BLOCO CIDADANIA

RESISTÊNCIA

Setembro 2011               Índice Geral do BLOCO CIDADANIA


05/09/11

• Xô, Dirceu! O povo não esqueceu! (10) - Dois artigos: "Coisas do Poder" - por Edgar Flexa Ribeiro + "PT x Imprensa (de novo)" - por Ruy Fabiano

Os "posts" desta série estão colecionados aqui: Xô, Dirceu! O povo não esqueceu!
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Fonte: Noblat
[05/09/11]   Coisas do Poder - por Edgar Flexa Ribeiro

Edgar Flexa Ribeiro é educador, radialista e presidente da Associação Brasileira de Educação

Há um tipo, uma modalidade de poder, que consiste basicamente em fazer crer que existe esse poder.

Quando se ocupa um cargo ou uma posição assume-se o poder correspondente: pode isso e aquilo, pois tem o dever disso e daquilo outro. É o poder ostensivo, claro e nítido.

Mas há outras fontes de poder, que derivam da manipulação de instrumentos disponíveis para fins diferentes ou acessórios: por exemplo, o dinheiro. Ele é uma importantíssima base de poder.

Há poderes derivados. Alguém se aproxima de quem tenha controle sobre uma dessas fontes de poder e passa a exercê-lo em parte. É o poder do subordinado, do assessor ou do assecla.

Esse é o poder que se fundamenta essencialmente na convicção dos outros de que ele existe. Sustenta-se da fama.

Isso compreende o jogo das aparências. Pode não existir, mas é necessário que pareça existir o poder. Ou ainda, pode existir algum poder, em determinado grau ou em certa posição, mas providencia-se para que pareça maior e mais extenso.

Fazem parte desse tipo os processos de expansão do poder, muitos e tortuosos.

Assumem formas bem conhecidas. Entre nós a criação de dificuldades desnecessárias para poder oferecer facilidades convenientes, criando oportunidade de lucros, é bem conhecida.

Nas organizações esse tipo de poder se difunde e se afirma.

Há o líder, reconhecido dentro e fora da organização, e há o assecla que ganha o poder para dentro, como “aparatchick” que serve ao chefe, e controla a organização para uso do chefe e, aos poucos, a seus próprios interesses.

E o “aparelho” aos poucos passa a pertencer a ele, ao “aparatchick”.

E antes que se perceba, ele toma o comando e faz crer que o poder real é seu. E, sempre pretendendo servir ao líder, decide quem faz o quê, como, quando e onde.

O “aparatchick” exerce esse poder às ocultas, faturando nas beiradas.

Mas não tanto às ocultas que não o reconheçam. É necessário vez ou outra fazer lembrar aonde de verdade mora o poder.

Isso precisa ser divulgado. As pessoas, de dentro e de fora da organização, têm que saber quem manda de verdade, com ou sem o poder explícito de fazê-lo.

E é aí que surgem as formas oblíquas de mostrar poder, aquele poder oculto, mas cujo valor facial ninguém pode discutir.

Dirceu reclamou muito, mas deve ter adorado a matéria da Veja.

De repente, não seria de espantar se as fotos dos ministros e autoridades visitando a suíte de José Dirceu num hotel de Brasília tiverem sido vazadas por ele mesmo.

Casa bem com o perfil psicológico e interesse tático do personagem.

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Fonte: Noblat
[03/09/11]   PT x Imprensa (de novo) - por Ruy Fabiano

Ruy Fabiano é jornalista

O PT mais uma vez mobiliza-se contra a imprensa. Considera-a uma facção partidária de oposição e quer meios de controlá-la. Apresentará uma moção nesse sentido em seu 4º Congresso.

Quer o fim da propriedade cruzada em veículos de comunicação (ninguém pode ter mais de um tipo de veículo), a “democratização da mídia” (com censura?) e a “quebra do monopólio” (que não existe no Brasil em nenhum segmento da mídia).

É uma nova escaramuça, já experimentada sem sucesso durante o governo Lula, quando espantosamente foi vinculada à defesa dos direitos humanos.

A tentativa anterior estava inscrita no Plano Nacional de Direitos Humanos, que legitimava ainda a invasão de terras e a supressão de símbolos religiosos, entre outras humanidades.

A presidente Dilma, quando candidata, chegou a subscrever, em seu primeiro programa de governo, aquelas propostas. Mas, diante da reação, alegou não as ter lido e jurou que não as aprovaria. É uma boa oportunidade de confirmar sua palavra.

Agora, o epicentro é uma matéria de Veja, que revela o bunker político do ex-ministro José Dirceu, num hotel em Brasília, considerada pelos petistas (e, óbvio, pelo próprio, Dirceu) uma afronta à sua privacidade. A imprensa estranhamente não repercutiu a matéria, que, no entanto, não é irrelevante.

Mostra uma espécie de governo paralelo montado na capital da República. Pode não constituir um crime um ex-parlamentar cassado e sub judice na mais alta corte do país, acusado de corrupção, receber ministros e lideranças parlamentares reservadamente.

Mas, do ponto de vista político, é no mínimo uma quebra de normalidade, anomalia mesmo, se se considerar de quem se trata, de alguém que notoriamente exerce liderança somente comparável à de Lula sobre o principal partido da base governista, o PT, cujo presidente, Rui Falcão, segue sua orientação.

O próprio Dirceu, já cassado e sub judice, confessou, numa célebre entrevista à Playboy, que um pedido seu – um consultor privado de empresas - ao governo não é um “pedido qualquer”: é “UM PEDIDO!”. Leia-se “uma ordem”.

Acresce que os encontros se deram em meio à crise política que derrubou Antonio Palocci, cuja origem se atribui ao próprio grupo de José Dirceu. Ele alega que, não sendo do governo, tem direito não só à privacidade profissional, como a receber quem quiser. Depende. Quando essas consultorias envolvem o Estado, tudo muda.

Ele tem, entre seus clientes, empresas ligadas ao setor do petróleo. E, entre seus visitantes, estava ninguém menos que o presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, o que, no mínimo, sugere tráfico de influência. Quem sabe ele lhe fez ali “UM PEDIDO!”?

Os delitos políticos, em regra, transcendem os judiciais. Fernando Collor foi deposto pelo Congresso, mas absolvido pelo Supremo Tribunal Federal. Ao Congresso, bastou a certeza de que havia atentado contra o decoro da função; ao Supremo, era preciso demonstrá-lo não apenas com documentos, mas com conexões causais, não obtidas.

A atividade política tem (deveria ter) uma instância moral com eloquência própria, que dispensa formalidades jurídicas. A Câmara, por exemplo, deveria ter cassado Jaqueline Roriz mediante o vídeo que a mostra embolsando dinheiro de origem no mínimo duvidosa (embora ninguém tenha dúvidas de sua procedência).

Não o fez porque não quis, não pelos motivos alegados (de que teria delinquido antes da aquisição do mandato). Já o Judiciário, para condená-la, precisa de provas materiais: elementos palpáveis que confirmem a origem espúria do dinheiro.

O Congresso cassa pelo decoro, algo frequentemente imaterial – um gesto, uma palavra. Richard Nixon, por exemplo, caiu porque, acima de tudo, mentiu ao povo americano.

O Judiciário lida com situações materiais, comprováveis por documentos, confissões, testemunhos. Dentro disso, não há problemas com o bunker de Dirceu. Já pelo ângulo político, trata-se de uma desfaçatez, um desafio a céu aberto a um governo legitimamente instalado, submetido à ação sabotadora de um grupo.

Não vem ao caso a culpa de Palocci, que mereceu o destino que teve, mas certamente não foi por essa razão que o grupo de Dirceu o alvejou. Se a cruzada fosse moral, metade do ministério iria para a rua, junto com alguns visitantes do bunker. A ação teve como objetivo atingir o governo para nele exercer maior influência. E isso, por si, é notícia, no entanto desprezada pelo conjunto da mídia.

Mesmo considerando-se que tivesse havido excesso, não justificaria uma ação contra a liberdade de imprensa ou o advento de nova legislação. O Código Penal oferece ao PT e a José Dirceu os meios de reclamar reparação, por injúria, calúnia ou difamação, únicos crimes decorrentes da ação da imprensa.

Por que não o acionam? Talvez, nessa instância, não disponham dos meios necessários para configurar o que dizem.


Comentários com nome completo do remetente devem ser enviados para Helio Rosa, coordenador deste BLOCO. Não há compromisso de publicação.


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