WirelessBRASIL - Bloco RESISTÊNCIA

Março 2012             


27/03/12

• Revolução de 1964 - Os 31 dias de Março (27) - Seleção de notícias do dia 27 Mar 1964 + Leituras complementares

Matérias transcritas nesta página:

Fonte: Acervo da Folha de S. Paulo
[27/03/64]   A crise da Marinha mobiliza o governo

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (Pág. 01)
[27/03/64]   Sílvio Mota (ministro da Marinha) Mota demite Cândido Aragão (comandante dos Fuzileiros Navais) sai e Governo consegue abafar rebelião de marinheiros

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (pág. 04)
[27/03/64]   Brizola partiu pedindo a vigilância de todos

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil
[27/03/64]   A semente da discórdia - Editorial

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil
[27/03/64]   Mota não atende almirantes

Fonte: Acervo da Folha de S. Paulo
[27/03/64]   Aluguéis - Editorial  (Sobre a regulamentação dos aluguéis, anunciada no comício da Central)

Fonte: Acervo da Folha de S. Paulo
[27/03/64]   Marcha da Família no Rio: transportes podem parar

Fonte: Acervo da Folha de S. Paulo
[27/03/64]   Política na opinião alheia (notas sobre a "Marcha da Família" em Santos

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (Pág. 08)
[27/03/64]   Rebeldia na Marinha lança hipótese de renúncia de Goulart

Leitura complementar:

Fonte: História Livre
A imprensa jornalística porto-alegrense e os últimos dias do governo João Goulart - por Marcos Emílio Ekman Faber, Eduardo da Silva Severo e Ismael Wolf Ferreira


Fonte: Memória Viva - Origem: O Cruzeiro
Por que Jango caiu
(...) A verdade é que, a partir do momento em que consolidou sua liderança esquerdista, o Senhor João Goulart foi radicalizando sua posição política e arrastou suas teses para os quartéis. Do outro lado, as forças oposicionistas passaram da tática política para a estratégia militar. Construiu-se, ràpidamente um poderoso dispositivo militar inicialmente defensivo, para evitar que o CGT, a UNE, a Frente Parlamentar Nacionalista, os Comandos do Deputado Brizola, o Governador Miguel Arraes - o esquema da esquerda radical - pudessem dar solução prática às teses revolucionárias que defendiam.
De um lado, o Sr. João Goulart estimulou a reação de sargentos e praças, soldados e marinheiros à política tradicional das Forças Armadas, provocando um clima de indisciplina que se generalizou na Marinha sob a orientação do Almirante Aragão. A insubordinação de marinheiros e fuzileiros navais, e a solução dada pelo Presidente à crise na Armada, fazendo o Almirante Aragão retornar ao comando dos fuzileiros, pondo no Ministério um almirante identificado com o marxismo e designando o Almirante Suzano para o Estado-Maior - já encontravam, do outro lado, uma poderosa aliança de governadores do Centro-Sul, com cobertura militar do II Exército do General Kruel.(...)


Transcrições:

Fonte: Acervo da Folha de S. Paulo
[27/03/64]  A crise da Marinha mobiliza o governo

BRASÍLIA, 26 (FOLHA) - Acompanhado pelo cel. Pinto Guedes, sub-chefe da Casa Militar, o sr. Darci Ribeiro, chefe da Casa Civil da Presidência da República, seguiu esta tarde para o Rio de Janeiro, onde se juntarão ao deputado Abelardo Jurema, ministro da Justiça, na condução política da crise da Marinha.
O presidente da República viajou, ontem, para São Borja, apesar da tensão reinante, que já prenunciava os acontecimentos de hoje. Com ele, embarcou o gen. Assis Brasil, chefe da Casa Militar. O ministro da Guerra encontra-se hospitalizado. O da Marinha teria enviado emissário a são Borja reiterando, agora em caráter irrevogável e urgente, seu pedido de exoneração. Por tudo isso é que o problema desceu aos srs. Darci Ribeiro e ao cel. Pinto Guedes, que rumaram para a Guanabara, a fim de ajudar o min. Abelardo Jurema a segura a batata quente.

EXÉRCITO DE FORA
O sr. Darci Ribeiro leva ao Rio a missão precípua de impedir que o Exército intervenha. Contra a opinião do gen. Oromar Osório, comandante da Vila Militar, o gen. Armando de Morais Âncora, comandante do I Exército, determinou o reforço da Polícia do Exército, destacando uma unidade para tomar posição nas proximidades do Sindicato dos Metalúrgicos, onde se encontram os marinheiros e fuzileiros  rebelados. O Chefe da Casa Civil e o ministro da Justiça tratariam de convencer o gen. Âncora a recolher aquelas tropas, mediante dois argumentos:
1 - Ficar com a orientação do governo, que deseja manter a crise circunscrita à Marinha )o envolvimento do Exército só complicaria as coisas);
2 - Evitar choque entre os comandantes do I Exército e da guarnição da Vila Militar.

BASE DE PACIFICAÇÃO
Às últimas horas da tarde, informava-se que o presidente João Goulart encontrava-se em viagem, regressando de São Borja. O presidente recebeu pelo menos um extenso relatório da situação com dados minuciosos dos acontecimentos, a partir da assembléia da Associação dos Marinheiros e Fuzileiros, realizada ontem à noite.  O deputado Leonel Brizola enviou, de Porto Alegre a São Borja, um emissário com todas as informações.

Círculos do governo acham que a porta para a solução da crise foi aberta pela reiteração do pedido de demissão do Ministro Silvio Mota. Isso permitiria ao chefe do governo nomear, sem dificuldade, um novo ministro, cuja missão seria pacificar a Marinha, atendendo algumas da reivindicações dos subalternos e restaurando a disciplina.

Perigos seria permanecer por mais tempo a situação atual. O Corpo de Fuzileiros Navais teve três comandantes durante o dia de hoje: Cândido Aragão, Washington Frazão e Luis Sinaya - sem que pudesse ser cumprida a ordem de prisão baixada pelo ministro, contra os rebelados. A tropa de fuzileiros, enviada ao loca, teria aderido.

COM JANGO
A Associação dos Marinheiros e fuzileiros, em luta aberta contra o ministro Silvio Mota, faz questão de salientar sempre seu apoio integral ao presidente da República, na luta "para a derrubada das estruturas anacrônicas, que só beneficiam as minorias privilegiadas".

Na reunião de ontem à noite no Sindicato dos Metalúrgicos, um marinheiro leu o trecho da mensagem do sr. João Goulart ao  (ilegível) "O Caminho Brasileiro"  (ilegível).
O presidente da Associação cabo José Anselmo Duarte (presidiu o ato apesar de estar com a prisão decretada pelo ministro), disse que "subversão fazem os que defendem os privilégios e colocam-se contra as reformas de base", enquanto frisava que os marinheiros e fuzileiros estão com os operários, os estudantes e todos os setores progressistas, ao lado do presidente João Goulart.  A mensagem dos marinheiros e fuzileiros presos na Ilha das Cobras ataca violentamente as autoridades navais, que "encarceraram brasileiros que lutam contra as estruturas arcaicas em apoio aos presidente da República".

DESAFIO
O ato comemorativo do segundo aniversário da Associação dos Marinheiros e Fuzileiros, que terminou com a decisão de manter-se a entidade em assembleia permanente, oi um desafio. Não ao presidente da República, certamente, mas às instituições que o presidente promete reformar. é mais gritante  uma manifestação como esta, vinda de um setor das Forças Armadas do que aquelas surgidas de organizações sindicais. Ali existe o hábito da disciplina e no entanto, os regulamentos se mostram impotentes.

Compareceu o "Almirante Negro" da revolta da chibata, o octogenário João Cândido, que teve assento à mesa como uma bandeira. Compareceram representantes da associação de sargentos do Exército, da Marinha, da Aeronáutica, da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros. compareceram representantes do CGT, da PUA da UNE, da Confederação dos Trabalhadores Agrícolas, da Frente Parlamentar Nacionalista (ilegível)

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Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (Pág. 01)
[27/03/64]   Sílvio Mota (ministro da Marinha) Mota demite Cândido Aragão (comandante dos Fuzileiros Navais) sai e Governo consegue abafar rebelião de marinheiros

Centenas de marinheiros e fuzileiros navais rebelados e entrincheirados no Sindicato dos Metalúrgicos, resistindo à ordem de prisão dada pelo Ministro da Marinha, que proibira a festa do 2º aniversário da Associação de Marinheiros e Fuzileiros Navais, fizeram estourar uma crise na Marinha de Guerra, cujas primeiras conseqüências foram a demissão do Almirante Cândido Aragão do Comando-Geral dos Fuzileiros Navais e o pedido de demissão do Ministro Sílvio Mota, que permaneceu no cargo à espera do Presidente João Goulart, o qual chegou à Guanabara à 1h 10min desta madrugada e imediatamente rumou para o Palácio das Laranjeiras, dizendo:
- Vim para tomar pé.
Parte de um destacamento de fuzileiros navais enviado ontem pela manhã ao Sindicato dos Metalúrgicos para efetuar a prisão das praças indisciplinadas aderiu a elas, o que obrigou o Almirante Silvio Mota a pedir a colaboração de um contingente da Polícia do Exército e de tanques, que sob o comando do Coronel Domingos Ventura cercaram o edifício, dispensando o restante da força da Marinha que ainda se encontrava no loca.

Antes de se demitir,o Ministro Silvio Mota demitiu o Almirante Cândido Aragão do Corpo de Fuzileiros Navais e designou para comandar a tropa o Almirante Luis Felipe Sinai. cuja permanência no posto durou apenas algumas horas pois viu-se desautorizao pelos seus oficiais (pedindo demissão) no instante em que deu ordem para o contingente deixar as cercanias do Sindicato dos Metalúrgicos e voltar ao quartel. Os oficiais queriam invadir o sindicato e prender os indisciplinados.

Mais de 20 almirantes estiveram reunidos ontem com o Ministro Silvio Mota, e durante várias horas insistiram para que permanecesse no posto, "a fim de caracterizar a responsabilidade do Presidente da República na rebeldia dos marinheiros". O Almirante Silvio Mota, no entanto, alegando que não contava com o apoio do Governo. resistiu à pressão dos seus colegas e manteve o pedido de demissão, que foi entregue no Palácio das Laranjeiras. Um porta-voz da Presidência da República disse na madrugada de hoje ao JORNAL DO BRASIL que semente depois da chegada do Presidente João Goulart é que o Governo Federal se pronunciará a respeito dos acontecimentos na Marinha. Informou-se também que o General Genaro Bontempo, que responde pelo Ministro da Guerra - o General Jair Dantas Ribeiro, doente, está alheio aos acontecimentos -, enviou os Coronéis Ciro Labarte e Pinto Guedes para parlamentar com os revoltosos, visando a encontrar uma solução que ponha fim à crise.

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Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (pág. 04)
[27/03/64]   Brizola partiu pedindo a vigilância de todos

O Deputado Leonel Brizola, que embarcou ontem para o Rio Grande do Sul, distribuiu nota oficial, advertindo a tocos os brasileiros para que "fiquem atentos. prontos a repelir por todos os meios qualquer tentativa golpista dos inimigos ao povo".

Diz a nota:
"Os marinheiros e fuzileiros navais, nossos patrícios, acabam de tomar uma atitude de grande significação democrática. Entregaram-se, presos, nos milhares, solidarizando-se com os companheiros que dirigem a sua Associação de classe e que se encontram privados da liberdade pelo único motivo de ocuparem postos de direção.
Trata-se de uni gesto nobre e altamente significativo, que não pode deixar de merecer o irrestrito apoio de todos os patriotas.
Aproveito a oportunidade paia denunciar à Nação as intenções golpistas que movem os comandos da Marinha de Guerra e sua perseguição aos marinheiros e fuzileiros. Inadmissível que se negue esses nossos irmãos um direito que a Constituição assegura a todos - o direito de associação. Ao invés de cercear ainda mais a liberdade, urge al imediata democratização dos regulamentos militares, incorporando nossos patrícios milares no processo democrático brasileiro. Apelamos para que todos os brasileiros fiquem atentos, prontos a repelir por todos os meios ao seu alcance qualquer tentativa golpista dos inimigos do povo."


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Fonte: Acervo do Jornal do Brasil
[27/03/64]   A semente da discórdia - Editorial

0 quadro da desunião generalizada e profunda, que é o retrato de corpo inteiro do Governo do Sr. João Goulart, atinge no episódio extremamente grave da rebelião dos marinheiros, o segundo da série iniciada em Brasília, o elo final de uma situação insustentável para o regime para o País.

A semente da falta de autoridade e da indisciplina foi plantada e adubada em todos os setores da vida nacional, sem o mínimo esforço para poupar o que deveria ser o reduto exemplar da ordem, a fonte intocável da confiança de todos os brasileiros na garantia permanente das instituições: as Forças Armadas. E o que agora temos diante dos olhos e das nossas apreensões, em dias que deveriam estar dedicados à meditação do supremo sacrifício de Cristo para a salvação do homem, o terrível espetáculo de uma missão falhada, de uma frustração que fere a espinha dorsal do País e também a cada um de nós. A insurreição dos marinheiros face a face com a impotência da autoridade para contê-la lança a Nação inteira ao desamparo. Ela não envolve apenas um episódio de subversão hierárquica. No seu abismo, despenham-se princípios e esperanças, o princípio da ordem e as esperanças de paz e tranqüilidade, o princípio da hierarquia e as esperanças de um País que deseja trabalhar e cumprir as metas do seu futuro de grandeza. Fomos impelidos à desunião no momento em que mais precisávamos estar unidos, para resolver os nossos problemas de crescimento econômico, de aperfeiçoamento político e de justiça social. E o aspecto terrível dessa realidade é que os estímulos e os comandos da discórdia emanam de cima para baixo, do poder que a vontade livre do País constituiu para dirigir-lhe o destino, dentro dos postulados democráticos.

Quem comanda do alto a dissensão é o Presidente da República, o Chefe Supremo das Forças Armadas, o mesmo Presidente que logrou sustentar-se no Poder sob os auspícios da consciência legalista da Nação, manifesta através dos seus representantes políticos e das autoridades militares.

O que estamos analisando é um caso de traição à legalidade por aquele que deve tudo à legalidade. A partir do momento em que o plebiscito lhe devolveu a integralidade dos poderes presidencialistas, poderes que a Constituição define e limita, o Sr. João Goulart não se tem dedicado a outra tarefa que não seja a de cindir o sistema de apoios da comunidade brasileira, aluindo-lhes as bases políticas, econômicas, jurídicas e sociais. A imagem evangélica da casa dividida não poderia ser mais bem aplicada do que ao Brasil destes dias de maus presságios. Os partidos políticos se dividem e subdividem. Desunidos estão os trabalhadores e as classes empresariais. Divididos os estudantes, dividido o clero, divididas as Forças Armadas. A radicalização ideológica, que é a palavra mágica da discórdia, começa o seu curso dentro da própria intimidade palaciana, onde se digladiam os grupos do assessores e eminências pardas, e cruza do alto a baixo os escalões da sociedade brasileira. O divisionismo alcança agora o estágio da pulverização, da niilização, que já não é a véspera do caos, mas o próprio caos.

O que está acontecendo com os marinheiros rebelados no Sindicato dos Metalúrgicos coroa, com lógica de ferro, o quadro da desagregação acima esboçado. O Ministro da Marinha, não obstante a decisão firme de sufocar a sublevação de caráter nitidamente político, embora dispondo de unidades armadas e de oficiais legalistas e leais, é forçado a demitir-se da Pasta. Quem o derrotou no confronto com o pessoal subalterno e fora da lei? A falta de cobertura da autoridade principal. O Presidente da República, constitucional o Chefe Supremo das Forças Armadas, não precisava estar longe  de centro da crise para que se fizesse sentir também a sua ausência de autoridade. Em São Borja ou alhures, onde se ocultou, ou no Palácio das Laranjeiras, já não pode ele, mesmo se quisesse, invalidar subitamente o clima de dissolução trabalhado por tanto tempo. Os frutos da má semente da indisciplina ai estão, exuberantes e multiplicados. Hoje é uma parcela da Marinha que se insurge. Amanhã poderá ser a Marinha inteira a engolfar-se no processo revolucionário E mesmo em todas as áreas das Forças Armadas, tomadas pela onda incontrolável da subversão e abrindo o caminho da guerra civil.

É profundamente contristados que chegamos a admitir, nesta Sexta-Feira da Paixão de Cristo, o fantasma da guerra civil. Quem o faz é um jornal de tradição católica, justamente na página que hoje se reserva a um apelo de compreensão e de concórdia, pelo bem do País. As forças desapoderadas da desunião não nos permitem, todavia, a mais breve trégua espiritual. Impossível deixar para depois a denúncia do perigo extremo que estamos enfrentando, porque esse "depois" pode deixar de existir, se se quedarem no imobilismo ou no silêncio os responsáveis pela vigilância e pela defesa da ordem democrática.

A oportunidade de que dispomos terá que ser aproveitada em todo o seu alcance para impedir que a engrenagem divisionista, já nos limites da ameaça fratricida, prossiga o seu curso. Quando o Presidente da República se omite e se exclui do cenário da crise, quando o Ministro Silvio Mota se sente sem condições para manter a disciplina nas corporações sob o seu comando, quando a dissensão já confunde e paralisa a oficialidade da Marinha diante da emergência, é imperioso que dirijamos nossas expectativas para os setores não contaminados das Forças Armadas. Para o Exército, principalmente, até aqui imune à vaga subversiva.

A carreira militar é uma carreira do sacrifícios, de devotamentos ao País. Os que preferem o caminho das armas fazem desde cedo a sua escolha o essa alternativa amadurecida e praticada todos os dias cria compromissos incontrastáveis dc lealdade para com a Pátria. Não acreditamos por isso que a insubordinação de subalternos desorientados ou a deserção de oficiais de má índole afetem a estrutura maciça de civismo das Forças Armadas. Confiamos na sua resistência às investidas dissolventes e na sua supremacia final sobre os inimigos das instituições o da Pátria.

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Fonte: Acervo do Jornal do Brasil
[27/03/64]   Mota não atende almirantes

Momentos dramáticos viveu ontem o Almirante Silvio Mota, quando, ás 16 horas, uni grupo de vinte almirantes visitou-o em seu Gabinete e, de maneira até mesmo rude insistiram em que não solicitasse sua demissão do cargo, "afim de caracterizar a responsabilidade do Presidente na subversão da ordem hierárquica e na execução de um plano de comunização do País".
Entre os presentes ao Gabinete do Ministro da Marinha, para lhe hipotecar solidariedade irrestrita e lutar pela sua permanência no cargo, estavam os almirantes Saldanha da Gama, Radmacker, Adalberto Nunes - Comandante-em-Chefe da Esquadra — Hélio Sampaio e muitos outros.

O Almirante Silvio Mota, fumando multo e aparentando profundo abatimento, segundo os participantes do encontro, resistiu até o último minuto em adotar o conselho do Almirantado, isto é, permanecer no cargo e tomar "as providências cabíveis". que seriam a prisão dos amotinados.

A comissão de almirantes disse que, o Almirante Silvio Mota deveria ficar pelo bem da Marinha e do Brasil, "pois hoje, Silvio, ruiu-se um dos bastiões da ordem e da Democracia no Brasil". Apesar dos insistentes pedidos, que se constituíram na maior pressão que sofreu em sua vida, o Ministro disse, desesperançado:
— Eu já pedi a demissão por escrito e não volto atrás. Além do mais não tenho apoio para isto que vocês querem.

Diante da argumentação dos Almirantes, que insistiam na conivência do Presidente da República na revolta dos marinheiros, o Ministro refletiu e, em tom incisivo, disse: — Mas, afinal, vocês querem que eu faça uma revolução?  - Não queremos revolução — responderam os Almirantes. Queremos que você fique para caracterizar a responsabilidade do Presidente da República. Fique e tome as medidas cabíveis.
- Mas eu não tenho o apoio do Governo!
- Mas tem da Marinha inteira e do Brasil!

Apesar de toda a insistência, mostrando-se cansado e abatido, o Almirante Silvio Mota resistiu, dando por encerrada a discussão. Considera-se irrevogavelmente demitido do posto e não aceita alternativa "pois não posso recuar".

Alguns dos Almirantes deixaram claro, na conversa com o Ministro da Marinha, que "a Armada tem de renascer pois este ato de hoje desmoralizou-a e não é possível ficar assim". Todos foram rudes na insistência com o Ministro da Marinha, apesar de solidários com sua atitude em não aceitar a situação, mas sustentaram a necessidade de sua permanência "pela Armada e pelo Brasil". — Isto é um plano de cubanização do Brasil — sustentavam - e nós não podemos ficar alheios à subversão da ordem hierárquica.

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Fonte: Acervo da Folha de S. Paulo
[27/03/64]  Aluguéis - Editorial  (Sobre a regulamentação dos aluguéis, anunciada no comício da Central)

Foi afinal assinado o decreto que, segundo afirma o governo federal, regulamenta o que, datado de 14 do corrente, fora no comício do dia 13 alardeado como já assinado. Esse jogo de datas é interessante, para que se veja a quantas anda a administração federal, que com essas e outras incongruências vai perdendo o respeito que deveria merecer do público.
Referimo-nos, como percebem todos, ao decreto relativo ao tabelamento de alugueis, que tomou o numero 53.702. Esse ato já foi aqui comentado quanto á sua juridicidade. Ilegalíssimo, pois contraria clara disposição de lei e pretende realizar, no domínio econômico, uma intervenção que a Constituição só permite por ato do Congresso. Esbaldaram-se os juristas oficiais para justificar o ilícito, tecendo os mais ridículos e empolados raciocínios para provar que o "livre", da lei, significa "não livre". Irrefutáveis os argumentos contrários à legitimidade do decreto, aproveita o ministro da Justiça e professor de Legalidade, sr. Abelardo Jurema, a oportunidade da publicação do regulamento para lançar um outro esfarrapado argumento a favor da legitimidade do decreto 53.702.

Apega-se ele - pasmem os leitores - ao texto de urna lei delegacia, a de n.o 4, que diz poder a União intervir no domínio econômico, falando expressamente em preços, Em primeiro lugar, quando se diz União ninguém pode subentender o Poder Executivo, mas o governo federal, pelos órgãos que o compõem e que não são apenas os do Executivo, mas também os do Legislativo e outros. Em segundo lugar, só mesmo a ignorância ou a audácia poderiam justificar que as leis delegadas continuem a ser utilizadas no sentido de dar ao Executivo a capacidade de exercer atos legislativos que a Constituição, tal como era e como ficou após o plebiscito, atribui ao Congresso e que são indelegáveis. As leis delegadas já produziram os seus efeitos. Agora são armas que o Executivo não pode usar para atribuir-se funções de legislador.
O regulamento começa. atribuindo ao Comissariado inventado pelo ministro Jurema a responsabilidade pela fiscalização do decreto, ou decreto-lei corno melhor fora chamar-lhe, mas o próprio Comissariado é de legitimidade duvidosa.
O problema não vem ao caso, no momento. O que importa ressaltar é que o regulamento contém muito pouca medida útil, se se destinasse de fato a regulamentar um ato legítimo.

Pelo que se vê, continuamos, neste assunto, no mesmo clima criado durante o comício. Sensacionalismo puro, uma vez que o decreto e o seu regulamento nada resolverá. Justifica-se entretanto uma observação. O problema da moradia é serio e suas proporções só podem ser determinadas mediante estudo criterioso e não por meio de opiniões mais ou menos carregadas de emoção.

Bem pouco adianta atirar inquilinos contra proprietários, ou vice-versa. O que adianta e verificar se os aluguéis hoje cobrados estão ou não dentro da margem razoável de lucro dos proprietários.. Se a sua ascensão tem, ou não, correspondido a de outras elementos necessários à vida do povo. Feito esse exame, que comporta cálculos e estudos mais especializados do que o palavreado do ministro e do presidente dão a entender que tenha havido, então ataquem as autoridades o assunto, por meio de uma lei do inquilinato justa e criteriosa e não da maneira pela qual a questão tem sido até hoje tratada.

O fato inconcusso é que ninguém até agora apresentou estudos fidedignos a esse respeito por parte do governo. E ao governo não faltariam meios para realizar esses estudos, pelos órgãos próprios da administração federal.

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Fonte: Acervo da Folha de S. Paulo
[27/03/64]  Marcha da Família no Rio: transportes podem parar

RIO, 26 (FOLHA) - A possibilidade de uma greve de transportes no dia da "Marcha da Família com Deus pela Liberdade", no Rio, segundo admitem os organizadores da passeata no dia 2, fez com que mais de 1.300 mulheres se inscrevessem numa lista oferecendo seus automóveis particulares para o transporte de pessoas quando da realização da marcha.

Também um numeroso grupo de senhoras residentes em Copacabana manifestou o desejo de ir a pé para a concentração, a fim de "provar aos comunistas que, embora sendo do sexo fraco, também são capazes de maiores sacrifícios pelo bem da democracia"

INSTRUÇÕES
Segundo disse à imprensa d. Amélia Bastos, coordenadora da marcha, agora serão realizados encontros para a distribuição e tarefas, na sede da Associação Comercial da Guanabara.
A Marcha da Família com Deus pela Liberdade é cívica, é apartidária. A comissão de Arregimentação de Mulheres Democráticas(CAMDE) não se responsabiliza por qualquer cartaz ou faixa que desrespeite estas normas - asseverou d. Amélia Bastos.
Ao concluir, a coordenadora da marcha informou que já foram distribuídos 300 mil prospectos sobre a passeata, além de dez mil lacinhos verde-amarelos que as senhoras usarão nos braços.

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Fonte: Acervo da Folha de S. Paulo
[27/03/64] Política na opinião alheia (notas sobre a "Marcha da Família" em Santos

SANTOS: NÚMEROS

Do "Diário de São Paulo" - "A cidade de Santos viveu ontem um dos grandes dias de sua sua história: 200 mil pessoas, isto é, toda a sua população adulta, saíram à rua para participar ou aplaudir a Marcha da Família"

Do "Estado de São Paulo" - "A trilogia mulher-bandeira-igreja foi revivida em Santos, marcando o civismo do povo paulista. Calcula-se que 80 mil pessoas saíram às ruas em profissão de fé legalista."

De "O Dia": "Cerca de 60 mil pessoas integraram a Marcha da Família (em Santos)"

De "A Gazeta Esportiva": - "Calcula-se que estiveram presentes cerca de 50 mil pessoas entre senhoras, operários e elementos representativos de todas as camadas sociais."

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Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (Pág. 08)
[27/03/64]   Rebeldia na Marinha lança hipótese de renúncia de Goulart

O fantasma da renúncia foi invocado ontem entre as hipóteses que se sucediam, configurando na crise restrita à Marinha um encaminhamento político tenso. A opinião pública, entretanto, não tomava parte na apreensão, por força do feriado e do silêncio observado nas fontes oficiais e militares. A redução do movimento nas ruas da Cidade impediu a multiplicação do alarma, apesar das poucas notícias veiculadas pelas estações de rádio, sob cautela.

Mesmo com o Presidente João Goulart longe do teatro das operações, a possibilidade de sua renúncia colocou-se dentro da ordem de considerações admitidas como válidas nas circunstâncias, principalmente se a evolução dos fatos vier a apressar uma crise militar e se se traduzir em impasse político definitivo. No próprio círculo do Governo, a idéia de sacrifício da autoridade presidencial ou o encaminhamento da crise iniciada na Marinha para um bloqueio das reformas é considerada bastante para induzir o Presidente à renúncia. Principalmente se for tentado o encaminhamento da crise no sentido de um choque entre as classes militares e as forças sindicais.

Para caracterizar a coincidência, os observadores e os supersticiosos assinalam que hoje pode ser tem dia decisivo e lembram que a renúncia do Sr. Jânio Quadros ocorreu também numa sexta-feira. Uns e outros chamam a atenção para o fato de que esta é a primeira vez que unia crise não respeita uma tradição brasileira — a de preservar o povo das tensões políticas nos feriados e dias santos como os que compõem este fim de semana. Diferença fundamental também assinalada: a renúncia de Jango não teria o mesmo sentido nem os mesmos azares do precedente de Jânio. A situação é completamente outra e comporta outras consequências.


Leituras complementares:

Fonte: História Livre
A imprensa jornalística porto-alegrense e os últimos dias do governo João Goulart - por Marcos Emílio Ekman Faber, Eduardo da Silva Severo e Ismael Wolf Ferreira

Nota de Helio Rosa:
Esta matéria, transcreve e/ou comenta acontecimentos nos dia 12, 13, 14, 15, 17, 20, 22, 26, 27, 29 de março e 02 de abril.
Para manter a ideia destes "posts" de citar os acontecimentos diários, os comentários desta matéria serão inseridos nos dias correspondentes, e a conclusão será transcrita no final da série. A íntegra deste trabalho está aqui:
A imprensa jornalística porto-alegrense e os últimos dias do governo João Goulart

"No dia 27 de março, uma Sexta-Feira Santa, o Diário de Notícias faz um apelo aos cristãos do Rio Grande do Sul que a mística desta data sagrada para a cristandade ilumine todos nós que livre nascemos (...) Cristo subiu ao Gólgota pela redenção da criatura humana. Inspiremo-nos no exemplo do mestre: estejamos prontos para dar a vida pela liberdade, porque à servidão a qualquer forma de ismo é preferível o sacrifício supremo (DIÁRIO DE NOTÍCIAS, 27/03/64, p. 4)"

Ler mais no dia 29

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Fonte: Memória Viva - Origem: O Cruzeiro
Por que Jango caiu

O Senhor João Goulart perdeu o jogo no momento em que, abandonando a tática da conciliação política, que prevaleceu nos dois primeiros anos de seu governo, preferiu comandar ostensivamente o esquema da esquerda radical que tinha numa entidade juridicamente ilegal, o Comando Geral dos Trabalhadores, o centro de suas atividades revolucionárias.

Chegando ao Poder pela sua extraordinária habilidade política, usada principalmente no amaciamento dos impulsos revolucionários do seu cunhado Leonel Brizola e de uma paciente e longa viagem da Ásia a Porto Alegre quando ganhou tempo para assumir de modo pacífico a Presidência vaga com a renúncia de Jânio, o Sr. João Goulart passou a estruturar um dispositivo de segurança baseado em alguns oficiais de sua confiança pessoal.

Esse dispositivo teve que ser revisto mais de uma vez. As contingências do regime parlamentarista obrigaram o Presidente Goulart a manter no Ministério da Guerra o General Nelson de Melo, notòriamente anticomunista. Derrubado o sistema parlamentar de governo, através de uma intensa pressão política, sindical e militar, pôde, então, o Sr. João Goulart preparar o caminho para sua futura aliança total com as esquerdas.

A Marinha e a Aeronáutica passaram a ter, a partir do primeiro ano de governo presidencialista, comandos fiéis ao Presidente. O Ministério da Guerra foi entregue, então, ao General Amaury Kruel, amigo pessoal do Presidente mas oficial tão anticomunista quanto o seu antecessor na Pasta. O Sr. Leonel Brizola iniciou, então, e vitoriosamente, uma intensa campanha, pelo rádio e televisão, contra a permanência de Kruel no comando-geral do Exército.

O General legalista Jair Dantas Ribeiro foi convocado para assumir o Ministério da Guerra. Construiu, então, um esquema militar inteiramente legalista e anticomunista, substituindo mais de cem comandos em todo o território nacional. Para manter, porém, um dispositivo militar esquerdista, fiel às reformas econômicas que propunha e à sua futura aliança com a esquerda, o Sr. João Goulart levou para a chefia de seu gabinete militar o General Assis Brasil. Aí começou a estruturação de uma ampla frente esquerdista, política, sindical e militar, sob a orientação política da Casa Militar da Presidência.

A um ano e meio das eleições presidenciais o Senhor João Goulart recusava-se a conversar sobre a sua sucessão. O Sr. Juscelino Kubitschek, que seria o candidato natural do esquema governista, teve seu nome sumàriamente vetado pelas forças esquerdistas mais radicais, que obedeciam ao comando do Deputado Leonel Brizola. Deu-se o esvaziamento da candidatura Kubitschek e o crescimento da candidatura Lacerda, na área oposta.

As lideranças políticas, inclusive as mais próximas do Presidente Goulart, passaram a desconfiar das intenções continuístas do chefe trabalhista. O PSD não lhe dava cobertura parlamentar para as reformas. A UND liderava, no Congresso, a anti-reforma. Estruturava-se, assim, um dispositivo de defesa do regime democrático, que os principais partidos e vários governadores comandados por Adhemar e Lacerda puseram a funcionar inicialmente na área puramente política para, mais tarde, ganhar a consciência e o apoio das Forças Armadas.

O Governo fez várias tentativas de contenção desse dispositivo oposicionista. Mal aconselhado tanto política quanto militarmente, o Sr. João Goulart contava, apenas, com apoios populares, suportes sindicais e sua intuição e habilidade política para sobreviver. A inflação se agravava, desmoronavam-se os planos administrativos do Governo. Necessário que o Presidente apressasse sua aliança com as esquerdas, passasse a comandá-las ostensivamente a fim de ocupar o espaço de tempo, os dois meses que separavam a primeira quinzena de março da oficialização da candidatura Lacerda, já marcada para princípios de abril. Com a candidatura Kubitschek já lançada pelo PSD, restava ao Sr. João Goulart fazer a sua opção: ou marcharia com ela, ou concentraria seus esforços para a esquematização de uma candidatura esquerdista com tintas democráticas. Ele desprezou a solução eleitoral e decidiu romper a barreira da conciliação política, indo ao encontro das lideranças identificadas com o pensamento marxista.

Estaria absolutamente convencido o Presidente Goulart de contar com apoios militares para essa jogada? Estaria certo que as forças militares dariam cobertura, ao menos parcial, às teses defendidas pela esquerda radical e comunistas no palanque armado em frente ao Ministério da Guerra no dia 13 de março? O simples fato da presença do General Jair Dantas Ribeiro naquele palanque não autorizava a ninguém a acreditar que Exército, Marinha e Aeronáutica estavam solidárias com a nova posição do Presidente da República.

A partir do comício do dia 13 radicalizaram-se as posições políticas e as Forças Armadas começaram a sensibilizar-se. O Decreto de desapropriações de terras, o do tabelamento dos aluguéis, o de encampação de refinarias de petróleo foram os dados menos importantes na crise que se armava. Para exercer a sua autoridade de Presidente da República e para tomar medidas administrativas até mesmo reformistas, o Sr. João Goulart contava, ao menos aparentemente, com a cobertura militar do esquema montado pelo Ministro Jair Dantas Ribeiro. Mas o próprio Ministro confessava, em conversas confidenciais, que não teria condições para mobilizar seus comandos no sentido de prestigiar uma solução golpista para o problema sucessório, nem de esquerda, nem de direita.

Na realidade - verificou-se mais tarde - O Presidente Goulart não tinha estruturado um dispositivo militar de esquerda, capaz de prestigiar sua aliança com os revolucionários. Se estava mal-informado pela sua assessoria militar chefiada pelo General Assis Brasil, não se sabe. Se agiu conscientemente, certo de que contaria com a cobertura popular para a sua ação, só ele poderá responder.

A verdade é que, a partir do momento em que consolidou sua liderança esquerdista, o Senhor João Goulart foi radicalizando sua posição política e arrastou suas teses para os quartéis. Do outro lado, as forças oposicionistas passaram da tática política para a estratégia militar. Construiu-se, ràpidamente um poderoso dispositivo militar inicialmente defensivo, para evitar que o CGT, a UNE, a Frente Parlamentar Nacionalista, os Comandos do Deputado Brizola, o Governador Miguel Arraes - o esquema da esquerda radical - pudessem dar solução prática às teses revolucionárias que defendiam.

De um lado, o Sr. João Goulart estimulou a reação de sargentos e praças, soldados e marinheiros à política tradicional das Forças Armadas, provocando um clima de indisciplina que se generalizou na Marinha sob a orientação do Almirante Aragão. A insubordinação de marinheiros e fuzileiros navais, e a solução dada pelo Presidente à crise na Armada, fazendo o Almirante Aragão retornar ao comando dos fuzileiros, pondo no Ministério um almirante identificado com o marxismo e designando o Almirante Suzano para o Estado-Maior - já encontravam, do outro lado, uma poderosa aliança de governadores do Centro-Sul, com cobertura militar do II Exército do General Kruel.

Há mais de dois meses que essa aliança estava sendo esquematizada. Ney Braga aderiu a ela quando da visita do Governador Lacerda a Curitiba. Adhemar, Lacerda e Meneghetti já estavam entendidos. Faltava a adesão de Magalhães Pinto. O próprio Lacerda a obteve, entregando ao Governador mineiro o comando-geral das forças democráticas. Mato Grosso e Goiás foram adesões que se fizeram naturalmente, devido à situação geográfica dos dois Estados centrais e da posição ideológica de seus governadores.

Quando o Governador Adhemar de Barros afirmava que tinha condições de reagir à investida esquerdista, não estava blefando. Quando os dirigentes da esquerda radical afirmavam que a revolução estava ganha e eles já se aproximavam do Poder, estavam mentindo. Não contavam as esquerdas com a opinião pública, e o esquema adversário era tremendamente mais poderoso.

O choque pareceu inevitável no momento em que o Presidente João Goulart resolveu tornar irreversível sua posição de comandante de um esquema mal estruturado, e baseado tão-somente na sua liderança popular e nas falsas lideranças sindicais comunistas. Quando falou a sargentos e marinheiros, no dia 30 de março, atacando seus adversários e mantendo sua determinação de ir mais adiante nos seus propósitos, o Sr. João Goulart fez, definitivamente, sua opção. Preferiu contar com as forças populares que esperava se rebelassem em todo o País para enfrentar a reação política e militar ao seu novo governo, à quebra da hierarquia nas Forças Armadas e ao poder sindical representado no CGT.

Essas forças, porém, não foram suficientes para manter o Sr. João Goulart no Poder e garantir a sobrevivência de seu esquema político. Muito mais poderosas do que elas, melhor articuladas, e com apoio da opinião pública do principais Estados do País, eram as forças contrárias.

O Sr. João Goulart marchou, então, para a luta, consciente de que contava ao menos com os trabalhadores mobilizados pelos sindicatos e com a lealdade dos chefes militares à autoridade do Presidente da República. Mas os sindicatos falharam totalmente na mobilização das massas operárias, e os chefes militares viram-se na contingência - cruel para êles - de sacrificar o mandato do Chefe da Nação para evitar a desagregação das Forças Armadas, a tomada do Poder pelo esquema esquerdista radical e, quem sabe, a guerra civil no País.

O General Kruel não desejava a deposição do Presidente. O General Jair nunca a desejou. Nem o General Âncora, nem o General Castelo Branco . O Comandante do II Exército chegou a sugerir ao Presidente, no momento em que suas forças se preparavam para marchar sobre o Rio, que desarticulasse o sistema esquerdista, fechasse o CGT, normalizasse a situação na Marinha e ele, Goulart, contaria com o apoio das Forças Armadas. Mas o Presidente disse não. Não sacrificaria seus aliados, frase que repetiria, mais tarde ao Ministro Jair Dantas Ribeiro, quando este lhe fez idêntico apelo. Estava o Presidente diante de uma opção que lhe era colocada pela quase totalidade das Forças Armadas: ou desarticularia o dispositivo de esquerda que passara a comandar, ou os generais teriam que tomar posição para defender a integridade do regime democrático que juraram defender.

Conscientemente, o Sr. João Goulart marchou para o sacrifício. Não recuou um passo, quando poderia ter declarado a ilegalidade do CGT, reformado o comando da Marinha e mantido a prisão do Almirante Aragão, decretada pelo Ministro Silvio Mota. E quando já se esperava o choque das forças do II Exército com as tropas da Vila Militar, que se mantinham fiéis ao Presidente, o General Jair - recusado o apelo que fez ao Sr. João Goulart - renunciou ao posto, deixando ao Estado Maior do Exército a decisão suprema. O Presidente pensou em resistir, mas nunca na Guanabara, onde os comandos militares agiam com extraordinária rapidez na mobilização de tropas e no encaminhamento de uma solução política para a crise.

Não tendo renunciado ao posto nos momentos decisivos da crise, o Presidente quis que se caracterizasse a sua deposição. Escolheu o seu caminho, quando teve todas as condições para contornar a crise no seu primeiro instante. Trocou o seu mandato pela liderança popular que espera exercer na faixa revolucionária que o Sr. Brizola ocupou sozinho nos dois últimos anos.
ADIRSON DE BARROS


Nota: Este "post", de 2012, atualiza este outro, publicado em 2011:
27/03/11
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