prova de que São Paulo e o Brasil querem ver sua bandeira eternamente livre" - ressaltou o dep. Ciro Albuquerque, presidente da Assembléia Legislativa paulista, que prosseguiu. "A liberdade é como a saúde: somente lhe damos valor depois que a perdemos. Queremos paz, tranquilidade. E, sobretudo, exigimos respeito à Constituição e às instituições democráticas". Em seguida, conclamou todos os membros das casas legislativas brasileiras a "estudar as reformas, que o povo deseja e merece, mas que devem ser feitas dentro do respeito à soberania do Congresso Nacional". Finalmente, leu mensagem dos prefeitos paulistas, dando conta da assinatura de um manifesto, em que conclamam os brasileiros a lutar por aqueles princípios.

Mensagem de alerta

Seguiram-no na tribuna o deputado Arnaldo Cerdeira e o sr. Amaro Cesar; aquele ressaltando que "não admitiremos a transgressão à lei, a agressão à Constituição"; este, lendo outra mensagem de alerta, dirigida pelos integrantes da "Marcha" ao povo brasileiro.
O representante da delegação da Guanabara, dep. Everardo Magalhães, tocou no nome do sr. Leonel Brizola e não pôde continuar o discurso por alguns minutos. Todos os manifestantes gritavam: "1, 2, 3, Brizola no xadrez. Se tiver lugar, vai o Jango também". Vaias estrondaram por toda a praça e, logo depois, o parlamentar prosseguia: "Vamos dar nossa resposta democrática ao plebiscito da Guanabara". E todos levantaram os braços, acenando novamente com lenços brancos, "pela Constituição". E o deputado retrucou: "Obrigado paulistas. Obrigado brasileiros. Esta é a mensagem que levo para o Rio". Nesse momento, a banda da Força Publica executou o Hino Nacional, cantado pelos presentes, ainda com os lenços acenando.

Armas: contra ou a favor?

O orador seguinte foi o dep. Plínio Salgado, que dirigiu pergunta às Forças Armadas: "Bravos soldados, marinheiros e aviadores de nossa pátria, sereis capazes de erguer vossas armas contra aqueles que querem se levantar, aqueles que se levantam contra a desordem, a subversão, a anarquia, o comunismo? Contra aqueles que querem destruir os lares e a soberania da pátria? Esta manifestação não vos comove? Será possível que permitireis, ainda, que o Brasil continue atado aos títeres de Moscou?"

"Basta! Basta! Basta!"

O deputado Cunha Bueno, em seguida, agradeceu, em nome dos paulistas, o comparecimento das delegações do interior e de outros Estados. E acentuou: "Os brasileiros aqui estão reunidos para dizer ao presidente da Republica: Basta! Basta! Basta (nestas palavras foi seguido pelos manifestantes). O que queremos é paz para continuar nosso trabalho". Deu "vivas" ao Brasil e à democracia.

Espírito de 32

Por sua vez, o dep. Herbert Levy acentuou: "Vossa presença neste momento histórico significa que o povo brasileiro não quer ditadura, não quer comunismo. Quer paz, ordem e progresso. O povo está na rua revivendo o espírito de 32 em defesa da Constituição que fizemos com o nosso sangue. E, se preciso, iremos todos, velhos, moços e até crianças, para as trincheiras de 32. Esta é a advertência para o presidente da Republica e seu cunhado, para que não brinquem de comunismo no Brasil". Foi interrompido varias vezes pelos populares, que gritavam: "1, 2, 3, Brizola no xadrez" e "Verde-amarelo, sem foice e martelo". E a banda da Guarda Civil atacou a marcha "Paris Belfort", o hino da Revolução de 32.

"Escravatura vermelha"

A deputada Conceição da Costa Neves também dirigiu saudação aos brasileiros, dizendo: "Aqui, mercê de Deus, se encontra o Brasil unido contra a escravatura vermelha. De São Paulo partirá a bandeira que percorrerá todo o país, para dizer a todos os partidos que a hora é de união, para dizer basta ao sr. presidente da Republica".
Depois, houve outros oradores - estudantes e representantes de outros Estados -, todos ressaltando a necessidade de união pela preservação do regime, e o deputado Camilo Aschar afirmou que "a Assembléia Legislativa de São Paulo estará alerta para o que der e vier". Discursou também o prefeito de Campinas, sr. Rui Novais, e um representante da delegação paranaense lembrou que "32 e 32 somam 64".

"Senão, não!"

O ultimo orador a ocupar a tribuna foi o sr. Auro Soares de Moura Andrade, presidente do Congresso Nacional. E disse: "Sentimos que hoje é um dia de importância histórica para o Brasil. O povo veio à praça publica para demonstrar sua confiança na democracia. Veio para afirmar perante a Nação que os democratas não permitirão que os comunistas sejam os donos da Pátria. Democratas do Brasil, confiem, não desconfiem das gloriosas Forças Armadas de nossa pátria. Dentro de cada farda, não está somente um corpo, mas também uma consciência e um juramento feito. Que sejam feitas reformas, mas pela liberdade. Senão, não. Pela Constituição. Senão, não. Pela consciência cristã do nosso povo. Senão, não". E todos os presentes o acompanharam no "senão, não". Logo em seguida, a banda tocou a Canção do Soldado, cantada pelos manifestantes, que, depois, repetiram os "slogans" contra o sr. Leonel Brizola e o comunismo e se foram da praça. Eram 18h45 e, muitos, entraram na catedral para assistir à missa vespertina.

Agua na passeata

Foi o próprio deputado Murilo de Sousa Reis quem efetuou a interdição de um prédio comercial, na rua Barão de Itapetininga, e, acompanhado de policiais, revistou todos os conjuntos. Isso porque de um deles haviam atirado um balde de água nos transeuntes componentes da passeata. Numa das janelas, aquele deputado constatou que o seu batente estava molhado e efetuou a detenção do responsável pelo escritório e de um outro elemento que o acompanhava. Ambos foram conduzidos ao DOPS e só à noite foram dispensados.

Ovos e prisões

Outro fato, mais tarde esclarecido, foi a detenção que a Policia que vistoriava a passeata efetuou na praça da Sé, de dois jovens que portavam dentro do carro grande quantidade de ovos de galinha. Apontados por transeuntes, que disseram que os rapazes iam jogar os ovos na multidão, os dois foram detidos e encaminhados ao DOPS. Só então foi constatado que as caixas se destinavam a um supermercado. Os dois foram dispensados.

----------------------------------

Fonte: História Livre
A imprensa jornalística porto-alegrense e os últimos dias do governo João Goulart - por Marcos Emílio Ekman Faber, Eduardo da Silva Severo e Ismael Wolf Ferreira

Nota de Helio Rosa:
Esta matéria, transcreve e/ou comenta acontecimentos nos dia 12, 13, 14, 15, 17, 20, 22, 26, 27, 29 de março e 02 de abril.
Para manter a ideia destes "posts" de citar os acontecimentos diários, os comentários desta matéria serão inseridos nos dias correspondentes, e a conclusão será transcrita no final da série. A íntegra deste trabalho está aqui:
A imprensa jornalística porto-alegrense e os últimos dias do governo João Goulart

No dia 20 de março o editorial do jornal a Última Hora refere-se à Marcha da Família com Deus pela Liberdade como uma tentativa de golpe contra as reformas anunciadas pelo presidente, tendo a clara manchete “Revolução contra as Reformas” (UH, p.1). Já o Diário de Notícias exalta a Marcha da Família com Deus pela Liberdade afirmando em seu editorial que

Estamos vivendo momentos de indisfarçável gravidade. A sensação do perigo está em todos os espíritos. E o fato de as forças democráticas se verem na contingência de sair às ruas para defender o regime, é uma amostra de que, continuasse a omissão, os totalitários já teriam sepultado a democracia brasileira. Felizmente esta possui vitalidade para sobreviver mesmo aos maiores embates – conforme se posicionou em Minas e São Paulo (DIÁRIO DE NOTÍCIAS, 20/03/64, p. 4).

É importante frisar que enquanto um dos veículos de comunicação associa o presidente como sendo o ser maléfico e golpista (GIRADET, 1987, p.17), o outro jornal faz a mesma associação à oposição. Ambos referem-se ao opositor como sendo o usurpador e o antidemocrata. O Diário acusando Jango de comunista e a Última Hora acusando a direita de promover o caos social e desestabilização do regime. Ambos identificam a oposição como uma representação do mal, “o Mal apreendido como simples e exata inversão do bem, o tema não se limita, para dizer a verdade, à exploração do exclusivo domínio do imaginário político” (GIRARDET, 1987, p.62).

Continua no dia 22

--------------------------------------

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais - IPES

O Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES), fundado em 29 de novembro de 1961 por Augusto Trajano de Azevedo Antunes (ligado à Caemi) e Antônio Gallotti (ligado à Light),[1][2] serviu como um dos principais catalisadores do pensamento anti Goulart.

O IPES, durante seu principal período de ação, era localizado no edifício avenida Central no Rio de Janeiro, vigésimo sétimo andar, possuindo treze salas. Sua estrutura, tal qual à de sua entidade-irmã, o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD), equivale ao que hoje se conhece como organização não-governamental (ONG).

A função primordial do IPES, era integrar os diversos movimentos sociais de direita para criar as bases de uma oposição que pudesse deter "o avanço do comunismo sovietico no ocidente".[3]

Fundação

O IPES foi fundado por um grupo de empresários de São Paulo e do Rio de Janeiro durante o período politicamente conturbado da década de 1960, tendo sua articulação inicial em novembro de 1961, logo após João Goulart assumir a Presidência do Brasil em setembro.

Pouco após a sua fundação, em 29 de novembro de 1961, o IPES passou a ser dirigido pelo general Golbery do Couto e Silva, um dos professores da Escola Superior de Guerra e estudioso da geopolítica militar e, anos depois, um dos artífices da ditadura militar, logo após o mesmo pedir para passar para a reserva do Exército Brasileiro.

Financiadores

Os maiores financiadores do IPES foram cinco empresas: Refinaria União, Light, Cruzeiro do Sul, Icomi, Listas Telefônicas Brasileiras, além de trezentas empresas de menor porte(desde indústrias alimentícias até farmacêuticas), além de diversas entidades de classe. O capital inicial liberado para o instituto foi de quinhentos mil dólares. Muitas entidades filantrópicas de senhoras cristãs, de orientação conservadora, também colaboraram com dinheiro em espécie, jóias e trabalho voluntário.

Mobilização

Políticos, empresários, jornalistas, intelectuais e grupos de donas-de-casa, estudantes e trabalhadores militavam sob a orientação ideológica da cúpula do IPES/IBAD.

A base de apoio, direta ou indireta, incluiu sobretudo os políticos da UDN e de setores do PSD. Empresários como Walther Moreira Salles, Mário Henrique Simonsen, Augusto Frederico Schmidt, também poeta, Alceu Amoroso Lima, também escritor e pensador católico, entre tantos outros, militavem pelo IPES, que tentou cooptar para o movimento escritores como Rachel de Queiroz, Fernando Sabino e Rubem Fonseca, que chegou a fazer roteiros para os documentários do IPES. O elenco de apoio ia desde o general Jurandir de Bizarria Mamede, que em 1955 fez um discurso violento contra a vitória de Juscelino Kubitschek durante o enterro do general Canrobert da Costa, até o então apenas empresário Paulo Maluf, que mais tarde tornaria famoso como político brasileiro.

Objetivos

A função do IPES era coordenar a oposição política ao governo Jango, e para tal tinha financiamento de grandes empresas nacionais e multinacionais.

O objetivo do instituto, era fazer um levantamento da maneira de expressão do brasileiro de forma a mapear o comportamento social do público alvo, que era a classe média baixa da população, além dos formadores de opinião, como entidades religiosas diversas, para elaborar filmes publicitários, documentários, confecção de panfletos, e propagandas.

Atividades

Basicamente o IPES trabalhava com pesquisas e estatísticas para coleta de informações para elaborar filmes publicitários, documentários, panfletos, e propagandas contra o governo de João Goulart e seus aliados.

O IPES colaborou com diversas entidades de tendência direitista, como a União Cívica Feminina, Campanha da Mulher pela Democracia, além de outras entidades ligadas à Igreja Católica. Também tentou cooptar os estudantes e operários para a oposição antijanguista, sendo um dos livros publicados intitulado "UNE, instrumento de subversão", de autoria de Sônia Seganfredo, estudante de tendência anticomunista.

O discurso adotado pelo IPES e pelos movimentos que colaboravam com o mesmo era o da defesa da democracia. Segundo consta, Um dos pontos estabelecidos para as militantes era nunca dizer que estavam combatendo o comunismo, mas, sim, trabalhando em defesa da democracia[4], assim se fez a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, em 19 de março de 1964,[5] que definitivamente desencadeou a queda de Jango].

Na verdade, havia uma mobilização para extinguir todo o legado do populismo varguista, no qual o IPES e o IBAD fizeram parte. A princípio, viram em Juscelino Kubitschek, apesar de ligado a um partido político conservador, um mal-disfarçado herdeiro de Vargas, tendo sido o último governador que recebeu o então presidente antes do suicídio deste, em 1954. Várias instituições tinham seus métodos específicos. O IBAD era mais militante, enquanto o IPES mais "racional". O IPES agia na defensiva, pregando o lado "positivo" do capitalismo dos países ricos e as "vantagens" do Brasil de se subordinar a eles. Por outro lado, já havia entidades de ação ofensiva, como o Grupo de Ação Patriótica (GAP) e o Comando de Caça aos Comunistas (CCC). O CCC, entre outras ações, promoveu o incêndio da sede da UNE, em 1964, e o confronto sangrento com estudantes da USP, em 1968.

Durante o período anterior a Revolução de 1964, o IPES encomendou a elaboração de documentários que seriam exibidos em salas de cinema, bairros de baixa renda, entre outros lugares. Os principais documentários foram:[6]

Os métodos

A propaganda do IPES baseava-se na égide da defesa da moral e dos bons costumes da família brasileira, do direito à propriedade privada e à livre iniciativa empresarial, além de estimular a ampla participação de investidores estrangeiros na economia brasileira.

Dentre os métodos utilizados pelo IPES para mobilizar a população contra o trabalhismo de Goulart, houve palestras direcionadas às mães e donas de casa alertando para o possível dano que o comunismo causaria a entidade familiar. Aliás, muitas palestras, panfletos, documentários e livros foram feitos no sentido de difundir uma "racionalidade" ideológica capaz de convencer as pessoas sobre a suposta falência do governo Goulart.

Simultaneamente eram distribuídos panfletos entre a população, endereçados aos fazendeiros e agricultores,[7] outros panfletos davam ênfase à palavras chave, como democracia, subversão, liberdade,[8] o clero fazia publicar mensagens dirigidas ao Presidente.[9]

Por fim, o IPES mantinha contato estreito com a Igreja Católica e mantinha diversos programas de radio em cadeia local e nacional, aonde personalidades da direita brasileira apresentavam seus discursos. Sua atuação não era ostensiva, daí sua sobrevida diante da CPI que os parlamentares da linha governista (favoráveis a Jango) instauraram contra o IBAD, cujas provas de participação de capital estrangeiro fizeram o governo a decretar a extinção desta. O IPES desapareceu em 1972, quando o AI-5 parecia ter controlado todos os focos de manifestação antidireita no país.

-----------------------------------------

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Instituto Brasileiro de Ação Democrática

Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD) foi uma organização anticomunista fundada em maio de 1959, por Ivan Hasslocher. Ao lado dele, vários empresários fariam parte desta organização e da sua entidade-irmã, o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES), constituída dois anos e meio depois. Entre eles, Gilbert Huber Jr, Glycon de Paiva e Paulo Ayres Filho.

Em entrevista concedida em 1998 à Folha de São Paulo, o general aposentado Hélio Ibiapina revelou que o IBAD possuía ligações com a CIA estadunidense, e que ele foi encarregado pelo general Castelo Branco de confirmar a veracidade da informação.[1]O Instituto acabou sendo extinto em dezembro de 1963, por ordem judicial.

Motivos

O financiamento para sua criação do instituto se deu a partir de contribuições de empresários brasileiros e estadunidenses. A finalidade inicial era combater o estilo populista de JK e possíveis vestígios da influência do comunismo no Brasil.

O objetivo do Ibad era influenciar nos debates econômico, político e social do país através da ação publicitária e política. Para dar apoio publicitário ao IBAD, foi criada por Hasslocher a agência de propaganda Incrementadora de Vendas Promotion. Esta era subsidiária daquele instituto, financiada por capital estadunidense. Os métodos utilizados pela agência foram herdados do Office of the Coordinator of Inter-American Affairs (OCIAA).

ADEP

O IBAD criou e incentivou com "fins explicitamente eleitorais"[2] a Ação Democrática Popular (ADEP) cuja função era direcionar capital e financiar os candidatos contrários a João Goulart e anticomunistas em geral, que concorreriam às eleições legislativas e para o governo de 11 estados.

Atuação

O IBAD e o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES) financiaram, produziram e difundiram uma grande quantidade de programas de radiofônicos, de televisão e matérias nos jornais com conteúdo anticomunista. As duas entidades contribuíram decisivamente na oposição ao governo de João Goulart, fator crucial para o êxito do Golpe Militar de 64. Muitas das radionovelas, filmes de cinema e programas de televisão da época, tinham mensagens explícitas e implícitas a favor da absorção pelos brasileiros dos valores estadunidenses.

CPI

Em 1962, o financiamento estrangeiro e a participação ostensiva do IBAD e suas subsidiárias na campanha eleitoral, despertaram suspeitas no Congresso. Chegou a ser sugerida a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), mas a idéia não foi adiante. Em 1963, a CPI foi finalmente instalada.[2]

A CPI do IBAD tomou centenas de depoimentos e apurou denúncias de doações ilegais. Descobriu-se que boa parte da documentação da entidade havia sido queimada pouco antes do início da investigação. Todavia, o que restou permitiu constatar que o financiamento do IBAD provinha principalmente de empresas estadunidenses.[2]

O fim do IBAD

Com base em informações apuradas pela CPI, em agosto de 1963, o presidente João Goulart determinou que as atividades do IBAD fossem suspensas por três meses. O prazo foi prorrogado por mais três meses e, finalmente, em 20 de dezembro de 1963, o IBAD e a ADEP foram dissolvidos por ordem da Justiça.

Todavia, ex-membros do IBAD continuaram a gozar de grande influência durante o Regime Militar, particularmente na área econômica.[3]
 


Nota:
Este "post", de 2012, atualiza este outro, publicado em 2011:
20/03/11
Revolução de 1964 - Os 31 dias de Março (20) - Seleção de notícias do dia 20 Mar 1964 + Leituras complementares