WirelessBRASIL - Bloco RESISTÊNCIA

Março 2012             


22/03/12

• "Aulas de jornalismo" no Blog do Noblat (2) - Novo texto

Nota de Helio Rosa:
Estou reciclando e atualizando um "post" anterior.
O jornalista Ricardo Noblat (foto) dispensa apresentações. Seu blog é campeão disparado de audiência. Sou leitor assíduo (ou viciado?). Se não fosse pelo conteúdo, seria pela simpatia do blog. Que conta, com a colaboração de Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa, que se não fosse ótima jornalista e escritora, deveria ser lida só porque é filha de Adoniran Barbosa...  :-)

Noblat parece que está ministrando um "curso" de jornalismo por correspondência...
Aqui estão algumas "aulas", em forma de "posts", que ele chama de "comentários" em seu Blog do Noblat.

Transcrevo as seguintes matérias, com o recado de "vale conferir", tanto para jornalistas como blogueiros ou simples leitores:

Leia na Fonte: Noblat / O Globo
[20/03/12]   Sobre a imparcialidade do jornalista (8 anos de blog)
[02/01/12]   Voto de silêncio - por Ricardo Noblat
[30/12/11]   O suplício de escrever - por Ricardo Noblat
[29/12/11]   Quando ser neutro significa ser cúmplice - por Ricardo Noblat
[28/12/11]   A tentação de sentir-se poderoso - por Ricardo Noblat
[28/12/11]   Sem investigação não há jornalismo - por Ricardo Noblat
HR

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Leia na Fonte: Noblat
[20/03/12]  Sobre a imparcialidade do jornalista (8 anos de blog)

Este blog comemora, hoje, seu oitavo aniversário. A propósito, republico o que postei aqui no dia 26 de agosto de 2010. É uma maneira de renovar meu compromisso com o jornalismo tal como o entendo. E com quem me lê.

"Este é um dos mitos cultivados há mais de século: jornalista é imparcial. Ou tem obrigação de ser.

Ninguém é imparcial. Porque você é obrigado a fazer escolhas a todo instante. E ao fazer toma partido.

Quando destaco mais uma notícia do que outra faço uma escolha. Tomo partido.

Quando opino a respeito de qualquer coisa tomo partido.

Cobre-se do jornalista honestidade.

Não posso inventar nada. Não posso mentir. Não posso manipular fatos.

Mas posso errar - como qualquer um pode. E quando erro devo admitir o erro e me desculpar por ele.

Cobre-se do jornalista independência.

Não posso omitir informações ou subvertê-las para servir aos meus interesses ou a interesses alheios.

Se me limito a dar uma notícia devo ser objetivo. Cabe aos leitores tirarem suas próprias conclusões.

Se comento uma notícia ou analiso um fato, ofereço minhas próprias conclusões. Cabe aos leitores refletir a respeito, concordar, divergir ou se manter indiferente.

Jornalista é um incômodo. E é assim que deve ser. Se não for não é jornalista."

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Fonte: Noblat / O Globo
[02/01/12]   Voto de silêncio - por Ricardo Noblat

Todo governo tem pessoas destacadas para espalhar versões de fatos que mais o favoreçam. As versões começam a ser criadas logo de manhã, à primeira leitura dos jornais. São aperfeiçoadas ao longo do dia de acordo com a evolução do noticiário.

Ao cair da tarde ou no início da noite, são servidas a jornalistas ávidos por uma palavra oficial.

Antes de pisar pela primeira vez numa redação, o jornalista é informado sobre uma das cláusulas pétreas do código que deve orientar todos os seus passos. A cláusula: é obrigatório ouvir o “outro lado” de uma questão.

Se a questão tiver vários lados, todos devem ser ouvidos. Assim se produzirá uma narrativa mais isenta.

Na teoria, funciona. Na prática, nem sempre. Com frequência, o leitor acaba sendo contemplado com versões contraditórias de um mesmo fato. E fica sem saber ao certo o que aconteceu – e como.

Jornalista é pago (ou deveria ser) para esgotar a maioria de suas dúvidas, só voltando à redação com uma história que tivesse começo, meio e fim.

Uma história assim não dispensa a audiência do “outro” ou de tantos “outros lados” de uma questão. Mas uma coisa é ouvi-los e registrar o que disseram de crível e de relevante, desprezando o resto.

Outra, muito diferente, é se prestar ao papel de porta-voz de manipuladores que se empenham em plantar o que lhes interessa.

O jornalista encarregado da cobertura de assuntos políticos raramente testemunha algo de muito valor. O que realmente importa acontece longe dos seus olhos – no escurinho dos gabinetes ou nos ambientes ensolarados, mas inaccessíveis do poder. Ou alguém conta para o jornalista o que ocorreu ou ele jamais saberá.

Nada é mais difícil, pois, para um jornalista do que administrar suas relações com as fontes de informação. Boas fontes são aquelas que sabem muito – e que nos contam parte do que sabem.

Elas sabem o quanto valem. E não dão informação de graça. Esperam, em troca, ser bem tratadas. E socorridas em meio a dificuldades.

O jornalista tem consciência de que seu compromisso número um é com o distinto público. Ao fim e ao cabo, é ele que lhe garante o emprego.

Mas para manter-se bem informado o jornalista precisa ser bem informado. E aí o círculo se fecha: ele precisa dispor de fontes, que não informam de graça, que...

O Congresso é o alvo principal das críticas dos jornalistas por que é o poder mais aberto. São 513 deputados e 81 senadores.

Se para informar corretamente o público o jornalista tem que sacrificar algum parlamentar que o abastece com notícias, haverá outro para substituí-lo.

No governo não é assim. Há menos fontes de informação. E a depender do DNA do governo, elas são mais fechadas.

Havia fontes de mais no governo José Sarney e notícias em excesso. Foi uma maravilha. Sob esse mesmo aspecto, não foi mal o governo de Fernando Collor. Nem o de Itamar Franco.

Fernando Henrique Cardoso foi uma preciosa fonte de informações para os jornalistas. Deixou de ser quando se elegeu presidente. A maneira como lidara antes com os jornalistas contaminou os que governaram com ele. A informação circulou com desenvoltura mesmo quando o governo apanhava sem dó nem piedade.

Se comparado com o de Fernando Henrique, o governo Lula foi refratário à livre circulação de informações. O próprio Lula confessou uma vez: “Gosto mais de publicidade do que de notícias”.

Quis dizer: gosto mais de notícias que exaltam os meus feitos e os feitos do governo do que de notícias neutras ou críticas.

Prevaleceu o silêncio no primeiro ano de governo Dilma. Ou porque o governo não teve muito que dizer ou porque não é do seu feitio dizer muito.

Dilma respeita a mídia e lhe reconhece a importância – mas não gosta dela. Prefere mantê-la à distância. E exige que seus auxiliares a mantenham à distância.

O mundo seria melhor para governantes como Lula e Dilma se só fosse divulgado aquilo que eles gostariam que fosse.

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Fonte: Noblat / O Globo
[30/12/11]   O suplício de escrever - por Ricardo Noblat

Escrever é um suplício para quem gosta de escrever. E para quem leva a sério o ofício de escrever. Não acreditem em quem diz o contrário.

Paris pode ser uma festa. Escrever não é uma festa. Não é, sequer, um ato prazeroso.

Dá prazer ler um texto bem escrito. Fazê-lo não dá prazer. Dá trabalho.

Escrever não é um dom que se tem. É uma habilidade que se adquire como qualquer outra habilidade.

Entrei em crise quando li o colombiano Gabriel García Márquez pela primeira vez ali pelos idos de 70. A leitura de “Cem Anos de Solidão”, o romance de estréia dele, deixou-me confuso.

Parei de escrever durante quase seis meses depois de ter me deslumbrado com a descrição do momento em que o velho coronel Aureliano Buendia descobriu o gelo, e com o relato da ascensão aos céus de Remédios, a bela, envolta num imaculado lençol branco.

Se era possível ler com naturalidade que borboletas amarelas sempre precediam às aparições do namorado de uma das filhas de Buendia, e se era possível a um escritor extrair tanta beleza do simples ato de alguém tocar uma pedra de gelo pela primeira vez, bem... tudo que eu lera até então envelhecera de repente. Tudo.

E aqueles contos, ou esboços de conto ou ainda fiapos de contos que guardava no fundo de um baú herdado da minha bisavó, estavam condenados a permanecer ali para sempre. Como de fato permanecem até hoje.

Não existe uma receita única para que se escreva bem. Na verdade, não existe receita alguma. Pode-se dizer, como disse Samuel Johnson, que “o que é escrito sem esforço geralmente é lido sem prazer”. Pode-se dizer também, como disse Miguel de Unamuno, que “só escreve claro quem concebe claro”.

De García Márquez, por exemplo, não se dirá que é um escritor econômico de palavras. Nem se dirá o mesmo de Jorge Amado.

Graciliano Ramos, autor de “Vidas Secas”, esse, sim, economizou todas as palavras que pôde economizar. Torturava-se sem piedade quando se debruçava sobre uma folha de papel em branco.

Graciliano reescrevia suas histórias de maneira obsessiva. Cortava parágrafos inteiros, amputava tudo que fosse dispensável, barrava a entrada no texto de qualquer adjetivo, até que sua prosa parecesse tão esquálida, tão enxuta, tão árida quanto os personagens que lhe davam vida.

O modelo de texto que pede o jornalismo está mais para o despojamento de Graciliano do que para o excesso de espuma e de fogos de artifício de Jorge Amado.

Enfim, coitados dos que se devotam a escrever e sonham em fazê-lo bem. Todos os pecados lhes deveriam ser perdoados.

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Fonte: Noblat / O Globo
[29/12/11]   Quando ser neutro significa ser cúmplice - por Ricardo Noblat

Os jornalistas aprendem nos bancos escolares que títulos de notícias e notícias devem se limitar a apresentar os fatos da maneira mais neutra possível. Caberá aos leitores, e somente a eles, tirarem suas próprias conclusões.

A regra faz sentido? Acho que sim. Mas como toda regra ela comporta exceções. Abri várias ao longo dos meus quase 45 anos de jornalismo – uma delas quando vi em Brasília um rapaz agredir um idoso à saída de uma área de lazer chamada Pier 21.

O rapaz tinha discutido com sua mulher na mesa de um restaurante. Ela fora embora aborrecida. Ele depois saiu atrás dela e, na altura do estacionamento pago do Pier, pensou tê-la visto entrando em um carro na companhia de um senhor.

Não hesitou: atacou o homem pelas costas. Derrubou-o. E ao cair, o homem bateu com o braço direito na quina da calçada. O braço se partiu. O rapaz montou no homem e começou a esmurrá-lo. Até que foi tirado de cima dele.

Só depois, já detido por policiais, o rapaz constatou que não era dele a mulher que entrava no carro na companhia daquele homem que jazia no chão. Era mulher do homem que ele nunca vira antes e que agredira.

Ambas as mulheres eram louras. Ambas, baixinhas. A do agressor tinha pouco mais de 20 anos de idade. A outra, pouco menos de 50. “Eu me confundi, eu me confundi”, desculpou-se o rapaz nervoso.

Ele foi levado para a 1ª Delegacia de Polícia, interrogado e solto, embora tenha sido preso em flagrante. O homem foi levado para o Hospital de Base. Em face da fratura no braço, ficaria inativo por 60 dias.

O título da reportagem publicada pelo Correio Braziliense foi “O Selvagem do Shopping”. Poderia ter sido um título neutro do tipo “Rapaz agride homem à saída do Pier 21”. Ou: “Rapaz agride homem por engano”.

Mas como qualificar o ato do rapaz senão como um ato de selvageria, e de uma selvageria absurda, sem nenhuma explicação, sem atenuante algum? E se foi um ato de selvageria por que não dizê-lo com todas as letras?

A imprensa não deve ter medo de chamar as coisas pelo seu próprio nome. Não deve ser neutra diante de fatos comprovadamente graves e sobre os quais não reste a menor dúvida. Eu vi o rapaz espancar o homem. Ninguém me contou.

Quando a Polícia Militar do Pará invadiu um acampamento de sem-terras desarmados e matou uma dezena deles, o ato foi classificado de “massacre” por quase todos os jornais. E como massacre é tratado até hoje.

Foi um crime “bárbaro” o assassinato do jornalista Tim Lopes no Rio de Janeiro. Ele foi torturado por traficantes de drogas antes de ser morto. E depois de morto, seu corpo foi esquartejado e partes dele enterradas em locais diferentes.

Bush invadiu o Iraque a pretexto de que ali havia armas de destruição em massa. A ONU não encontrara tais armas – nem vestígios delas. Elas não foram localizadas desde a invasão.

Por que seria errado publicar uma foto de Bush na capa de um jornal sob a manchete: “Ele mentiu”. E por que você não se recorda de algum jornal que tenha feito isso?

Certa vez, li o perfil do presidente francês Jacques Chirac publicado pelo jornal espanhol “El Pais”. Ali foram descritos os métodos desonestos de Chirac de se manter no poder. E ele foi comparado ao chefe de uma gangue.

Se o autor do perfil reuniu informações suficientes e confiáveis para afirmar o que afirmou por que não deveria fazê-lo? E por que o jornal não deveria publicar?

Há fatos, pois, e muitos fatos, diante dos quais a imprensa não pode e não deve ser neutra. Se for sob a desculpa de tentar ser isenta estará apenas sendo cúmplice. E desinformando ao invés de informar.

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Fonte: Noblat / O Globo
[28/12/11]   A tentação de sentir-se poderoso - por Ricardo Noblat

Poucos escapam dessa armadilha.

Por circularem na companhia de figuras públicas, freqüentarem ambientes onde são tomadas decisões e publicarem o que viram ou ouviram falar de importante, jornalistas imaginam que têm poder ou que fazem parte do poder.

Têm poder até o momento em que são despedidos. Fazem parte do poder se concordam em servir aos que de fato o detêm.

Os donos de jornal e dos demais meios de comunicação, estes sim, são poderosos. Porque não podem ser despedidos – no máximo, quebram. E porque a mídia é cada vez mais poderosa no mundo. Sem ela não se governa. Sem ela não se ganham guerras. Sem ela não se fazem negócios.

O poder do jornalista é relativo, ocasional e temporário.

Nunca me encantei com o poder. Mas pensei que tivesse adquirido algum quando me tornei titular em 1989 da coluna diária “Coisas da Política”, no Jornal do Brasil. Nos dois anos anteriores, havia sido o interino da “Coluna do Castelo”, escrita pelo jornalista Carlos Castelo Branco, o Castelinho.

O presidente do jornal, Manoel Francisco do Nascimento Brito, me dissera mais de uma vez que um dia eu sucederia Castelinho porque o colunista sofria de câncer e precisava se aposentar para enfrentar a doença.

Escrevi a coluna “Coisas da Política” com ampla liberdade, contando tudo que conseguia apurar e dizendo tudo que achava que devia dizer. Aquele foi o ano da sucessão do presidente José Sarney. E do surgimento do fenômeno eleitoral chamado Fernando Collor de Melo.

Bati forte em Collor porque sabia que ele era uma farsa. Como de resto o sabia a maioria dos jornalistas que cobriam política no eixo Brasília – Rio – São Paulo.

A coluna se tornou o espaço mais lido das páginas de política do jornal. Mas nem isto impediu que eu acabasse demitido por telefone cinco dias depois da eleição de Collor.

Jamais me disseram porque fui demitido. Como colunista político, tive um funeral de luxo.

Recebi telefonemas de solidariedade do presidente Sarney, de ministros de Estado, do deputado Ulysses Guimarães, presidente do PMDB, de Lula, do então governador Leonel Brizola e de empresários de peso. Colegas assinaram manifestos em protesto contra minha demissão.

Soube que leitores antigos do jornal cancelaram sua assinatura. Brizola me enviou um emissário com o convite para ser candidato do PDT a deputado federal pelo Rio de Janeiro. Agradeci, mas não aceitei. Fui paraninfo de turmas de jornalismo em universidades do Rio e de Brasília.

Uma editora carioca reuniu as colunas que escrevi e publicou-as com o título de O Céu dos Favoritos. O lançamento do livro, no Rio, provocou engarrafamento de trânsito. Autografei cerca de 800 exemplares.

Compareceram todos os candidatos ao governo do Rio nas eleições do ano seguinte, escritores conhecidos como Antônio Callado, Millôr Fernandes, Roberto Campos e Barbosa Lima Sobrinho, alguns generais da reserva, muitos estudantes e donas-de-casa, e até a cantora Eliana Pitmann.

Passou por lá um tal de Bussunda. Pelo menos foi esse o nome que ele me deu quando autografei seu exemplar do livro. Desconfio até hoje que escrevi errado o nome dele na hora do autógrafo.

Nenhum jornal ou revista me ofereceu emprego depois que fui demitido. Passei os três anos seguintes como funcionário da Propeg, agência de publicidade baiana onde tinha amigos. No Natal de 1990, o único cartão de Boas Festas que recebi tinha a assinatura do deputado federal Osvaldo Coelho, do PFL de Pernambuco. Acompanhou o cartão um doce melão colhido às margens do rio São Francisco, na fronteira de Pernambuco com a Bahia.

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Fonte: Noblat / O Globo
[28/12/11]   Sem investigação não há jornalismo - por Ricardo Noblat

Embora consagrada, acho redundante a expressão “jornalismo investigativo”. Ou “jornalismo de investigação”. Porque todo jornalismo pressupõe investigação.

Uma vez, nos anos 70 do século passado, acompanhei durante duas semanas o capuchinho italiano Frei Damião por terras de Pernambuco, Paraíba e Alagoas. Ele era uma espécie de padre Cícero Romão Batista reencarnado.

Decorara uma dúzia de sermões em português desde que chegara da Itália e os repetia em todos os lugares. Ameaçava os pecadores com as chamas do inferno. Condenava a pílula anticoncepcional e desancava com a mini-saia. Tinha fama de milagreiro. Atraia multidões de desesperados.

Eu trabalhava na revista “Manchete”. E ela encomendara um perfil do frade. Pois bem: o perfil me deu menos trabalho do que a cobertura da primeira noite do velório de Frei Damião que eu faria para o jornal “Correio Braziliense” quase 30 anos depois.

Não meço o trabalho, no caso, pelo número de horas que gastei – mas pelo número de pessoas que ouvi e pelo esforço de imaginação que fiz – principalmente pelo esforço de imaginação.

Foi moleza seguir Frei Damião durante duas semanas e contar o que vi – era rica a variedade de situações e de personagens.

Foi duro produzir um texto atraente sobre o que ocorreu num período de 12 horas dentro de uma basílica no Recife, onde jazia o corpo do frade, e na praça defronte onde se aglomeravam algumas centenas de peregrinos.

Quando a imaginação está a serviço da ficção, creio que é mais fácil se valer dela. Mas quando está a serviço do relato de um fato, não.

A imaginação no jornalismo serve para que você tente enxergar além do óbvio. Para que você diga mais sem dizer demais. É perigosa, se mal usada. Requer muito cuidado.

Cito outro exemplo para reforçar o que quero dizer.

Ainda nos anos 70, quando eu era repórter da sucursal do “Jornal do Brasil” no Recife, o então prefeito de Caruaru, Drayton Nejaim, seqüestrou a própria mulher, a deputada Aracy Nejaim, surrou-a com uma pá e fugiu com ela.

Foi um escândalo nacional. Que mobilizou toda a mídia, Polícia Federal e diversos governos estaduais.

Dali a duas semanas, Aracy reapareceu no Recife. E Drayton sumiu aos cuidados dos seus advogados.

O jornal me encarregou de tentar encontrá-lo. Rodei muito a bolsinha para o conseguir. E foi pura sorte ter conseguido.

O jornal publicou de título: “JB localiza Drayton Nejaim”. Tive minhas poucas horas de glória.

Muito bem. Mas meu esforço de reportagem para entrevistar Drayton foi menor, muito menor do que o esforço que fiz para confirmar a suspeita de que as fotografias publicadas em outubro de 2004 pelo “Correio Braziliense” como se fossem do jornalista Vladimir Herzog, nu e humilhado, não eram dele.

Soube que poderiam não ser dele por uma antiga fonte de informações que tinha na área da inteligência do governo. Primeiro, a fonte me disse que as fotos eram de um padre que havia sido torturado pelo extinto Serviço Nacional de Informações – mas que não sabia o nome dele. Depois me disse que o padre se chamava Alípio de Freitas – um preso político dos anos 70.

Registrei o número de pessoas que procurei por telefone tentando confirmar a informação antes de publicá-la no meu blog: exatas 42. De padres e bispos de Pernambuco a ex-padres e freiras do Rio, São Paulo e Brasília. Tudo isso só para localizar o ex-padre Alípio, que mora perto de Lisboa, e que eu não sabia onde morava.

Uma vez que Alípio me disse que o homem das fotos não era ele, voltei a consultar parte das 42 pessoas que tinha procurado antes – e entrevistei mais 11. Foi quando consegui “fechar” a história de que o homem das fotos era um padre canadense.

Então, meus caros, denunciar um escândalo ou um erro, contar a história de um acidente de carro ou de uma eleição fraudada, exige investigação. E exaustiva muitas vezes. Claro, se quisermos fazer bom jornalismo...