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Michael Stanton

Londres, julho de 2005

Autor:  Michael Stanton

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Michael Stanton ( michael@ic.uff.br ) nasceu e viveu na Inglaterra até os 23 anos. Depois de dois anos nos Estados Unidos veio se radicar no Brasil, e mora atualmente no bairro da Barra da Tijuca no Rio de Janeiro. Doutor em matemática pela Universidade de Cambridge, desde 1972 se dedica, já no Brasil, ao estudo, ensino e prática da informática e suas aplicações. Seu atual namoro com as redes de comunicação começou em 1986, e ele participou ativamente na montagem no País das redes Bitnet e Internet, tendo participado da coordenação da Rede-Rio e da Rede Nacional de Pesquisa nas suas fases formativas. Depois de longa atuação como professor do Departamento de Informática da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, hoje é professor titular de comunicação de dados do Instituto de Computação da Universidade Federal Fluminense (UFF) em Niterói, RJ, onde coordena o projeto de modernização da infra-estrutura de comunicação desta universidade; é  Diretor de Inovação da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP); mantém uma coluna quinzenal no Estadão desde junho de 2000 sobre a interação entre as tecnologias de informação e comunicação e a sociedade.


Londres, julho de 2005

Nos primeiros tempos de escrever neste espaço, escrevi várias vezes sobre assuntos relacionados a tecnologias modernas de comunicação no conflito perpétuo entre os direitos do indivíduo à liberdade de expressão e à privacidade e o chamado interesse público, normalmente enunciado pelo governo ou legislativo do dia. Este estado de direito é como uma flor que precisa ser protegida, porém é vulnerável aos indivíduos e grupos que usam o abrigo dos direitos individuais para perpetrar ações danosas contra o tecido da sociedade, quer sejam estas criminosas ou terroristas. Para manter o equilíbrio, investe-se em segurança pública (e privada) e formulam-se novas leis para combater novas modalidades de comportamento anti-social. Em nosso mundo cabe a cada país resolver estas questões interna e separadamente, embora evidentemente a grande interação entre os países diferentes faz com que haja maior ou menor grau de uniformidade entre as soluções individuais.

Por sua história ou tradições, alguns países são mais vistos como modelos de como abordar estas questões. Desde o século 18, com a independência dos Estados Unidos, a Revolução Francesa e a Revolução Industrial, até o século 20 com o fim dos últimos impérios coloniais, reformas políticas continuam lenta e descontinuamente em todo o mundo. As derrocadas do fascismo e do comunismo ao longo do século passado deixaram como modelo as chamadas democracias ocidentais, com maior ou menor grau de envolvimento do estado nas relações econômicas, e com mecanismos parlamentares de formulação consensual de leis.

Em tempos normais, estes mecanismos se mostram eficazes em muitos países. Surgem novas tecnologias, por exemplo, e seu uso é regulamentada através do parlamento, após bastante discussão. O funcionamento dos próprios governos é regido por leis também, e a eficácia do governo poderá ser seriamente comprometida se ele não tiver meios de aprovar a "sua" legislação. Vemos sinais disto nos esforços contínuos de montar no Brasil a "base de sustentação" do governo no Congresso, onde o partido do presidente não tem maioria. Talvez seja por isto a atração em muitos países pelo modelo parlamentar de governo, onde o governo é formado automaticamente pelo partido ou coalizão de partidos com maioria no parlamento.

O diabo são os tempos anormais, especialmente de guerra ou de outras emergências. Nestas ocasiões para sustentar legalmente sua resposta os governos freqüentemente requerem a adoção rápida de nova legislação, por exemplo, para votar recursos para desenvolver atividades bélicas. Na comoção da emergência, os governos também podem aproveitar as ansiedades para incluir nos projetos de lei propostas que normalmente não seriam adotadas sem muita discussão. Na reação à emergência, não há espaço para discussão "inútil".

Isto ocorreu nas semanas que se seguiram aos ataques em Nova Iorque e Washington em setembro de 2001, quando foi aprovada uma longa lista de antigas demandas das forças de segurança pública, escondidas nas 300 páginas do projeto de lei USA-PATRIOT, aprovado sem debate no dia da sua publicação (v. coluna de 31 de outubro de 2001). É verdade que não houve até hoje nenhuma repetição dos trágicos eventos desse dia nos EUA, mas não é nada óbvio que isto se deve à nova legislação e a truculência com que são tratadas as pessoas comuns pelo novo órgão de "segurança da pátria" montado em seguida.

Todos sabemos da prisão em Guantánamo, Cuba, onde há mais de 3 anos estão mantidas sem processo judicial centenas de pessoas presas em outros países, suspeitas de "terrorismo". Não se divulga tanto o arbítrio e os desmandos dos funcionários de segurança nos aeroportos, por exemplo. Um amigo meu, David Watts, professor universitário inglês já aposentado, um homem pacato e sem malícia, foi preso no final de 2003 no aeroporto de Newark, próximo de Nova Iorque, ao tentar embarcar para retornar à Inglaterra. Parece que se impacientou ao ter que passar pelo raio-X pela n-ésima vez, porque continuava a soar o alarme. O funcionário mandou chamar a polícia, e meu amigo foi levado à prisão da cidade onde ficou preso até o dia seguinte. Sua esposa norteamericana conseguiu sua libertação pagando fiança (só o honorário do advogado custou US$2.500), e eles seguíram viagem para casa. A trauma causada a meu amigo por este incidente foi tão intensa, que sofreu derrame cerebral uns dias depois e morreu em seguida. Assim que se trata os inimigos do país, suponho.

A semana passada o mesmo preço de morte inútil foi pago por Jean Charles de Menezes em Londres, executado a sangue frio por um policial a paisana num trem do metrô. Dizem que foi um engano. Depois do fracasso de explodir mais bombas no dia 21 de julho, mobilizaram um exército de policiais e outros agentes de segurança para interceptar e evitar novas tentativas. Jean Charles teve a infelicidade de morar num local habitado por suspeitos. Em vez de pará-lo logo depois de sair de casa, os policiais a paisana o seguiram até a estação do metro, onde o "terminaram" para evitar que se explodisse.

Acontece que, com algum atraso, chega à Inglaterra o que os EUA experimentou em 2001. As bombas nos trens do metrô e no ônibus do último dia 7 de julho trouxe finalmente para Londres a desgraça que sofreu a cidade de Madri em março de 2004. Não me recordo de nenhuma reação drástica para alterar as leis para tratar da situação em Madri. Em Londres, sim. Há novas demandas por parte da polícia para poder prender suspeitos por 3 meses sem processo judicial, para praticar interceptação em larga escala de comunicações por telefone e Internet, todo no nome do interesse público.

Eu diria que não são necessários estes novos poderes. Depois da morte de Jean Charles, nem me convenço que a polícia usa bem os poderes que têm hoje. Se podem decidir assassinar um indivíduo desta maneira, meramente devido à suspeita pouco evidenciada que era uma suicida disposta a matar os outros, a lei atual precisa ser revista para impedir sua repetição. Eu li que havia falhas nos procedimentos, e que possivelmente os policiais envolvidos poderiam ser processados e responsabilizados por suas ações.

Em última análise, as bombas de Londres são uma conseqüência direta da política externa do governo britânico, aliado incondicional dos EUA na sua aventura no Iraque, como foi também o caso da Espanha. Em ambos países não há suporte popular para esta guerra. Na Espanha, o novo governo eleito dias depois das bombas já retirou suas tropas do Iraque. A situação na Inglaterra deve ser diversa, pois já foram realizadas eleições este ano, com manutenção da maioria no parlamento do partido de Blair, e dificilmente Blair vai voltar atrás. Portanto mais ataques são esperados, e por isto são tão intensivas as atividades policiais nestes dias. Só o tempo dirá quem ganha este conflito. Mas, como já foi comentado, as forças de segurança precisam acertar sempre. Ao outro lado, basta um sucesso. E a continuação da guerra, aliada à presença na Inglaterra de numerosos simpatizantes com a resistência no Iraque, deve apresentar novas oportunidades.

 

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