Michael Stanton

WirelessBrasil

Ano 2001       Página Inicial (Índice)    


26/03/2001
A Internet sem fio e sem licença

Há poucos anos, quando se tentava erguer a rede Internet no País, uma das descobertas da equipe envolvida era que já haviam chegado antes de nós os radioamadores, que já se comunicavam usando seus computadores em escala mundial numa rede totalmente própria. Na época (há dez anos), a LABRE (Liga Brasileira de Radioamadores) coordenava os trabalhos dos entusiastas, e no Rio de Janeiro existia já uma rede na cidade funcionando com a velocidade marcante para a época de 9.600 bps. Comunicação internacional podia ser feita usando transmissões em HF (ondas longas) a taxas de 300 bps, ou através de alguns satélites de baixa órbita, próprios da comunidade radioamadora. O principal serviço era de correio eletrônico, e ele não era muito rápido para distâncias intercontinentais. Mais tarde os radioamadores pegavam carona no crescimento explosivo da Internet, adotaram o padrão TCP/IP para seu uso interno, e chegou a ser organizada sua rede mundial como uma espécie de rede privada virtual (VPN), onde ilhas de comunicação por rádio são interligadas por "túneis" através da Internet pública. Para poder comunicar dados por rádio, era necessário ser licenciado como radioamador, e esta exigência limitou bastante o crescimento desta rede. Há alguns exemplos do uso desta tecnologia em outros contextos, por exemplo em escolas públicas de algumas cidades próximas de Porto Alegre, em projetos coordenados pela profa. Léa Fagundes da UFRGS, mas era necessário que os responsáveis técnicas nas escolas se licenciassem como radioamadores.

A grande atrativa das redes de rádio é fugir dos custos das telecomunicações comerciais. Os radioamadores são um vertente disto, mas hoje em dia há outros, potencialmente mais importantes, pelo menos do ponto de vista da Internet. Está bem sedimentado o uso de rádio para ligações ponto a ponto no mundo das telecomunicações, e as redes de microondas estão aí, no Brasil desde os anos 70. Nesta parte do espectro, também é necessário o licenciamento pelo governo, hoje através da Anatel, e os equipamentos estão razoavelmente caros, embora estejam de custo decrescente. O que tem contribuído para a queda dos preços é a liberação de uso, sem uma licença, de várias faixas do espectro nos últimos anos. Por exemplo, sob condições de uso de baixa potência de sinal, qualquer um pode transmitir em porções das faixas de 900 MHz e 2,4 GHz, com a técnica de espectro espalhada. A primeira destas faixas também inclui uma reserva para telefonia celular, e é usada também pela segunda geração de telefones fixos sem fio.

O padrão 802.11 da IEEE (Instituto de Engenheiros Elétricos e Eletrônicos dos EUA - www.ieee.org define uma tecnologia de rede local, com taxa de transmissão de até 2 Mbps, para as faixas não licenciadas acima mencionadas. Várias fabricantes lançaram produtos para este padrão, inclusive a Apple, a Lucent, a Cisco e a Bay Networks (agora Nortel Networks). O produto da Lucent era chamado de Wavelan, e este nome se tornou sinônimo da tecnologia. As vantagens destes produtos, do ponto de vista de quem monta redes, é a dispensa de cabeamento, o que pode apresentar vantagens com computadores fixos em prédios onde fica inconveniente a passagem de cabos, e especialmente quando a rede se estende por mais de um prédio. Normalmente o alcance de uma rede destas é da ordem de 100 metros, mas pode ser estendido pelo uso de antenas com maior ganho do que aquelas embutidas nas placas de rede. No caso específico de antenas direcionais, a tecnologia pode ser usada para implementar enlaces ponto a ponto, e tem casos documentados do seu uso no País para distâncias de mais de 40 km (www.rnp.br/newsgen/9806/wireless-wan.shtml ).

Mais recentemente foi lançado o padrão 802.11b do IEEE, que eleva de 2 para 11 Mbps a taxa de transmissão, e parece ser fadado de se tornar o padrão do mercado de redes locais de rádio, em competição direta com redes Ethernet de 10 Mbps. O grande tcham desta solução é a aplicabilidade para equipamentos portáteis, e a principal apresentação dos novos produtos 802.11b é em forma de cartões PCMCIA, para uso em notebooks, ao preço de aproximadamente US$150 (wavelan.com ). Conheci a tecnologia de rede local de rádio em abril do ano passado, quando fui numa conferência em Las Vegas. Naquela ocasião, os cartões de notebook, ainda de 2 Mbps, eram emprestados aos conferencistas, que podiam então se comunicar com a Internet a partir de qualquer ponto do centro de conferências usado. Menos de um ano depois, fui numa outra conferência onde a maioria esmagadora de conferencistas já vinham com seus próprios cartões de 802.11b. Só os "novos pobres" sem cartão de rádio tiveram que ir para uma sala especial e ligar seus cartões Ethernet 802.3 por cabo a um "hub" fornecido para dar conectividade. Ou seja, o 802.11b veio para arrasar.

Recentemente saíram reportagens na mídia norte-americana (New York Times de 22/2/2001 - http://www.nytimes.com/2001/02/22/technology/22WIRE.html , SF Gate de 22/3/2001 - www.sfgate.com/cgi-bin/article.cgi?file=/technology/archive/2001/03/22/freewireless.dtl ) sobre reflexos desta nova tecnologia. Por exemplo, já começam aparecer provedores de acesso de rádio no padrão 802.11b no seio das grandes cidades, para servir os cafés e restaurantes nas redondezas, e nos aeroportos, sempre um lugar onde os donos dos notebooks ficam esperando forçosamente sem meios de se comunicar por computador. Algumas companhias aéreas também começam a se interessar por este mesmo mercado, durante seus vôos.

Saindo da exploração comercial, alguns já pensam que a provisão de acesso amplo à Internet via rádio poderia se tornar uma utilidade pública, que nem a eletricidade ou água. Não é claro se esta visão vai vingar, mas é certo que já começam a aparecer redes cooperativas baseadas nesta tecnologia. Em uma aparente volta aos costumes cooperativos do passado, começam a aparecer redes que ligam indivíduos dispostos a participar num esquema que traz benefícios para toda uma comunidade. A idéia é interligar computadores domésticos através de rádio, com uma das casas ligando-se a um provedor Internet comercial, por exemplo. Desta forma, os custos deste acesso seriam rachados entre os participantes. Noticia-se iniciativas deste tipo nas cidades de San Francisco, Portland e Seattle nos EUA e Londres na Inglaterra (as referências estão no artigo da SF Gate).

No caso da rede londrina, pretende-se utilizar outras tecnologias sem fio, rádio ou laser em espaço livre, para a construção de "backbones" de faixa larga, totalmente independentes dos serviços comerciais de telecomunicações. No caso de laser, a banda disponível depende da distância, e velocidades de até 1 Gbps são reportadas para distâncias até 200 metros (www.nwfusion.com/edge/news/2001/115468_01-15-2001.html). Para distâncias maiores, já começa a aparecer o novo padrão de rede metropolitana de rádio 802.16 do IEEE, que prevê taxas de transmissão até 54 Mbps na faixa entre 5,2 e 5,8 GHz. Nos EUA esta faixa foi liberada para uso sem a necessidade de licença pela FCC, a Anatel dos EUA (www2.arrl.org/arrlletter/97/970117), e já estão disponíveis equipamentos, de tecnologia proprietária, que fornecem uma ponte entre redes locais Fast Ethernet (100 Mbps) a distâncias até 10 km a um custo de US$23.000 (por exemplo, o produto Stratum 100 da Proxim - www.proxim.com/support/stratum/faq.shtml).

Todas estas tecnologias fornecem soluções para resolver de forma alternativa o problema de acesso, também conhecido como o problema do último quilômetro. As de mais baixa velocidade são soluções individuais ou domésticas, as de velocidade mais alta servem também para as empresas. Nos EUA esta nova faixa de uso sem licença é conhecida como U-NII (Unlicensed access to the National Information Infrastructure - com dispensa de licença para fazer acesso à Infra-estrutura Nacional de Informação). Esta faixa ainda não foi assim designada pela Anatel, mas, como os equipamentos já começam a aparecer no mercado mundial com preços razoavelmente acessíveis, espera-se que não demore a sair esta designação.

Enfim, as tecnologias sem fio estão em pleno desenvolvimento, e ainda têm muito a contribuir para a extensão do acesso à Internet, devendo levar a uma queda sensível do custo de acesso pela rede fixa de telecomunicações. Quem viver verá.