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Michael Stanton |
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10+: Dez anos da Internet no País |
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Autor: Michael Stanton |
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Michael Stanton ( michael@ic.uff.br ) nasceu e viveu na Inglaterra até os 23 anos. Depois de dois anos nos Estados Unidos veio se radicar no Brasil, e mora atualmente no bairro da Barra da Tijuca no Rio de Janeiro. Doutor em matemática pela Universidade de Cambridge, desde 1972 se dedica, já no Brasil, ao estudo, ensino e prática da informática e suas aplicações. Seu atual namoro com as redes de comunicação começou em 1986, e ele participou ativamente na montagem no País das redes Bitnet e Internet, tendo participado da coordenação da Rede-Rio e da Rede Nacional de Pesquisa nas suas fases formativas. Depois de longa atuação como professor do Departamento de Informática da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, hoje é professor titular de comunicação de dados do Instituto de Computação da Universidade Federal Fluminense (UFF) em Niterói, RJ, onde coordena o projeto de modernização da infra-estrutura de comunicação desta universidade; é Diretor de Inovação da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP); mantém uma coluna quinzenal no Estadão desde junho de 2000 sobre a interação entre as tecnologias de informação e comunicação e a sociedade.
10+: Dez anos da Internet no País
Em pouco mais de um mês cairá o décimo aniversário da Conferência das
Nações Unidas sobre Meio-Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de
Janeiro durante duas semanas de junho de 1992, e conhecida como a Cimeira
Global, UNCED-92, ECO-92 ou Rio-92, de acordo com o gosto pessoal ou
tribal do usuário (www.un.org/geninfo/bp/enviro.html).
A ONU pretende realizar outro evento semelhante este ano, em Joanesburgo,
África do Sul (www.johannesburgsummit.org).
Para este artigo, a característica mais relevante de 1992 foi na área de
comunicação.
Além da conferência oficial no Rio, houve também um encontro
de ONGs, chamado de Fórum Global, e os dois eventos foram assistidos por
10.000 jornalistas e transmitidos para o mundo todo.
Entre os meios de
comunicação utilizados pelos profissionais se incluía pela primeira vez o
acesso Internet neste nosso país.
Já contei em outro local a história das origens da nossa rede
acadêmica, e em especial o processo que levou à inserção do Brasil na
Internet (www.rnp.br/newsgen/9806/inter-br.shtml),
e é notável que a realização destes eventos do Rio e a visibilidade que
eles proporcionaram ao país foram decisivas para o vencimento nesse
momento dos obstáculos à esta inserção.
A conferência se iniciou em 3 de
junho. Menos que duas semanas antes foi inaugurada a fase Internet da
Rede-Rio (www.rederio.br),
a rede estadual criada e mantida pela FAPERJ - Fundação de Amparo à
Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (www.faperj.br).
A Rede-Rio presta para este estado o mesmo tipo de serviço como a rede
estadual ANSP em São Paulo (www.ansp.br),
interligando suas universidades e centros de pesquisa, e provendo-lhes
acesso ao exterior.
O acesso à Internet para os jornalistas e ONGs da
conferência no Rio seria provido pela Alternex, um serviço de comunicação
montado pelo IBASE - Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas
(www.ibase.org.br),
para atender a ONGs e indivíduos.
A Rede-Rio era importante para o evento,
pois a Alternex se tornou um dos seus clientes, obtendo assim acesso
internacional à Internet global na taxa de 64 kbps (quilobits por
segundo), e estas estruturas de acesso continuariam funcionando depois do
encerramento da conferência.
O evento no Rio teve repercussões nacionais,
e serviu para impulsionar a ANSP a inaugurar um acesso Internet de
produção (64 kbps - já havia um acesso experimental desde 1991
compartilhando uma linha de 9,6 kbps) para poder atender seus clientes em
São Paulo, e para fazer decolar a instalação do primeiro backbone nacional
da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa - RNP (www.rnp.br),
oferecendo acesso Internet aos demais estados fora do eixo Rio-SP.
Vemos então como a conferência do Rio foi verdadeiramente a marca zero
da Internet no país.
Entretanto, seu uso ainda era inicialmente restrito
apenas a algumas áreas de poucas universidades e centros de pesquisa,
concentrados principalmente nas capitais dos estados, com algumas exceções
honrosas.
A capilaridade desta rede era pequena, como era também sua
capacidade - basta pensar que os dois enlaces internacionais originais, do
Rio e de São Paulo, juntos comportavam 128 kbps, para atender a todos os
então usuários no país.
Hoje esta capacidade é freqüentemente disponível
para um só usuário dos atuais serviços mais rápidos de acesso. Mas a
característica principal desta fase inicial da Internet era a "exclusão
digital" de quase toda a população. Que o acesso público à Internet viria
a ser importante não era claro para todos na época.
Mas havia um forte
indício disto do exemplo dos EUA, onde a Internet havia iniciada em 1990
uma forte expansão para atender a população em geral, não se restringindo
mais apenas ao setor de ensino e pesquisa.
E era também uma questão de
eqüidade: se a Internet fosse realmente uma coisa tão boa, não havia
nenhuma justificativa a limitar seus benefícios apenas às universidades.
Felizmente, as universidades são instituições subversivas, pois criam
expectativas para as pessoas que mantêm contato com elas.
Quando estas, e
estamos falando dos alunos e dos freqüentadores eventuais da imprensa, do
governo ou do setor dito produtivo da economia, descobrem que tem algo tão
bom sendo usado corriqueiramente dentro da academia, mas que inexiste fora
dela, são criadas pressões para sua transferência para a sociedade em
geral.
Havia obstáculos, é claro, a começar com a situação das
telecomunicações no país na época, ainda sob controle estatal, com
deficiências na sua infra-estrutura para atender a demanda por serviços
básicos de voz.
A questão de comunicação de dados era especialmente
complicada, pois ainda era quase monopólio de fato da Embratel, apesar do
fato que as operadoras locais de telefonia (Telesp, Telerj, etc.) já
podiam instalar e oferecer seus próprios serviços.
A grande vantagem da
Embratel era sua abrangência, e sua participação era essencial para
comunicação interurbana ou internacional.
Finalmente, havia a questão de padrões. Nos anos 1980, houve um grande
movimento entre as companhias telefônicas dos principais países, através
da União Internacional das Telecomunicações - ITU (www.itu.ch),
que define as normas técnicos para o setor, para baixar normas para as
redes de computadores, conhecido usualmente como Interconexão de Sistemas
Abertos, ou pela sigla correspondente em inglês, OSI.
No país, a adesão às
normas OSI fazia parte da política do governo federal, definida
formalmente pelo Secretaria de Política de Informática do Ministério de
Ciência e Tecnologia (SEPIN/MCT).
As normas OSI simplesmente não eram
seguidas na Internet, cujos expoentes haviam desenvolvido sua própria
coleção de normas técnicas.
No Brasil a Internet a nível federal era um
projeto também do MCT. Basta dizer que, neste embate nacional entre os
defensores dos padrões OSI e os pragmáticos da Internet, ganharam estes
últimos, como, de fato, ocorreu em todo o mundo. A proposta OSI foi
simplesmente enterrada pela adoção maciça da alternativa.
Um sinal importantíssimo desta mudança foi o reconhecimento dentro da
Embratel do sucesso comercial explosivo da Internet no exterior, e
especialmente nos EUA.
Embratel, que ainda agia quase como policial do
monopólio estatal das telecomunicações, começou a mostrar interesse por
esta nova forma de comunicação entre computadores que gerava demanda para
serviços de telecomunicação por um mercado de massa.
Antes ela havia sido
pioneira em oferecer um serviço de rede, seguindo a norma X.25 da ITU, e
até correio eletrônico, usando a norma X.400.
Entretanto, a adoção destes
serviços havia sido tímida. Em 1994, tomou a iniciativa de criar seu
próprio serviço de acesso Internet, e até manteve alguns contatos iniciais
com os técnicos da RNP para discutir seu projeto.
Até o final desse ano,
lançou-se ao mercado, com a criação de um novo serviço de acesso discado à
Internet, e começou a cadastrar usuários potenciais.
Até o final do ano,
alguns destes usuários começaram a usar o serviço.
Em outros tempos, a Embratel poderia ter abocanhado totalmente o
mercado Internet comercial através desta sua iniciativa.
Mas 1994 foi o
ano de eleição de FHC, com um programa político que antevia a
desestatização das telecomunicações.
Com a chegada do novo governo em
janeiro de 1995 tudo mudou, e os planos da Embratel de se estabelecer
neste setor do mercado foram freados bruscamente.
Numa declaração conjunta
em maio de 1995 do MCT e do Ministério de Comunicações, determinou-se que
as operadoras (ainda estatais) não deveriam oferecer o serviço de acesso
Internet ao usuário final, devendo ser isto reservado para empresas
privadas.
As operadoras poderiam (e, talvez, deveriam) oferecer acesso às
empresas, e teriam o dever de fornecer os recursos de telecomunicações
necessários para viabilizar a montagem dos provedores de acesso Internet.
Finalmente, foi criado o Comitê Gestor Internet (www.cg.org.br),
com representação destes dois ministérios e de outros elementos do governo
e da sociedade. Este Comitê Gestor acompanharia o desenvolvimento da
Internet no país, e promoveria os ajustes necessários para facilitá-lo.
Estas definições abriram as portas para o início da Internet comercial
(eu prefiro o adjetivo "público") no país. Liberou muita energia para a
montagem de centenas de pequenos provedores Internet em todo o país, além
de impulsionar a venda de computadores e equipamentos de comunicação, e
aumentar muito a demanda por serviços de telefonia discada e acesso a
redes backbone para comunicação a lonas distâncias. Inicialmente estes
serviços backbone eram oferecidos apenas pela Embratel, e, como medida
emergencial por tempo limitado, pela RNP.
Acabaram aparecendo outras
alternativas, mas a Embratel continua com a parte do leão neste setor.
Jogaram-se com entusiasmo no novo meio várias atividades existentes,
especialmente da mídia. Jornais e revistas impressas passaram a ter seus
equivalentes digitais através da plataforma WWW.
Os bancos, que no Brasil
haviam abraçado a informatização dos seus serviços muito antes dos seus
equivalentes até em países ditos adiantados, acabaram adotando quase
uniformemente a Internet como meio de se relacionar com seus clientes.
O
próprio governo percebeu aos poucos os benefícios de ter novos canais de
contato com seus usuários e como os contribuintes - veja o sucesso da
Receita Federal em praticamente eliminar a declaração escrita em papel do
ajuste anual de imposto de renda, hoje realizado em 97% dos casos pela
Internet.
Teve início o comércio eletrônico, mas isto ainda não teve a
expansão potencial pelo atraso na implantação de sustentação legal e
operacional para os contratos eletrônicos, embora isto já está
acontecendo.
Enfim, os frutos das decisões e ações do período entre 1992 e 1995
estão muito visíveis hoje em dia, na pujança e na extensão da Internet
entre nós.
A adoção deste meio de comunicação tem sido tão maciça, que ela
se tornou indispensável na nossa vida cotidiana.
Ninguém mais se
surpreende ao ver ou ouvir endereços Internet em mensagens de propaganda.
As pessoas se comunicam com correio eletrônico, ou utilizam o WWW para
planejar viagens, escolher filmes, realizar pesquisa para trabalhos
escolares ou artigos como este, ou meramente para se divertir.
Como já foi
dito há dez anos: esta coisa de Internet é bom demais para ficar restrita
só à universidade.