WirelessBRASIL - Bloco RESISTÊNCIA

Abril 2013             


13/04/13

• Revolução de 1964 - Os primeiros dias de Abril (13) - Seleção de notícias do dia 13 Abr 1964 + Leituras complementares

Matérias transcritas nesta página:

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil
[13/04/64]  Como foi deflagrado o movimento de 1 de abril - por Carlos Castello Branco

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil
[13/04/64]  Pesquisa do caráter político do movimento vitorioso - por Wilson Figueiredo

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil
[11/04/64]  Rumos comunistas ditavam rumos ao Brasil janguista - de um Observador Político

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil
[13/03/64]  Situação econômica e crise - por Jayme Magrassi de Sá  (pág. 48)

Fonte: Acervo da Folha de S. Paulo
[13/02/64]  Lista - Editorial Folha de S. Paulo

Leitura complementar:

Fonte: ABI
[27/10/06]  Entrevista – Wilson Figueiredo - O jornalista que é a história de um jornal

Referências, sem transcrição:

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil e da Folha de São Paulo
Manchetes
Jornal do Brasil - Edição conjunta de 12 e 13 de abril
Artigos especiais:
- Os olhos de Paris e de Washington - por Nahum Sirotsky  (pág.49)
- 18 dias de maio - por Marinho de Azevedo (sobre a chegada ao poder de De Gaulle em maio se 1958)  (pág.49)
- O Brasil se parte - por The Economist (pág.49)
- A Guerra Revolucionária na América Latina- por Bilac Pinto (pág.51)
- Brasil - Mosaico de repercussões - por José Auto (pag. 52)
- O comício e o Senado - Afonso Arinos de Melo Franco (pag. 54)

Folha de São Paulo
- Castelo Branco: Reformas e luta contra a inflação
- Bulhões anuncia plano para conter inflação
- Magalhães: Agora cumpre enfrentar a luta pela paz
- Marcha da Família pela Liberdade em Botucatu
- Lista - Editorial
- Salvo-condutos para asilados políticos em embaixadas
- Militares perderão direitos políticos: lista sairá hoje

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Transcrições:

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil
[12/04/64]  Como foi deflagrado o movimento de 1 de abril - por Carlos Castello Branco

Carlos Castelo Branco (Teresina, 25 de junho de 1920 — Rio de Janeiro, 1 de junho de 1993) foi um jornalista e escritor brasileiro, foi membro da Academia Brasileira de Letras.
A coluna que manteve por décadas no Jornal do Brasil é um marco do jornalismo político.
Seu acervo encontra-se no Arquivo-Museu de Literatura Brasileira da Fundação Casa de Rui Barbosa. (Fonte: Wikipédia - Ver transcrição mais abaixo)

O movimento militar de 1 de abril de 1964 é o elo mais recente de uma cadeia de fatos político-militares que se iniciou com o golpe de 11 de novembro de 1955, com o qual se assegurou a posse do Sr. Juscelino Kubitschek na Presidência da República. Agosto de 1954 teria sido o fecho de uma situação histórica que evoluíra de 1922 até o suicídio de Getúlio Vargas na madrugada de 24 de agosto daquele ano.

Embora tenha tido, de certo modo, o caráter de represália pelos acontecimentos que redundaram na liquidação do Governo de Getúlio Vargas, o 11 de novembro foi um fato novo na política das Forças Armadas brasileiras, e inaugurou uma situação nova nas fileiras.

Pela primeira vez naquela oportunidade, membros do alto comando militar entregaram às relações públicas de uma conspiração e de um golpe a um grupo ideológico, aceitando um principio de divisão que iria se acentuar e se extremar dai por diante. O grupo militar derrotado na ocasião, comandado pelos antigos Tenentes de 30, foi ostensivamente caracterizado como reacionário e declarada sua falência na condução política das Forças Armadas.

Ao lado de Denis e de Lott, arrumaram-se não só alguns comandos tenentistas dissidentes — como Falconiere e Nelson de Melo — mas, ostensivamente, uma nova fração de movimento político-militar, caracterizada corno esquerdista, numa gama variada, que iria do vermelho ao alaranjado, como diria o Sr. Ademar de Barros.
Os progressistas, oriundos do estilaquismo (*), ou frutos da frustração que destruíra em 1951 o comando do General Zenóbio da Costa, deram a tônica da propaganda do movimento de retorno aos quadros constitucionais vigentes, cujo legalismo se inspirava nos interesses da aliança eleitoral do Sr. Juscelino Kubitschek, com o PTB e o Partido Comunista.

O golpe de novembro assegurou a posse do Sr. Kubitschek e, com ela, a prevalência de uma frente popular que tentaria daí por diante, constituir sua própria base militar.
O General Lott, como Ministro da Guerra do novo esquema, assegurou durante quase cinco anos a permanência de oficiais esquerdistas em postos de comando e repeliu as investidas dos que reclamavam expurgos e alertavam para os riscos de uma infiltração das esquerdas nas Forças Armadas. Foram de resto as esquerdas, com predominância da fração militar, que impuseram aos partidos do Governo, em 1960, a candidatura do General Lott à Presidência da República.

O General Odílio Denis, substituindo o general candidato na Pasta da Guerra, estendeu aos demais setores do Exército a despolitização ou a desesquerdização a que procedera no I Exército sob o seu comando ao longo da gestão Lott.

Quando, em 1961, o Sr Jânio Quadros, eleito pelo esquema oposto no Juscelinista-Trabalhista-Comunista, assumiu o Governo, o General Denis deu-lhe o que supunha ser o instrumento desejado para a realização de uma nova política: o Exército restaurado, através de seus comandos, na tradicional linha antiideológica.

O Sr. Janto Quadros, contudo, surpreendeu o novo dispositivo militar, ampliado à Marinha e à Aeronáutica, com a realização do uma política externa bastante próxima do que pregavam as correntes progressistas. Os militares da esquerda passaram a rondar o seu Governo, na expectativa de levar o Presidente a um recondicionamento de sua base nas Forças Armadas, a fim de assegurar-se um sistema de segurança afinado com sua política e coerente com os rumos que seguia.

Antes que tal coisa adquirisse consistência, o Presidente Jânio Quadros renunciou. O impacto emocional de sua decisão favoreceu a mobilização que, com audácia e decisão, as esquerdas fizeram imediatamente para, em nome da legalidade, assegurar a posse do Sr. João Goulart, vetada pelos Ministros militares. O General Machado Lopes, Comandante do III Exército e base do esquema Denis no Sul do Pais, foi envolvido, capitulando sem luta, e endossando a reivindicação que a esquerda colocava na mesma base legalista de 1955. O General Lott voltou à tona para convocar as dedicações de camaradas em favor da causa do Sr. João Goulart, afinal vitoriosa num esquema de aparente transigência de parte a parte.

No Governo o ex-Presidente restaurou sem dificuldades o dispositivo militar progressista, ao mesmo tempo que minava a autoridade do alto comando através de substituições sucessivas na Pasta da Guerra. Trocou o General Segadas Viana pelo General Nelson de Melo, este pelo General Kruel e este pelo General Jair Dantas Ribeiro. Nenhum deles chegou a se afinar perfeitamente com os objetivos do Presidente e nenhum deles conseguiu, em conseqüência, armar um dispositivo de segurança coerente e forte, pois o Sr. João Goulart manobrava no sentido de ter, à margem dos comandos, seus próprios pontos de apoio das Forças Armadas - seja na oficialidade, seja sobretudo nos corpos graduados, cujas reivindicações estimulava, procurando assimilá-las às reivindicações dos sindicatos de trabalhadores, dominados desde 1952 por uma aliança de janguistas e comunistas.

Jogando com essas contradições, o ex-Presidente liquidou o parlamentarismo e conquistou a plenitude de seu mandato presidencial, dando a impressão de que sua campanha pelas reformas de base, com apoio militar ostensivo, terminaria por dissolver a força dos comandos e por criar condições para a implantação de um novo regime politico baseado no operariado das cidades e dos campos e nos sargentos, cabos, soldados e marinheiros.

Seu último Ministro da Guerra, General Jair Dantas Ribeiro, havia conseguido um relativo equilíbrio nos comandos sob o compromisso de uma ação comum de vigilância na defesa da legalidade. O Presidente seria assegurado na medida em que se contivesse no exercício das suas prerrogativas constitucionais.

Em setembro de 1963, o Sr. João Goulart teve a primeira indicação precisa de que os comandos não obedeceriam a uma palavra de ordem fora do esquema traçado pelo Ministro da Guerra. O pedido de estado de sítio, que obtivera dos Ministros militares, visava a objetivos que logo transpareceram no momento em que se deu ordem a uma unidade do Exercito -o Corpo de Pára-quedistas - para prender o Governador Carlos Lacerda. A ordem foi deliberadamente enfrentada por oficiais advertidos para seu risco e discordantes do seu conteúdo político. O Governo bateu em retirada, procurando dar a impressão de que correntes do próprio Governo desaconselhavam uma medida temerária. Já em abril o mesmo  dispositivo funcionara para cobrir a retirada, numa primeira e também frustrada tentativa de ocupar o Estado da Guanabara e prender seu Governador.

COMEÇA A CONSPIRAÇÃO
Esse episódio de setembro de 1953 foi decisivo para deflagrar o movimento conspiratório nas Forças Armadas contra o Sr. João Goulart. Desacreditando na ação do Ministro da Guerra e na eficácia do seu esquema, coronéis abalados pela punição com que o General Jair distinguiu o Coronel Boaventura, o Major Monção e outros oficiais do Corpo de Para-quedistas, começaram a se articular visando à constituição de um sistema de segurança do regime autônomo, que abrangesse vigilância inclusive dos Ministros militares.

O sentimento de hostilidade ao Governo era já amplo dentro das Forças Armadas, havia núcleos Isolados de conspiração e comandos. como o do General Olímpio Mourão, por exemplo, decididos a entrar em ação por conta própria em momento de perigo declarado. Os principais comandos, no entanto, continuavam enquadrados na política do Ministro e descrentes das possibilidades de uma ação preventiva. É verdade que havia generais disponível para uma conspiração — o General Cordeiro de Farias, por exemplo, ou o General Costa e Silva. O primeiro, muito marcado pela sua presença quase permanente nas conspirações militares, não seria o chefe ideal pura o movimento, O General Costa e Silva, que vinha sendo constantemente procurado por oficiais mais jovens que o estimulavam nas suas atitudes, dificultaria por seu temperamento vivaz a aglomeração do maior número dentro da mesma causa. O General Justino Alves Bastos seria solidário com um movimento de defesa e até mesmo de agressão militar, mas sua distância do centro principal dos acontecimentos e outras circunstancias não o indicavam para a chefia. Generais mais novos, como Ulhoa Cintra, também não poderiam ter o comando.

Em dezembro, finalmente as conversas frutificaram na decisão de um grupo de coronéis, de assumirem, eles mesmos, a responsabilidade da implantação de um comando revolucionário. A principal figura desse grupo tem linhagem revolucionária. Trata-se do Coronel João Euclides de Figueiredo, filho do General Euclides de Figueiredo, irmão do romancista Guilherme de Figueiredo. Seu pai fizera, entre outras, a Revolução Constitucionalista de São Paulo, em 1932.

Esse grupo de coronéis passou, então, a enfrentar os problemas típicos da conspiração: subir ao alto escalão e infiltrar-se pelos escalões mais novos da oficialidade. Assentaram desde logo que o homem com condições morais e técnicas para assumir o Comando Geral do movimento seria o General Humberto de Alencar Castelo Branco, Chefe do Estado-Maior do Exército. O General Castelo, provado na guerra e na paz, foi sempre um homem avesso a interferência das Forças Armadas na política e alheio aos esquemas revolucionários que se

teceram ao longo da sua carreira de militar.. Entendiam os coronéis, no entanto, que a causa agora o sensibilizaria, desde que se trataria de defender o País contra uma conspiração comunista, que promoveria a dissolução das próprias Forças Armadas.

O Coronel Costa Cavalcanti, Deputado Federal, Irmão do Coronel Boaventura, teve uma conversa preliminar com o Chefe do Estado Maior, para sentir seu estado de espírito. Em seguida, foi convocado o Marechal da Reserva Ademar de Queirós, o conhecido Tico-Tico do Gabinete do falecido General Canrobert e homem experiente de outras conspirações. O Marechal Ademar pôde, pela intimidade de que desfrutava, expor a questão no General Castelo, que, afinal, concordou em receber o grupo de coronéis, sob jura de sigilo absoluto.

O Chefe do Estado Maior integrou-se no movimento, assumindo a responsabilidade por sua condução. em torno dele, formavam em pouco os Coronéis da Sorbonne, hoje generais, cuja pregação político-militar de 1955 fora frustrada pelo golpe do General Teixeira Lott. Os Generais Geisel, Marlan e Mamede entraram em operação como seus esquematizadores. O esquema autônomo de segurança, fundado pela conspiração, era substancialmente defensivo, tanto que empreendeu, durante largo tempo, a tentativa de alertar o Ministro da Guerra e de atraí-lo para uma vigilância ativa contra o Governo. O General Castelo o advertia toda vez que ele avançava o sinal na linha da política janguista. O General Costa e Silva fazia a mesma coisa. O General Kruel foi de São Paulo ao Rio algumas vezes com o mesmo objetivo. O General Jair prometia enquadrar-se no pensamento da maioria dos seus oficiais-generais, mas na verdade sempre dava cobertura ao Presidente da Republica. Enquanto isso, em Brasília, o Sr. João Goulart, confiante no esquema defensivo do General Jair, confiava a outro General, o Chefe da Casa Militar, a elaboração de um esquema ofensivo de cobertura à sua campanha pela reforma da Constituição. O General Assis Brasil despachava oficiais para inspeção e contato, alterava comandos, muitas vezes à revelia do Ministro da Guerra.

Quando o Sr. João Goulart considerou madura a situação para passar à ofensiva, preparou-se para deflagrar o mais audacioso plano de agitação política de que há noticia no Pais. O próprio Presidente, sob cobertura das Forças Armadas, realizaria comícios em todas as grandes cidades, convocando o povo e os militares para exigir do Congresso a votação do reformas que foram esquematizadas com precisão.

Antes de desfechada a ofensiva, reuniu-se o Sr. João Goulart, numa granja nos arredores de Brasília -- o Sitio do Buriti, de propriedade do Sr. Brasil Barbosa, subchefe do Gabinete Civil — com os oficiais da sua Casa Militar. Era uma reunião estritamente confidencial, O General Assis Brasil mandou abrir sobre as mesas em que se serviria um churrasco mapas militares. Fez ao Presidente uma exposição objetiva, completa, do sistema de segurança do Governo, Mostrava os pontos duvidosos, mas imediatamente indicava as medidas de contenção, de cerco ou de anulamento do possível foco de resistência. Tudo perfeito. O ambiente era de exaltação. A certa altura, o General Chefe da Casa Militar fez um pequeno, informal discurso de saudação ao Sr. João Goulart. Consta que o concluiu com a seguinte frase: "Manda brasa, Presidente."

Autêntica ou não a frase, a verdade é que o Sr. João Goulart mandou brasa. Na sexta-feira, 13 de março, deflagrava num comício preparado com grande ostentação, na praça ao lado do Ministério da Guerra, o seu movimento. Atraiu ao palanque os chefes mais extremados do movimento esquerdista, que o vinham criticando por sua transigência e por sua política de conciliação. O Sr. Leonel Brizola apresentou-se ao seu lado e falou. O Sr. Miguel Arrais, idem. O representante do CGT exprimiu-se na mesma linha agressiva do Sr. Brizola. Os três ministros militares, que haviam disposto tropas para segurança do comício, subiram ao palanque, com seus uniformes de oficiais generais das Forças Armadas.

O Sr. João Goulart até então acobertava sua trama, política com uma ação moderada de Governo, cujo setor financeiro entregara a um homem aceito pelas classes produtoras de São Paulo e do Rio. O PSD continuava presente na alta administração e seguiam-se negociações para manter o statu quo.

No movimento esquerdista, o Partido Comunista, o mais antigo aliado do Sr. João Goulart, comportava-se quase como uma organização conservadora, em meio ao açodamento generalizado das facções menores. O Sr. Leonel Brizola queria marchar diretamente para a revolução: não acreditava em soluções eleitorais ou políticas para a efetivação das reformas pregadas. A ação popular, movimentada pela esquerda católica, o Polope, o PC do B (uma dissidência do PC) e outras organizações sectárias lançavam a barra sempre além do que parecia ser o objetivo do Sr. João Goulart. Quando se oficializou a tendência oficial do Partido Comunista em apoiar a continuação do Sr. Goulart, no Governo, havia a impressão de que se tramava uma espécie de 1937, quando Getúlio Vargas, aliado da direita, golpeou nesse rumo, para eliminar em seguida o Partido Integralista, que armara o clima propício ao golpe.

A pressão das frações extremistas terminou por envolver o Governo, em seguida ao comício, que provocou uma reação além da medida prevista pelo Presidente. Sem condições de recuar, o Sr. João Goulart entregou em poucos dias o comando do PTB ao Sr. Leonel Brizola, que terminou por fazer-lhe minuciosa exposição da situação militar do Rio Grande do Sul, apontando comandos infiéis ao Governo. entre os quais o de Bagé. Foi nesse ambiente que ocorreu a crise da Marinha. O Sr. João Goulart aconselhara o Almirante Silvio Mota a não agir contra os diretores da Associação de Cabos e Marinheiros, mas o Ministro se considerou no dever de reprimir o que entendia ser uma manifestação de ndisciplina. A repressão foi repelida, declarando-se os marinheiros em estado de rebelião, amparados pelo CGT. A unidade de soldados, marinheiros e operário parecia ter sido conseguida com o asilo dado aos rebeldes pelo Sindicato dos Metalúrgicos e a adesão de tropas do Corpo de Fuzileiros Navais mandadas com a missão de prender os insurretos.

O Presidente voltou às pressas de Sito Borja, queixando-se da imprudência do Sr. Brizola e dos lideres sindicais aos quais atribuía a instigação dos marinheiros. Forças do Exercito preparavam-se para atender ao pedido do Ministro da Marinha, executando a missão de prender os marinheiros rebeldes. O Sr. Darci Ribeiro, no entanto, já então com iniciativas militares, transmitiu ao General Âncora, Comandante do I Exercito, que o Governo entendia que o assunto deveria ser circunscrito à Marinha, devendo em consequência omitirem-se as Forças do Exército.

O Sr. João Goulart, depois do ganhar tempo por algumas horas, demitiu o Ministro da Marinha, nomeando corno seu substituto o Almirante Paulo Mário. A surpresa e a estupefação foram enormes, tanto mais quanto

o novo Ministro relaxou a ordem de prisão dada contra o Almirante Aragão e pôs em liberdade os rebeldes recolhidos num batalhão do Exército. Há indícios de que o Sr. João Goulart esperava do novo Ministro ação menos sectária: esperaria, por exemplo, que fosse preso o Almirante Aragão e recolhidos à Marinha os marinheiros, a favor dos quais recomendou apenas que fossem "bem tratados", ou seja, que não sofressem violências. O novo Ministro preferiu, no entanto, pôr a pique o Comando Naval e prestigiar a rebelião.

O Sr. João Goulart rolava num plano inclinado. E como um homem que perdeu o controle da situação o das suas próprias emoções é que, na segunda-feira, 30 de março, se dirigiu a uma assembleia de sargentos, que deveriam ser dez mil, mas que na realidade já eram apenas mil e poucos. Foi esse o seu último discurso, o último ato de seu plano de agitação e mobilização dos soldados, trabalhadores e camponeses para a luta em prol da reforma da Constituição.

A conspiração, do outro lado, acelera-se. Ao aproximar-se o dia do comício, o Deputado Coronel Costa Cavalcanti foi à tribuna da Câmara para um discurso-senha. Estava combinado que, quando ele falasse, dirigindo-se diretamente aos militares, isso significava que a hora estava chegando. A conspiração adquiria aspecto agressivo e teor ofensivo. Os comandos militares tomariam a iniciativa.

Logo em seguida, seguiu para o Recife, onde ia ao acerto final com o General Justino Alves Bastos, o qual, nos preliminares, exigia liberdade para suprimir o Governo do Sr. Miguel Arrais. O Coronel informou-lhe que a decisão do Estado Maior Revolucionário era respeitar todos os mandatos, inclusive dos Governadores. O General concordou, "contanto", disse, "que esse Arrais não se meta a besta".

Missões desenrolaram-se por todo o Pais. Em cada unidade havia contatos seguros e núcleos de conspiração. quase sempre com a participação dos comandos. Em Brasília, no Batalhão de Guardas, havia infiltração. Esperava-se resistência apenas de duas unidades sediadas em Porto Alegre, uma das quais motomecanizada. Ali se localizaria a luta, se houvesse luta. Uruguaiana e Santa Maria eram pontes duvidosos, mas havia esperanças de uma adesão.

O General Kruel, acertado no esquema defensivo da conspiração, seria trazido para o ofensiva, o que foi facilitado por uma imprudente gestão do General Assis Brasil em São Paulo, onde reuniu comandantes de tropas do II Exercito para adverti-los com relação ao General Kruel. Havia providências a tomar, que retardaram o compromisso final do comandante.

Os Governadores foram finalmente ajustados e entendeu-se que Minas deveria deflagrar o movimento, pois o Governador Magalhães Pinto, por sua posição política, influiria para a adesão de outras áreas ainda não comprometidas na conspiração, o que efetivamente ocorreu. Com a crise da Marinha, os mineiros queriam precipitar os acontecimentos mas receberam ordem de esperar pela terça-feira, quando, naquela tarde, o Governador de Minas lançou seu manifesto, já havia feito visitas sigilosas ao comando militar de Juiz de Fora, onde estava o Marechal Odílio Denis, e já as providências militares estavam tomada em todo o Estado: tropas mobilizadas e se deslocando para as posições estratégicas. A revolução havia começado.

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(*) Nota de Helio Rosa (pesquisa Google):
(...) Sodré é de opinião que, dez anos antes, o fenômeno do “estilaquismo” – quando a campanha pela eleição do general Newton Estillac Leal para o Clube Militar polarizou as Forças Armadas, no auge da criação das estatais por Getúlio Vargas, entre 1950 e 1952 – já teria demonstrado que as Forças Armadas não aceitavam o chefe esquerdista, mesmo
ressalvando os méritos do general Estillac: “O esquerdismo militar era deformação da realidade e levava ao desastre. (...) O chefe militar esquerdista constituía traço inequívoco do erro pequenoburguês em considerar que os militares são força de vanguarda no processo político. (...) O fato é que, no período de Goulart, a figura do chefe militar esquerdista fez ruidoso reaparecimento”. (
Fonte)  

Ler mais sobre  Estillac Leal
aqui, de onde recorto:
(...) Em 1949, foi nomeado comandante da Zona Militar Sul, antecessora do III Exército, sediada em Porto Alegre, posto no qual desenvolveu intensa atividade política. No ano seguinte, foi eleito presidente do Clube Militar derrotando o general Cordeiro de Farias em campanha marcada por intensa polarização ideológica. A chapa vitoriosa defendia teses nacionalistas e polêmicas, tais como o monopólio estatal do petróleo; o respeito incondicional à legalidade democrática, e o não alinhamento internacional aos Estados Unidos, com críticas, inclusive, à intervenção norte-americana na Coréia.(...)

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Fonte: Acervo do Jornal do Brasil
[12/04/64]  Pesquisa do caráter político do movimento vitorioso

Antes da Consolidação política, o movimento vitorioso pelas armas não dará oportunidade à determinação de seu caráter real, até mesmo por força da velocidade dos fatos que lhe imprimem aparências transitórias. Os elementos mais válidos ainda se apresentam inseparáveis das circunstâncias, que podem ser consideradas inevitáveis como desdobramento normal do qualquer solução de força. O impulso do movimento militar se projetou além da expectativa o mostrou fôlego para outros lances depois da derrubada do Governo.

De qualquer modo, na pesquisa das caracterizações, coloca-se em evidência a preocupação de não liquidar as Instituições democráticas e de transferir para o Congresso o encaminhamento das soluções políticas e a legalização do movimento armado. Se não houvesse esse cuidado, as dificuldades que já se apresentaram diante dos comandos militares e da liderança civil revolucionária estariam superadas pela ação direta, na sequência natural dos fatos.

O Congresso recebeu as dificuldades e não teve meios de absorver instantaneamente os problemas, oferecendo-lhes soluções imediatas, com o mesmo sentido do emergência que determinou o movimento armado. Mas nem por Isso os cornandoss políticos e militares do movimento se impacientaram. Procuraram superar as dificuldades com o impulso revolucionário, fixando as responsabilidades das correntes de representação política no curso dos acontecimentos posteriores. Esboçou-se do salda uma recomposição de forças interessadas em explorar as contradições manifestadas no saldo dos vitoriosos.

O fator determinante da ação revolucionária — denominador comum dos militares e Governadores que assumiram os riscos da rebelião — foi a certeza da existência real do perigo comunista e da conivência do Governo Goulart com o programa subversivo, para deflagrar no Brasil a ação imediata de massas sindicais. No momento em que sentiram caracterizada a ação que suspeitavam, no comício do dia 13 de março, entraram em alerta, do conformidade com o planejamento da ação revolucionária. A evolução dos acontecimentos na linha da previsão confirmou-se na demonstração política dos marinheiros o na homenagem de um grupo de sargentos ao ex-Presidente da República. O comportamento do Sr. João Goulart, do dia 13 em diante, mostrava urna determinação que era nova e por isso mesmo confirmou as suspeitas de que ele se convertera irreversivelmente à esquerdização do Brasil e passara a confiar realmente nos seus dispositivos sindical e militar.

A liderança civil e os comandos militares, articulados pela certeza de que Goulart e as esquerdas preparavam a surpresa definitiva para breve, entenderam no dia do comício que chegara a hora da decisão. As cenas transmitidas do palanque no dia 13 pela televisão tiveram efeito fulminante na opinião publica, até aquela altura indefesa e sem iniciativa. Rio, S. Paulo, Belo Horizonte e Brasília - centros onde a classe média é vasta e estava assustada — ficaram estarrecidas com o controle do comício por parte do CGT. As cenas em que o Sr. Darci Ribeiro e o Sr. Osvaldo Pacheco se aproximavam de Goulart, para soprar-lhe temas, deram a certeza de que Jango era urna peça numa engrenagem muito maior do que ele. Na hora em que Goulart anunciava para breve o decreto sobre aluguéis, o Sr. Osvaldo Pacheco disse-lhe ao ouvido o todos o viram e ouviram dizer — "convoque o povo para fiscalizar". E efetivamente Jango convocou o povo para a fiscalização dos aluguéis. Não houve quem não anotasse a cena. A partir daí Goulart perdeu em definitivo a possibilidade de recuperar-se eventualmente com a classe média dos grandes centros, dominadas por um sentimento de insegurança que se caracterizou na pronta mobilização da Marcha para a Família em S. Paulo, seguida de outras demonstrações em Santos e cidades do interior. As fotografias dessas demonstrações de massa que mobilizaram a classe media passaram despercebidas à esquerda, já engajadas num erro irrecuperável de avaliação de forças sociais. Elas continham o fundamento de opinião pública, que daí a quinze dias daria lastro definitivo à deposição de Goulart. A Marcha realizada no Rio, no dia seguinte à deposição de Goulart, representou a libertação de um milhão de prisioneiros de um sentimento generalizado de insegurança política e social.

Foi a presença atuante dessa opinião pública que determinou no movimento de deposição do Governo o sentido de uma revolução na ordem dos fatos, colocando como necessidade as medidas de consequência reclamadas pela mesma insegurança coletiva. Ajustaram-se perfeitamente as necessidades militares de limpeza do terreno político e os sentimentos da classe média, mais numerosa e mais forte do que a estimavam os planejadores da ação política de Goulart.

Explica-se assim, em parte, por que o movimento não ficou contido num golpe contra o Governo Goulart e adquiriu prontamente sentido revolucionário que não estava previsto, mas que se tornou imperioso. Enquanto a solução militar de novembro do 1955 passou à História como um golpe de Estado, com apoio popular, para garantir o resultado das urnas, a deposição do Governo em 1964 impôs aos seus realizadores e à opinião publica que lhes deu lastro, como tarefa imediata, a consolidação do triunfo pela extinção dos focos políticos, as raízes de todas as forças que se compuseram num quadro esquerdista e se comprometeram na ação política subversiva. A certeza da iminência de uma conjugação de forças esquerdistas, engajando o Governo Goulart no programa posto em execução no comido do dia 13, deflagrou a ação militar. O mesmo sentimento anticomunista predomina na segunda fase, já em execução, com o apoio da classe media e nenhuma contestação social. A normalidade do trabalho em todo o País mostra claramente que o apoio das massas trabalhadoras era um dado apenas subjetivo no programa das esquerdas, pois não se registrou nenhum protesto político, nem nenhum sintoma contra o rumo dos acontecimentos, por parte dos trabalhadores. As massas operárias, na verdade, não estavam entrosadas com a pregação esquerdista.

Até agora, prevaleceram duas características de ordem geral que se estabeleceram desde o início: o empenho em resguardar a sobrevivência do quadro constitucional e o esmagamento das raízes plantadas pelas organizações de esquerda, Assim como a tornada do poder se processou em tempo mais curto do que a previsão dos comandos militares e civis da revolução, também a segunda fase está praticamente delimitada, A normalização imediata do setor do trabalho velo mostrar que o programa esquerdista não tinha realmente vinculações autênticas com as massas operárias, mas apenas com as cúpulas sindicais. As lideranças esquerdistas não tinham intimidade, fiem linguagem, nem convivência com as aspirações do classe dos trabalhadores.

As necessidades da revolução vitoriosa se restringem praticamente ao âmbito do Governo, de vez que a maior parto do programa esquerdista, brasileiro não excedeu os limites do aparelhamento burocrático federal. Exceto as organizações que pretendiam reger do alto o comportamento das massas populares e operárias, mas não dispunham de escalões Intermediários para a ação política - e por isso se liquidaram - as tarefas que ocupam e preocupam a revolução na sua etapa presente estão localizadas nas áreas da administração federal engajadas diretamente na ação esquerdizante.

Aliviada por um lado, a revolução terminará mais cedo e com menos esforço a tarefa que seus líderes e a opinião publica consideram urgente e fundamental, a fim de impedir qualquer possibilidade de rearticulação do uma revanche eleitoral. O desdobramento lógico da consolidação política e militar, a terceira etapa, terá de configurar-se no plano da ação administrativa dos projetos legislativos, depois da normalização do Governo a ser composto pelas forças vencedoras e responsáveis. Só então se iniciará o processo de caracterização política do movimento. através das disposições a serem reveladas diante dos problemas brasileiros. Por enquanto, os elementos de análise são mais aparentes e induzem à, interpretação fácil, na base de slogans e de conceitos pessoais, se forem levados em conta apenas as figuras que surgiram à testa cio movimento. Será inútil somar aspectos que surgiram à testa do movimento. Será inútil somar aspectos pessoais das expressões políticas e militares que articularam o movimento e mantém a direção dos fatos.

O caráter verdadeiro da revolução irá impor-se na fase de normalização política e na absorção dos propósitos revolucionários pelo quadro constitucional, quando o Congresso se recompuser pelo reconhecimento da revolução. Prevalecendo o caminho da recomposição constitucional imediata, a extinção dos focos políticos estará delimitada e não exigirá canais de exceção para esvaziar os temores dos que detém as responsabilidades. Ao contrario, o aparecimento do novas dificuldades na área parlamentar, onde se localizam as possibilidades de normalização a curto prazo, pode determinar a prevalência de soluções imperiosas por cima do Congresso, ditadas pelo instinto de defesa do comando revolucionário.

A absorção do movimento armado no quadro constitucional não significará, entretanto, a desfiguração obrigatória de seus propósitos. A capacidade de sobrevivência política dos partidos brasileiros estará em jogo no âmbito do Congresso: o reconhecimento e a absorção da revolução, sem frustrar seus objetivos, é uma forma de aquietar a opinião pública atemorizada pelas esquerdas e de atender à aspiração de soluções reformistas ainda não perfeitamente definidas.

Na parte civil do movimento triunfante, aparecem em primeiro plano trás figuras que não foram reunidas por acaso, os Srs. Magalhães Pinto, Carlos Lacerda e Ademar de Barros, expressões diferentes do processo político que teve no anticomunismo um denominador comum e se convenceram juntos de que Goulart se comprometera com a esquerda.

Distâncias consideráveis os separavam antes: o Governador de Minas é um político que fez sua carreira no centro mas chegou a formar ao lado da pregação das reformas, posteriormente comprometidas pelo monopólio esquerdista nas formulações encaminhadas ao debate publico. O Governador da Guanabara manteve uma posição de intransigência diária e ininterrupta diante do Sr. João Goulart, desde o momento em que ele se instalou no Planalto. Lacerda representou a, oposição permanente a Goulart e transformou a Guanabara no foco de preocupação predominante para Jango e as esquerdas, ao longo de quase três anos. O papel desempenhado pelo Governador de S. Paulo, como um desafio e uma provocação a Goulart, começou há pouco mais de um ano, quando ele chegou ao Poder. Taticamente, veio a se constituir na segunda frente de preocupação política de Goulart, aliviando um pouco o cerco da Guanabara. Adernar de Barros conseguiu superar as divisões políticas estaduais e arrastou os setores privado e público de S. Paulo contra o Governo federal. A união dos três levou ao movimento o apoio de áreas de opinião publica de comportamento variável, enriquecendo a revolução com a unanimidade da classe média dos grandes centros do País, embora a constatação não autorize nenhuma previsão em torno do caráter que deverá prevalecer no desdobramento político da vitória armada.

As figuras militares empenhadas na derrubada do Governo "comportam também tendências pessoais variáveis, mas se identificaram numa serie do pontos-de-vista em comum, que o sentimento de repulsa ao esquerdismo expressa de forma predominante.

A utilização da expressão argentina gorilismo, importada com falta de imaginação pelas esquerdas brasileiras, sem multa cerimônia nacionalista, é artificial o não atende à realidade, pois que entre o Exército brasileiro o o argentino existem diferenças fundamentais, Inclusive no que respeita à composição social da oficialidade.

O papel de tutela nacional que os oficiais das Forças Armadas argentinas entendem como uma responsabilidade política da farda que vestem. não se acomoda aos conceitos políticos da oficialidade brasileira. Ao contrário, as Forças Armadas (o Exército, de modo particular) brasileiras entendem que a política é urna área civil e que o papel dos militares está configurado claramente na Constituição: a manutenção da ordem política e a segurança nacional, conceitos que guardam hoje uma relação de dependência estreita, por força do sentido de influências externas constatáveis na atividade esquerdista.

A presença ativa das grandes famílias, de tradição na sociedade e na propriedade da terra, nas Forças Armadas argentinas é a origem social da espírito de tutela que se tornou a característica das intervenções militares na vida política do pais. O sentimento aristocrático e de liderança social é inato no corpo de oficiais das Forças Armadas argentinas. No Brasil, ao contrário, a tradição é quase oposta e não se faz sentir nas nossas Forças Armadas a influência de uma origem social mais alta do que a classe media. Dai a identificação, mais caracterizada no Exército, ao longo de nossa história republicana, da oficialidade com as aspirações da classe média da sociedade brasileira, hoje mais numerosa e economicamente reforçada pela industrialização do País.

O tenentismo foi a expressão política e militar das aspirações populares na década de 30, quando a classe média não era ainda confrontada com o operariado que iria aparecer depois e se incorporar pacificamente ao processo político brasileiro, nas décadas de 40 e 50, pautando-se por anseios que não ultrapassaram reivindicações de sentido pequeno-burguês. O proletariado industrial brasileiro tem sido um aliado da classe média, pelo menos ate o momento em que as esquerdas tentaram inutilmente arrastá-lo para um programa revolucionário de que ele não parece ter tomado conhecimento.

Até agora, todas as vezes em que os militares brasileiros intervieram no processo político sentiram que a responsabilidade que lhe competia terminava com a passagem do Poder às lideranças civis. No processo de redemocratização do Brasil, a partir de 1945, quando as lideranças políticas e militares depuseram Vargas, diante da caracterização de manobras políticas para mudar o rumo dos acontecimentos já encaminhados para a eleição, até agora, essa preocupação prevaleceu.

Nesses dezenove anos, os militares intervieram ainda uma segunda vez contra Vargas, depondo um Presidente constitucional envolvido numa onda de escândalos que o enfraqueceram na área popular, seu domínio político, e mais uma para garantir a sobrevivência das instituições democráticas pelo resultado das eleições presidenciais de 55. Com a renúncia do Sr. Jânio Quadros, em 61, abriu-se a crise militar e política, fundada na desconfiança de um setor militar e político em relação ao Sr. João Goulart, e superada pela predominância do espírito de respeito à legalidade, com todos os riscos que pareciam evidentes. Três anos depois reencontraram-se todos, unidos contra o Sr. João Goulart, diante da constatação de que as suspeitas eram fundadas e que elas impunham a solução final.

Mas, é a primeira vez que um movimento militar, depois de 30, se deixa caracterizar corno revolução e essa diferença não é casual. Ela indica a disposição de dar conseqüências políticas ao ato militar, ainda que resguardada a moldura constitucional, como em todos os pronunciamentos militares desde 45. Podem estar incorrendo em erro irrecuperável as forças e lideranças políticas que fazem pouco do movimento e que jogam certo na sua aquietação constitucional, como forma de esvaziamento para o que essa, resolução representa em termos de opinião pública.

Mostram-se mais atentos e atualizados os que, percebendo por trás das aparências o potencial de opinião pública que reforça a liderança revolucionária, se aprestam para institucionalizar a revolução, porque entendem a irreversibilidade de um processo que se instaura com respaldo da classe média e sem contestação dos trabalhadores. Melhor que o movimento se desdobre dentro da Constituição, salvando a carta política, do que passando sobre ela e introduzindo na vida nacional outras fórmulas que tornem decrépita, da noite para o dia, as representações que se consomem em crises sucessivas.

O comando militar do movimento, em seu conjunto, é constituído por figuras que tomaram parte ativa nos pronunciamentos militares no período da reconstitucionalização e, dentre eles, alguns (como os Generais Nélson de Melo e Cordeiro de Farias) destacaram-se no movimento tenentista e mantiveram em toda a carreira militar atuação política em primeiro plano. Também participaram da Força Expedicionária Brasileira, voltando dos campos de batalha da Europa com credenciais políticas para a restauração da democracia no Brasil. O General Humberto Castelo Branco integrou a FEB e representa a mesma consciência política que prevaleceu afinal nas Forças Armadas em relação ao Governo Goulart. O movimento abriga ainda um grupo de oficiais que alcançaram o generalato mais recentemente e outros que se encaminharam para lá, numa segunda linha de ação que poderá assegurar a consolidação política de revolução.

Existe uma pauta de reformas e de modificações administrativas que os participantes do movimento consideram Indispensáveis e urgentes- O movimento vitorioso não pode ser julgado apenas pelas aparências e pela repressão. As figuras que o comandam não representam todo o seu conteúdo político, que tem fundo social determinado pela classe media brasileira. Estão engajados

nessa revolução quase todos os oficiais e na reserva imediata do comando há figuras que se preparam há muitos anos. em silêncio o com obstinação, para as tarefas políticas que ficaram frustradas em 45 e 54. Entre esses oficiais e os comandos revolucionários existem diferenças, que. entretanto, não prejudicam, antes se ajustam à revolução: coronéis e generais mais jovens capacitaram politicamente e se prepararam no estudo dos problemas nacionais, tentando um processo de inteligência militar dos problemas brasileiros, para a participação ativa que a revolução lhes confiará imediatamente.

Esse aspecto impede que o movimento militar seja caracterizado como um golpe de Estado. Em poucas horas ele deu sinais de que não se acomodaria numa solução política, de compromisso. Aquilo que foi considerado um erro em 45 e uma reincidência em 54 é um dado importante, porque para explicar as derrotas de 55 e 61. Não cabem ilusões quanto a isto: a revolução se deterá com a eliminação dos focos de resistência que possam sobreviver por força da situação eleitoral do ano que vem. A consolidação só estará terminada, para os participantes e lideres militares do movimento revolucionado, com as reformas nacionais com que pretendem eliminar primeiro os restos e depois as condições que permitiram a sobrevivência dos grupos políticos vinculados a compromissos e interesses que datam do Estado Novo.

A passividade com que o setor do trabalho presenciou e aceitou a revolução, retornando à normalidade nos poucos lugares onde ela se alterou, dá aos militares que detêm as responsabilidades do movimento a certeza de que será possível exterminar os últimos redutos das forças que sobreviveram à primeira deposição de Vargas, voltaram, com ele em 50, caíram outra vez em 54 e galgaram o primeiro plano político no ano seguinte, tomando definitivamente conta do Poder com a ascensão de Goulart.

A caracterização esquerdista que marcou a última e curta fase do governo Goulart apressou as decisões militares e desencadeou a ação fulminante. Os setores sociais de que Goulart e as esquerdas se diziam interpretes não responderam ao apelo revolucionário. Militares e civis vitoriosos sentem-se amparados pela certeza de que a esquerdização do Brasil era conduzida de cima, dentro da técnica de infiltração no aparelho burocrático, para desfechar o golpe como última etapa de uma preparação minuciosa de enfraquecimento das resistências.

É por isso que os vitoriosos não deixarão no solo revolvidos pela pregação política, nessas últimos dois anos, as sementes que favoreçam a sobrevivência política de forças capazes de impedir ou desfazer um programa cujo caráter fica na dependência das soluções econômicas, administrativas e moralizadoras, e das ações políticas que deverão caracterizar a revolução em sua institucionalização.

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Fonte: Acervo do Jornal do Brasil
[11/04/64]  Rumos comunistas ditavam rumos ao Brasil janguista - de um observador político

No dia 27 de março passado, já em plena crise, o semanário comunista Novos Rumos publicava suplemento especial sob o título Teses para Discussão, que se destinava a abrir o debate entre os leitores de esquerda, comunistas ou não, sobre a posição e tarefas do Partido naquele momento.

A importância geral do documento para a compreensão da crise encontra justificação explícita no próprio texto, na afirmação de "que o crescimento do Partido se encontra enormemente atrasado com relação às necessidades políticas e à extensão da influência do marxismo em nossa Pátria".

Grifamos propositadamente a expressão "extensão da influência do marxismo". Pois o documento é, sem dúvida, a maior prova dessa extensão. Nele encontramos racionalizadas, de forma consequente e até às últimas conclusões, as posições marxistas que o Governo deposto do Sr. João Goulart vinha aceleradamente adotando nos últimos momentos, em sua última Mensagem ao Congresso, no comício do dia 13 etc..

A influência do marxismo havia te estendido até dentro do Palácio Presidencial e passara a encontrar meios e modos de expressar-se e propagar-se através da própria boca presidencial. O marxismo já nos governa, inspirando as campanhas e atos oficiais, divulgando-se pelos condutos do oficialismo às grandes massas populares reunidas para ouvir a pregação do reformismo "democrático e cristão". O reformismo e o programa de Governo da última fase da Presidência Goulart não eram nem cristão nem democrático. Eram, corno veremos, um instrumento poderoso de acumulação de força nas mãos dos comunistas e de realização dos objetivos revolucionários.

REFORMISMO E ACUMULAÇÃO DE FORÇAS

Citamos para comprovar a tese 41 do documento comunista:
"'Quer venha a ser vitoriosa por um caminho pacifico ou por um caminho não pacífico, a revolução inclui no seu processo um período de acumulação de forças. Neste período, a tarefa central das forças revolucionárias consiste na luta pelas reformas de base e por um Governo nacionalista e democrático, capaz de iniciá-las e levá-las adiante.

"Na perspectiva dos comunistas, a luta pelas reformas de base constitui um meio para acelerar a acumulação de forças e aproximar a realização dos objetivos revolucionários..."

"A luta pelas reformas de base permite aprofundar as contradições objetivas e ganhar posições às forças entreguistas e reacionárias, expondo, cada vez mais, o seu caráter de forças inimigas dos interesses nacionais e das reivindicações vitais das massas trabalhadoras. A luta pelas reformas de base facilita a conquista das massas para as posições revolucionárias, libertando-as, por sua própria experiência política, da influência dos setores conciliadores da frente única. Realizada com uma perspectiva revolucionária, a luta pelas reformas de base distingue-se inteiramente do reformismo, que faz das reformas um fim em si mesmo, identificando-a com as próprias transformações revolucionárias. Lutando pelas reformas de base, podem as forças revolucionárias desmascarar toda espécie de reformistas e denunciar aqueles políticos das classes dominantes que pretendem fazer das reformas, sobretudo tio palavreado em torno delas, um meio de desviar as massas do caminho revolucionário.

"A conquista das reformas de base se vincula, indissoluvelmente, à luta por um Governo nacionalista e democrático, uma vez que somente um Governo desse tipo terá condições para começar a levá-las à prática, conduzindo o País por um novo curso de desenvolvimento econômico e político.

"A formação de tua Governo nacionalista e democrático, nos marcos do regime atual, não significa ainda a solução completa das tarefas fundamentais da presente etapa da revolução. A fim de defender as conquistas já alcançadas e prosseguir nas transformações sócio-econômicas exigidas pelo desenvolvimento do País, será necessário, portanto, um processo de radicalização da composição e da política do Governo nacionalista e democrático, o que conduzirá à perda de posições dos elementos conciliadores e vacilantes.

"Desta maneira, num prazo dependente das circunstâncias concretas, será possível alcançar a mudança essencial na correlação de forças, que permitirá realizar o salto revolucionária, com a instauração de um novo poder estatal capaz de levar à prática as transformações radicais da etapa antiimperialista e antifeudal da revolução brasileira. Este poder estatal encontrará sua expressão num Governo revolucionário, representativo da frente antiimperialista e antifeudal e em cuja composição prevalecerão as forças mais consequentes"

A fase de acumulação de lentas, a fase do Governo Goulart, era de importância fundamental para a realização do "salto revolucionário".

Segundo a teoria exposta da revolução por etapas, a etapa Goulart era caracterizada como etapa antiimperialista e antifeudal. "Com isso, precisamente, serão criadas as condições para passar à etapa das transformações socialistas." A etapa seguinte seria a eliminação da contradição burguesia-proletariado com a eliminação da burguesia nacional pelo Governo revolucionário socialista. No momento que foi deposto, Goulart preparava-se para constituir o "Governo nacionalista e de- mocrático" capaz de realizar a conquista das reformas de base da etapa antiimperialista e antifeudal.

OS DOIS CAMINHOS

Com a ajuda de Goulart e de seus auxiliares mais próximos, os comunistas podiam preconizar com otimismo o desdobramento das etapas da revolução brasileira, por métodos pacíficos. Como se verá a perspectiva lisonjeira da revolução pelos métodos pacíficos não exclui a possibilidade de revolução violenta para a tomada do poder.

"... para que a revolução se torne vitoriosa pelo caminho pacifico, é necessário dispor de grande superioridade de forças, o que só se consegue através de todo um processo de lutas encarniçadas, nas formas mais diversas e em todos os terrenos.

"O caminho pacifico é uma possibilidade real, cuja transformação em realidade, pela atuação conjunta das forças revolucionárias, os comunistas consideram conveniente aos interesses do povo brasileiro." Tese 39.

A tese 40 expõe a opção revolução pacifica ou violenta nos seguintes termos:

"O avanço do processo de acumulação de forças e a aproximação da perspectiva de vitória da revolução por um caminho pacifico podem levar a reação e o imperialismo a recorrer às armas e à ditadura terrorista para defender os seus privilégios. É indispensável, por conseguinte, ter também em vista a possibilidade duma situação que torne necessário o caminho não pacifico da conquista do poder, caminho em que a luta armada constitui a forma principal de luta...

"... Numa situação em que devam enfrentar a violência armada da reação pró-imperialista, as fôrças revolucionárias se encontrarão diante da necessidade de responder com armas para derrotar a reação e tornar vitoriosa a causa da emancipação nacional e da reforma agrária radical. A luta armada pode ser imposta às forças revolucionárias também após a conquista do poder, em conseqüência de tentativas da reação interna e do imperialismo norte-americano para derrubar o novo poder. Em tal situação, as fôrças antiimperialistas e antifeudais têm o direito e o dever de empregar a luta armada para derrotar a violência da contra-revolução.

"O caminho da luta armada não deve ser compreendido como fruto da conspiração de pequenos grupos, porém como resultado da experiência política profundamente vivida pelas massas. A luta armada, neste caso, surgirá como exigência da própria luta de massas e se combinará a outras formas de luta na cidade e no campo, sem desprezar as mínimas possibilidades de atuação aberta e legal que ainda existam sob o domínio da reação.

"A experiência já demonstrou que, no Brasil, podem se dar bruscas reviravoltas na situação política, que venham a exigir rápidas mudanças de tática. Ao ter em vista a possibilidade de realização da revolução pelo caminho pacifico, a frente nacionalista e democrática acumula 'forças, que precisam estar política e ideologicamente preparadas a fim de mudar de tática e empregar a luta armada, se as circunstâncias impuserem a necessidade do caminho não pacifico para a conquista do poder revolucionário."

COEXISTÊNCIA E LUTA DE CLASSES

A correspondência das posições de Goulart com as dos comunistas, correspondência consciente ou não, pode ser demonstrada em outros pontos. Caberá ao historiador provar melhor se Goulart era ou não um "inocente útil?". Está provado no entanto, que agiu muitas vezes conto tal. Ele e outros políticos brasileiros que desconhecendo ou fingindo ignorar a interpretação comunista da "coexistência pacífica'', engrossavam as fileiras comunistas para o fim revolucionário.

Não está muito distante dos textos oficiais de certos discursos oficiais brasileiros sob o Governo Goulart o que passamos a transcrever:

"O princípio da coexistência pacifica, como é consequentemente aplicado pelos países socialistas, pressupõe a renúncia à guerra como meio de resolver as questões controversas entre os Estados e sua solução mediante negociações; a igualdade de direitos, compreensão mútua e confiança entre os Estados; consideração dos interesses recíprocos; não ingerência nos assuntos internos, reconhecimento a cada povo do direito de resolver independentemente todos os problemas de seu país; estrito respeito da soberania e da integridade territorial de todos os países; desenvolvimento da cooperação econômica e cultural, com base na plena igualdade e no proveito mútuo.

"A política de coexistência pacífica dos países socialistas, a luta intransigente e perseverante do proletariado e dos povos do mundo inteiro pela paz favorecem a justa batalha de emancipação dos países dominados pelo imperialismo, batalha esta que, por vezes, se realiza através de guerras de libertação. Estas guerras, como a que travou há pouco o povo argelino ou as em que se empenham agora os povos do Vietname do Sul e de Angola, são guerras justas, apoiadas pelos povos de todo o mundo. "A política de coexistência pacífica não significa conciliação entre a ideologia de uma classe exploradora e a de urna classe explorada. Ela pressupõe e facilita a intensificação da luta da classe operária pela sua emancipação total no mundo inteiro. A política de coexistência pacifica significa, fundamentalmente, que as contradições entre Estados de diferentes sistemas sociais não devem ser resolvidas pela guerra. Os marxistas estão certos de que, para o triunfo das idéias socialistas, não é necessária qualquer intervenção dos Estados socialistas nos assuntos internos dos países capitalistas. Não admitindo a exportação da revolução, os marxistas opõem-se, com o maior vigor, à exportação da contra-revolução.

"A coexistência pacífica é uma forma de luta de classes. Ela permite que a competição entre o campo capitalista e o campo socialista se realize em todos os terrenos, principalmente na esfera decisiva da atividade humana — a esfera da economia — e contribui, assim, para pôr em evidência as vantagens do socialismo. A coexistência pacífica reforça o tema socialista mundial, facilita a luta revolucionária do proletariado dos países capitalistas e o movimento de libertação nacional."

A interpretação comunista da coexistência exclui as "guerras justas". Justifica e defende a guerra ideológica, de natureza existencial, que separa os homens em universos.

A coexistência é guerra. Ela pressupõe e facilita a intensificação da luta de classe operária pela sua emancipação total no mundo inteiro. Ela é uma forma moderna de luta de classe.

A coexistência tal como é vista pelos comunistas, e seguida pelos inocentes úteis do esquerdismo nacional, visa a criar um cordão protetor diplomático e militar ao redor das "guerras justas" travadas internamente pelos comunistas. Por isso ela protege essas "guerras justas" com o poderio do bloco soviético. Dai decorre a teoria comunista de não intervenção. Os Estados socialistas abdicam, na aparência, a qualquer intervenção nos assuntos internos dos países capitalistas. Não admitindo a exportação da revolução e da contra-revolução, os comunistas protegem diplomaticamente as "guerras justas" internas, diante as quais não são neutros.

A posição de má-fé é evidente. Certas guerras são justas e os comunistas assim a julgam, ajudando pelos meios clandestinos a sua continuação. O princípio diplomático da coexistência visa, portanto, apenas impedir n intervenção das nações democráticas nas "guerras justas". A revolução pelo caminho violento no Brasil seria uma "guerra justa" e os comunistas e seus aliados poderiam contar com a proteção diplomática soviética, pois, segundo a tese 6,....

"Os povos sabem (exemplo cubano) que, nas atuais condições do mundo, o imperialismo já não pode, como no passado, esmagar pela força as lutas nacionais-libertadoras."

TEORIA E PRÁTICA DAS FRENTES

Quando nos últimos meses proliferaram em todos os cantos do Brasil as frentes parlamentares, populares, de mobilização e únicas, o fenômeno tinha sua razão de ser.

A situação já era julgada madura para tentar mudar a correlação de forças para tomar o poder com auxilio das frentes.

"Tornam-se cada vez mais agudas as contradições entre as classes dominantes e acentuam-se os sintomas de desagregação no aparelho do Estado, como se verifica pelos movimentos de rebeldia no seio das Forças Armadas, pelos conflitos na alta hierarquia militar e pelas continuas recomposições de Governo..." Tese 16.

Cresce "a influência e o poder de decisão do proletariado organizado, não apenas no terreno das lutas econômicas, mas também no plano dos acontecimentos políticos"... Tese 17.

Aumenta a "influência do movimento antiimperialista e democrático nas Forças Armadas. Fato novo na vida do Pais, o movimento dos sargentos e suboficiais está-se convertendo em fator ponderável na po lítica nacional"... 'Tese 17.

"... desenvolve-se em nosso País, ampla e poderosa frente única, que abrange forças bem diversas do ponto-de-vista social"... Tese 17.

"... A frente única se amplia e se fortalece"... Tese 17.

Era chegado o momento de exigir e conseguir, como foi conseguido, o rompimento de Goulart com a "política de conciliação" e tentar obter dele a formação de um Governo nacionalista e democrático que resultará "de uma mudança na correlação de forças políticas"... Tese 22.

Para isso, o Partido Comunista exige a utilização de diferentes formas "de lutas de massas — comícios, manifestações, assembléias, greves de solidariedade, autodefesa de massas, ocupação de terras do latifúndio pelos camponeses etc. Estas formas de luta podem ser combinadas com a realização oportuna da greve geral política, cujo desencadeamento exige cuidadoso preparo".

Goulart e os comunistas que o cercavam seguiram à risca o plano de atividades do Partido Comunista. Basta ler o que transcrevemos abaixo:

"Na atividade pela formação de um Governo nacionalista e democrático, as forças patrióticas e populares devem orientar-se em três direções principais, que se entrelaçam em sua aplicação:
a) Lutar por reformas de estrutura, por soluções nacionalistas e democráticas que atinjam efetivamente o imperialismo e o latifúndio. Ao mesmo tempo que lutam pelas reformas de base, os comunistas exigem do Poder Executivo medidas imediatas e concretas para enfrentar as dificuldades mais agudas do momento, medidas que podem ser tomadas independentemente de aprovação legislativa, vindo a constituir um passo inicial no sentido da realização de reformas estruturais.
b) Combater as concessões do atual Governo ao imperialismo e às forças reacionárias, as falsas re-formas de base que vem propondo e a sua política de conciliação com os inimigos da Nação. Um poderoso movimento popular pode levar esta política ao fracasso e, com isso, provocar choques no seio do próprio Governo. Com a intervenção das massas, estes choques conduzirão ao isolamento e à derrota dos grupos reacionários, abrindo caminho para a formação de um Governo nacionalista e democrático.
c) Lutar para desenvolver os aspectos positivos da política realizada pelo setor da burguesia nacional no poder..." Tese 23.

As frentes proliferamos, todas sem exceção, decalcavam seus programas do programa comunista que confessava aberta ser a luta pelas reformas de estrutura a luta revolucionária:
"Segundo o ponto-de-vista dos comunistas, a luta pelas reformas de estrutura ou de base leva a aproximar a realização dos objetivos revolucionários."

As frentes falavam em objetivos "cristãos e democráticos" e naturalmente não admitiam os objetivos revolucionários do reformismo comunista.

No entanto, todos têm boa memória para recordar que os programas eram quase todos iguais ao programa comunista que acima transcrevemos, com grifos, e abreviações necessárias, ao destaque do essencial. Qualquer dúvida poderá ser desfeita com a leitura da última Mensagem Presidencial ao Congresso.

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Fonte: Acervo do Jornal do Brasil
[13/03/64]   Situação econômica e crise - por Jayme Magrassi de Sá  (pág. 48)

A inflação cria, sabidamente, condições favoráveis às erupções sociais e políticas. A perda de poder real de compra, atinge exatamente as camadas da população que vivem de rendimentos fixos e que formam a base da pirâmide social. Ao fazê-lo, indispõe essas camadas contra a ordem vigente, suscetibilizando-as a quaisquer acenos de mudança, de fundo ou de forma.

O agravamento da pressão inflacionária e sua continuidade por períodos mais longos provoca, compulsoriamente, atrito entre classes sociais, pela ânsia de cada uma em resguardar ou manter sua participação relativa na Renda gerada. Ao longo disse atrito, a classe média transforma-se, também compulsoriamente, na vítima maior. As classes assalariadas, arregimentando-se em representações sindicais, de força econômica mais atuante, conseguem, através de ativas reivindicações, resultados mais compensadores do desgaste inflacionário. do que o obtido pelos diversos segmentos que compõem. a classe média. Ademais, o problema do status social é, nessa classe social, fator severo de irritação, pois é o ponto mais sensivelmente atingido pela inflação. Não é de hoje a afirmação de que a desvalorização da moeda em ritmo acentuado e por períodos mais amplos leva à proletarização crescente da classe média.

Por outro lado, a perda de valor da moeda destorce comportamentos, não no sentido de transformá-los em atitudes progressistas ou voltadas para modificações mais profundas no contexto econômico e social. Mas, no sentido de descrédito da própria moeda, alterando artificialmente padrões de consumo, hábitos de vida social e até mesmo a atitude de cada um frente à coletividade.

Vimos presenciando no Brasil, de algum tempo, todo esse quadro. Confundiam-se os sintomas, aos olhos de alguns analistas, com as modificações de comportamento provocadas pelo desenvolvimento econômico, do Pais, que também ocorriam, é bem verdade. Mas, de que as relações entre os diversos agentes econômicos se tem tornado cada vez mais tensas e de que a irritação da classe média é cada vez mais visível, não podem ter duvidas todos os que se dão ao esforço de observar mais detidamente o panorama social brasileiro, focalizando-o de uns cinco ou seis anos para cá.

Enquanto foi possível manter elevada a taxa de crescimento do Produto real per capita, os efeitos sociais mais ativos da inflação ficaram, de certo modo, neutralizados pela natural euforia de um enriquecimento coletivo, embora sem conveniente e necessária distribuição social da Renda produzida. Quando, porém, o Produto global caiu em seu ritmo de crescimento face a uma população de forte taxa de expansão, as pressões sociais da inflação tornaram-se bem mais claras e bem mais angustiantes. Mais incisivas e incontornáveis.

O agravamento da inflação, ocorrido eminentemente por razões políticas a partir do biênio 1959/1960, refletiu-se, do ponto-de-vista econômico, de vários modos, destacando-se dois por mais ostensivos — a progressiva distração de objetivos na agricultura, setor que representa uma espécie de caixa de ressonância dos efeitos cumulativos da desvalorização monetária, e a pressão crescente sobre os orçamentos estaduais, cujas receitas não tem podido, nem de longe, acompanhar a tremenda majoração das despesas.

No primeiro caso, a conseqüência mais destacada é a crescente irregularidade a que temos presenciado na oferta de bens de subsistência, com reflexos severos, sociais e políticos, nos grandes centros urbanos. No segundo, a indisposição, também crescente das administrações estaduais, fato que tem concorrido ou tem gerado um jogo de poder político de alta instabilidade.

E como a inflação é fenômeno de efeitos cumulativos e auto-evolutivo depois de ter atingido certo grau, o conjunto de fatores arrolados levou, gradativamente, a unia situação tal que a qualquer tentativa de controle, por mais suave e modesta, erguiam-se logo resistências apreciáveis, conto aconteceu, por exemplo, com o Plano Trienal. As controvérsias de fundo ideológico, muito raramente conduzidas de forma mais seria e mais lógica, é as próprias tricas da politiquice, sempre presentes nas decisões de política econômica, de fundo ou de forma, levaram a que, também gradativamente, a população se fosse imbuindo de ideias menos saudáveis: ou de que não havia capacidade efetiva, técnica e política, para um autêntico combate à desvalorização da moeda, ou de que não estava esse combate na real preocupação das elites dirigentes do Pais.

Somam-se a esse panorama desolador alguns fatores adicionais, de efeitos variáveis em grau e forma. O descompasso entre o ritmo de crescimento do setor primário e o do setor secundário; as descontinuidades de política comercial, em especial de política de câmbio, as perturbações sociais e econômicas geradas pelos amplos desequilíbrios regionais, as frustrações freqüentes na administração pública, certa rigidez institucional e a obsolescência de certas estruturas, passaram a exercer sobre a contextura sócio-econômica do Pais efeitos negativos, não transbordantes em agitações mais profundas dada a índole dócil do povo e dada a sensação de crescimento econômico ou a intuição de que boa margem dos problemas existentes, e seu agravamento, vinculava-se ao próprio crescimento econômico que a Nação vinha ostentando.

Em que pese o fato de se ir tornando, pelas razões apontadas acima, sobretudo pelas de ordem política, cada vez mais difícil, o traçado e a execução de um programa de saneamento monetário, o exercício de tal orientação não seria realmente fácil com a insuficiência de instrumentação que decorre de estruturas quase superadas, como são a agrária, a tributária, a bancária etc, E as elites dirigentes, no setor público e no setor privado, lamentavelmente se vêm consumindo em disputas de quase nenhuma seriedade ante a magnitude e a complexidade dos problemas a enfrentar. Essa insensibilidade das elites pode ser bem apreciada através de dois fatos expressivos — o prático desconhecimento e a indiferença, em quase todos os setores sociais, do que e, como se desdobra e como se torna complexo um processo de desenvolvimento, e a impossibilidade de lograr-se quer uma execução orçamentária, no plano federal, sem déficits alarmantes, quer uma política creditícia menos empírica. Num caso e noutro, os responsáveis pelo poder de decisão, as cúpulas em cada esfera social, omitiam-se, consciente ou inconscientemente, deixando, ao rigor da expressão., a evolução econômica entregue à sorte de fatores circunstanciais.

Não seria necessário, para entenderem-se as consequências desse mosaico de fatores de perturbação, projetarem-se os elementos acima no quadro mais largo dado pelas próprias realidades nacionais.

A grande dimensão geográfica do Pais e as longas distancias, tão exigentes em termos de investimentos, os insulamentos regionais e os vazios a ocupar economicamente, os deslocamentos demográficos, a instabilidade da receita cambial e outros grandes problemas, como o fraco índice de higidez, o baixo nível educacional etc., já indicavam, por si, que a política econômica no Brasil deveria primar pelo rigor e pela seriedade, se pretendesse resultados mais positivos e mais estáveis, Mas, de há muito, não conseguimos ver adotado um conjunto de medidas que pudesse fazer jus à designação de política econômica. Não é dos dias recentes a impossibilidade de termos tal política, sempre obstada por disputas as mais primárias e estéreis; por pleitos ao mais das vezes inteiramente dissociados dos reais interesses nacionais.

Caminhávamos, necessariamente, para atritos sociais de maior monta. Como que cultivamos a crise, descansando sobre a crença curiosa de que o País se habituara à inflação e de que tão forte era o ritmo de crescimento que aquilo que, alhures e em épocas diversas, fora sempre prenúncio ou causa de convulsões sociais o políticas, entre nós não passava de um precipitado, sempre prestes a decantar sem maiores problemas. Do ponto-de-vista econômico, parece que nos empenhamos em iludirmo-nos à conta de mística esperança num futuro indefinido.

Montados sobre o sucesso de um desenvolvimento rápido e intensivo de uma década, permitimo-nos transformar diálogos em incompatibilidades, desconhecer angustias e anseios de algumas classes em favor de outras, exercitar medidas de ordem econômica sem encaixá-las numa orientação de conjunto, falar em reformas sem esboçar, sequer, os instrumentos para as reformas, avançar na intervenção direta do Estado sem preparar convenientemente os agentes para essa intervenção, estimular e contemplar os empresários sem exigir-lhes as responsabilidades devidas à sua participação no esforço coletivo. Ao complexo natural de nossos problemas, todos de grandes dimensões, juntamos o complexo maior da inorganicidade administrativa, política, ideológica e até de atitude externa, ofegante e sincopada,

Fomos forjando, ou vimos complacentemente ir-se formando no Pais, sob a liderança de pseudas elites ou de elites descuidadas e omissas ante os grandes problemas, especialmente ante os grandes problemas econômicos, o caldo de cultura para uma verdadeira crise política e institucional.

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Fonte: Acervo da Folha de S. Paulo
[13/02/64]  Lista - Editorial folha de S. Paulo

A extensa relação de parlamentares cujos mandatos foram cassados e dos personalidades que tiveram suspensos seus direitos políticos causou algumas justificáveis surpresas. Sobretudo por não vir acompanhada de nenhuma explicação.

E' claro que, pelo consenso geral, determinados políticos não mereciam mesmo voltar mais ao Congresso, por uma atuação que os incompatibilizava profundamente com o regime democrático. De nenhuma violência por exemplo, podem queixar-se agora deputados que viviam a proclamar o falência do Poder Legislativo e a exigir-lhe o fechamento; a cassação de seus mandatos é medida lógica e deveria até constar de seus cálculos.

Dificilmente, porem, se poderá dizer que se encontram nessa situação todos aqueles cujos  nomes figuram na lista dos excluídos do Parlamento Nacional. Vários deles, não obstante defensores de opiniões merecedoras das mais sérias restrições, nunca chegaram a caracterizar-se

se como inimigos irrecuperáveis do regime, nem contribuíram para abalar-lhe os alicerces. A única justificativa para o seu alijamento seriam informações seguras, em sentido contrario, de que o Alto Comando Revolucionário dispusesse. E nesse caso, para que não pairassem duvidas sobre o acerto da medida drástica, o mais aconselhável seria a ampla divulgação dessas informações.

O mesmo pode ser dito quanto a mais de meia centena de políticos cujas direitos foram suspensos por dez anos. Facilmente identificáveis, na lista, estão alguns nomes em relação aos quais a medida se impunha sem nenhuma duvida. Outros, porém, foram recebidos por largos setores da opinião pública com surpresa e até com alguma perplexidade. Por que não elucidar cabalmente as razões de sua inclusão, removendo-se assim as duvidas acaso surgidas?

Seja claro que, nos termos do Ato Institucional está fora de discussão o poder do Alto Co-

mando Revolucionaria para decretar a cassação de mandatos e a suspensão dos direitos políticos. Ternos razões para acreditar no escrúpulo dos que organizaram a lista. A falta de maiores explicações, entretanto, deixou incompleto o trabalho e impediu que todos soubessem os crimes contra a democracia que se imputam a muitos dos punidos.

Mesmo porque, se há quem ache que há gente incluída indevidamente, não falta quem considere a lista omissa, no tocante a políticos e lideres cuja recente atuação se afigura tão nefasta como a de vários outros, sumariamente castigados. Entre os ex-ministros do governo passado, alguns receberam a sanção, outros não; a mesma diversidade ocorre com personalidades tidas e havidas como influentes conselheiros ou assessores do ex-presidente. Voltamos a insistir em que deve haver razões para essa aparente disparidade de tratamento; o importante é que tais informações não sejam sonegadas à opinião pública, cujo apoio contou a revolução vitoriosa.

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Leitura complementar:

Fonte: ABI
[27/10/06]  Entrevista – Wilson Figueiredo - O jornalista que é a história de um jornal

Arquivo JB

Aos 82 anos de idade, 62 no jornalismo em tempo integral, 45 no Jornal do Brasil, Wilson Figueiredo é um dos mais experientes profissionais em atividade no País. Ficou praticamente impossível contar a história do JB e omitir o nome desse capixaba, nascido em Castelo, batizado na igreja de São José em Belo Horizonte e criado em Minas desde os 8 meses de idade. Da mesma forma, é impossível dissociá-lo do longo período transcorrido dentro da Redação do jornal em cuja reforma foi ator e testemunha desde os primeiros dias.Tem na ponta da língua a crônica do JB, os antecedentes e acidentes históricos transcorridos sob a orientação da Condessa Pereira Carneiro e de M.F. do Nascimento Brito, transformações, sucessos e insucessos que marcam a história do diário que estampa o nome do País no seu cabeçalho.

Wilson Figueiredo fala, com prazer e certa nostalgia, dos nomes ilustres que dirigiram o JB e nele colaboraram, dos repórteres que se identificaram com o espírito do JB, dos colunistas, dos que tiveram seu batismo profissional na Redação onde o sol não se punha. Tem a memória das duas sedes — a da Avenida Rio Branco e a da Avenida Brasil. Mas seu limite é o jornal. Abstém-se de emitir opinião sobre questões relativas à empresa e às decisões que não dizem respeito ao jornalismo dos seus anos de casa. Numa longa e descontraída conversa, recolhida com a cumplicidade de um gravador, ele surpreende pela memória precisa. Dá uma aula sobre o tempo que passou no JB e lembra com emoção os episódios que viveu e os amigos que fez na profissão.

ABI Online — Como é o comecinho desta aventura?
Wilson Figueiredo — Meu primeiro emprego foi na Agência Meridional, dos Diários Assiociados, na Redação do Estado de Minas, em Belo Horizonte, no ano de 1944. Eu me preparava para o vestibular de Medicina por uma escolha tácita de família, desde que nenhum dos quatro filhos homens de meu pai quis seguir a profissão dele. Mas ao chegar à capital mineira, que ainda tinha em torno de 250 mil habitantes, fui morar em pensão de estudante, mudei da água para o vinho (ou do vinho para a água) e me enturmei com o pessoal da literatura. Já eram presenças nos suplementos literários o Hélio (Pellegrino), o Paulo (Mendes Campos), o Fernando Sabino, o Otto Lara Resende, além dos que já estavam federalizados, como Ciro dos Anjos, Emílio Moura, João Dornas, Guilhermino Cesar. Belô estava se civilizando, na administração JK, com o cassino da Pampulha e uma vontade enorme de ser grande cidade. E, para encurtar o caminho, fui para a Faculdade de Filosofia fazer o curso de Língua e Literatura Neo-Latina. Carlos Castelo Branco, estudante de Direito e secretário de Redação do Estado de Minas, e que também escrevia “continhos brasileiros” e morava em pensão, apadrinhou meu deslumbramento literário de rapaz vindo do interior. Um dia me perguntou se eu era datilógrafo, respondia que não, mas, como usava dois dedos de cada mão na máquina de escrever, concluiu que não fazia diferença e me levou assim mesmo para uma experiência na Agência Meridional. Comecei no mesmo dia. Em tempo: no final do mês, o primeiro salário veio maior do que me foi anunciado, porque a carreira de jornalista fora contemplada com o salário profissional. Era uma vez a vocação para a medicina. Comecei como “tradutor de telegrama”, que era ordenar e reduzir às necessidades do jornal as informações das agências noticiosas internacionais. Chegavam pelo telégrafo quilômetros de telegramas. A Guerra Mundial estava entrando no última fase com o desembarque aliado na Normandia em junho de 44. As notícias da guerra tinham primazia no interesse dos leitores porque, sob o Estado Novo, a censura à imprensa reduzia ao mínimo o que pudesse merecer atenção como informação e opinião. O Congresso estava fechado desde 1937, não havia vida política, nem partidos políticos, nem eleição.Toda ditadura se nivela pela supressão da liberdade de imprensa. O Estado Novo caprichou. A censura era organizada, havia até carreira do censor no serviço público.

Eu fiquei amigo do Otto Lara Resende, que despontava como escritor e era repórter e redator do Diário (católico). Os jornais do Rio e de São Paulo eram comprados à noite, quando chegavam pelo trem da Central. Era uma janela aberta para o mundo lá fora. Mas, se não havia notícías políticas, não faltava informação política por via oral. Boatos em profusão, cautelosamente passados adiante. Sabia-se de tudo e até do que não ocorria. Discutiam-se idéias, comentavam-se os fatos públicos, freqüentavam-se conferências de visitantes ilustres. Os estudantes, como sempre, faziam política quando os adultos se omitiam. Principalmente distribuir panfletos contra a ditadura e o ditador Getúlio Vargas. Havia prisões quando apanhados de madrugada em panfletagem contra o Estado Novo. Mas o Brasil começava a se mover. O brasileiro pressentia — sem ter certeza — os últimos meses do Estado Novo. Era certo que o fim da segunda guerra liquidaria a ditadura. O mundo contava o tempo para a capitulação alemã. Depois de quatro anos, aceitei ser um dos secretários da Folha de Minas — fundada pelo Affonso Arinos para ser jornal da oposição e, por ironia, acabou nas mãos do governo estadual por tabela. Para evitar a falência fez uma operação financeira com sujeito oculto. A partir daí o jornalismo já era para mim mais que uma profissão para começar. Iria viver dele. Em 1946, no Rio, depois de encerrado o Congresso da UNE, trabalhei por seis meses no jornal Democracia, folha política dirigido por Francisco de Assis Barbosa. Mas, terminada a Constituinte, senti saudade e voltei para Belo Horizonte.

ABI Online — E quando veio em definitivo para o Rio?
Wilson — Em 57. Troquei pernas por várias redações, emprego andava difícil. Passei alguns meses na Última Hora, que já não era a mesma, mas continuava a ser uma referência política. Passei pela Tribuna da Imprensa, que também vivia um tempo de adversidade. Ai, mais uma vez, o Castelinho me deu a mão e me levou ao Odylo Costa, filho, que estava arrebanhando repórteres e redatores para começar a reforma do JB. Vi o nascimento de um projeto de jornalismo ambicioso: o título tradicional, de Jornal do Brasil, marginalizado na competição desde a Primeira Guerra Mundial, queria se recuperar como “um jornal de importância nacional e referência internacional”. O Brasil também se dispunha a uma arrancada histórica. O salto industrial estava preparado. Havia dificuldades, inclusive políticas, mas o País seguia adiante. O último abalo tinha sido a morte de Getúlio Vargas, seguida da campanha sucessória no vácuo político (e da tentativa de evitar a posse do eleito). Mas estava na medida exata para JK, que fez um bem enorme, em primeiro lugar, aos brasileiros com um governo de resultados visíveis. Deu o toque industrial ao Brasil e acesso do brasileiro ao consumo de bens duráveis, como dizem os economistas. Sem querer, o JB e JK, embora se estranhando em diversos episódios, participaram do mesmo projeto. Cheguei a tempo no JB. Sai por dois anos e, quando voltei, foi para ficar até o fim daquela encarnação.

ABI Online — A reforma que mudou a cara do jornal...
Wilson — Não foi apenas uma operação gráfica, mas uma reforma profissional e empresarial. Precisou de tempo. O JB tinha um agente financeiro no andar térreo: o guichê dos anúncios classificados que o livrava de preocupações com a subsistência. Depois de muitos desencontros, o jornal se encontrou numa confiança indispensável entre empresa e jornalismo. Apenas um exemplo: não havia cartão de ponto na redação do Jornal do Brasil. As tentativas de manter o jornalista sob rédea curta, numa profissão com margem de erro para produzir e dissipar tempo, não pegaram. Pareciam, e eram, desconfiança. Controle de ponto é incompatível com a atividade que não tem horário para começar e acabar. O horário rígido desmobiliza o espírito do repórter e do redator porque se trata de atividade de tempo ilimitado. Fatos não têm hora marcada. Acidentes acontecem a qualquer momento. Eu atribuo a essa (digamos) liberalidade consentida pela direção um dos motivos do estado de espírito que identifica os que passaram pelo JB. Formam uma confraria ruidosa quando se encontram. Um caso bom para meditação: no esforço para impor o fechamento dos trabalhos da redação mais cedo, para o jornal chegar logo às bancas, o JB conseguiu um dia dar por encerrada a tarefa dentro da hora marcada. Pois não demorou e veio a notícia de um desastre ferroviário de proporções, com mortos e feridos em quantidade, na linha da Central. A apuração varou a madrugada e o jornal chegou tarde às bancas. Jornal é para chegar às bancas quando ficar pronto. O resto não é com a redação.

A reforma do JB era necessidade à espera de oportunidade. Mas também fatalidade. Com a morte do Conde Pereira Carneiro a Condessa abriu a questão com Annibal Freyre, ex-Ministro do Supremo, que tivera a confiança do Conde e continuou a dirigir o jornal quando a Condessa o sucedeu à frente do JB. A iniciativa de fazer uma reforma para o JB se situar nos novos tempos foi da condessa. Ela começou as consultas e a pensar em nomes para a reforma do JB. D. Maurina Dunshee de Abranches era maranhense, filha de jornalista que também dirigira o JB, e se lembrou do seu conterrâneo, Odylo Costa, filho, redator político do Diário de Notícias. E Odylo veio a ser — por dois anos — o executor de uma reforma que se sabia difícil de começar num jornal já sexagenário e com tiragem de sobrevivência. Era o jornal que vivia da receita dos anúncios classificados. Odylo cuidou da Redação, convidou um grupo de jornalistas que começavam a vida profissional, a maioria da Tribuna da Imprensa e do Diário Carioca. Eram jovens ainda sem maiores compromissos de vida e, em tese, sem necessidade de remuneração alta. Os salários haviam subido com o aparecimento de Última Hora, mas, com a crise política do governo Vargas, sofreram achatamento geral. O jornalismo não chegava a ser uma profissão da qual fosse possível viver fora dos cargos de confiança (e sem emprego público, que é outra história a ser levantada). Outro efeito da reforma do JB foi o reconhecimento da necessidade de remunerar melhor. Não foi reivindicação atendida num mês, nem num ano. A revisão salarial se viabilizou pela competição ativada. Um processo longo. Ainda está por ser estudado em profundidade o fechamento epidêmico de jornais de credibilidade no Rio, depois de perder o status de capital federal. Nem tudo foi falta de visão comercial, nem apenas conseqüência das posições políticas a partir de 1964.

Fui para o JB em abril de 57. Comecei junto com Hermano Alves, Luís Lobo, Carlos Lemos, Bandeira da Costa, Cesario Marques, Calazans Fernandes, Quintino de Carvalho, Mário Faustino, Joaquim Campelo, Luiz Gutemberg, Edilberto Coutinho, Ana Arruda em seu primeiro emprego. Uma galeria de vivos e mortos sempre lembrados. Não dá para citar todos. Em seguida vieram Ferreira Gullar, Jânio Freitas, José Ramos Tinhorão, Amílcar de Castro, não necessariamente nessa ordem, e mais tarde Fernando Gabeira, todos reunidos pelas circunstâncias de mercado e apostando na contribuição democrática da imprensa.

ABI Online — Mas o Odylo acabou caindo.
Wilson — Era inevitável. Reformas desgastam os dois lados. Odylo não era um temperamento afeito ao trabalho organizado, metódico. Além de escritor e jornalista, tinha relações políticas estreitas com a UDN. Faltava-lhe método e tinha o prazer de improvisar, mas o que o jornal precisava naquela altura era de mão firme para operar com a direção, sem injunções alheias ao trabalho profissional. A Redação nova se sentia preterida pela eterna redução de custos, e pressionada pela gerência comercial. Odylo teve o mérito de quebrar o tabu da primeira página exclusiva de anúncios classificados, com fotografias e títulos que chamavam para as páginas de dentro. Recrutou a rapaziada para animar um jornal vazio de criatividade, com uma aparência gráfica de afugentar leitor. Mas bateu de frente com a empresa, por motivos políticos e de custos. Não tinha cabeça de empresário. Desentendeu-se e saiu. Depois de um período de reavaliação do projeto, a diretoria entregou a Redação a Jânio de Freitas, que também não teve condições de promover mudanças coerentes sem a renovação de pessoal. O conflito de gerações, entre os profissionais antigos e a garotada que estava chegando, passava-se nos bastidores. Jânio saiu, mas deixou as bases da reforma cujo primeiro objetivo era exatamente estabelecer o padrão moderno de texto e o padrão gráfico que demandavam condições materiais com que não podia contar.

ABI Online — Aí veio o Alberto Dines?
Wilson — Em janeiro de 1962, foi a vez do Dines, que entrou ciente das dificuldades, mas com a disposição de equacioná-las e resolvê-las racionalmente com a empresa. Fez a ponte entre o jornalismo e a empresa, ainda não acostumada às mudanças e novidades que estavam em curso. Dines administrou as diferenças. Pouco antes, o JB já tinha ultrapassado a etapa preparatória, quando o presidente Jânio Quadros reabriu a crise com a renúncia. O choque cultural entre a antiga Redação, que operava na sombra, e a nova, modernizadora, estava esgotado. Dines ficou onze anos e, no edifício da Avenida Brasil, o JB chegou ao auge do projeto: atou as duas pontas da solução possível. O JB é considerado a exceção à regra segundo a qual nenhum jornal que entra em decadência nunca mais levanta a cabeça. O Caderno B já estava criado (iniciativa de Reynaldo Jardim), foi prestigiado e se tornou um das marcas do jornal em matéria de cultura e espetáculos (que todos os jornais hoje têm). O Jornal do Brasil mantinha posição meio petulante, meio desafiadora, mas que não ia para o confronto aberto com o governo, como o Correio da Manhã. Nunca fechava a porta. Liberal nas convicções, instigante e provocador, nas reportagens e nas manchetes e chamadas de primeira página. A opinião também se tornou um culto. Gosto pelo trabalho de equipe foi outra das características de Alberto Dines. Desde antes, entre 1965 e 68, o jornal se firmou pela informação política confiável e a opinião arejada, enquanto outros jornais, já em crise, apostaram apenas na resistência política cega à ditadura para o qual, por conta própria, se encaminhava o regime. Nessa altura JB foi perdendo (para O Globo) a receita dos classificados e consolidando prestígio juntos às agências de propaganda: o jornal se tornou veículo de prestígio. A sede da Avenida Brasil foi o sinal exterior da opulência.

ABI Online — O JB conquistou espaço?
Wilson — As mudanças no JB coincidiram com o salto de modernidade na economia e na indústria do País. A indústria e as agências de publicidade distinguiam o JB. Quando o mercado respondeu aos apelos dos produtos industriais — no rastro da euforia do Governo Kubitschek — acelerou-se a seleção natural entre os jornais. O Correio da Manhã, por exemplo, sofreu as conseqüências da sua imprevidência e pagou preço elevado pelo seu posicionamento político. O Jornal do Commercio, até hoje identificado com o conceito de jornal de assuntos financeiros e econômicos, ficou restrito ao universo dos negócios. Se não me engano, é de Jânio Freitas o mérito de ter acabado com o hábito de começar notícia na primeira página e continuar nas páginas de dentro. Fez da primeira página a vitrina do jornal.

Quando Assis Chateaubriand caiu doente, no início da década de 60, os Diários Associados ficaram com dirigentes aos quais faltava o sentido da modernização dos jornais e do jornalismo na economia de mercado e no relacionamento com o governo. A cadeia dos Diários Associados naufragou, com a sobrevivência de poucos títulos. O Correio da Manhã, com o “poder de derrubar ministros”, como se dizia, não tinha com o governo militar relacionamento normal, nem fazia questão de ter prestígio oficial. O desaparecimento do Correio não restringiu o impacto ao vazio deixado pelos seus editoriais. Foi o marco histórico. Outras publicações também desapareceram. Também contou o desaparecimento de outros jornais e revistas, como o Diário de Notícias, que sucumbiu ao desgaste do envolvimento político e da negligência empresarial.

ABI Online — O jornal e o País continuaram crescendo?
Wilson — A operação de transferência da Avenida Rio Branco para a Avenida Brasil foi planejada e executada ao longo de 16 anos. A reforma do jornal, iniciada em 57 em suas páginas, foi concluída em 1973, com a mudança e a modernização do equipamento gráfico para atender às novas necessidades no novo prédio. No transcurso dos 16 anos, o JB comprou o terreno da Avenida Brasil 500, preparou e executou o projeto, e provou a embriaguez do sucesso. O Brasil já era outro País. A crise política — que batia à porta nos anos 50 — não deteve o crescimento, nem a expansão industrial e a criação do mercado interno. O Brasil deixou de abrir estradas com centenas de homens de enxada na mão: há no número da Manchete sobre a inauguração de Brasília uma foto que vale como documento de uma época que acabava para se iniciar outra. Critica-se ainda JK porque o seu governo criou as grandes empreiteiras. Como, porém, abrir estradas, tocar grandes obras sem grandes empresas?

ABI Online — E o senhor nunca deixou o JB?
Wilson — Em 60, Assis Chateaubriand queria fazer uma reforma no O Jornal e me convidou. Eu caí no conto da reforma. Mas aprendi que, sem dispor dos meios, é um engano tentar mudança drástica com expectativa. É natural a resistência por parte de quem se sente ameaçado. No fim de um ano eu vi que os Associados não queriam gastar dinheiro, mas ter um milagre. Passei pelo Diário Carioca, do Arnon de Mello, mas já a caminho do JB. A|berto Dines, deixando o Diário da Noite, que fez sucesso como tablóide, me convidou para ir com ele para o JB.

ABI Online — Como foi o retorno?
Wilson — Ia começar a fase de estruturação paciente, sob novas injunções, mas com as dificuldades equacionadas. A crise política plantada por Jânio Quadros florescia. O País vivia uma expectativa de grande incerteza. João Goulart foi um problema político não resolvido quando vice de JK. A resistência militar continuava em carne viva. O pomo da discórdia era o parlamentarismo que Jango aceitou, mas não digeriu.

ABI Online — E como foi mesmo a história da renúncia de Jânio antecipada em sua coluna política na revista Mundo Ilustrado?
Wilson — Quando da minha passagem pelo Diário Carioca, o Joel Silveira nos convidou — a mim e ao Walter Fontoura — para mantermos duas páginas de assuntos políticos semanais no Mundo Ilustrado. Jânio Quadros, entre outros costumes, fazia uma reunião mensal, de três dias, com ministros e secretários de governos estaduais. Era uma iniciativa bem sucedida com os governadores dos Estados para tratar de problemas que dissessem respeito ao governo federal. A última foi no Maranhão. Castelinho e José Aparecido, aproveitando a oportunidade, vieram ao Rio e reuniram, num almoço em casa do primeiro, os jornalistas políticos para a costumeira troca de informações. Fui sem acreditar que sairia com algo de aproveitável na crônica do Mundo Ilustrado. Naquela conversa, Aparecido deu ciência de várias questões das quais pouco se sabia. Por exemplo, os bastidores do estremecimento entre Jango e Jânio, a propósito da derrubada do veto presidencial à admissão dos 10 mil empregados da Novacap como funcionários públicos. O Congresso aprovou a iniciativa de JK e derrubou o veto de Jânio, que estrilou. O pessoal do Rio quis saber como Jânio desfez o constrangimento em relação a Jango.Veio a explicação: o Presidente chamou formalmente o Vice e o convidou para chefiar a delegação do governo brasileiro à China. Era a paz. No curso da conversa, Jânio foi mais ele com a advertência: “Dr. João Goulart, não tem sentido a nossa divergência. O senhor é meu Vice. Acha que a burguesia vai me depor para colocá-lo no meu lugar? Pode estar certo de que, se a minha cabeça for pendurada num poste, a sua vai balançar no poste ao lado”. O papo ainda rolou. Alguém lembrou de que Jânio havia ameaçado renunciar quando seu veto caiu. Outro deu ciência de uma operação que envolveu figuras políticas nacionais para dissuadir o presidente da disposição. Um dos presentes deixou no ar a questão: já imaginaram o que ocasionaria a renúncia do Presidente? A multidão na rua era uma incógnita. Mais tarde o Walter Fontoura, com as informações e opiniões que havia recolhido entre políticos, me cobrou o artigo de abertura da coluna. Não pestanejei. Contei a história que era inédita. Escrevi e o Mundo Ilustrado publicou, acho que dez dias antes da renúncia, com o título “Renúncia, a arma secreta de Jânio”. Contei que, sob pressão, Jânio apelaria para a renúncia. Era o sinal para mobilizar a opinião pública e confirmar seus poderes com respaldo do povão. A coluna foi publicada no dia 12 de agosto e ele renunciou no dia 25. Estremeci no pedestal. Um deputado da UDN — com a revista na mão — propunha uma CPI. Mas deu em nada. A crise tinha pressa contra Jânio, em razão da história pregressa de renúncias. Tentara mais de uma vez como candidato.

ABI Online — O senhor criou o Informe JB?
Wilson — Alberto Dines quis que eu assumisse uma coluna no primeiro caderno. Trataria também de política, com mais liberdade do que a reportagem especializada. Passaria a fazer parte também do grupo de editorialistas. O contato diário com os diretores do jornal ajudaria a temperar o tom político da coluna, que se chamou Segunda Seção e depois passou a Informe JB. Eu montei uma rede de informantes que me abasteciam de material precioso para esse tipo de coluna. Na manhã do dia em que saiu a primeira coluna fui acordado cedo por um telefonema do Hélio Fernandes, que saudou um novo colega e me desejou boa sorte com efusão. O gesto me comoveu.

ABI Online— Foi no JB que nasceu o lead?
Wilson — Não. O lead é norte-americano de nascimento, mas veio para ficar. Passou por variações que fazem parte do jeitinho brasileiro. A imprensa no Rio (e no Brasil) aprendeu a valer-se do lead graças à iniciativa do Diário Carioca. Foi o Pompeu de Souza que, na volta de uma viagem aos Estados Unidos, trouxe a novidade na mala. Os jornais daquela época impressionavam mal. O parque gráfico, ainda nos moldes do século XIX, estava anacrônico. E as notícias não ordenavam as informações por ordem de importância.

ABI Online — O senhor tem um pezinho na literatura?
Wilson — Eu queria ser escritor. Cheguei a fazer poesia. Mas a minha estréia em livro rapidamente se converteu num recuo. Antes que me arrependesse, sai recolhendo os exemplares disponíveis. Até hoje, sempre que posso, apago impressões digitais deixadas na literatura. Nas letras, sou um leitor. No JB, aceitamos o desafio de um editor para fazer coletivamente a proeza de aprontar, em um mês, um livro em cima dos acontecimentos de 31 de março de 64. Acho “Os Idos de março e a queda em abril”, até hoje, uma iniciativa jornalístico que merecia estar em atividade permanente. O livro contou com textos de Antonio Callado, Araújo Netto, Alberto Dines, Pedro Gomes, Carlos Castello Branco, Cláudio Mello e Souza. Eu também contribuí. Fez sucesso porque levantamos todos os aspectos relativos à crise final do governo Goulart. Com um mês de governo militar, o livro estava na rua e vendeu muito.

ABI Online — Que comparação o senhor faz do jornalismo de hoje com o praticado, por exemplo, há 50 anos?
Wilson — O jornalismo é visto com outros olhos. Está diversificado. O jornalismo da televisão é completamente diferente, mas a questão se passa ainda em termos equivocados. Não afetou apenas o público leitor de jornais. Nem os ouvintes que são atendidos pelo rádio. Mais do que o jornalismo, os jornais vão ter que se reinventar. Mas não com o toque de amadorismo que transparece na proposta de abrir o exercício da profissão a quem quiser. O jornalismo de compromisso profissional pede mais do que saber escrever e alinhar frases. Ninguém pode ser jornalista hebdomadário ou duas vezes por semana. Pode ser articulista, mas jornalismo é um pouco mais. A televisão e o rádio não têm fôlego para comentários em cima de raciocínio encadeado. O assunto não cabe numa resposta de entrevista. Acho que o jornalismo tem menos injunções e se tornou indispensável às democracias. As injunções do mercado publicitário não são as de antigamente, mas aumentou também a margem de independência no espaço editorial e, mesmo no departamento comercial dos jornais, há reconhecimento do problema.O que mudou foi a ilusão de que o mercado pressupõe, como a democracia, liberdade de informação. Nos anos 50, os grandes jornais ainda mantinham “lista negra”, com nomes de políticos ou empresários que não podiam ser publicados. No Correio da Manhã, era proibido o nome do Lima Barreto, para citar apenas um. Tudo por causa das “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”, que era a história de um jornal que caricaturava o Correio da Manhã e o jornalismo da época. Nascem e morrem os jornais, mas até hoje os defeitos humanos e os privilégios sobrevivem. O livro foi escrito no começo do século passado, mas mantém atualidade.

ABI Online — Hoje se faz um jornalismo com mais independência?
Wilson — O jornalismo ganhou mais liberdade, mais responsabilidade e mais respeitabilidade do que tinha no passado. Mas perdeu também coragem e convicção. Está perdendo o encanto do tempo da vida boêmia. Jornalistas eram agraciados com carteirinha para entrar em casas de espetáculos sem pagar. O JB ajudou a erradicar esse costume ao bancar as despesas dos seus repórteres e redatores. Não sei se os privilégios estão de volta. Até passagem de avião custava a metade para jornalistas, em serviço ou a passeio. Jornalista que paga se faz respeitar.

ABI Online — O senhor coleciona os artigos que escreveu?
Wilson — Pratico o princípio de não olhar pra trás. Meu orgulho é ter participado de todas as eleições diretas desde que foram restabelecidas com a queda do Estado Novo, exceto quando foram suspensas pelos governos militares. Guardo meu primeiro título de eleitor, tirado em 1945. Nunca deixei de votar, porque voto não se joga fora. Voto até em eleição de síndico. O voto é instrumento da cidadania, e não arma.