WirelessBRASIL - Bloco RESISTÊNCIA

Abril 2013             


06/04/13

• Revolução de 1964 - Os primeiros dias de Abril (6) - Seleção de notícias do dia 6 Abr 1964

Nota de Helio Rosa.
Não sou historiador nem jornalista, estou apenas transcrevendo matérias de jornais antigos.
Mas tento responder algumas perguntas sobre esta Série.
Na época do governo João Goulart (e antes), o povo brasileiro temia profundamente o PCB, pelo seu histórico de violência e seus vínculos com as sangrentas ditaduras da ex-União Soviética e Cuba.
Desde sua criação, em 1922, alternou longos períodos na ilegalidade. No governo João Goulart, derrubado pelo movimento de 1964, os comunistas continuavam na ilegalidade mas seus integrantes estavam muito infiltrados no governo, conforme comprovam os jornais da época.
Daí a enorme participação popular nas famosas "Marchas da Família com Deus pela Liberdade", também chamadas de "Marchas da Vitória", após o "31 de Março" (ver Cronologia das Marchas da Família em todo o Brasil em 1964).

Nesta página está transcrito este texto de Roberto Campos: Roberto Campos - O livro negro do comunismo. Recomendo fortemente a leitura para saber mais sobre "comunismo".

Ainda sobre o PCB, faço uma pequena montagem com recortes do seu verbete na Wikipédia:

(...) Partido Comunista Brasileiro (PCB) é um partido político brasileiro de esquerda, ideologicamente baseado em Karl Marx e Friedrich Engels; e de organização baseada nas teorias de Lênin. Fundado em 25 de março de 1922, seu símbolo, segundo seus estatutos, "é uma foice e um martelo, cruzados, simbolizando a aliança operário-camponesa, sob os quais está escrita a legenda "Partido Comunista Brasileiro". Também conhecido como Partidão (...)
(...) Com a conquista da anistia em setembro de 1979, retornam dirigentes e militantes que estavam no exterior, mas novas divergências internas - que já estavam se expressando no exterior - culminam com a saída de Luís Carlos Prestes e do grupo que lhe dava apoio. Assume então, como secretário-geral, Giocondo Dias.
Em 1985, com o fim da ditadura militar e o início da Nova República, tanto o PCB como o PC do B voltam a funcionar como partidos políticos legais. O PCB, defendendo a bandeira da luta pela democracia através da formação de uma "frente ampla" desde 1965, presta apoio à transição democrática e aos primeiros anos do governo de José Sarney.
Nova crise instaura-se a partir de 1989 na esteira dos acontecimentos do Leste Europeu e da crise de representatividade que vinha vivendo o partido - perdendo espaço nas esquerdas e no movimento sindical para o PT e deixando de contar com o aporte político da URSS que se esfacela após a queda do muro de Berlim.(...)

Em complemento, acrescento dois recortes de uma matérias de 06 de abril de 64, transcrita mais abaixo:
(...) A guerra revolucionária que estava em curso acelerado e que visava implantação de uma ditadura comunista em nosso País ainda não foi vencida. A única vitória até agora alcançada pelas Forças Armadas foi o afastamento do um do seus chefes, o Sr. João Goulart — afirmou o Sr. Bilac Pinto.
HR

Matérias transcritas nesta página:

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (Edição única com data de 5 e 6 de março de 64)
[06/04/64]  Bilac não quer Presidente vinculado à sucessão ou fruto de gestões políticas

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (Edição única com data de 5 e 6 de março de 64)
[06/04/64]  Presidente militar e imediatamente eleito

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (Edição única com data de 5 e 6 de março de 64)
[06/04/64]  Presidente militar e imediatamente eleito

Fonte: WirelessBRASIL
Cronologia das Marchas da Família em todo o Brasil em 1964

Leitura complementar:

Leia na Fonte: Versão Independente
[13/10 12]   Roberto Campos - O livro negro do comunismo

Referências, sem transcrição:

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil e da Folha de São Paulo
Manchetes

Jornal do Brasil 
(clique para ler na fonte)
- Reunião de governadores aponta General Castelo Branco (pág. 3)
- Goulart chega ao Uruguai com prisão já decretada no Brasil  (pág. 3)
- Magalhães veio ao Rio consolidar ideais da revolução pela democracia (pág. 4)
- Brizola só não tomou o Rio Grande por causa das forças do III Exército

Folha de São Paulo  (clique para ler na fonte)
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Hoje no Senado projeto sobre eleição indireta
- Kruel: Decisão do Congresso deverá se acatada
- JG abstém-se de falar sobre sua queda
- Lacerda pede a Castelo Branco que aceite a Presidência
- Governadores reúnem-se: Eleição de Castelo Branco (pág. 3)
- O Presidente definitivo - Editorial (pág. 4)
- Civis e militares pedem Castelo Branco na Presidência (pág. 5)
- Brigadeiros da FAB pedem reformas humanas e legais (pág. 5)
- Em S. José dos Campos "Marcha" foi "da Vitória"
- Ministro da Guerra dá prazo de 8 dias a Assis Brasil [General, ex-Casa Militar de Jango]

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Transcrições

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (Edição única com data de 5 e 6 de março de 64)
[06/04/64]  Bilac não quer Presidente vinculado à sucessão ou fruto de gestões políticas

O Presidente da UDN, Sr. Bilac Pinto, declarou ontem que "a escolha do novo Presidente da República não poderá resultar de combinações políticas inspiradas por interesses de partidos ou de candidatos a sucessão de 65, pois a opção por esse rumo, além de significar a frustração das esperanças do povo, teria o efeito de deter um processo revolucionário que se encontra apenas em sua fase Inicial".
- A guerra revolucionária que estava em curso acelerado e que visava implantação de uma ditadura comunista em nosso País ainda não foi vencida. A única vitória até agora alcançada pelas Forças Armadas foi o afastamento do um do seus chefes, o Sr. João Goulart — afirmou o Sr. Bilac Pinto.

DESMANTELAMENTO

 - Acontece, porém, que a guerra revolucionária tem diversos outros chefes que se incumbirão de dar novo curso à sua marcha, se para a chefia do novo Governo não for escolhido um líder militar capaz de desbaratar, com energia o decisão, a complexa máquina revolucionária que foi montada pelo Governo o que ainda está intata.
- A guerra revolucionária marxista-leninista, que foi demoradamente preparada para submeter o Brasil ao domínio da Rússia, tem ramificações em todos os setores do Governo e em organizações sindicais ilegais como o CGT, PUA o outros.

— Para desmantelar esse complexo aparelho revolucionário o novo Governo deverá ser apartidário e seus Ministros deverão cercar-se do uma equipe de civis e militares que conheçam a técnica revolucionária dos vermelhos a fim de que medidas adequadas possam ser tomadas visando afastar, pelo menos por alguns anos, o risco do uma nova ameaça comunista.

Essa obra do demolição da organização subversiva deverá ser feita sem medidas excessivas o criteriosamente, de modo a evitar abusos que somente poderiam comprometer o alto sentido' da revolução — concluiu o Sr. Bilac Pinto.

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Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (Edição única com data de 5 e 6 de março de 64)
[06/04/64]  Presidente militar e imediatamente eleito

Embora perdurem algumas pequenas dificuldades quanto à fixação de um nome, ficou ontem definitivamente assentada entre os chefes da rebelião vitoriosa a seguinte tese dupla:
1 — O novo Presidente da República deve ser escolhido imediatamente pelo Congresso;
2 — O Congresso deve escolher, de preferência, um militar para chefiar o Governo destinado a completar o período 1960/65.

A fixação dessa tese entre os dirigentes das Forças Armadas resultou de uma série de conversações realizadas nas últimas vinte e quatro horas, com a aceitação, o apoio e os aplausos de, pelo menos, dois partidos: a UDN e o PSP. A disposição revelada sobretudo pelos udenistas, no sentido de defendê-la como uma necessidade nacional, retira à decisão dos chefes militares o possível caráter de pressão que lhe dariam alguns setores do PSD, interessados, aliás, quase exclusivamente, no esclarecimento da questão do prazo constitucional.

A urgência com que os chefes militares tratam do assunto, nos contatos mantidos entre si e com os representantes partidários, denuncia neles a preocupação relativa ao desgaste que o movimento poderá sofrer com o tempo e também reflete o receio de que a malícia dos grupos políticos, tal qual ocorreu em agosto de 1961, acabe mudando o rumo dos acontecimentos e frustrando o golpe de Estado nos seus objetivos mais nobres e mais altos.

Um desses objetivos, como se sabe, é a restauração plena do princípio da hierarquia e da disciplina como base do funcionamento e da existência das Forças Armadas. .Este, precisamente, estará tanto mais longe de ser alcançado quanto maior for a hesitação que presidir à formação do novo Governo. O período do Sr. Ranieri Mazzilli, marcado pelo caráter taxativamente transitório, bastaria para acender esperanças nos núcleos de resistência ao novo regime. A autoridade do Governo, segundo os chefes militares, não decorre apenas da qualidade e competência dos nomes que o compõem, mas também do seu caráter duradouro dentro de uma faixa razoável de tempo, necessário para dar à opinião pública a segurança do que pode esperar da ação governamental.

A Presidência Mazzilli, indispensável como ponte única estendida pela Constituição sobre a fenda aberta com a deposição do Sr. João Goulart, é encarada pelos militares como um obstáculo à consolidação da vitória e deverá ser, portanto, rapidamente superada para que a sucessão se complete e defina pela perspectiva de estabilidade.

Une militar

O segundo aspecto da tese, igualmente defendido pela UDN, impõe-se mais facilmente ao entendimento geral pelo simples conhecimento das causas primeiras da rebelião de 30 de março, resumidas no temor de que o favorecimento da ação das esquerdas resultasse na implantação do sistema comunista no Pais.

Para fazer face ao perigo apontado nas consequências da Presidência Goulart, um Presidente militar reunirá maiores e melhores condições que o mais eficiente dos civis. É o que pensam e sustentam os chefes das Forças Armadas, ainda como resultado da experiência de 1961.

Nessa mesma linha de pensamento, entretanto, enquadra-se a UDN, que pela voz do Deputado Bilac Pinto, seu Presidente, acode em socorro da tese com os elementos doutrinários relativos à Guerra Revolucionária. Estudadas já, exaustivamente, pela Escola Superior de Guerra, as táticas da Guerra Revolucionária estariam naturalmente assimiladas pelo novo Governo, se o seu chefe fosse um general, servido de informações anteriores alem de fortalecido em suas decisões por um sincero sentimento de repúdio à solução comunista.

Um nome

Fixada a tese, resta fixar um nome. O do General Humberto Castelo Branco, apesar da suspeita de inelegibilidade resultante da leitura da letra "c", número 1, do Artigo 139 da Constituição, ainda no fim da noite de ontem era o que reunia maiores preferências dos meios militares e civis consultados.

Não era o único, pois se falou insistentemente também no Marechal Enrico Dutra e em outros, mas era o que reunia algumas outras vantagens a de ter revelado na nota reservada de 20 de março, expedida na qualidade de Chefe do EME, uni exato conhecimento do problema número 1 que se coloca diante do novo Governo, que é o problema da vitória comunista pela deterioração de certos princípios básicos da vida militar.

Governadores apóiam

A exigência militar foi ontem apoiada pelos Governadores Ademar de Barros, Carlos Lacerda, Magalhães Pinto, Correia da Costa, Mauro Borges e Nei Braga, que resolveram fazer sua a tese dupla da eleição de um Presidente-General, imediatamente.

Além disso, os Governadores escolheram entre si, não se sabe e se unanimemente, o nome do General Catelo Branco, o qual será, sem embargo, objeto de novo exame nas conversações gerais que continuarão a se processar no dia de hoje

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Fonte: Acervo do Jornal do Brasil (Edição única com data de 5 e 6 de março de 64)
[06/04/64]  Sandra afirma que o Plano Nacional de Alfabetização era feito para subverter

A Secretária de Serviços Sociais da Guanabara, Srta. Sandra Cavalcanti, disse ontem, em uma palestra transmitida pela televisão, que o objetivo central do Plano Nacional de Alfabetização do Ministério da Educação e Cultura "era transformar as verbas destinadas à, educação dos trabalhadores em instrumento de subversão das camadas mais humildes da população".
- O dinheiro do Plano de Alfabetização — disse a Srta. Sandra Cavalcanti — ia diretamente para o Instituto Superior de Estudos Brasileiros, órgão criado pelo Sr. Juscelino Kubitschek, responsável pela expansão do comunismo no Brasil, pelo fato de ter sido pressionado pelo Presidenta do Partido Comunista Brasileiro, Sr. Luis Carlos Prestes.

A UNE

Falando sabre a UNE, a Secretária de Serviços Sociais animou que a entidade "era um ninho de ratos, que bem cedo não quiseram trabalhar, mas que tiravam a oportunidade do trabalhador com o dinheiro do trabalhador".

A Srta. Sandra Cavalcanti exibiu, em seguida, documentos que comprovariam sua afirmativa, inclusive recibos de subvenções a movimentos estudantis e financiamentos a jornais da classe, feitos com verbais destinadas à assistência do estudante pobre.

- Como premio pelos seus assaltos à bolsa do povo — disse a Srta. Sandra Cavalcanti - esses maus, esses falsos estudantes recebiam verbas extraordinárias diretamente da Casa. Civil da Presidência da República.

Sobre a atividade dos grupos de trabalho criados pela Secretaria de Serviços Sociais da Guanabara disse que "com o dinheiro do povo é muito fácil ser generoso" e que "aqueles grupos eram a maneira mais fácil de esconder o trabalho subversivo realizado aceleradamente pelos estudantes comunistas"
 
LINGUAGEM ESTRANGEIRA

A Srta. Sandra Cavalcanti afirmou ainda que os relatórios sobre as pessoas que frequentavam as aulas ministradas pelos educadores subvencionados pelo Plana Nacional de Alfabetização "eram feitos por comunistas, que investigavam as atividades analfabetos que ouviam uma linguagem estrangeira, onde as palavras mais empregadas eram alienação, conscientização e politização".
- Se as pessoas interessadas em aprender, que eram investigadas pelos agentes comunistas, não serviam para a propaganda de suas ideias - eram transferidas para lugares distantes, para não prejudicar os educadores do Ministério da Educação no seu plano de subversão do País.

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Leituras complementares:

Leia na Fonte: Versão Independente
[13/10 12]   Roberto Campos - O livro negro do comunismo

O livro negro do comunismo
Roberto Campos
O Globo, 19/04/98

"Le livre noir du communisme" (Edições Robert Laffont, Paris, 1997), escrito por seis historiadores europeus, com acesso a arquivos soviéticos recém-abertos, é uma espécie de enciclopédia da violência do comunismo. O chamado "socialismo real" foi uma tragédia de dimensões planetárias, superior em abrangência e intensidade ao seu êmulo totalitário do entreguerras - o nazifascismo.

Ao contrário da repressão episódica e acidental das ditaduras latino-americanas, a violência comunista se tornou um instrumento político-ideológico, fazendo parte da rotina de governo. Essa sistematização do terror não é rara na história humana, tendo repontado na Revolução Francesa do século 18 na fase violenta do jacobinismo, na "industrialização do extermínio judaico" pelos nazistas, e - confesso-o com pudor - na inquisição da Igreja Católica, que durante séculos queimava os corpos para purificar as almas.

O "Livre noir" me veio às mãos num momento oportuno em que, reaberto na mídia e no Congresso o debate sobre a violência de nossos "anos de chumbo" nas décadas de 60 e 70, me pusera a reler o "Brasil Nunca Mais", editado em 1985 pela Arquidiocese de São Paulo.

Comparados os dois, verifica-se que o Brasil não ultrapassou o abecedário da violência, palco que foi de um miniconflito da Guerra Fria, enquanto que o "Livre noir" é um tratado ecumênico sobre as depravações ínsitas do comunismo, este sem dúvida o experimento mais sangrento de toda a história humana.

Produziu quase 100 milhões de vítimas, em vários continentes, raças e culturas, indicando que a violência comunista não foi mera aberração da psique eslava, mas, sim, algo diabolicamente inerente à engenharia social marxista, que, querendo reformar o homem pela força, transforma os dissidentes primeiro em inimigos e, depois, em vítimas.

A aritmética macabra do comunismo assim se classifica por ordem de grandeza: China (65 milhões de mortos); União Soviética (20 milhões); Coréia do Norte (2 milhões); Camboja (2 milhões); África (1,7 milhão, distribuído entre Etiópia, Angola e Moçambique); Afeganistão (1,5 milhão); Vietnã (1 milhão); Leste Europeu (1 milhão); América Latina (150 mil entre Cuba, Nicarágua e Peru); movimento comunista internacional e partidos comunistas no poder (10 mil).

O comunismo fabricou três dos maiores carniceiros da espécie humana - Lênin, Stálin e Mao Tse-tung. Lênin foi o iniciador do terror soviético. Enquanto os czares russos em quase um século (1825 a 1917) executaram 3.747 pessoas, Lênin superou esse recorde em apenas quatro meses após a revolução de outubro de 1917.

Alguns líderes do Terceiro Mundo figuram com distinção nessa galeria de assassinos. Em termos de percentagem da população, o campeão absoluto foi Pol Pot, que exterminou em 3,5 anos um quarto da população do Camboja.

Fidel Castro, por sua vez, é o campeão absoluto da "exclusão social", pois 2,2 milhões de pessoas, equivalentes a 20% da população da ilha, tiveram de fugir. Juntamente com o Vietnã, Fidel criou uma nova espécie de refugiado, o "boat people" - ou seja, os "balseros", milhares dos quais naufragaram, engordando os tubarões do Caribe.

A vasta maioria dos países comunistas é culpada dos três crimes definidos no artigo 6º do Estatuto de Nuremberg: crimes contra a paz, crimes de guerra e crimes contra a humanidade.

A discussão brasileira sobre os nossos "anos de chumbo" raramente situa as coisas no contexto internacional da Guerra Fria, a qual alcançou seu apogeu nos anos 60 e 70, provocando um "refluxo autoritário" no Terceiro Mundo. Houve intervenções militares no Brasil e na Bolívia em 1964, na Argentina em 1966, no Peru em 1968, no Equador em 1972, e no Uruguai em 1973.

Fenômeno idêntico ocorreu em outros continentes. Os militares coreanos subiram ao governo em 1961 e adquiriram poderes ditatoriais em 1973. Houve golpes militares na Indonésia em 1965, na Grécia em 1967 e, nesse mesmo ano, o presidente Marcos impunha a lei marcial nas Filipinas, e Indira Gandhi declarava um "regime de emergência". Em Taiwan e Cingapura houve autoritarismo civil sob um partido dominante.

O grande mérito dos regimes democráticos é preservar os direitos humanos, estigmatizando qualquer iniciativa de violá-los. Mas por lamentáveis que sejam as violências e torturas denunciadas no "Brasil, Nunca Mais", elas empalidecem perto das brutalidades do comunismo cubano, minudenciadas no "Livre noir".

Comparados ao carniceiro profissional do Caribe, os militares brasileiros parecem escoteiros destreinados apartando um conflito de subúrbio... Enquanto Fidel fuzilou entre 15 mil e 17 mil pessoas (sendo 10 mil só na década de 60), o número de mortos e desaparecidos no Brasil, entre 1964 e 1979, a julgar pelos pedidos de indenização, seria em torno de 288, segundo a Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal, e de 224 casos comprovados, segundo a Comissão de Mortos e Desaparecidos do Ministério da Justiça. O Brasil perde de longe nessa aritmética macabra.

Em 1978, quando em nosso Congresso já se discutia a "Lei da Anistia", havia em Cuba entre 15 mil e 20 mil prisioneiros políticos, número que declinou para cerca de 12 mil em 1986. No ano passado, 38 anos depois da Revolução de Sierra Maestra, ainda havia, segundo a Anistia Internacional, entre 980 e 2.500 prisioneiros políticos na ilha. Em matéria de prisões e torturas, a tecnologia cubana era altamente sofisticada, havendo "ratoneras", "gavetas" e "tostadoras". Registre-se um traço de inventividade tecnológica - a tortura "merdácea", pela imersão de prisioneiros na merda.

Não houve prisões brasileiras comparáveis a La Cabaña (onde ainda em 1982 houve 100 fuzilamentos), Boniato, Kilo 5,5 ou Pinar Del Rio. Com estranha incongruência, artistas e intelectuais e políticos que denunciam a tortura brasileira visitam Cuba e chegam mesmo a tecer homenagens líricas a Fidel e a seu algoz-adjunto Che Guevara.

Este, como procurador-geral, foi comandante da prisão La Cabaña, onde, nos primeiros meses da revolução, ocorreram 120 fuzilamentos (dos 550 confessados por Fidel Castro), inclusive as execuções de Jesus Carreras, guerrilheiro contra a ditadura batista, e de Sori Marin, ex-ministro da agricultura de Fidel. Note-se que Che foi o inventor dos "campos de trabalho coletivos", na península de Guanaha, versão cubana dos "gulags soviéticos" e dos "campos de reeducação" do Vietnã.

A repressão comunista tem características particularmente selvagens. A responsabilidade é "coletiva", atingindo não apenas as pessoas, mas as famílias. É habitual o recurso a trabalhos forçados, em campos de concentração. Não há separação carcerária, ou mesmo judicial, entre criminosos comuns e políticos. Em Cuba, criou-se um instituto original, o da "periculosidade pré-delitual", podendo a pessoa ser presa por mera suspeita das autoridades, independentemente de fatos ou ações.

Causa-me infinda perplexidade, na mídia internacional e em nosso discurso político local, a "angelização" de Fidel e Guevara e a "satanização" de Pinochet. Isso só pode resultar de ignorância factual ou de safadeza ideológica.

Pinochet foi ditador por 17 anos; Fidel está no poder há 39 anos. Pinochet promoveu a abertura econômica e iniciou a redemocratização do país, retirando-se após derrotado em plebiscito e em eleições democráticas como senador vitalício (solução que, se imitada em Cuba, facilitaria o fim do embargo).

Fidel considera uma obscenidade a alternância no poder, preferindo submeter a nação cubana à miséria e à fome, para se manter ditador. Pinochet deixou a economia chilena numa trajetória de crescimento sustentado de 6,5% ao ano. Antes de Fidel, a economia cubana era a terceira em renda por habitante entre os latino-americanos e hoje caiu ao nível do Haiti e da Bolívia.

O Chile exporta capitais, enquanto Fidel foi um pensionista da União Soviética e, agora, para arranjar divisas, conta com remessas de exilados e receitas de turismo e prostituição. Em termos de violência, o número de mortos e desaparecidos no Chile foi estimado em 3.000, enquanto Fidel fuzilou 17 mil!

Apesar de fronteiras terrestres porosas, o Chile, com população comparável à de Cuba e sem os tubarões do Caribe, sofreu um êxodo de apenas 30 mil chilenos, hoje em grande parte retornados. Sob Fidel, 20% da população da ilha, ou seja, algo que nas dimensões brasileiras seria comparável à Grande São Paulo, teve de fugir.

Em suma, Pinochet submeteu-se à democracia e tem bom senso em economia. Fidel é um PhD em tirania e um analfabeto em economia. O "Livre noir" nos dá uma idéia da bestialidade de que escapamos se triunfassem os radicais de esquerda. Lembremo-nos que, em 1963, Luiz Carlos Prestes declarava desinibidamente que "nós os comunistas já estamos no governo, mas não ainda no poder".

Parece-me ingenuidade histórica imaginar que, na ausência da revolução de 1964, o Brasil manteria apenas com alguns tropeços sua normalidade democrática. A verdade é que Jango Goulart não planejara minimamente sua sucessão, gerando suspeitas de continuísmo. E estava exposto a ventos de radicalização de duas origens: a radicalização sindical, que levaria à hiperinflação, e a radicalização ideológica, pregada por Brizola e Arraes, que podia resultar em guerra civil.

É sumamente melancólico - porém não irrealista - admitir-se que, no albor dos anos 60, este grande país não tinha senão duas miseráveis opções: "anos de chumbo" ou "rios de sangue"...

Roberto Campos, 81, economista e diplomata, é deputado federal pelo PPB do Rio de Janeiro. Foi senador pelo PDS-MT e ministro do Planejamento (governo Castello Branco). É autor de "A Lanterna na Popa" (Ed. Topbooks, 1994). Este e outros artigos podem ser encontrados no novo livro de Roberto Campos, Na Virada do Milênio, ed. Topbooks, 1998.

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Cronologia das Marchas da Família em todo o Brasil em 1964
Fonte: Google Books
Além do golpe: versões e controvérsias sobre 1964 e a ditadura militar - por Carlos Fico

19/03 - Marcha da Família com Deus pela Liberdade em São Paulo (SP)
21/03 - Marcha da Família com Deus pela Liberdade em Araraquara (SP)
21/03 - Marcha da Família com Deus pela Liberdade em Assis (SP)
24/03 - Marcha da Família com Deus pela Liberdade em Bandeirantes (PR)
25/03 - Marcha da Família com Deus pela Liberdade em Santos (SP)
28/03 - Marcha da Família com Deus pela Liberdade em Itapetininga (SP
29/03 - Marcha da Família com Deus pela Liberdade em Atibaia (SP)
21/03 - Marcha da Família com Deus pela Liberdade em Ipauçu, (SP)
21/03 - Marcha da Família com Deus pela Liberdade em Tatuí, (SP)
01/04 - Marcha da Família com Deus pela Liberdade em São João da Boa Vista (SP)
02/04 - Marcha da Família com Deus pela Liberdade em Londrina, (PR)
02/04 - Marcha da Família com Deus pela Liberdade no Rio de Janeiro, (RJ)
02/04 - Marcha da Família com Deus pela Liberdade em São Carlos, (SP)
03/04 - Marcha da Família com Deus pela Liberdade em Uberlândia (MG)
04/04 - Marcha da Família com Deus pela Liberdade em Rio Claro (SP)
05/04 - Marcha da Família com Deus pela Liberdade em Barbacena (MG)
05/04 - Marcha da Família com Deus pela Liberdade em Jaú (SP)
05/04 - Marcha da Família com Deus pela Liberdade em Maceió (AL)
05/04 - Marcha da Família com Deus pela Liberdade em Pádua (RJ)
07/04 - Marcha da Família com Deus pela Liberdade em Campinas (SP)
08/04 - Marcha da Família com Deus pela Liberdade em Amparo (SP)
08/04 - Marcha da Família com Deus pela Liberdade em Franca (SP)
09/04 - Marcha da Família com Deus pela Liberdade em Mogi-Guaçu (SP)
09/04 - Marcha da Família com Deus pela Liberdade em Recife (PE)
11/04 - Marcha da Família com Deus pela Liberdade em Passos (MG)
11/04 - Marcha da Família com Deus pela Liberdade em Presidente Prudente (SP)
12/04 - Marcha da Família com Deus pela Liberdade em Taubaté (SP)
12/04 - Marcha da Família com Deus pela Liberdade em Periqui (SP)
12/04 - Marcha da Família com Deus pela Liberdade em Botucatu (SP)
15/04 - Marcha da Família com Deus pela Liberdade em Campos (RJ)
15/04 - Marcha da Família com Deus pela Liberdade em Capivari (SP)
15/04 - Marcha da Família com Deus pela Liberdade em Lorena (SP)
16/04 - Marcha da Família com Deus pela Liberdade em Dois Córregos (SP)
16/04 - Marcha da Família com Deus pela Liberdade em Lavras (MG)
18/04 - Marcha da Família com Deus pela Liberdade em Conselheiro Lafaiete (MG)
18/04 - Marcha da Família com Deus pela Liberdade em Indaiatuba (SP)
18/04 - Marcha da Família com Deus pela Liberdade em Santa Bárbara D'Oeste (SP)
19/04 - Marcha da Família com Deus pela Liberdade em Jacareí (SP)
21/04 - Marcha da Família com Deus pela Liberdade em Formiga (MG)
22/04 - Marcha da Família com Deus pela Liberdade em Teresina (PI).
25/04 - Marcha da Família com Deus pela Liberdade em Cachoeira Paulista (SP).
26/04 - Marcha da Família com Deus pela Liberdade em Campos do Jordão, (SP)
01/05 - Marcha da Família com Deus pela Liberdade em Pains (MG)
01/05 - Marcha da Família com Deus pela Liberdade em São José dos Campos (SP)
13/05 - Marcha da Família com Deus pela Liberdade em Aparecida (SP)
13/05 - Marcha da Família com Deus pela Liberdade cm Belo Horizonte (MG)
13/05 - Marcha da Família com Deus pela Liberdade em Goiânia (GO)
15/05 - Marcha da Família com Deus pela Liberdade em Niterói (RJ)
07/06 - Marcha da Família com Deus pela Liberdade em Caxias (RJ)
08/06 - Marcha da Família com Deus pela Liberdade em Magé (RJ)   
(As marchas citadas nesta cronologia foram pesquisadas por Aline Alves Presot)  
Além do golpe: versões e controvérsias sobre 1964 e a ditadura militar - por Carlos Fico