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WirelessBrasil  -->  Bloco Resistência  -->  Revolução de 1964 - Os 31 dias de Março e os primeiros dias de Abril  - 02 Abril 1964 

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• Seleção de notícias do dia 02 Abr 1964 + Leituras complementares

Referências, sem transcrição:

Manchetes:

Leia na Fonte: Acervo da Folha de São Paulo
- I II e IV Exércitos unidos; Jurema preso
- Arrais e Badger depostos
- JG no RGS diz à nação que resistirá

Leia na Fonte: Acervo do Jornal do Brasil
Primeira página:
- Goulart resiste no sul e Congresso empossa Mazzilli
- Confiança e susto
- Prisão de Jurema e Arrais
Páginas internas:
- Lacerda viveu sua maior emoção quando tanques foram dar-lhe cobertura
- "Marcha é hoje mesmo"
- Exército ocupa a Nacional que sofreu vários danos e tira a Mayrink Veiga do ar
- Grupos exaltados atacam jornal "Última Hora" aos gritos de "Viva Lacerda"
- Goulart partiu num Avro
- Niterói comemorou fim da crise com lenços brancos e muitas vivas a Lacerda
- Comando da VI Região (Salvador) adere
- Brizola nega renúncia de Goulart e prega ocupação de quartéis por sargentos (...)

Matérias transcritas nesta página:

Fonte: Acervo da Folha de São Paulo - Destaque na primeira página
[02/04/64]  
Congresso declara vaga a Presidência: Mazzilli assume

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil
[02/03/64]  "Presente - Passado - Futuro" - Editorial

Fonte: Acervo da Folha de São Paulo
[02/04/64]  Em defesa da lei - Editorial

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil
[02/03/64]  Goulart resiste no sul e Congresso empossa Mazzilli

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil
[02/03/64]  Euforia do povo

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil
[02/03/64]  Cronologia da Revolução

Fonte: Acervo do Jornal do Brasil
[02/04/64] 
4 meses de "complot" e 55 horas de ação

Leituras complementares:

Fonte: Memória viva - Origem: O Cruzeiro - 10 de abril de 1964 - Edição extra
Magalhães, o herói da Revolução - Reportagem de Oswaldo Amorim, Luiz Alfredo e José Nicolau

Fonte: Memória viva - Origem: O Cruzeiro - 10 de abril de 1964 - Edição extra
Minas hora a hora - Reportagem de Fernando Richard e José Nicolau

Fonte: História Livre
A imprensa jornalística porto-alegrense e os últimos dias do governo João Goulart  (conclusão)

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Fonte: Acervo da Folha de São Paulo - Destaque na primeira página
[02/04/64]  
Congresso declara vaga a Presidência: Mazzilli assume

Às 2h55 de hoje, o sr. Auro Soares de Moura Andrade, presidente do Congresso Nacional, declarou presidente da República o sr. Ranieri Mazzili, até então presidente da Câmara Federal. O novo chefe do Governo, empossado no ato, dirigiu-se imediatamente para o Palácio do Planalto, a fim de assumir as funções.

A sessão do Congresso, destinada a tomar conhecimento da vacância do cargo de presidente, instalou-se às 2h40, sendo então lido um ofício no qual o chefe da Casa Civil comunicava que o sr. João Goulart havia se dirigido para o Rio Grande do Sul e se encontrava à frente de tropas militares, no pleno exercício de seus poderes constitucionais.

O sr. Auro de Moura Andrade declarou que o presidente da República, na hora mais dramática da vida brasileira, abandonava o governo. A seguir, declarou o sr. Ranieri Mazzili presidente da República e levantou a sessão. Em três minutos o Congresso tomou conhecimento do abandono do cargo pelo sr. Goulart e designou seu sucessor.

No Rio, na madrugada de hoje, o general Costa e Silva assumiu o cargo de comandante-chefe do Executivo e tomou imediatamente uma série de medidas para assegurar e "sobretudo eliminar a subversão dirigida no Rio Grande do Sul pelo deputado Brizola"

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Fonte: Acervo do Jornal do Brasil
[02/03/64]   "Presente - Passado - Futuro" - Editorial

PRESENTE

O problema era a permanência inaceitável do Sr. João Goulart no Poder que não soube cumprir, nem honrar. Esse problema foi resolvido pela restauração da legalidade, na sua pureza democrática. Já não há problema, porém, quanto à continuidade da ordem legal, desde que expelido o instrumento de deformação e subversão até ontem nela enquistado. A solução está nos textos constitucionais. Dentro da Constituição e da verdadeira legalidade é que se vai recompor, sem hesitações nem controvérsias, o regime representativo traído, mas afinal vitorioso.

A solução constitucional há de executar-se não apenas com a estrita fidelidade aos princípios estabelecidos, mas ainda com a instantaneidade que as circunstâncias da crise e a sistemática do regime reclamam. Congresso e Forças Armadas terão que partir sem a menor demora para o restabelecimento do status legal do Poder, de maneira que ao Presidente da República que rompeu a legalidade se substitua o Presidente da República da fiel definição institucional. Esta é a meta que completará e consolidará o movimento triunfante pela força das armas aliada à autoridade de uma consciência legalista, que dominou o País. Está na Constituição que a Presidência vacante deverá ser ocupada pelo Presidente da Câmara dos Deputados, o primeiro na ordem da sucessão, cabendo ao Congresso eleger trinta dias depois o novo Chefe do Poder Executivo.

Considera-se o JORNAL DO BRASIL em condições de absoluta autoridade para pregar a estrita solução legal, depois de reiteradamente, e à custa dos maiores riscos, declarar a incompatibilidade do ex-Presidente João Goulart com o regime representativo. Em nenhum momento, por mais longe que houvéssemos caracterizado na ênfase da nossa luta, pretendemos ou sequer insinuamos, uma conseqüência fora da lei para remediar o imenso mal causado aos interesses do Pais e do povo em todo o curso do pesadelo janguista. Esgotamos mesmo as nossas esperanças e as nossas proposições de boa-fé, no sentido de que o Presidente caído pelas próprias mãos na ilegalidade subversiva abandonasse o desvio e se reajustasse aos compromissos da ordem democrática.

Todavia o Sr. João Goulart somente quis ser fiel às suas ambições de poder, modeladoras exclusivas das atitudes que o perderam e tornaram irrecuperável para a democracia com disciplina e liberdade.

Queremos que a hora da vitória seja também uma hora de grandeza. A restauração da legalidade democrática constitui todo o triunfo, por si só. Um tal triunfo não pede tripudios, nem retaliações. Pede, ao contrário, a meditação que é própria da humildade. A arrogância é instrumento dos que constroem a sua fugidia autoridade sobre os destroços da responsabilidade legal ou moral. Os nossos sacrifícios e os nossos riscos estão compensados. Daqui partiremos para a etapa da reconstrução, mas os novos empenhos estarão agora servidos de um ânimo novo: a de nos estarmos dirigindo a uma Nação reposta nas suas dignidades e a um povo livre dos constrangimentos e das ameaças que o prostravam diante dos seus deveres para com o interesse nacional e até com a preservação da liberdade.

Ao Governo que sucederá ao hiato da desordem restará o curto prazo que nos separam das eleições de 1965. Mas a sua tarefa terá alcance extraordinário. Preparar o País para o pleito, juntamente com a pacificação dos espíritos, vai ser a sua grande meta política: estabelecer-se-á assim o caminho democrático das urnas, sem a radicalização terrorista e sem os vetos da odiosa intolerância política e pessoal.

Mas há que pensar em termos de Executivo propriamente dito. O Governo-tampão que o Congresso elegerá tem um programa à sua espera: criar condições de administração pública para o Presidente da República que vai sair das urnas livres e respeitadas de 3 de outubro de 1965. Será necessário partir da estaca zero e praticamente do caos. O legado do ex-Presidente João Goulart é o mais sinistro: divide-se ele entre a estagnação e a ruína. Sob o manto da Constituição e com a Nação tranquila será possível o milagre de transformar essa herança de frustração e de ressentimentos numa obra positiva. Á Nação está convicta do início de uma nova era.

PASSADO

Com ou sem renúncia escrita e expressa, o Sr. João Goulart não é mais Presidente da República.

Bons fados o levem ao destino que lhe está reservado fora ou dentro da Pátria, que de não soube servir com grandeza, tendo-lhe sido dadas todas as oportunidades que só a Democracia Representativa proporciona aos homens elevados ao Poder Constitucional.

Não lhe desejemos mal na hora da amargura e do exame de consciência. Ajudemo-lo nesse exame. Principalmente dirigindo algumas palavras àqueles seus partidários sinceros, que se contam aos milhares por todo o País. Porque o exame de consciência do Governo Goulart é menos um problema pessoal, do cidadão gaúcho e brasileiro, do que de seus partidários, do que da corrente política que ele representou na liderança e na Presidência do PTB.

O janguismo - este, sim - é o objeto do desterro político e do exame que fazemos com isenção humana e sentido histórico.

O janguismo, como o getulismo, ocuparam as !ases até agora vividas pelo trabalhismo de aspirações vagas de justiça social. As denominações indicam logo o significado personalista do trabalhismo brasileiro. Dois nomes simbolizaram uma idéia social. Personalismo e ideologia incipientes. Trabalhismo e paternalismo.

Com o desterro político do janguismo, o trabalhismo tem a sua hora de independência. Está órfão e poderá transformar-se em adulto, livrando-se tanto do paternalismo, como do extremismo, sintoma infantil que facilitou bastante o ingresso da influência comunista nas fileiras do janguismo, a ponto de se aproximar e dominar a própria figura do caudilho.

Da orfandade à maturidade lúcida, vai un longo passo. Mas grande é a experiência sofrida por quem cai do poder prematuro para a dura escola do ostracismo. Essa experiência pode salvar o trabalhismo, despido definitivamente de denominações personalistas.

A dura prova do ostracismo pode salvar o trabalhismo e o PTB para o Brasil democrático. O movimento e o partido nasceram e cresceram no poder. Sob as asas do pessedismo getulista, na condição de oposição social a um político conservador. Foram breves os períodos de oposição política na arena federal. Quase sempre, o PTB dividiu com o PSD as capitanias administrativas do Estado brasileiro. Principalmente as do trabalho e da previdência.

De repente, os fados colocaram o chefe do PTB na Presidência da República. Ascendeu o PTB ao poder total ou quase total, sem quadros, sem preparação, sem unidade e sem programa coerente e orgânico para a época nacional. A experiência prematura converteu-se no fracasso fulminante logo sentido pelo Presidente e pelo País, fracasso que culminou com o desterro do janguismo.

Parece que teria de ser assim. Ao reformista latifundiário e agrário o trabalhismo teria de ser mais instrumento de ação política e posse do Poder, do que sentimento original e sincero de uma liderança nascida nas duras condições da sociedade industrial-urbana. O reformista latifundiário teria de ser o trabalhista oportunista, de intuitos caudilhescos, ávido de poder e inapetente da coisa administrativa, planejada e criadora.

A luta pela Justiça Social tão tônica na política janguista, generosa em seus termos retóricos, logo se revelou egoísta em seus fins políticos reais. Tão egoísta que o Sr. João Goulart exibiu notável aptidão de devorador de lealdades e de servidores, todos eles convertidos em ferramentas de uma política que parecia de compromisso, mas era só de artes e enganos.

Na verdade, o Sr. João Goulart nunca perdeu de vista o seu objetivo central: a ampliação constante do poder usufruído. Beneficiário da consciência legalista do povo brasileiro, que se sobrepôs à desconfiança que sempre despertou como agitador sindical oportunista, sacrificou a idéia da concessão dos poderes constituintes ao novo Congresso, porque ela obstava, no seu entender, a devolução dos poderes presidenciais cassados pelo Ato Adicional. Restaurado Presidente pleno transformou as reformas em alavancas para a conquista de poderes novos e antidemocráticos.

Caiu vitima finalmente de sua insinceridade e de sua política de enganos. Esperamos que com o seu desterro, o desterro do junguismo, se inaugure nova era do trabalhismo brasileiro, na árdua luta oposicionista. A era do trabalhismo apenas. Sem qualquer ismo pessoal ou exótico.

FUTURO

Este País, que acaba de sofrer um rápido mas profundo abalo em toda a sua estrutura, não se pode dar ao luxo de uma convalescença. A extirpação do Sr. João Goulart não extirpou os problemas que ele criou e que chegaram ao ponto de destruir o Brasil democrático. E é para o Brasil democrático que se devem voltar todos os cuidados dos brasileiros. Para isto é importante concentrar nosso trabalho naqueles pontos do organismo nacional que mais sofreram a infecção janguista.

Em primeiro lugar, devemos tratar de restabelecer, em toda a sua importância para a República, o movimento sindical. Jamais será grande o Brasil sem um sindicalismo forte e livre, cioso do bem-estar do operariado, desassombrado nas suas reivindicações, ouvido e respeitado no Pais inteiro. Este é o momento de uma campanha nacional para libertar os sindicatos da tutela governamental, sob a qual ele jamais se afirmará como a força civilizadora que deve ser. E preciso que o Congresso regulamente o direito de greve e que os operários, despertos desse falso sindicalismo de aumentos de salários já desvalorizados, reclamem as condições de vida e de trabalho a que fazem jus. Não queremos sindicatos sistematicamente contra o Governo. Mas sindicatos atrelados ao governo são, por definição, inexistentes.

É necessário, sobretudo, evitar que, como aconteceu na Argentina pós-peronista, o Brasil de agora seja um Brasil anti-sindical. Isto sim, seria o preparo de uma futura guerra civil sangrenta, irremediável. Na Argentina, a luta entre militares e sindicalizados. entre Exército e Confederação Geral de Trabalhadores esfacelou ambos, mergulhou a grande nação amiga num crepúsculo de que só agora emerge. E, sobretudo, transformou um ditador incompetente numa espécie de Presidente no exílio, movimentando de longe suas forças de desagregação. O Brasil que se livra agora de um falso Presidente trabalhista deve ser um Brasil trabalhista. Sem sindicatos altivos, sem direito de greve regulamentado pelo Congresso, sem respeito total às reivindicações apolíticas de um sindicalismo livre - nas cidades e nos campos — jamais este Pais sairá do atraso material e mental que ainda o arrasta para dias como estes que vivemos. O sindicalismo fraco e enjeitado, órfão do Congresso, tutelado por pelegos que o movimentam ao sabor da política de quem detém.o poder do momento não é a força operária e camponesa de um grande Pais. Não devemos querê-lo mais débil e sim muito mais pujante, mais altivo, arrogante mesmo quando patrões ou Governo tratarem suas reivindicações como caprichos de criança.

Temos, em seguida, a inevitabilidade, a urgência das reformas por que bradava o Sr. João Goulart sem a mínima preocupação de como realizá-las. Era demagógica e mentirosa a voz que pedia essas reformas. Elas, no entanto, são inadiáveis. O Congresso, apanhado pelo recente furacão reformista desencadeado pelo Presidente, ficou tolhido em seus movimentos. Havia o estranho dilema de atirar-se o Congresso, com uma velocidade impossível, a reformas que favoreceriam quem queria apenas a reforma das inelegibilidades, ou de, recusar em principio as reformas, que, dentro da Constituição e da ordem, são de uma importância fundamental. Aqui também é indispensável que o Brasil aja com decisão e toda a rapidez possível, para que não se confundam reformas com João Goulart, transformando um falso líder num mito, um agitador num salvador.

Mentindo aos operários, que não libertou antes escravizou aos seus esquemas, mentindo aos camponeses, a quem deu carteiras do Ministério e não tratores, mentindo ao povo inteiro com uma falsa pregação de reformas que tinham por objeto apenas abrir a porteira de todas as reformais constitucionais, o Sr. João Goulart tem agora a esperança de ligar seu nome a um sindicalismo adulto e a um reformismo esclarecido.

A primeira tarefa do Brasil legalista é tornar mais viril o movimento sindical e mais amplas, justas e sinceras as reformas de base.

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Fonte: Acervo da Folha de São Paulo
[02/04/64]   Em defesa da lei - Editorial

Não foi por falta de advertências que a situação nacional chegou ao estado em que hoje se encontra, de profunda crise militar e política, opondo-se ao presidente da República ponderável parcela das Forças Armadas e diversos líderes civis de incontestável autoridade, responsáveis pelos governos de importantes Estados da Federação.

Ninguém por certo desejou tal situação, excluídos certamente os elementos comunistas para os quais a situação do país estará tanto melhor quanto pior em verdade for. Esses elementos, infelizmente, vêm agindo há muito em altos cargos da administração pública federal e, de certa maneira, orientando muitas ações do governo.

O que pessoas de bom senso têm reiteradamente perguntado é isto: se o Partido Comunista se acha fora da lei, se os sentimentos do povo brasileiro repelem o comunismo, se os elementos sabidamente comunistas têm sido sistematicamente batidos nas eleições  em que prevalece o voto secreto e, mais do que isto, se têm obtido esmagadoras vitórias os líderes que se declaram ostensivamente contra os comunistas, por que haveriam estes de dominar o Brasil e dar o tom da política nacional?

Outra pergunta que as mesmas pessoas não raras vezes fizeram é esta: se existem meios constitucionais para resolver a maioria dos grandes problemas nacionais, assim como para realizar as reformas necessárias ao progresso do país, por que se faz desse tema reformista uma simples bandeira de agitação, pregada com violência e com evidente propósito, não poucas vezes, de atirar os vários grupos sociais uns contra os outros?
E por que se passou a denunciar a Constituição, a lei suprema, como fonte de todos os males do país e instrumento de opressão do povo?
E por que passou a atacá-la, exigindo sua reforma, o chefe do Poder Executivo, que jurou cumpri-la, quando essa iniciativa de reforma é prerrogativa de outro Poder?

Não menos respeitáveis são as dúvidas que surgiram em tantas cabeças esclarecidas a respeito da juridicidade dos atos seguidamente praticados pelo presidente da República, quando sob forma de simples decreto baixou determinação
 e normas que só podem viger quando sob forma de lei.
Nessas atividades e em várias outras enxergou-se o propósito de eliminar o Congresso Federal, e de eliminá-lo não apenas pelo desprezo votado à suas atribuições específicas e prerrogativas, mas também pelo incitamento do povo mediante doutrinação sistematizada e perturbadora.

Enquanto ganhava corpo, no governo, a tendência para o abuso do poder e o desrespeito aos outros Poderes da República, submetiam-se as Forças Armadas ao duro vexame de assistir ao apoio que a tais atos era dado por alguns oficiais colocados em postos de direção. Com habilidade foram assim as Forças Armadas aos poucos envolvidas na política, dando-se ao povo a impressão de que elas existem para defesa do presidente, transformado em superpoder, e não, e igualmente, para defender os outros poderes e de um modo geral as instituições.

Nesse clima crescente de absorção de atribuições pelo Executivo, escudado em dispositivos que os outros Poderes não poderiam jamais constituir, a própria federação acabou renegada e o intervencionismo desabusado nos Estados passou a constituir uma quase rotina.

A cada abuso de poder crescia a apreensão natural das pessoas que têm consciência do regime constitucional em que vivemos, e que é o democrático. Essa apreensão manifestou-se na maioria da imprensa brasileira independente.

Este jornal registrou numerosas vezes sua estranheza ante  a cada vez maior ilegalidade em que ia mergulhando o governo federal, apelando ao patriotismo dos responsáveis pela coisa pública, a fim de que reexaminassem as falsas posições  e se dessem ao povo, com sinceridade, os frutos de um regime democrático sadiamente aplicado e vivido em lugar dos engodos de um totalitarismo subversivo.

Clamamos em defesa da Constituição, em defesa do regime democrático, em defesa da independência dos poderes. E nesse clamor, não visamos a ninguém pessoalmente, havendo distribuído nossa críticas tanto ao presidente da República quanto a todos os outros elementos, civis e militares, que integram ou defendem os poderes Poderes da República.

Mas os clamores foram vãos. Não surtiram efeito os apelos à razão e ao patriotismo dos homens a quem se acha confiada a sorte do país.
E a sementeira vermelha se tornou cada dia mais abundante, não demorando a produzir os amargos e venenosos frutos, que a inflação jamais combatida com determinação, tornava ainda mais perigosos.
A estrutura do país começou a abalar-se, ante os olhos atônitos dos homens sérios e trabalhadores, do povo ordeiro e construtor, que se viu humilhado repetidamente pela nova conceituação que a palavra povo se procurava dar. Isto é, a de povo como sinônimo de multidão organizada e condicionada para aplauso sem raciocínio.

Aas sucessivas paralisações do país mediante greves que não nasciam dos trabalhadores mas de uma cúpula política bem engordada em cômodas posições de falsa liderança, falsa porque armada À custa do governo, ensombrearam ainda mais o ambiente nacional.

Finalmente, no lamentável comício do dia 13, na Guanabara, o que se viu e ouviu foi, diante dos chefes militares,  a pregação da revolução e do descumprimento da constituição, ao mesmo tempo que os mais profundo sentimentos do povo eram ridicularizados pelos que mais deviam respeitá-los. E logo a seguir, numa verdadeira fúria de quem precisa realizar em pouco tempo uma obra imensa de destruição, a crise provocada na Marinha e o intolerável atentado à disciplina e à hierarquia militar.

Depois de lentamente tentar corromper o cerne das forças Armadas mediante a conhecida pregação falsamente reformista, surgia o golpe que deveria prenunciar o fim da legalidade democrática: o assalto à  própria organização das Forças Armadas. E estas, em vários pontos do país, chefiadas por alguns de seus chefes de maior respeitabilidade, se levantaram em defesa das instituições ameaçadas.

São claros os termos do manifesto do comandante do II Exército. Não houve rebelião contra a lei, mas uma tomada de posição em favor da lei. Na verdade, as Forças Armadas destinam-se a defender a pátria e a garantir os poderes constitucionais, a lei e a ordem. Ora, a pátria estava ameaçada pelo comunismo, que o povo brasileiro repele. Os poderes constitucionais haviam sido feridos de morte, tantos os desrespeitos à Constituição, à lei, ao regime federativo. E a ordem periclitava com a quebra da disciplina e da hierarquia nas Forças Armadas.

E essa disciplina e essa hierarquia não constituem assunto de somenos, a que possa o presidente ou qualquer membro do governo, e em especial as Forças Armadas, dar importância maior ou menor, consoante seu temperamento ou suas tendências.  Pois é a própria Constituição que estabelece serem essas Forças organizadas na base da hierarquia e disciplina. Quebrar essa disciplina e essa hierarquia constitui crime pelo qual qualquer chefe de Estado pode ser responsabilizado.

Assim se deve enxergar o movimento que empolgou o país. Representa, fora de dúvida, um momento dramático de nossa vida, que felizmente termina sem derramamento de sangue.
E termina com a vitória do espírito da legalidade, restabelecido o primado da Constituição e do Direito. Resta-nos esperar que os focos da resistência esboçados em raros pontos logo se desfaçam, para que a família brasileira reencontre no menor prazo possível a paz à qual tanto aspira e o povo, livre da pregação e da ação dos comunistas que se haviam infiltrados no governo, volte a ter o direito, que lhe haviam tirado, de trabalhar em ordem e dentro da lei.

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Fonte: Acervo do Jornal do Brasil
[02/03/64]   Goulart resiste no sul e Congresso empossa Mazzilli

Disposto a resistir contra sua deposição, o Sr. João Goulart seguiu para Porto Alegre, enquanto, em Brasília, de madrugada, o Congresso declarava o Sr. Ranieri Mazzilli Presidente da República, depois de uma sessão de três minutos, feita debaixo de protestos do PTB. Ao responder a única questão de ordem levantada, o Sr. Auro de Moura Andrade afirmou: "Declaro, sob minha responsabilidade, vaga a Presidência da República que será entregue, a partir deste momento, ao Presidente da Câmara dos Deputados, na forma do Artigo 19 da Constituição". Em seguida, o Sr. Mazzilli foi empossado no 3º- andar do Palácio do Planalto, enquanto no andar de cima o Sr. Darci Ribeiro resistia e informata que iria fechar o Congresso com as tropas que lhe restam.

Poucos minutos depois, os Srs. Darci Ribeiro, Valdir Pires, Cândido de Oliveira Neto, General Nicolau Fco e o Coronel Lemos Avelar deixaram o Palácio, onde prosseguiu a cerimônia de posse do Sr. Mazzilli. Tropas do II Exército deslocam-se para o Rio Grande do Sul, que tem a situação controlada pelo Sr. Leonel Brizola apesar das várias adesões às forças revolucionárias, em Santa Maria, Bagé, Livramento, São Leopoldo e Uruguaiana.

A intensa troca de comandos no Exército teve o seguinte andamento: Comandante-em-Chefe do Exercito nacional, General do Exército Artur da Costa e Silva; Comandante do I Exército, General-de-Divisão Otacílio Terra Ururai; Comandante da I Divisão de Infantaria, General-de-Divisão Orlando Geisel; Comandante dos Grupamentos de Unidades-Escolas, General-de-Brigada Augusto Cesar de Castro Muniz Aragão.; Comandante da I Divisão de Infantaria Blindade, General-de-Brigada José Horácio da Cunha Garcia; Comandante da Artilharia de Costa da I Região Militar, General-de-Brigada José Maria Morais e Barros; Comandante da Infantaria Divisionária da I DI. General-de-Brigada Manuel Rodrigues Lisboa.

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Fonte: Acervo do Jornal do Brasil
[02/03/64]   Euforia do povo

As notícias de vitória da revolução levaram o povo carioca às ruas, apesar da tarde e noite chuvosas. Uma chuva de papel picado (que se repetiu em São Paulo e Belo Horizonte) saudou o acontecimento. Automóveis cheios de pessoas eufóricas desfilaram inclusive pelas ruas do Centro, dando vivas às Forças Armadas e ao Governador Lacerda.

A maior vibração, contudo, verificou-se na Zona Sul, especialmente em Botafogo, Copacabana o Ipanema, que receberam o êxito da evolução com um autentico carnaval.

A mobilização das Forças Armadas contra  o governo , foi fuminante; as tropas do I Exercito, enviadas pata conter os revoltosos em Minas, aderiram ao movimento, juntando-se, posteriormente, às Forças do General Kruel que marchavam para o Rio e detiveram-se em Resende. Ocorreram, depois, as adesões da V e VI Regiões Militares (Paraná e Nordeste, respectivamente, além de divisões e unidades diversas em vários pontos do Pais. No Rio o General Morais Âncora determinava, jà às 17h, a cessação das atividades militares.

A falta de uma declaração de renuncia do Sr. João Goulart criou para chefes militares vitoriosos um problema de ordem constitucional e moral, que ontem mesmo começou a ser examinado entre eles e algumas figuras do mundo jurídico e partidário: não tendo renunciado, o Presidente não poderia ser substituído segundo a linha de sucessão constitucional. Isto é, dentro do quadro da legalidade de em cujo nome agiram as Forças Armadas.

Além do não renunciar, o Sr. João Goulart dispõe-se a resistir em Brasília e Porto Alegre, do modo a caracterizar a duplicidade de Governo e a forçar, pelo menos, a sua deposição declarada: ato de força que retiraria do movimento seu caráter legalista.

Aos primeiros minutos de hoje. o Sr. Auro de Moura Andrade disse haver recebido comunicação do General André Fernandes de que o General Fico determinou a cessação da resistência, mandando ocupar as rádios locais.

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Fonte: Acervo do Jornal do Brasil
[02/03/64]   Cronologia da Revolução

O dia vitorioso da revolução pela liberdade começou com as noticias de que tropas do II Exército estavam avançando para a Guanabara. As forças enviadas pelo I Exército para a fronteira de Minas aderiram ao movimento revolucionário e decidiram juntar-se ás tropas do General Amauri Kruel. Nas capitais, o povo, ao acordar, foi sacudido pelo impacto da revolução, e, alarmado, lançou-se às mercearias. temeroso de colapsos no abastecimento de gêneros e nos serviços públicos essenciais. Filas imensas se formaram, mas sem conflitos de monta. Nas bombas de gasolina as filas eram também extensas, devido ao receio de falta de combustíveis.

MANIFESTO
Devido à greve geral deflagrada pelo CGT na véspera - e já superada - não havia condução no Rio. A Cidade parou. Generais ao Exercito, inclusive o General Humberto de Alencar Castelo Branco, divulgaram manifesto acusando o Sr. João Goulart de "ostensivo conluio com os comunistas", e dizendo que, "devido a pressões de toda ordem, o princípio federativo tornou-se letra morta". "A Pátria - disseram eles - não pode mais assistir impassivel a esta trágica derrocada das próprias instituições democráticas."

VIOLÊNCIAS
Enquanto Isso, emissoras de São Paulo uniam-se em cadeia radiofônica pela democracia, apoiando o movimento rebelde, ao passo que, no Rio, e por imposição oficial, algumas estações de radio formaram o que denominaram de Cadela da Legalidade. Esta divulgava as noticias de interesse do governo agora deposto.

Fuzileiros navais ocuparam outras emissoras, e, de Minas, veio. às 9 h 25 m, a notícia de que a Escola Preparatória de Cadetes em Barbacena aderira ao General Olímpio Mourão Filho. Anunciava-se também a adesão da Base Aérea de Belo Horizonte.

APOIO DO IV EXÉRCITO
Em São Paulo, a Ordem Politica e Social reforçou o policiamento nos sindicatos e prendeu todos os líderes sindicais. De Recife chegava notícia do apoio do IV Exército à . revolução, e também do III Distrito Naval. No Rio, nessa ínterim, persistiam os notícias do avanço das tropas do General Amauri Kruel. Niterói ficou inteiramente parada, com o comercio fechado - mas o transporte marítimo entre ela e o Rio foi favorecido com a cessão de avisos pela Marinha.

MAIS ADESÕES
Com a aproximação do meio-dia, o XVI Batalhão de Caçadores. de São Paulo aderiu ao movimento e rumou para Brasilia. A Base Aérea, de Campo Grande, em Goiás, seguiu-lhe o exemplo. As 11h 55 h, as vias Pindamonhangaba e Dutra estavam totalmente sob controle do Exército e Força Pública paulista. As tropas marchavam para Cruzeiro, ao encontro das forças da IV Região Militar e do II exército, este no rumo da Guanabara.

Na Escola de Educação físicaa, em São Paulo, prosseguia o recrutamento de voluntários. No Rio, 25 minutos antes, ocorreu a primeira reviravolta contra os que julgavam ser o I Exército servil às orças derrotadas: o Frte de Copacabana foi tomado. Praças e sargentos rebelaram-se contra oficiais que apoiavam o Sr. João Goulart - e após urna troca de tiros, a situação era dominada com a chegada do Coronel Arídio Brasil, que penetrou no Forte após tomar a metralhadora de uma sentinela.
 
APOIO DA V REGIÃO
As 12 h 20M, as Forças da revolução chegavam a Barra Mansa. O General Amauri Kruel desistiu do vir à Guanabara, decidindo ficar em Resende, após obter a adesão da Academia Militar de Agulhas Negras. O comando das tropas em marcha foi entregue ao General Castelo Branco. Em Santos, o porto era paralisado por nova greve, sob proteção de fuzileiros navais. O regimento Sampaio aderiu às forças mineiras e paulistas e também começou a marchar sobre a Guanabara. No Paraná, a V Regiao Militar aderiu, por unanimidade dos oficiais, aos revolucionários, e o General Dario Coelho assumiu o comando das tropas. na presença dos Generais Nélson de Melo e Cordeiro de Faria.

FUGA DE GOULART
Em seguida, os três generais partiram para Pôrto Alegre, a fim de conseguir - o que obtiveram - a adesão do III Exército, cujo Comandante lançara antes um manifesto de apoio ao Sr. João Goulart. As 13 horas, os motivos de resistência à revolução cessaram: o Sr. João Goulart deixou o Palácio das Laranjeiras e dirigiu-se à 3ª Zona Aérea, onde embarcou para Brasília. Mais tarde, a Cadela da Liberdade anunciava, de Belo Horizonte: "O Sr. João Goulart fugiu num Coronado _da Varig. Todo o território brasileiro está pela liberdade. Todos os comandos de exércitos aderiram às tropas do General Castelo Branco."

PRISÃO DE ARRAIS
Em Recife, tropas do IV Exército cercaram o Palácio do Governador e prenderam o Sr. Miguel Arrais, por ordem do General Justino Alves. No Palácio Guanabara, o Governador Carlos Lacerda recebeu a visita de almirantes que haviam participado, pouco antes, de reunião no Clube Naval, e foram levar solidariedade ao Governador. O Ministro Lafaiete de Andrade enviou emissário a Minas, para se manifestar partidário da revolução. "em seu nome e no do Supremo Tribunal Federal." As 16 h140 m, foi lida esta ordem, endereçada ao General Armando de Morais Ancora: "Que as tropas do I Exército cessem todas as suas operações e voltem aos quartéis". Era o fim da resistência e a vitória da revolução. 

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Fonte: Acervo do Jornal do Brasil
[02/04/64] 
4 meses de "complot" e 55 horas de ação

Brasília — "Grande Nação!", exclamou o Deputado Aliomar Baleeiro, com um sorriso exprimido na sua rígida máscara de catedrático, ante as primeiras noticias de vitória do movimento revolucionário sem derramamento de sangue. 'Grande Nação", repetiu: "Bom coração e péssimo caráter."

Decorreram cinqüenta e cinco horas entre a proclamação do Governador Magalhães Pinto e o discurso de posse do Sr. Mazzilli np Palácio do Planalto, desfecho de drama cujo libreto foi cuidadosamente redigido no Estado-Maior do Exército pelo General Castelo Branco e seus assessores.

A conspiração militar que destroçou o sistema de segurança do Sr. João Goulart. abrindo campo ao Congresso para consumar um golpe de Estado, desenrolou-se por quatro meses, de dezembro a março. e teve como seu núcleo ativo meia dúzia de coronéis que tomaram a peito a tarefa de estimular os comandos adormecidos e de se infiltrar pelos escalões inferiores.

Esses coronéis depois de algumas sondagens junto a Generais, sentiram que eles não tomariam a iniciativa de uma coordenação dos elementos militares alarmados com a política do Presidente da República. Quando o General Kruel foi demitido do Ministério da Guerra, embora não houvesse ainda montado qualquer dispositivo de conspiração, foi aquele chefe militar instado a resistir, na base dos botões de comando e dos sentimentos antijanguistas que se avolumavam no seio da oficialidade. O General Kruel, imbuído de responsabilidades legalistas, reagiu.

Um episódio, ocorrido logo em seguida, se tornou decisivo: a ordem ao Corpo de Pára-Quedistas para prender o Governador Carlos Lacerda. A resistência do Coronel Boaventura ecoou em lodos os escalões da oficialidade, criando o clima propicio para o início da conspiração.

Estabelecido o núcleo central, decidiu-se convidar um General de prestigio incontrastável e de capacidade técnica para assumir o comando militar, moral e político do novimento. Fez-se uma primeira sondagem, por intermédio do General Ademar de Queiroz, junto ao General Castelo Branco, o qual, sob jura de segredo absoluto, concordou em receber o grupo de coronéis em conspiração.

Ao General Castelo Branco, logo se juntou o General Costa e Silva, que vinha sendo instado por numerosos militares a assumir o co-mando ostensivo. Revelou-se em seguida a posição do General Justino Alves Bastos, de solidariedade ao movimento.

O trabalho passou a desenvolver-se sistematicamente, já aí em nível de estado-maior. A posição do General Jair Dantas Ribeiro ficou em observação, pois se tendia a convidá-lo a comandar os acontecimentos. O ex-Ministro da Guerra, no entanto, dava sucessivas provas de submissão à política do Sr. João Goulart, recebendo advertências de seus colegas de farda, inclusive do chefe do Estado-Maior, que por dez vezes o alertou para os riscos a que o Sr.. Goulart submetia o País.

O movimento até então organizava-se formalmente na base defensiva, pois, partindo do pressuposto de que o Presidente armava um golpe de Estado, se coordenavam forças para resistir e  frustrar a tentativa.

O comício do dia 13 de março alterou o espírito da mobilização. Convenceram-se os comandos de que o Presidente acelerava planos que não assumiriam o caráter clássico das investidas continuistas. O General Kruel foi ao Rio e juntou sua voz à dos generais que advertiam o Ministro da Guerra e, já então, admitia o Comandante do II Exército sua integração na resistência anti-Jango.

O plano militar estava cuidadosamente articulado, quando surgiu a crise na Marinha de Guerra.
Consultados entre segunda e quinta-feira apoiaram a conspiração os Governadores Ademar de Barros, Magalhães Pinto, Ildo Meneghetti e Nei Braga, fixando-se o princípio que não seriam atingidos os mandatos de governadores e parlamentares, apesar da restrição feita pelo General Justino Alves Bastos, que se julgava no dever de liquidar a posição do Sr. Miguel Arrais.

Na Sexta-Feira Santa, com a decisão do Governo de subjugar o Comando Naval, o Governador de Minas pretendeu precipitar o movimento, declarando-se em rebelião. O General Mourão avisou-o de que seria cedo. Segunda-feira, finalmente, foi o Sr. Magalhães Pinto liberado. A iniciativa lhe cabia, pela posição assumida nos últimos anos e pela repercussão das suas palavras em setores não atingidos pela radicalização promovida pelos Governadores de São Paulo e da Guanabara, este informado do movimento apenas no domingo.

Em Brasília, o contato da conspiração era com o Coronel Serra, o mesmo que na madrugada de ontem assumiu a Chefia de Policia e, pela tarde, conteve os últimos pelotões cívicos do Professor Darci Ribeiro com uma exposição de tanques e metralhadoras em frente à estação rodoviária.

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Leituras complementares:

Fonte: Memória viva - Origem: O Cruzeiro - 10 de abril de 1964 - Edição extra
Magalhães, o herói da Revolução - - Reportagem de Oswaldo Amorim, Luiz Alfredo e José Nicolau

ARTICULADOR e iniciador do movimento que culminou com o afastamento do Presidente. João Goulart, o Governador Magalhães Pinto foi aclamado em Minas como o grande herói da insurreição vitoriosa e calorosamente festejada em todo o Estado.

Contando com a decidida colaboração das tropas do Exército sediadas em Minas, além dos 18 mil homens da Fôrça Pública do Estado e de total apoio popular, o Governador Magalhães Pinto iniciou a história arrancada pelas liberdades democráticas com um vigoroso manifesto, em que afirmou terem sido inúteis tôdas as advertências contra a radicalização de posições e atitudes e contra a diluição do princípio federativo.

A eficiente articulação empreendida, que garantiu a adesão de elementos decisivos, e a rapidez e ação foram preciosos para a fulminante vitória das fôrças democráticas.

Durante todo o desenrolar da crise, o Sr. Magalhães Pinto permaneceu no Palácio da Liberdade, cercado pelo seu “staff” e em permanente contato com os Generais Carlos Luís Guedes. Comandante da ID-4 (sediada em Belo Horizonte) e Olímpio Mourão Filho, Comandante da 4.ª Região Militar (Juiz de Fora) e fazendo ligações para outros chefes militares e vários Governadores de Estado. Somente saiu, no dia 1.º, para visitar os quartéis do 12.º RI e da Polícia Militar, o Destacamento de Base Aérea (único núcleo rebelado da FAB) e o Centro de Recrutamento de Voluntários, acompanhados do Cel. José Geraldo de Oliveira, comandante da Polícia Militar, Cel. José Guilherme, chefe do Gabinete Militar (ambos foram peças importantes do movimente que eclodiu em Minas e se alastrou no País) e dos Senadores Milton Campos e Afonso Arinos — nomeados secretários sem Pasta do govêrno mineiro.

A vitória final, vibrantemente festejada pelo povo de Minas, teve no tranqüilo e decidido Governador Magalhães Pinto o seu grande comandante e maior alvo das manifestações populares em todo o País.

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Fonte: Memória viva - Origem: O Cruzeiro - 10 de abril de 1964 - Edição extra
Minas hora a hora - Reportagem de Fernando Richard e José Nicolau

Dia 30 de março, 20h30m. O General Carlos Luís Guedes, comandante da IV Infantaria Divisionária, sediada em Belo Horizonte, reúne todo os seus comandados e comunica que se rebelara contra o Presidente João Goulart. Reúne-se, depois, com o General João de Faria e o Coronel Emílio Montenegro Filho, da FAB, além do General José Lopes Bragança, no comando da ID-4. Traçam um esquema.

Dia 31 de março. 3h30m. A reunião continua. O General Bragança é incumbido de fazer a convocação dos civis para a revolução. O Governador Magalhães Pinto, no Palácio da Liberdade, declara que apóia e comanda o movimento.

4 horas. Tem início a mobilização dos civis.

7h30m. O Comandante da Base Aérea de Belo Horizonte, Coronel Afrânio da Silva Aguiar, é chamado ao Palácio da Liberdade pelo Governador Magalhães Pinto. O Chefe do Executivo mineiro expõe ao oficial os seus planos. Fala a respeito dos motivos que o levaram a tomar a decisão. Após conferência de uma hora, a portas fechada, o Coronel Afrânio dirige-se para a Base Aérea: tinha dado total apoio ao Governador.

8h30m. O General Bragança vai ao comando da ID-4 e comunica ao General Guedes o andamento da mobilização de civis. No Palácio da Liberdade, o Governador Magalhães Pinto toma tôdas as providências com o Coronel José Geraldo de Oliveira, comandante da Polícia Militar, para que fôssem guarnecidos os pontos estratégicos do Estado. Tropas da PM se deslocam para as fronteiras.

9h30m. O General Olímpio Mourão Filho, comandante da Quarta Região Militar, sediada em Juiz de Fora, telefona ao General Guedes. Conversam reservadamente. Nessa hora, o movimento revolucionário já é do conhecimento do povo. Uma violenta proclamação do General Guedes é lida em tôdas as rádios da capital mineira e de algumas cidades do Interior. Acusa Jango.

10 horas. O General Guedes comunica-se com o Governador Adhemar de Barros pelo telefone. É a primeira vez, desde a deflagração do movimento, que o General conversa com o Governador paulista. No QG da ID-4, estão sendo montadas as instalações telefônicas que iriam ligar, diretamente, o Palácio da Liberdade, o comando do 12.º Regimento de Infantaria, a Polícia Militar, o Destacamento da Base Aérea, o CPOR e outras unidades militares.

13 horas. No Palácio da Liberdade, o movimento é intenso. O Governador, até o momento, não havia aparecido de público. Chegam o Senador Milton Campos, o ex-Chanceler Afonso Arinos, assessôres do govêrno e o secretário da Fazenda, Deputado José Maria Alkmim. Trazem a notícia de que o Marechal Odilio Dennys se encontrava em Juiz de Fora articulando o movimento com o General Olímpio Mourão Filho. No Departamento de Instrução da Polícia Militar, mais de 500 jovens já se haviam alistado no chamado Exército Civil.

13h30m. O Coronel Emílio Montenegro Filho, da FAB, é mandado a Barbacena, de avião, para entrar em contato com o brigadeiro-comandante da Escola Preparatória de Cadetes do Ar. Em sua companhia, segue o Jornalista Aloísio Cunha, que leva a gravação da proclamação do General Guedes.

14 horas. Os dois enviados chegam a Barbacena. Conversam com o comandante da escola. Um filho do Deputado José Bonifácio prende o juiz de direito de Barbacena. Em Belo Horizonte, o movimento de automóveis aumenta nos postos de gasolina. O combustível fôra requisitado pelo govêrno.

14h30m. Chega a Belo Horizonte o Deputado José Bonifácio, primeiro secretário da Câmara de Deputados. Anuncia a disposição do Congresso de instalar-se na Capital mineira. E diz que todos os deputados por Minas Gerais já haviam sido chamados.

15 horas. Na Assembléia Legislativa, o deputado comunista Gomes Pimenta pede uma comissão para entender-se com as autoridades a fim de ser pôsto em liberdade o Deputado Sinval Bambirra, prêso na madrugada. A comissão foi formada, mas Bambirra não foi sôlto.

16 horas. Aproximam-se de Juiz de Fora as tropas do 11.º Regimento de Infantaria, de São João del Rey, que começara a deslocar-se para aquela cidade aos primeiros minutos da madrugada. O General Guedes retorna ao QG da ID-4 após conferenciar, mais uma vez, com o Governador Magalhães Pinto. Outra reunião contou com a presença dos dois chefes mineiros da revolução e do Coronel José Geraldo de Oliveira, secretários de Estado Oswaldo Pierucetti (Interior), Roberto Resende (Agricultura) e José Maria Alkmim (Fazenda) e o Srs. Milton Campos e Afonso Arinos.

17 horas. A Polícia Militar começa a ocupar a capital mineira. A Companhia Telefônica, o DCT, emprêsas de comunicações e redações de jornais e rádios foram tomadas pela PM.

19 horas. Aumenta o número de adesões de civis ao movimento revolucionário. As inscrições são feitas no Grupo Escolar Pandiá Calógeras. Todos usam no braço direito uma braçadeira verde-amarela com um triângulo no centro. É o símbolo mineiro do levante revolucionário.

19h30m. O General Guedes solicita a cooperação de companhias construtoras para que enviem carretas pesadas: transporte de material até Juiz de Fora. Quinze carrêtas são colocadas à disposição do comandante da ID-4.

20 horas. O Governador Magalhães Pinto fez seu pronunciamento à Nação. Estava formada a Cadeia da Liberdade, que levou a todo o Brasil a palavra do líder mineiro. Governadores de outros Estados, como São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Espírito Santo, Guanabara, Goiás, Mato Grosso e Bahia, apenas esperavam a palavra do governador de Minas, para dar início ao movimento nas áreas de sua responsabilidade.

20 h 30 m. Chega ao comando da ID-4, o Coronel Paulo Hildebrando de Campos Góes, comandante do 4.º Regimento de Obuses, sediado em Pouso Alegre. Procedia do Rio de Janeiro. Após rápido contato com o General Guedes, põe-se à disposição do comandante da ID-4.

21 horas. Engenheiros se apresentam ao comando da ID-4 para as emergências que surgirem com o decorrer da crise militar. São especialistas em restauração de pontes e construções. Médicos dão conhecimento ao comando revolucionário de vários postos em Belo Horizonte.

22 horas. Com exclusividade, a reportagem de “O Cruzeiro” consegue entrar na Base Aérea de Belo Horizonte e fotografa os praças e oficiais revoltosos. O comandante da guarnição só havia dado conhecimento da revolução aos oficiais. Mais tarde falaria ao resto do contingente. Indagado a qual comando estava subordinado, disse o Coronel Afrânio Aguiar que “seu único comandante era o Governador Magalhães Pinto”. Os oficiais mantinham-se calmos e aguardavam o desenrolar dos acontecimentos.

22 h 30 m. Pelo telefone, o General Guedes é informado de que o Presidente João Goulart deseja um entendimento com o Governador Magalhães Pinto e os chefes militares de Minas Gerais. Afirma-se que o Sr. João Goulart chegou a propor uma mediação “para resolver o impasse surgido entre a administração federal e o govêrno mineiro”. O General Guedes se recusa a manter conversação com o Chefe da Nação. Idêntica é a atitude do Governador Magalhães Pinto.

23 horas. Todo o dispositivo revolucionário se encontra em ação. O secretário da Agricultura de Minas, Sr. Roberto Resende, toma as providências necessárias a que não houvesse falta de gêneros nos dias seguintes. “Minas poderá resistir cem dias” - afirmou. Foi determinado o levantamento de todo o estoque de carne no Estado.

24 horas. As poucas pessoas que se mantinham próximas ao Palácio da Liberdade se mostravam apreensivas com as notícias de que tropas do I Exército estavam marchando contra Minas Gerais. Entretanto, neste momento o Coronel José Guilherme anuncia que o Governador Magalhães Pinto havia recebido um comunicado do General Amaury Kruel, dizendo que estava à frente do II Exército marchando contra o Estado da Guanabara. A alegria foi geral.

Dia 1.º de abril. 1 h 15m. O Comandante da Base Aérea de Belo Horizonte fala, pelo telefone, com o Brigadeiro Francisco Teixeira, comandante da 3.ª Zona Aérea, e comunica a sua condição de rebelado. É imediatamente exonerado, juntamente com o subcomandante, Major Nelson Santiago. Não acata a decisão. Reúne a tropa, dá ciência de sua condição e liberdade de ação para os que não quiserem aderir. Tôda a tropa se mantém com o comandante destituído. O Coronel Afrânio Aguiar, então, toma medidas de segurança.

8 horas. No QG da ID-4, a satisfação é geral. O General Guedes recebe dez pilotos civis que se colocam à disposição para qualquer eventualidade. Várias companhias de aviação põem suas aeronaves a serviço do Governador Magalhães Pinto.

8 h 30 m. Pela primeira vez, desde o início do movimento, o Governador Magalhães Pinto deixa o Palácio da Liberdade. Visita várias unidades rebeladas. Vai ao Centro de Recrutamento, onde é recebido entusiàsticamente. Depois, dirige-se ao Departamento de Instrução da Polícia Militar e ao 12.º Regimento de Infantaria. Por último, visita a Base Aérea de Belo Horizonte.

12 h 30 m. Num contato com os repórteres de “O Cruzeiro”, o Governador Magalhães Pinto declara que “foi diminuído o prazo que se esperava para a vitória final”. O prazo inicial era de dez dias.

14 horas. No Palácio da Liberdade, o Governador Magalhães Pinto continua reunido com o seu secretariado. O Secretário do Interior, Oswaldo Pierucetti, articulador civil da revolução, faz vários contatos com São Paulo, Guanabara e outros pontos do País. As notícias continuam a chegar, sempre animadoras. Os chefes revolucionários aumentam a sua euforia. O prazo, de que falou o Governador Magalhães Pinto, encurta ainda mais. Para todos, a coisa mais certa é que as fôrças democráticas consigam dominar o País dentro de mais algumas horas. Os chefes militares conferenciam. De repente, as ligações telefônicas com Brasília são cortadas. Não se fala mais com a Capital do País. Há uma notícia, logo desmentida, que preocupa o chefe do Executivo mineiro: é a de que o Palácio Guanabara está cercado e de que havia sido cometido um atentado contra o Governador Carlos Lacerda.

15 horas. O Governador de Minas Gerais deixa o Palácio da Liberdade para passar em revista as tropas da Polícia Militar que, em oito ônibus, deixam Belo Horizonte com destino a Juiz de Fora e várias outras cidades do interior do Estado. É aclamado pela multidão que se reúne em frente à sede do Executivo mineiro.

15 h 15 m. Quando regressava ao Palácio, as rádios comunicam a adesão do I Exército. Aos gritos de “Terminou a revolução!” e “Vitória!” a multidão carrega em delírio o Governador Magalhães Pinto. Nas ruas centrais da cidade, a população lança papéis picados do alto dos edifícios. É a comemoração da vitória. Milhares de pessoas subiam a Avenida João Pinheiro com destino ao Palácio da Liberdade cantando “Minas Gerais” e o Hino Nacional. O Governador Magalhães Pinto, entretanto, preocupava ainda com as notícias de que havia resistência no Rio Grande do Sul, embora estivesse certo de que a sua luta pela democracia tinha sido coroada de êxito e, pràticamente, chegara ao fim.

20 horas. Através de uma cadeia de rádio e televisão, o Governador Magalhães Pinto, no Palácio da Liberdade, faz sua primeira proclamação como chefe da revolução de 72 horas que abalou o Brasil.
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Fonte: História Livre
A imprensa jornalística porto-alegrense e os últimos dias do governo João Goulart - por Marcos Emílio Ekman Faber, Eduardo da Silva Severo e Ismael Wolf Ferreira

Nota de Helio Rosa, repetida durante a publicação dos "Posts" anteriores:
Esta matéria, transcreve e/ou comenta acontecimentos nos dia 12, 13, 14, 15, 17, 20, 22, 26, 27, 29 de março e 02 de abril.
Para manter a ideia destes "posts" de citar os acontecimentos diários, os comentários desta matéria serão inseridos nos dias correspondentes, e a conclusão será transcrita no final da série. A íntegra deste trabalho está aqui:
A imprensa jornalística porto-alegrense e os últimos dias do governo João Goulart

(...)
A edição nacional do jornal Última Hora do dia 02 de abril, descreve o atentado sofrido pela sede do jornal, no Rio de Janeiro, que foi depredada e incendiada: “Toda a frota de reportagem destruída a bala e a fogo”, ao lado desta reportagem consta uma nota de João Goulart solicitando ao povo gaúcho que não se sacrifique. E segue com o agradecimento de Leonel Brizola:

Encerramos aqui a “Rede da Legalidade” agradecendo a todo o povo gaúcho e brasileiro que compareceu em massa a sede da Prefeitura de Porto Alegre para resistir contra os golpistas. Fizemos tudo para manter a legalidade (ÚLTIMA HORA, 02/04/64, p. 1).

Assim, de forma melancólica, encerrava-se o governo João Goulart.

4 Conclusão

Raoul Giradet (1987, p.17) afirma que o tema da conspiração maléfica sempre se encontrará colocada em referência a “uma certa simbólica da mácula”, ou seja, no caso de João Goulart, seus opositores necessitavam associá-lo a algo que a sociedade temesse, por isso a insistência em associá-lo ao comunismo ou a um usurpador, criando a imagem de que ele iria utilizar-se do expediente golpista para criar um regime totalitário.

Aparentemente, estas acusações não faziam sentido, pois Goulart não possuía a força política que seus inimigos faziam parecer que ele tinha. Mas, segundo Eni Puccinelli Orlandi (1993), “do sem-sentido se faz novo sentido através da mudança do discurso (...) o discurso fundador é aquele que constrói um novo imaginário social” capaz de gerar novos significados sobre a realidade representada, porém, não se fazendo sozinho, mas sendo construído (ORLANDI, 1993, p.11-25). Uma das estratégias dos opositores de Goulart foi o de construir um discurso que desqualificasse a pessoa do presidente retratando-o como hesitante e desequilibrado, e, ao mesmo tempo, associando-o a algo que a sociedade como um todo temesse, ou seja, associando-o ao comunismo ou, nas palavras do próprio Diário de Notícias, a um “anti-Pátria”. Como a maior parte da sociedade gaúcha era temerosa do comunismo e não desejava o retorno de um regime totalitário, os opositores de Jango investiram, com sucesso, nesta associação. Além disso, a associação da imagem de Jango com o comunismo o afastava das classes médias e dos setores progressistas da Igreja.

Não restam dúvidas de que a cobertura do Diário de Notícias, neste período, era de conspiração ao regime democrático. Porém fazendo parecer que eles – Diário de Notícias – eram os defensores da liberdade e da democracia, enquanto que o presidente e seus partidários eram descritos como conspiradores que iriam acabar com a democracia no país. Segundo Girardet, essa inversão nos papéis era necessária, pois somente quando o outro é associado à representação do mal, é que se pode assumir o papel do salvador (GIRARDET, 1987, p. 62).

Por outro lado, o jornal a Última Hora, como um veículo de informação partidário do populismo e aliado aos interesses da burguesia urbana, defendia o regime com unhas e dentes, pois era sem dúvida um dos beneficiados com o regime de Goulart. Para a defesa de Jango, utilizava das mesmas ferramentas que o jornal opositor, ou seja, inspirava o medo do golpismo. Não era, portanto, um defensor da legalidade como se dizia ser, mas era, isso sim, defensor dos seus próprios interesses.

Mas e como explicar as mudanças na sociedade porto-alegrense e seu posicionamento em relação aos diferentes discursos da mídia?

Os quase três anos passados entre a posse de João Goulart e o Golpe de 64, nos deixam a nítida impressão de que a burguesia nacional, não era tão nacionalista quanto João Goulart acreditava. Pois, como afirma Caio Navarro de Toledo, “o nacionalismo da burguesia brasileira sempre teve uma caráter pragmático” (1982, p. 117), ou seja, dependendo das circunstâncias e das suas conveniências a burguesia brasileira se opõem ou se associa ao capital internacional. Quando percebeu a crise econômica desencadeada pelo fracasso do Plano Trienal e com a Lei de Remessas de Lucros, a burguesia voltou-se contra o governo que criara tais medidas. Ao mesmo tempo, a crise desencadeara um avanço político-ideológico das classes populares e trabalhadoras. O crescimento progressivo da politização e da atuação das classes populares fez com que os setores da direita conservadora explorassem o medo de que a solução popular não passasse por uma solução burguesa, mas que fosse buscada na radicalização do movimento (TOLEDO, 1982, p. 119-120). Por outro lado, o presidente sem apoio dos setores dominantes da sociedade brasileira, buscou nas classes populares o seu aliado, numa tentativa de reforçar o populismo, o regime democrático e a luta pela legalidade.

Neste contexto, os dois jornais porto-alegrenses aqui analisados eram representantes destas formas distintas de pensar a política brasileira. O Diário de Notícias, representante das camadas conservadoras, combatia o regime com todos os argumentos possíveis e, por outro lado, o jornal Última Hora, defensor da política populista-nacionalista, apoiava o regime em vigor, pois era temerosa do que enfrentaria no caso da derrota do regime democrático, como de fato ocorreu, pois poucos meses depois do Golpe de 64, o jornal fechou as portas.

Referências: (...)