WirelessBRASIL - Bloco RESISTÊNCIA

Abril 2013             


05/04/13

• Revolução de 1964 - Os primeiros dias de Abril (5) - Seleção de notícias do dia 5 Abr 1964

Matérias transcritas nesta página:

Leia na Fonte: Grupo Inconfidência - Edição Histórica
Origem: Estado de Minas

[05/04/64]  O Dever do Militares - Editorial

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (Edição única com data de 5 e 6 de março de 64)
[05/04/64]  Governadores militares indicam Castelo

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (Edição única com data de 5 e 6 de março de 64)
[05/04/64]  Eleição já

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (Edição única com data de 5 e 6 de março de 64)
[05/04/64]  Ademar exige cassação

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (Edição única com data de 5 e 6 de março de 64)
[05/04/64]  Autoridade e confiança - Editorial

Referências sem transcrição:

Folha de São Paulo
- Governadores: Castelo Branco para Presidente (pág. 1)
- No Uruguai o ex-presidente João Goulart (pág. 1)
- O ex-presidente João Goulart chegou ao Uruguai (pág. 2)
- Eleição do novo Presidente: Convocação do Congresso (pág. 3)
- Gama e Silva a estuda revogação de decretos (pág. 3)
- Lacerda admite seu apoio a Dutra para Presidente (pág. 3)
- Magalhães Pinto: dono das reformas é o próprio povo (pág. 3)
- Legalidade mesmo - Editorial  (pág. 4)
- Magalhães e Kruel  (pág. 4)
- Retroceder, não  (pág. 4)

- Bulhões toma posse na Fazenda: fará relatório  (pág. 5)
- Presidente Mazzilli nomeia primeiros ministros civis (pág. 10)

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Fonte: Grupo Inconfidência - Edição Histórica
Origem: Estado de Minas

[05/04/64]  O Dever do Militares - Editorial

Se há um setor que não está corrompido no Brasil, graças a Deus, é o das Forças Armadas. Em Minas, devemos juntar a esse bloco de homens dignos e patriotas a Polícia Militar, outra corporação que tem dado os mais admiráveis exemplos de amor à nossa terra.

Feliz a nação que pode contar com corporações militares de tão altos índices cívicos. A todo momento, essas corporações, comandadas por oficiais formados na melhor escola,
a escola do patriotismo, da decência da pureza de intenções e propósitos, nos oferecem o testemunho de sua identificação com os melhores ideais de nossa gente.

O que eles têm no coração é um Brasil grande, progressista, respeitado, unido de Norte a Sul, de Leste a Oeste, trabalhando livremente num clima de ordem e paz. Os nossos
militares, quando mais fundo e mais grosso é o mar de lama, estão recolhidos às suas casernas austeras, submetidos a um regime de vencimentos incompatíveis com as exigências da vida
moderna. Hoje em dia, não há quem queira ser mais oficial do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, porque não se recebem nessas três armas soldos que permitam uma existência tranqüila.

No entanto, os militares tudo suportam estoicamente, assistindo diante deles o espetáculo da mais deslava corrupção, provocada pelo poder civil, pela baixa politicalha, pelo eleitoralismo
grosseiro. Bastaria dizer que hoje um procurador de um dos institutos de previdência, logo no primeiro mês de sua nomeação, sem ter serviço, indo à repartição meia hora por dia, quando
vai, recebe mais do que um general, que se submeteu a uma longa carreira, sujeito a mudanças amiudadas de residência, sendo obrigado a matricular os seus filhos cada ano um regime
de trabalho de dez horas por dia. É impossível, porém, enumerar aqui todas as injustiças de que são vítimas os militares.

E não se queixam, não se desesperam, por amor ao Brasil. Pois bem: esses patriotas, que não contribuem para o abastardamento dos costumes públicos em nosso país, de quando em vez são forçados a corrigir os erros da politicalha, tomando o poder dos corruptos, dos caudilhos, dos extremistas de baixa extração, restituindo-o limpo e puro, aos civis.
Nunca advogaram em causa própria, ou melhor, nunca tomaram o poder em benefício próprio. Agem quando é preciso, a fim de restituir a tranqüilidade e a paz ao seio da família
brasileira, mas essa tolerância com os civis, que não estão sabendo ser dignos do poder, tem um limite.

As imposições do patriotismo, que é tão aceso no meio militar, poderão levá-los a dissolver as assembléias que insistem em permanecer dando cobertura a políticos corruptos e aventureiros, a comunistas interessados em abrir aqui uma porta ao fidelismo cubano.

O povo também está perdendo a fé nas soluções civis. Vê a volta das raposas de baixa politicalha com espanto e nojo, porque compreende que a agitação vai continuar, a corrupção idem, o assalto aos cofres públicos, a compra de fazendas e apartamentos com dinheiro roubado à nação. O Comando Revolucionário não aceitará agora isto. Quer o expurgo, a higienização do meio político, a imobilização da gang que infelicitava o Brasil.
Os corruptos, onde estiverem, terão que pagar por seus crimes. Se estiverem no Parlamento alguns deles, terão que ver cassados os seus mandatos que não souberam honrar, traindo ali a democracia.

Se estiverem os totalitários vermelhos no mais alto tribunal de justiça do país, há que impor-lhes as sanções da própria lei que eles impõem a outros. Sem esse expurgo, feito sem violência mas dentro da legislação de defesa do povo e do regime, não estará completa a revolução.
Se tolerarem qualquer transigência com os objetivos da revolução, os militares serão novamente traídos pela parcela dos civis corruptos e indignos.

Homens com a alta dignidade, a compostura cívica, a bravura pessoal, a vida limpa e exemplar de um General Carlos Luís Guedes - que é um militar admirável - não podem permitir que se
faça a reconstrução do Brasil em bases falsas. Essa reconstrução tem que ser, antes de tudo, moral.

Foi por isso que todos nós, que estivemos na luta arrostando a empáfia dos baderneiros, sujeitos diariamente a assaltos e golpes dos extremistas, fizemos uma revolução.

Os militares não deverão ensarilhar suas armas, antes que emudeçam as vozes da corrupção e da traição à pátria. Cometerão um erro, embora de boa-fé, se aceitarem o poder civil, que está organizado para assumir as responsabilidades da direção do país. Terão que impor um saneamento, antes de voltar aos quartéis.

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Fonte: Acervo do Jornal do Brasil e da Folha de São Paulo
[05/04/64]  Governadores militares indicam Castelo

Depois de duas horas. de debates — das 19h 15m às 21h 15m — ontem à noite, no Palácio Guanabara, os Governadores Carlos Lacerda, Magalhães Pinto, Mauro Borges, Fernando Correia da Silva, Nei Braga e Adernar de Barros decidiram indicar ao Congresso, corno candidato dos Governadores, o General Humberto Castelo Branco para .cumprir o restante do mandato presidencial do Sr. João Goulart, que chegou a Montevidéu às 17h 35in de ontem, em companhia do General Assis Brasil, e hoje, às 11h, dará entrevista à imprensa. Quando terminou a reunido, da qual o Sr. Ademar de Barros foi o primeiro a sair, dizendo-se voto vencido mas, apesar disso, satisfeito com o resultado, surgiu, o General Muniz Aragão, com a incumbência de indicar aos Governadores o nome do General Castelo Branco como o escolhido pelos militares para a Presidência da República. O Sr. Carlos Lacerda comentou, - com bom humor, para o mensageiro: — O senhor veio arrombar uma porta já aberta, porque o General Castelo Branco já foi escolhido por nós.

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil
[05/04/64]  Eleição já

Mais tarde, na televisão, o Sr. Carlos Lacerda informou que os Governadores, além de apontar o nome do General Humberto Castelo Branco, iam exigir a eleição do mesmo, pelo Congresso, até o meio da semana, o expurgo dos comunistas do seio do Governo e a punição dos negocistas.
O alto comando do Exército ainda não tomou decisão sobre a punição a ser imposta ao Sr. João Goulart e sobre a idéia de cassação dos mandatos dos parlamentares tidos como comunistas ou esquerdistas, Entretanto, estão sendo articuladas várias medidas de caráter jurídico contra o Sr. João Goulart: processos que envolvem crimes contra a Segurança, Nacional, apropriação indébita de dinheiros públicos e outras infrações a serem denunciadas assim que o Governo e o Ministério da Justiça voltem a funcionar normalmente. Em mensagem ao Ministro da Aeronáutica, já por este aprovada, mais de 40 brigadeiros da FAB opinam que os culpados pela comunização do País,, "deverão ser julgados com todos os rigores da lei", e pede reformas de base "humanas, legais, constitucionais, justas e dignas de homens livres" para "quando a Nação estiver tranqüilizada- e sadia".

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil
[05/04/64]  Ademar exige cassação

Ainda em São Paulo, após reunião com o Senador Auro de Moura Andrade, General Amauri Kruel e Secretário de Segurança Pública, General Aldévio Barbosa, o Governador Ademar de Barros disse que é condição sina qua non, para o seu Governo, a cassação dos mandatos "dos deputados e senadores esquerdistas, para que a revolução cumpra o seu objetivo". Citando os membros da Frente Parlamentar Nacionalista, disse que eles deverão, após a cassação, ser julgados por crimes contra a Segurança Nacional.

O Presidente do Clube Naval, Comandante João Marcos Dias, que apóia o General Castelo Branco para a Presidência da República, afirmou que deverão ser expulsos da Marinha os Almirantes Pedro Paulo de Araújo Susano, Paulo Mário Rodrigues e Washington Braga, os Capitães de Mar-e-Guerra Paulo Silveira Werneck e René Magarinos, os Capitães-de-Fragata Tales Godói e Carlos Fleury. Quanto ao Almirante Cândido Aragão, considera "assunto resolvido" a expulsão do mesmo, após ser processado como agitador.

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Fonte: Acervo do Jornal do Brasil e da Folha de São Paulo
[05/04/64]  Autoridade e confiança - Editorial

Nem todos percebem que a revolução não se completou ainda, ou se comportam com notório alheamento dessa delicada realidade. Muitos entendem que a hora dos sacrifícios extremos já passou e começam a falar uma linguagens que a revolução tornou anacrônica. A classe política, refletindo a crise geral de sua organização, parece não se dar conta de que os problemas nacionais e a força das reivindicações populares exigem agora uns comportamento à altura das novas e graves responsabilidades. Na verdade, os chefes militares não jogaram o seu destino numa aventura de apetites e astúcias. Eles chegaram à decisão e à coesão pelo caminho do espírito público desinteressado. Arriscaram a carreira e as vidas por um Brasil melhor, por uma democracia mais autêntica, por um estilo de vida que não proponha a opção entre a justiça social e a liberdade individual, como se tratassem de objetivos inconciliáveis. Esta lição de desinteresse da liderança militar clama pelo comportamento correspondente da liderança política civil. Não havendo concordância neste ponto crucial, o destino da revolução estará ameaçado.

O comportamento desprendido, voltado superiormente para o interesse nacional, permitirá aos lideres militares e civis do movimento vitorioso, em perfeita consonância, a constituição urgente de um Governo que efetive os ideais da revolução. Não importa tanto o nome que afinal seja escolhido para dirigir o novo Governo, até 31 de janeiro de 1966. Importa sim, e fundamentalmente, que esse nome represente uma expressão natural e autêntica da causa. Que nos dêem nomes dos quais possamos até divergir nos aspectos secundários, mas que nos mereçam, sob qualquer ponto-de-vista, uma reação de absoluto respeito.

O povo, que acredita na revolução, depois de lhe ter assegurado um apoio extraordinário, quer ser respeitado nas decisões que se seguem. Os políticos não podem pretender chegar a essas decisões considerando tão somente as suas conveniências grupais, o proveito tático das alianças partidárias, as astuciosas jogadas a curto ou longo prazo. Ninguém pensou, em liquidar um estado de coisas apodrecido para substituí-lo por outro com novos rótulos. O que se quis foi instaurar uma mentalidade nova para processos de governo e de democracia, protegidos pela legalidade constitucional e mergulhados nas ansiedades populares.

A consciência dos objetivos da revolução tem que estar presente em cada momento das articulações para a eleição do Presidente da República que nos conduzirá às urnas de 1965. De outra forma, resultará a desastrosa dissociação entre a teoria revolucionária e a sua prática: e isso significa simplesmente frustrar as esperanças do povo, traindo a revolução. Fazer política, no Brasil que lutamos para reconstruir, precisa deixar de ser sinônimo de cambalacho, onde só entram em jogo os interesses pequenos. Caminhemos agora para fazer a política dos altos interesses do Brasil. Esta não exclui a participação de todas as forças partidárias empenhadas na solução construtiva, não exige o monopólio das fórmulas de decisão. Mas exclui a influência desvirtuadora e desagregadora.

Quem diz que esta é uma revolução de sentido direitista, ou que age como se assim fosse, estar-se-á propondo apenas a desacreditá-la. Nada contém de inspiração reacionária a reformulação que se procura agora realizar, no espírito e nos métodos do Governo. Não se trata de resguardar o bacharelismo constitucional, contra manifestações da nova realidade econômica e social do País. O País enfrentou os perigos de uma guerra civil justamente para atender aos apelos dessa realidade, sem prejuízo do seu desenvolvimento material e das conquistas de liberdade do seu povo. Fomos à beira  a guerra civil porque a alternativa que nos restava era a do caos sem liberdade.

Sendo legalista, a revolução é também essencialmente reformista. Mas já não se quer aqui o reformismo de fachada, lançado à face do povo como instrumento de agitação social e massa de manobra política. Não é mais o reformismo que vocifera e alarma nos palanques do praça pública, enquanto nos bastidores se faz o saque das reservas materiais e morais da Nação. Acabou-se o reformismo sem compostura e sem espírito de sacrifício, e por isso mesmo o reformismo impostor e inviável.

A revolução quer as reformas dentro de um clima de tranqüilidade e de trabalho, de maneira que lutar por elas não implique paralisar e empobrecer o País e afinal lançá-lo ao abismo da escravização comunista. As reformas que agora poderemos fazer, pela via democrática da elaboração legislativa e da liderança política do Congresso, vão atender aos interesses de todas as parcelas nacionais em lugar de servir à divisão e à intolerância entre brasileiros. Nesse sentido, o vocábulo radicalização, do glossário comunizante que lauto nos feriu os ouvidos e a paciência no Governo Goulart, passou a ser um arcaísmo. Em lugar da radicalização que gera os impasses, a democracia serve-se do entendimento que abre caminhos.

A revolução não pretende defender privilégios. Vai atacá-los de frente. Com a diferença de que não distinguirá entre os privilégios dos poderosos e os privilégios das classes que o regime deposto engordava, publicamente ou à sorrelfa, para usá-las como instrumentos de sustentação do seu poder e de sacramentação dos seus crimes. Com a diferença de que não fará da guerra aos privilégios uma arma política, com toda a sua faixa de injustiças e de prepotência.

Mas não basta definir os objetivos da revolução. Há que completá-la, desdobrar e concluir coerentemente a tarefa. Chegou o momento, não mais adiável, de transferir as energias do movimento triunfante as mãos construtivas de um líder que inspire confiança e respeito a todos os setores da Nação.

Porque a Nação não mais tolera a mistificação janguista nem as manobras astuciosas dos políticos de campanário. A Nação quer viver em liberdade, com progresso e justiça social. E' necessário, é indispensável, que as elites políticas, os Partidos, os militares se convençam dessa verdade fundamental: o,Governo-tampão que o Congresso vai eleger precisará ter autoridade suficiente para arcar com responsabilidades históricas definitivas e que assentarão rumos decisivos para o futuro do País. Ou consegue provar que o Brasil é capaz de evoluir dentro dos postulados democráticos, ou acabará dando razão aos que acreditam que somente uma ditadura de esquerda ou de direita solucionará os impasses que o País vem defrontando. O JORNAL DO BRASIL repudiará hoje e sempre qualquer hipótese de governo ditatorial.