WirelessBRASIL - Bloco RESISTÊNCIA

Abril 2013             


14/04/13

• Revolução de 1964 - Os primeiros dias de Abril (14) - Seleção de notícias do dia 14 Abr 1964 + Leituras complementares

Matérias transcritas nesta página:

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil
[14/04/64]  Esperança - Editorial JB  (Pág. 06)

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil
[14/04/64]  Imagem deturpada - Editorial JB  (Pág. 06)

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil
[14/04/64]  Exceção e Privilégio - Editorial JB  (Pág. 06)

Fonte: Acervo do Estadão
[14/04/64]  O art. 3º do Ato Institucional e o espírito da Revolução - Editorial Estadão

Leitura complementar:

Fonte: Grupo Inconfidência - Edição Histórica
Origem: (Publicado no Estado de Minas e no Correio Braziliense em 30 de março de 2004)
[30/03/04]  O contra-golpe de 1964 - por Jarbas Passarinho

Referências sem transcrição:

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil e da Folha de São Paulo
[11/04/64]  Manchetes
Jornal do Brasil
- Deficit vai a um trilhão e meio, diz Ranieri Mazzilli
- Castelo Branco vai formar ministério eclético
- Câmara desobstrui-se para votar novas leis
- Coexistência entre Comando Revolucionário e Congresso será difícil, diz Herbert Levi
- Chefes políticos confiam na restauração do Poder Civil

Folha de São Paulo
- Combate à inflação para consolidar a democracia
- Inquérito policial-militar devassará governo de JG
- "Livremente e sem pressões" - Editorial
- Refederalização - Editorial
- Cidades da Paraíba realizam a "Marcha"
- Adaptação do Regimento da Câmara ao Ato: Urgência
- Posse de Castelo Branco nada terá de revolucionária
- Castelo Branco passa o EME a Maurell Filho
- Direitos dos trabalhadores continuam em pleno vigor

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Transcrições

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil
[14/04/64]  Esperança - Editorial JB  (Pág. 06)

O General Castelo Branco investe-se amanhã na Presidência da República com a sua autoridade duplamente reforçado: aos poderes excepcionais conferidos pela Revolução vitoriosa, e formalizados no Ato Institucional, se acrescenta a legitimação do Congresso, através de uma votação maciça. Estará ultimada, assim, a fase da crise revolucionária, com todas as suas vicissitudes e incertezas, para que se inicie a fase eminentemente construtiva de governo. Um Governo não só instaurado sobre os ideais da Revolução, mas em perfeitas condições de realizá-los.

 Erro mais clamoroso do que a falência do regime deposto seria o do malbaratar-se a oportunidade rara que as circunstâncias revolucionárias oferecem ao novo dispositivo de poder, para uma obra séria de reconstrução brasileira. De um lado, o Executivo, acrescido de autoridade e de prerrogativas, tem o terreno limpo para empreender seu programa de saneamento moral e administrativo e de reformas racionais. E por outra parte, seja do próprio Congresso Nacional limitado nas suas atribuições ou da opinião pública na sua esperança sem limites, o Governo Castelo Branco conta com os mais vivos estímulos de colaboração. Em todos os setores do atividade nacional a vontade de recuperar o tempo perdido e de retomar a meada do desenvolvimento é uma presença que não consegue conter-se. É o açodamento do esforço construtivo, liberto das amarras do imobilismo e da frustração, que alguns querem confundir com o espírito do adesismo político. A adesão que entretanto acorda, neste momento, as energias do País, tem como alvo uma situação que significa oportunidade de soerguimento, de recuperação nacional.

O reformismo do Governo Goulart era apenas, como ficou provado, um instrumento de agitação política, para outros fins de poder. Daí as resistências e suspeitas invencíveis que levantou no seu caminho. Mas agora todos os obstáculos foram afastados. O Ato Institucional simplifica ao máximo a tramitação legislativa dos projetos prioritários do Executivo. O Congresso transforma-se em máquina quase que exclusiva de trabalho, funcionando em ritmo de urgência. O que antes se traduzia em termos de conflito aberto, de uma hostilidade que paralisava a tarefa legislativa e a administração pública, hoje constitui sistema ágil de entrosamento. A preeminência do Executivo da Revolução sobre o Congresso que a legitimou não retira a este a participação importante e as responsabilidades na obra de governo. A verdade é que ficaram mais próximos.

Executivo e Legislativo podem criar em 20 meses uma nova imagem da realidade brasileira, interna e externamente. Já não se dirá que a um e outro faltam instrumentos de ação e também é certo que se entenderão na faixa do respeito mútuo democrático. O Presidente Castelo Branco,compondo agora o seu Ministério, sabe que não está partindo para a aventura o para a mistificação. O Pais lhe oferece energias e esperanças.


Fonte: Acervo do Jornal do Brasil
[14/04/64] Imagem deturpada - Editorial JB  (Pág. 06)

Não podem ser desligados os dois temas: a política externa do movimento revolucionário de 1 de abril e a imagem que dele fazem co comentários e correspondências da imprensa internacional.

Pois a política externa refletirá melhor do que qualquer outra consideração o caráter político autêntico da revolução tão mal compreendida e desfigurada em certos círculos apressados.

O caráter político da revolução se refletiu perfeitamente na declaração feita pelo Ministro das Relações Exteriores, Embaixador Vasco Leitão da Cunha, na qual se constata a continuidade de nossa política ainda que sob ênfases distintas. Não há diferença substantiva. Apenas adjetiva. Portanto, quem quiser colher impressão exata do significado permanente e real da revolução basta lixar-se nesse fato bastante expressivo: a continuidade com ênfases distintas.

Não se justificaria interpretar o sentido da revolução com base em certas reivindicações de rompimento com países de ideologia comunista dentro ou fora do Hemisfério. O problema do rompimento é substantivo e só poderia e deveria ser tratado após a instalação do novo Governo, qual foi deferido dar seguimento à execução dos ideais e fins da Revolução de abril. Só o novo Governo, em condições de maior serenidade, e melhor sedimentação de circunstâncias e provas de vinculação do Governo anterior com a revolução internacional, estaria apto para

isenção e sem perda de vista dos interesses a longo prazo do Brasil.

Entrementes a imagem verdadeira da Revolução melhor se reflete ata afirmação de que o Brasil continuará a manter relações com todos os países do mundo, naturalmente mais íntimas e aprofundadas com os países ocidentais e americanos.

A severidade do julgamento feito no exterior, por meios liberais, pode ser explicado pela impressão generalizada nesses meios de que o Brasil, corno a América Latina em geral, move-se pendularmente entre ditaduras e revoluções, existindo a democracia representativa como expressão fictícia de ideais irrealizáveis.

Ora, o que aconteceu no Brasil tem dimensão bem maior do que o exame feito ou a critica proferida segundo pensamento padronizado ou mal informado. A imagem do Brasil depois do movimento de 1 de abril não se confunde com outras imagens estereotipadas de revoluções militares que também ocorrem em outros continentes.

O movimento revolucionário foi na verdade uma revolução preventiva, que impediu a criação de outra imagem desagradável aos liberais: a de um Brasil feito à imagem comunista, mudando o equilíbrio de poder no mundo e pondo em risco a paz internacional.

Os brasileiros que fizeram a revolução de abril não subestimam o Brasil em sua projeção internacional. Com sua ação preventiva evitaram dores de cabeça aos liberais do mundo desenvolvido.

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Fonte: Acervo do Jornal do Brasil
[14/04/64]   Exceção e Privilégio - Editorial JB  (Pág. 06)

O Ministro do Trabalho, Senhor Arnaldo Sussekind, obteve do Comando Militar uma interpretação do Ato Institucional pela qual os seus dispositivos, de força constitucional, não se aplicam à legislação trabalhista. Com essa interpretação, o Senhor Sussekind ganhou em popularidade em certas áreas trabalhistas e a Revolução perdeu em coerência.

Todas as conquistas das classes trabalhadoras devem ser mantidos e aprimoradas. Mas quando se abrem exceções para as garantias dos Poderes Legislativo e Judiciário, dos funcionários civis e militares, não há por que manter privilégios descabidos que o Governo deposto concedeu a minorias sindicalizadas que se apóiam na trincheira intransponível da estabilidade profissional. A ditadura que portuários, ferroviários e outras categorias sindicais de Empresas estatais, infligiram ao Pais, deveria ser encarada com determinação, sem prejuízo dos direitos adquiridos e englobados na Legislação do Trabalho.

O novo Governo precisa evitar todo e qualquer sintoma de paternalismo em relação aos sindicatos. No momento, os sindicatos estão tendo um tratamento de exceção. Ela meio a um expurgo extenso, continuam à margem, quando do seu funcionamento livre roas democrático depende a própria segurança nacional - nos portos, nas ferrovias, nas fábricas. Uma audaciosa minoria de aproveitadores do sindicalismo foi montada pelo comunismo e o janguismo no seio do movimento. Se não for desmontada, a Revolução de 30 de março terá deixado, num processo necessário mas intransigente, uma lacuna de paternalismo.

Em todas as verdadeiras democracias existe um movimento sindical incomparavelmente mais vigoroso do que o brasileiro — mas livre, independente do Estado. Quando, no exercício do legítimo poder sindical, os trabalhadores lutam pela melhoria de suas condições de vida, agem freqüentemente contra o Estado. Na Grã-Bretanha ,o Partido Trabalhista é uma expressão do movimento sindical, mas jamais se confunde com o Executivo quando está no Poder o Partido Trabalhista.
O que aconteceu no Brasil, depois dos promissores início do sindicalismo no século passado, foi a corrupção dos sindicatos pelo Governo, por intermédio do Ministério do Trabalho. Que essa corrupção, apesar do sua longa história não conseguiu fazer apodrecer ainda o cerne do movimento sindical, prova o deposição do Presidente João Goulart. Se assim não fosse, o Pais teria explodido em greves quando se desfechou o revolução anti-janguista.

Isto significa que o movimento sindical brasileiro merece tudo aquilo que o novo Governo lhe possa dar para que se transforme numa genuína força do trabalhismo. Merece a regulamentação do direito de greve, merece, plena liberdade de reivindicar  o que legitimamente lhe cabe, merece a dignidade do trabalhismo dos países civilizados. Uma classe operária altiva e próspero é um elemento de coesão nacional e uma garantia do constante ampliação do mercado interno. Um operariado pobre e submisso é uma ameaça constante à democracia.

Por tudo isso é importante que o movimento trabalhista não fique margem do Ato Institucional. Deve pagar o tributo que estão pagando os demais setores da vida nacional, Deve sofrer o expurgo que faz a triagem nos outros grupos. Depois, sim, devo ler a independência que lhe foi negada até agora. Sem extirpação do comumo-peleguismo jamais teremos o sindicalismo que será uma das grandes forças propulsoras da vida nacional.

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Fonte: Acervo do Estadão
[14/04/64]   O art. 3º do Ato Institucional e o espírito da Revolução - Editorial Estadão

Está surgindo, por parte de jornalistas e outros elementos que procurara Influir no curso doa acontecimentos atuais, a tendência para estabelecer atua diferença entre o papel desempenhado no movimento da 31 de março, pelos militares, de um lado, e pelos civis, de outro. Somos os primeiros a reconhecer os imensos, os inmensuráveis serviços prestados palas Forças Armadas, à causa da revolução. Desde o primeiro instante em que nela se cogitou, estivemos intimamente ligados aos seus líderes. Consideramo-nos, por isso mesmo, em condições de dizer qual foi, realmente, a parte decisiva que a elas coube no bom êxito do levante nacional.

Mas se jamais nos cansaremos de proclamar os sentimentos elevados que levaram a oficialidade brasileira a sair à rua, fazemos questão de acentuar que o que faz desse ato um gesto digno dos nosso foros de civilização e de cultura é o fato de ele se ter verificado após o virtual estado da rebeldia em que pelo menos oitenta por cento da população do Pais se colocara contra o governo deposto. A revolução foi obra da coletividade brasileira na sua totalidade, e o que a torna um dos momentos mais altos da nossa Historia é exatamente o ela ter sido uma determinação imperativa da consciência nacional.

Impõe-se-nos fazer estas considerações para que se não pretenda desvirtuar aquilo que os acontecimentos dos últimos dias têm de mais belo e se compreenda a intenção que nos move ao criticarmos certos atos praticados pelos que as circunstancial, guindaram às responsabilidades de membros do comando da Revolução. Somos os primeiros a reconhecer a necessidade que estes tenham de agir com rapidez e energia. Mas faltaríamos ao nosso dever precípuo, neste instante, se lhes não apontássemos as falhas que descortinamos nas medidas que vê tomando.

Não por por outro motivo, aliás,, que, analisando o Ato institucional, ao mesmo tempo que o aplaudimos, manifestamos a nossa divergência a nossa divergência em relação ao seu artigo 3.o. aquele em que os seus idealizadores conferiram ao presidente da República autoridade bastante para tomar a iniciativa de propor emendas à Constituição. A inserção dessa prerrogativa no texto do Ato Institucional parece-nos profundamente Infeliz, pois indo frontalmente contra o espírito e a tradição do Direito Constitucional brasileiro, coloca esse instrumento em choque com a Constituição de 1946. Conservar aquela prerrogativa Institucional, tal como figura no texto do documento, é oferecer a quantos se viram atingidos pelo movimento vitorioso o argumento de que ele precisam para provar à opinião pública brasileira e aos que, para além  de nossas  fronteiras, não acolheram com simpatia a queda do sr. João Goulart, que o que ocorreu no Pais não foi do que a substituição de uma democracia que se pretendia "popular", por uma ditadura indiscutivelmente fascista. E isso seria um erro que a Historia jamais nos perdoaria.

Com efeito, o art. 1.o do Ato Institucional do 9 corrente dispõe, textualmente, o seguinte:
"0 presidente da República poderá remeter ao Congresso Nacional projetos de emenda da Constituição.
"Paragrafo único - O projetos de emenda constitucional, enviados pelo presidente da Republica, serão apreciados em reunião do Congresso Nacional, dentro de trinta (30) dias, a contar do seu recebimento, em duas sessões, com o intervalo mínimo do dez dias, e serão considerados aprovados quando obtiverem, em ambas as votações, a maioria absoluta dos membros das duas Casas do Congresso".

Esse dispositivo, conto já dissemos. altera profundamente o nosso sistema Institucional, quer ao conferir ao presidente da Republica e, pois. ao chefe do Executivo, a faculdade ("iniciativa") de propor emendas à Constituirão, quer ao estabelecer um processo, perigosamente simplificado, da sua aprovação pelo Congresso.

A Constituição de 1946, em seu art. 67, declara que "a iniciativa de leis, ressalvados os casos de  competência exclusiva, cabe ao presidente da República e a qualquer membro ou comissão da Câmara dos Deputados e do Senado Federal". Compete exclusivamente ao presidente da Republica, acrescenta o parágrafo 2.0 do mesmo artigo 67, a iniciativa  das leis que criem empregos em serviços existentes, aumentem vencimentos ou modifiquem, no decurso de cada legislatura. a lei de fixação das Forças Armadas - competência exclusiva ou privativa na qual o Ato Institucional inclui (art. 5.0) "a iniciativa do congresso, emendas que aumentem a despesa proposta pelo Presidente da República.

Compreende-se perfeitamente o que tinham em vista os redatores do Ato Institucional e os que os assessoraram na redação do mesmo; essa última redação justifica-se por si mesma, já que permite ao próximo governo tomar as providências drásticas que a situação financeira do País imperiosamente reclama. Além do mais, ela demonstra que a primeira preocupação do governo a constituir-se amanhã deve ser a de restaurar as finanças nacionais.

Portanto, se A Constituição, como se vê, confere ao presidente a iniciativa das leis (das leis comuns, entenda-se),não lhe dá, contudo, a faculdade de propor emendas à Constituição, remetendo às Câmaras o respectivo projeto já redigido. E não lhe dá essa faculdade porque ela decorre da representação popular exercida pelo Congresso Nacional ou, em certos casos e para este fim, pelas Assembléias Legislativas dos Estados.

No sistem presidencialista puro como o adotado pelos Estados Unidos, o presidente da República não possui, sequer, o direito da iniciativa de leis comuns, embora, em suas mensagens, possa sugerir a conveniência ou a necessidade de determinadas medidas legislativas.

Mas em sistema democrático algum, puro ou híbrido, se chega ao ponto de outorgar ao chefe do Executivo essa faculdade. Atribuição dessa natureza figura, por exemplo, na atual Constituição francesa (art. 89) que não é, na realidade, uma Constituição democrática, mas antes, segundo expressão de constitucionalistas franceses, uma Constituição orleanista (nós diríamos de tendências francamente fascistas).

Ora, seria profundamente  lamentava! que a revolução de 31 de Março, por essa falha incontestável do Ato Institucional, viesse justificar a inclusão das suas leis na categoria ldquelas que caracterizam os governos totalitários da "direita". Somos uma Nação intransigentemente liberal democrática, e foi por isso que, como Nação, decididamente nos levantamos contra os que a toda força nos pretendiam arrastar para a órbita da, ditaduras de "esquerda"  E é o que nos leva a aconselhar os que neste momento enfeixam em sua mãos o poder revolucionaria a modificarem, na sua essência e no seu texto, o art. 3.0 do Ato Institucional.

A democracia que, por sua essência  deve ser representativa, não admite revisão, nem mesmo a simples emenda da Constituição, por iniciativa do presidente  da República, . do chefe do Poder Executivo. Entretanto, o Ato Institucional vai mais longe, obrigando o congresso a votar a emenda proposta pelo presidente da República, dentro do prazo de trinta dias, um duas sessões das Câmaras reunidas, considerando-a aprovada pelo voto da maioria absoluta dos membros da Câmara e do Senado, isto é, por maioria de metade mais um dos componentes das duas Câmaras que formam o Congresso Nacional. Ora, a Constituição de 1946,prescreve, em seu art. 217, o seguinte: "A Constituição poderá ser emendada.
1.0 - Considerar-se-á proposta a emenda, se for apresentada pela quarta parte, no mínimo, doa membros da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, ou por mais da metade das assembléias legislativas dos Estados, no decurso de dois anos,  manifestando-se cada uma delas peia maioria dos seus membros.
2.0 - Dar-se-á por aceita a emenda que for aprovada em duas discussões pela maioria absoluta da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, em duas sessões legislativas, ordinárias e consecutivas".
(Em duas sessões legislativas, note-se, e não em duas reuniões). 3.0 - Se a emenda obtiver numa das Câmaras, em duas discussões, o voto de dois terços dos seus membros, será logo submetida à outra; e sendo nesta aprovada pelo mesmo trâmite e por igual maioria, dar-se-á por aceita".

Na mesma sessão legislativa, só pelo voto, não da maioria absoluta (metade mais um) e sim pelo voto de dois terços dos deputados e dois terços dos senadores, é que a emenda pode ser aprovada.

E não se diga que se trata de filigranas jurídicas ou de impedir que a Revolução atinja seus objetivos. Somos, pela parte que tivemos na sua preparação e no seu desencadeamento, dos que tem direito de opinar.

E se o fazemos nestes termos em relação ao art. 3.0 do Ato Institucional, é porque não nos sentimos, de modo nenhum, desmobilizados, e continuamos como no prosseguimento destes comentários amanhã procuraremos demonstrar, a defender intransigentemente as ideias que animam a Revolução e fazem dela uma conquista inalienável do povo brasileiro.

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Leitura complementar:

Fonte: Grupo Inconfidência - Edição Histórica
Origem: (Publicado no Estado de Minas e no Correio Braziliense em 30 de março de 2004)
[30/03/04]   O contra-golpe de 1964 - por Jarbas Passarinho

Jarbas Passarinho é Coronel Reformado - Foi ministro de Estado, governador e senador pelo Pará.

O lúcido escritor mineiro João Camillo de Oliveira Torres escreveu que, no Brasil, os golpes de Estado são condenados pelos prejudicados e saudados pelos favorecidos. Justo seria se fossem sempre condenados, se a hipocrisia não fosse uma componente de quem não se importa com a democracia ferida mas com a perda de suas vantagens.

No Brasil, em 1937, o presidente Getúlio Vargas serviu-se do Plano Cohen, uma fraude simuladora de iminente ameaça comunista. Deu o autogolpe, apoiado nas Forças Armadas ainda marcadas pela revolta de 1935, liderada por Carlos Prestes, a mando de Moscou. Os simpáticos ao fascismo aplaudiram; os outros resignaram-se até outubro de 1945, quando um golpe das Forças Armadas depôs o ditador.

Quase 30 anos depois, modelo de 1937 parece ter inspirado João Goulart. Agora, a esquerda é que seria o vetor revolucionário. Prestes, secretário-geral do Partido Comunista, mantinha íntima ligação com o presidente. Di-lo o livro que ditou para os jornalistas Dênis de Moraes e Francisco Viana. Destacou um militante importante para representar o partido nas articulações com Jango, o que não excluía sua ligação, a ponto de, no Comitê Central do PCB, Marighella o chamar de janguista.

Obsessivo anotador nas famosas cadernetas manuscritas, depois apresadas, numa refere-se claramente ao golpe: A luta se manifesta nas Forças Armadas através de conchavos. Vamos concentrar o fogo no inimigo principal e vamos marchar com todos, Goulart, Osvino, etc. no golpe . Difícil é saber se o golpe de Prestes era autônomo, ou, sempre com Jango, na estratégia do etapismo, ou seja, da aliança com a burguesia progressista na figura de Jango, para a conquista do socialismo por via pacífica.

Leonel Brizola, esse tinha a virtude de pregar o golpe abertamente, clamando pelo fechamento do Congresso. Cunhado, embora, do presidente. Tinha luz própria na práxis do golpe, tanto que fundou os grupos dos onze, de aparência paramilitar. Certamente não se destinavam a estudar a Bíblia, mas ser o embrião do Exército Popular de Libertação. Vigiavam Jango. Assim é que, perto de 31 de março de 1964, analisando a conjuntura, concluíram: O golpe não vem da direita, mas de Jango.

A Guerra Fria estava no auge, União Soviética e Estados Unidos atentos ao Brasil. O embaixador soviético Fomim teve a mesma conclusão. Seus telegramas secretos para Moscou, conhecidos após o colapso da URSS, atribuíam a Jango o golpe.

O embaixador americano Gordon impressionara-se com a inconfidência que lhe fez Samuel Wainer. Íntimo de Jango, dele ouvira dizer-lhe sob grande emoção que poderia manter a rotina de cortar fitas em inaugurações e fazer discursos nos feriados nacionais, ou renunciar como fizera Jânio, ou poderia dar o salto! Ainda assim, foi cauteloso
ao sintetizar para Washington, nos últimos dias de março, sua avaliação. Telegrafou informando a probabilidade de haver um golpe dado por Goulart, um golpe contra Goulart ou o início de uma longa luta armada. A preparação legitimada do autogolpe, tentou-a Jango, ao propor o Estado de Sítio, mas malogrou a manobra porque revela Prestes não contou com os comunistas, receosos de que, depois de aniquilado o governador Carlos Lacerda, fossem eles os próximos.

O autogolpe de 1937 contou com respaldo total dos militares. Falto disso, Jango buscou o apoio dos subalternos das Forças Armadas. Tenho, para mim, que o autogolpe não teria êxito se baseado somente nas greves políticas da ilegal CGT, ou no discurso carbonário de Brizola para fechar o Congresso, nem mesmo com o
apoio de Prestes. Era preciso sublevar os subalternos das Forças Armadas.

Dois exemplos falam por si sós. Em setembro de 1963, sargentos da Aeronáutica e da Marinha revoltaram-se em Brasília. Dominaram o ministério da Marinha, o quartel dos Fuzileiros Navais e perderam um marinheiro, morto no ataque ao Ministério da Aeronáutica. Foram vencidos e presos. Mas o motim ficaria impune. As gotas dágua vieram sucessivas.

O motim dos marinheiros, no Rio, no dia 25 de março de 1964, desafiou o ministro da Marinha, que mandou prendê-los pelos fuzileiros que não só se recusaram a cumprir como confraternizaram com os amotinados. O presidente preferiu exonerar o ministro da Marinha e nomear outro, dos três indicados pelos rebelados. Finalmente, o presidente, em 30 de março, aceita receber homenagem dos sargentos no Rio de Janeiro. Dois discursos são ovacionados: o do marinheiro Anselmo e o do presidente Jango, na mais radical fala de sua vida pública, ao acenar com as represálias do povo. Que precisava mais, para o golpe vindo de cima?

O general Castello Branco, chefe do Estado Maior do Exército, tentou ainda, em 20 de março, advertir o governo sobre os rumos que tomava. Distribuiu uma circular destinada aos seus subordinados.
Ainda era o legalista de sempre, mas advertia: A insurreição é um recurso legítimo de um povo. Está ele pedindo ditadura militar ou civil e Constituinte? Parece que ainda não.
Até 20 de março, pois, éramos antigolpistas. Depois do motim dos marinheiros e do discurso incendiário no Automóvel Clube, as Forças Armadas foram atingidas no âmago de seus pilares: a disciplina e a hierarquia. Nada mais havia a aguardar, senão o golpe preventivo ou contragolpe.

Tudo o que está aqui citado é indesmentível, exceto por quem, como canta Camões, negue também ao sol a claridade e certifique-se mais que o fogo é frio.
Pois esses negativistas abundam. Mentem deslavadamente. Um que a despeito de religioso católico, que não deveria mentir, disse que a CIA foi a mentora dos oficiais do contragolpe e que Lincoln Gordon isso admitiu. Grossa patranha. Mentem os que negam o apoio maciço da sociedade civil ao contragolpe que matou o golpe. Cínicos são os que dizem ter lutado contra uma ditadura quando defendiam ardorosamente a ditadura de Fidel Castro e Stálin.
Tartufos, os que simulam ter lutado por direitos humanos ofendidos ao mesmo tempo em que os aplaudia violados em Cuba. Não foi à toa que Voltaire disse, diante de farsas dessa natureza: Assim se escreve a História.