Enquanto que a Internet terrestre é basicamente uma rede formada por diversas redes conectadas, a Internet interplanetária pode ser pensada como uma rede de Internets desconectadas ou conectadas apenas eventualmente. A interoperabilidade em ambientes assim requer novas tecnologias. Como muitos elementos da pilha de protocolos da Internet terrestre foram pensados para ambientes com baixos níveis de atraso, faz-se necessário uma nova concepção, já que itens como o atraso da velocidade da luz, a conectividade intermitente e unidirecional e as altas taxas de erro são características de uma comunicação no espaço. Para suportar todos esses requisitos, as redes interplanetárias são moldadas dentro dos princípios das chamadas redes tolerantes a atraso ou redes DTN. Uma rede DTN só suporta aplicações que têm altos níveis de tolerância a atraso, como é o caso do serviço de correio eletrônico. Em uma rede DTN a comutação é baseada em mensagens e não em pacotes e cada nó primeiro armazena toda a informação para depois enviá-la ao nó seguinte. Daí já se vê uma grande diferença em relação a Internet tradicional. Alguns nós possuem dispositivos de armazenamento persistente e, como a comunicação entre eles pode ficar dias sem ser estabelecida, a mensagem que foi armazenada de forma consistente será encaminhada tão logo o nó destino se torne disponível. Em redes DTN faz-se necessário uma camada adicional de empacotamento localizada entre as camadas de aplicação e transporte responsável pela transparência da comunicação entre as aplicações e pelo armazenamento e encaminhamento das mensagens quando houver condições favoráveis.
Uma rede DTN é formada por três componentes: o nó, o gateway e o roteador. O nó é o único que chega até a camada de aplicação, o gateway e o roteador vão até a camada de empacotamento, fazendo armazenamento consistente para posteriormente reenviar a informação, podendo ainda fazer a chamada transferência sob custódia.
Também é importante entender que as redes DTN são construídas tendo como suporte as chamadas redes overlay, que por sua vez são formadas por infra-estrutura existente como, por exemplo, redes Mesh, redes wi-fi ou redes WiMax. Já existe, inclusive, um patch para simulações dessas redes no famoso simulador de Berkeley Network Simulator, mas disso trataremos em outra oportunidade.
Como algumas comunidades aqui na terra vivem em um isolamento quase total, pesquisadores já pensam em usar redes DTN para viabilizar o acesso a alguns serviços da Internet aqui mesmo. Nesse caso, a atualização se faria quando barcos ou aviões passagem próximos a essas localidades. Isso resolveria muitos problemas em regiões como a Amazônia, onde existem áreas isoladas em que um link de 256 Kbps com acesso a Internet chega a custar absurdos R$ 3.000,00 (três mil reais) ao mês, criando um tipo de exclusão que vêm sendo chamada pela comunidade científica internacional de digital divide.
Prof. Mauro Margalho Coutinho
Dr. em Engenharia Elétrica - Telecomunicações (UFPA)
Msc. Ciência da Computação - Redes (UFPE)
www.cci.unama.br/margalho