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Leia na Fonte: AMARC Brasil
[31/10/12]  O futuro da rádio digital na Europa, no Brasil e no mundo

A entrevista foi realizado por Nils Brock

Um entrevista com Christer Hederström do Forum Europeu da Mídia Comunitária (CMFE).

Na semana passada, aconteceu na cidade de Halle na Alemanha um encontro de rádios comunitárias chamado “Zukunftswerkstatt Community Radios” (Oficina do futuro de Rádios Comunitárias). Entre outras coisas, os participantes também trocaram ideias e experiências sobre a radiodifusão digital. Christer Hederström foi um deles. Ele chegou de Estocolmo, Suécia, para compartilhar os seus conhecimentos e práticas. Christer não somente organiza o grupo de trabalho sobre rádio digital do Forum Europeu da Mídia Comunitária (CMFE), mas também está preparando um teste de transmissões com rádios comunitárias suecas no próximo ano. A AMARC Brasil falou com ele depois da conferência em Halle sobre o debate europeu e os distintos padrões em debate na Europa e America Latina.

Christer, depois de dois dias de intensas falas e apresentações na “Oficina do futuro de Rádios Comunitárias” na Alemanha, qual é a sua impressão? As rádios comunitárias alemãs e europeias se apaixonaram pela a ideia de um futuro digital ou não?

A minha impressão geral é de que as rádios alemãs estão num ponto onde estiveram as rádios suecas há dez anos. As pessoas quase não sabem que têm alternativas ao padrão digital DAB (Digital Audio Broadcasting) usado atualmente na Alemanha. Acham que o DAB é a única forma de fazer rádio digital, enquanto é somente um dos quatro padrões existentes no mundo. A importância do seminário pra mim foi de deixar claro que existem alternativas, por exemplo, o padrão DRM+ (Digital Radio Mondiale). Isso é importante porque as autoridades da mídia alemã que apoiam DAB dificultam a publicização de outras informações.

Relacionado a essa má informação está a vontade de vários Estados Federais alemães de acabar com a banda FM. Mas na Alemanha, quando se fala do plano de freqüências, isso é uma competência do Governo Federal. E agora o Governo em Berlim deixou claro que os Estados Federais não podem decidir sobre as freqüências FM sozinhos. Isso foi uma boa notícia, pois não podem fechar a faixa FM com tanta facilidade e colocar todas as estações em freqüências digitais (usando DAB) fora do dial conhecido. Na Bavária, por exemplo, até pouco existia a vontade explícita do Governo local de tirar as rádios comunitárias do FM. Aqui em Halle acordamos que vamos lutar contra isso, porque não é bom para rádio e menos ainda para as comunitárias.

Aqui no Brasil tem sobretudo dois padrões competindo, HD Radio e DRM+. Diz-se que HD Radio vai garantir a futura existência do FM porque prevê uma digitalização somente nessa faixa. Por outro lado se diz que o HD Radio poderia ameaçar a futura existência de rádios comunitárias. O que você acha desses argumentos?

Não tem uma diferença entre um possível uso compartilhado da banda FM entre transmissões analógicas e digitais usando HD Radio ou DRM+. É possível continuar sob ambos os padrões. Isso é uma vantagem importante no debate europeu onde disputam o DRM+ e o antigo padrão DAB, que não permite transmissões compartilhadas. Mas é importante lembrar também que DRM+ funciona em todas as faixas. Poderiam-se usar também faixas não usadas atualmente na América Latina.

Mas, comparando HD Radio e DRM+, deve-se notar que DRM+ é um sistema muito mais moderno e flexível. A sua introdução e manutenção seria muito mais barata. Além disso, o HD Rádio é inferior tecnologicamente, e isso não é uma surpresa por se tratar de um sistema mais velho. Escolher o HD Radio no Brasil seria um erro horrível. Seria muito caro. Anualmente se paga uma licença para usar o HD Radio à sua companhia Ibiquity. Isso não acontece com o DAB ou o DRM+ que são abertos. Podem ser usados por tudo mundo em todas partes.

Isso é certo? No Brasil também existem preocupações sobre os royalties que se tem de pagar pelo uso de DRM+. Não é 100% aberto não…

Isso me surpreende porque ninguém paga pelo uso de DRM na Europa. Porque deveria ser assim no Brasil?

Na página web do DRM publicaram os custos de royalties para produzir transmissores e receptores. Por exemplo, o códice de áudio AAC+ não é livre de royalties. O preço pode ser negociado pelo governo talvez, mas existem custos sim.

Ahh, você está falando de produzir equipamento e não do uso do equipamento. Claro, isso é outra coisa. Eu falei que, no caso de escolha do HD Radio, você teria de pagar pelo uso do equipamento também. Essa é a diferença. Pagar royalties no processo de construção não é uma coisa insólita. Pagar pelo uso sim. Tem que ficar claro: os usuários são tanto as pessoas que transmitem, quanto as que recebem a programação, e nenhum deles deve pagar. Claro, indiretamente todo mundo paga comprando equipamentos radiofônicos. Mas têm muitos royalties que você também paga comprando um carro, por exemplo. Esses custos únicos não se discutam na Europa realmente. As coisas que se deveriam discutir mais no Brasil são os possíveis desenvolvimentos dos padrões em debate. Eu falo, por exemplo, muito com Lars Liljeryd, que colaborou no desenvolvimento do códice de audio AAC+ usado pelo padrão DRM+. Lars vai ajudar nos testes que vamos fazer com rádios comunitárias na Suécia no próximo ano e ele prevê um custo muito barato para usar AAC+ no futuro e facilitar uma produção independente e massiva de transmissores de tipo DRM+. E isso não acontecerá nem com DAB ou HD Radio. Eu calculo que já atualmente se pode construir um transmissor DRM+ por menos de 5.000 Euros. Isso é um ponto que deve importar às rádios comunitárias: apoiar a tecnologia mais simples e mais barata no seu uso. É a mesma coisa com o padrão FM que virou popular com rádios comunitárias por essa razão. A coisa mais parecida a um transmissor FM que se pode usar no campo digital hoje é um transmissor DRM+.

No Brasil se falava muito também de um padrão digital nacional como uma alternativa aos dois padrões em debate atualmente. Porque partindo de uma posição de princípios, nenhum dos dois padrões oferece uma tecnologia 100% aberta e sem custos. O que você acha dessa critica? Tem países na Europa que também sonham com um padrão nacional?

Não, nunca ouvi disso na Europa, somente no Brasil e África do Sul quando se debatia um padrão de televisão digital 100% independente e nacional. Mas isso hoje em dia não é possível. O único problema que sofre DRM+ é a falta de receptores no mercado. DAB e HD Radio têm a vantagem de já venderem receptores. Isso é um passo crucial para DRM+. Tecnicamente é pronto, um sistema estável. Nosso teste em Estocolmo vai ser mais uma exibição (show case) para os países Escandinavos como uma alternativa barata ao DAB atualmente em uso.

Mas voltando a sua pergunta de uma padrão nacional, isso me parece muito errado. Porque se queremos realmente um sistema mundial de comunicação isso vai ficar mais difícil de realizar com cada padrão nacional que se introduz. Um padrão nacional nunca vai poder ser 100% independente também não. Num momento ou em outro tem que se fazer compromissos com o mercado mundial ou com quem quer que seja. O padrão do futuro deveria ser um só. Eu ouvi falar das ambições do Brasil, que queria construir o padrão próprio, produzir nas próprias fábricas, primeiro pelo mercado nacional e também para o mercado da América Latina, seguindo também para Ásia e África. Isso é um sonho imperialista, eu acho.

Mas deveria ter possibilidades de produzir o equipamento da radiodifusão digital no Brasil também, não é? Senão, importar tudo de Europa poderia parecer um sonho colonialista, para retomar a sua imagem…

Bom, a postura de Ibiquity (HD Radio) é essa mesma. É por isso que o Canadá não gosta da ideia de introduzir HD Radio. O Canadá não permitiu nem a introdução do padrão HD Radio dos EUA, nem a aplicação do antigo padrão europeu, o DAB. A indústria dos EUA fez muito lobby pela introdução do HD Rádio, mas a introdução no México se deve mais a um problema de corrupção que a um debate bem informado. Oxalá que no Brasil não se repita a mesmo coisa.

Se falamos de um debate bem informado. O que deve oferecer a radiodifusão digital a uma rádio comunitária? Quais são as expectativas na Europa?

Bom, na Europa temos mais ou menos 2.300 rádios comunitárias nesse momento. E a postura do Fórum Europeu de Mídia Comunitária (CMFE) e também da AMARC Europa é respeitar e defender a decisão da maioria das rádios comunitárias que querem continuar a transmitir em FM. E querem continuar por um bom tempo ainda porque esse é o único padrão em uso que é verdadeiramente global. Mas começando com uma digitalização complementar, as rádios comunitárias apoiarão o DRM+. É a única opção. Porque o DAB provavelmente mataria a radiodifusão comunitária. Porque com o DAB você tem que participar de maneira forçada num sistema de multiplexing (multiplicador de canais), dentro do mesmo sistema de transmissões, como a rádio pública e comercial.

E considerando o argumento que uma rádio comunitária poderia obter mais de um canal usando o DAB, pergunto: qual a razão disso? Elas já têm bastante trabalho para organizar uma programação em FM e talvez um canal de streaming na Internet. Essa combinação de repetir o conteúdo é perfeita e suficiente. Os defensores do DAB falam que é muito barato, o que é correto caso sejam usados todos os 46 canais disponíveis. Mas tem de haver essa demanda e deve-se considerar que produzir conteúdo para manter o sistema de transmissão barato também tem um custo. E quem pode garantir isso? As rádios comunitárias não podem, e por isso o DAB não é uma vantagem para elas.

No caso do DRM+, pelo menos podemos considerar algumas vantagens tecnológicas reais para as rádios comunitárias. Por exemplo, o gasto de energia seria 10 vezes mas baixo que agora com um transmissor FM, tendo o mesmo alcance. Você pode economizar energia e isso é um ponto considerável num pais com altos custos de energia. E existem outras vantagens. Por exemplo, a criação de uma rede por meio de uma freqüência só (single frequency networks). Na Suécia ou Franca, por exemplo, existem estações que por razões geográficas têm que organizar três transmissores com três freqüências distintas para conseguir uma cobertura na comunidade inteira. Com DRM+ você poderia usar uma freqüência só e seria mais fácil encontrar seu sinal. Isso seria uma grande vantagem.

E falando do conteúdo, você está vendo já alguns usos novos no ambiente digital?

Realmente isso é difícil de predizer. Eu valorizo mais esse ponto, que com DRM+ vai ficar fácil construir e operar o seu próprio transmissor. É um sistema transparente e as rádios comunitárias ficariam com o controle da tecnologia. Isso é muito importante porque vai preservar uma característica conhecida já no FM.

Mas se fala também que o DRM+ poderia oferecer um canal de retorno para permitir um uso interativo e que se poderiam mandar também imagens e vídeos. O que você acha dessas opções?

Isso são possibilidades para um debate futuro. Não se precisa disso no momento. Já existe a televisão. Para que incluir vídeos no rádio? O rádio deveria continuar uma mídia simples e barata, oferecendo um bom sinal. O lado forte do rádio é essa simplicidade. Fazendo as coisas mais complicadas vai fazer migrar os ouvintes para outros lados.

Falamos disso agora em Halle também. Se realmente fecham o FM analógico que conhecemos, os ouvintes não vão migrar para o sistema DAB. Sobretudo os jovens, que iriam para a Internet e não teriam interesse nesse velho padrão estático. Eles receberiam mais oportunidades e flexibilidade na Internet, sem dúvida. Também é uma questão de gerações. Eu acho que a única possibilidade que existe para interessar os jovens para a radiodifusão digital é o DRM+. Por isso lutamos na Suécia para não gastar mais dinheiro publico com o DAB, um sistema caro e que quase ninguém usa desde que se avaliou em 1995.

Para desenvolver DRM+ temos muito tempo. Escolhendo DRM+, depois provavelmente teremos anos e anos de debate social sobre a sua implementação. Essa participação é importante.

Entendo bem, DRM+ ajudaria manter aberta a questão sobre como socializar essa tecnologia, enquanto outros padrões fechariam o debate muito rapidamente.

Certo. E tomando uma decisão equivocada agora deixaria as pessoas muito infelizes no futuro. Eles se perguntariam, como poderíamos escolher um sistema tão antigo e ruim? Por isso deve-se ter muito cuidado agora.

Outra coisa importante é ter a consciência de que o DRM teve uma rede global desde o início. Na onda curta (OC), onde foi aplicado inicialmente, mas também nas ondas médias. Hoje já tem um uso da versão DRM 30 em muitos países como Índia e Rússia para transmitir nas OC. DRM+ seria uma prorrogação dessa experiência global, uma modernização da versão anterior. DAB e HD Radio não têm essa rede e essa experiência. A Índia em pouco tempo vai ter 4.000 estações convencionais em FM e também um número importante de rádios comunitárias. Eles provavelmente vão optar pelo DRM+ no futuro. Eles hoje têm uma grande estação de 1.000 KW para prestar um serviço público em quase toda a Índia. Enquanto eles digitalizam este sinal, mantendo a mesma potência, vão cobrir não somente India, mas também o Paquistão e parte de outros países vizinhos. E isso com um só transmissor. Para fazer a mesma coisa com o DAB você precisaria minimamente 15.000 transmissores.

Você tem mais alguma coisa para compartilhar com o público Brasileiro?

Uma coisa importante a lembrar é que a produção massiva de transmissores e receptores de DRM+ é lucrativo. Isso também deveria ser debatido abertamente no Brasil. Eu gostaria de ver equipamento feito no Brasil que permita transmitir e ouvir programas em DRM+ ou ainda melhor, em radio FM e em DRM+ ao mesmo tempo. Além disso, quero compartilhar uma informação que recebi ontem de Coreia do Sul. Eles ofereceram um equipamento receptor barato para ser testado por nossas rádios em Estocolmo. Funcionam como pequenos dispositivos USB e vão custar menos de 20 Euros. Isso é um ponto de partida para os jovens que usam o computador.

Mas o caso do Brasil é mais interessante ainda. Eles realmente poderiam ficar na frente desse desenvolvimento digital. Poderiam ser os melhores produtores do equipamento de DRM+ escolhendo o padrão mais cedo ou juntos com os outros países de grupo BRIC (Brasil, Índia, Rússia, China) e África de Sul. Isso significaria realmente uma independência de decisão no futuro e acabaria com a velha configuração entre Norte e Sul. E não se pode esquecer que no único país onde foi introduzido massivamente HD Radio,os EUA, não se chegou nenhuma notícia sobre rádios comunitárias usando este padrão até agora. Eu acho muito saudável lutar contra o HD Radio no Brasil. Ninguém tem pressa. Temos muito tempo ainda para aproveitar a faixa FM enquanto continuamos o debate…

A entrevista foi realizado por Nils Brock